“Uma reportagem não é um iogurte. Uma redacção não é uma fábrica”

Este texto da Sarah Adamopoulos foi publicado em Janeiro no Aventar. Recupero-o hoje, um dia depois de conhecido o despedimento de 160 pessoas na Controlinveste, 65 dos quais jornalistas.

“Um jornal que ainda não foi inventado

Vi (ouvi) com interesse os participantes no Prós&Contras de ontem, dedicado aos «conteúdos» jornalísticos do futuro (devir próximo, sem dúvida). Mas também com tristeza, por verificar a que ponto os jornalistas profissionais da minha geração andam de facto «aos papéis», como bem disse Ana Sá Lopes. E andam aos papéis porque, creio eu, têm andado demasiadamente preocupados com o «modelo de negócio» e insuficientemente com o jornalismo propriamente dito. O que é compreensível, atendendo àquela que tem sido a realidade da generalidade dos jornalistas desde a morte anunciada da imprensa que constituiu a massificação do acesso à Internet.

De costas largas, a Internet tem desde há vários anos servido para justificar a destruição dos jornais, o despedimento de jornalistas, a reconstituição das redacções com recurso a jornalistas precários e estagiários, a redução de todos os meios, humanos uns e financeiros outros, a dispensa de revisores (tão importantes para a manutenção da qualidade dos textos) e outras etapas que paulatinamente têm vindo a ser queimadas, suprimidas no processo de produção da informação jornalística. Acrescente-se a esse panorama, já de si desolador, o «tráfico» de crónicas, por vezes a soldo zero, que cria espaço nos jornais para a defesa de interesses particulares e/ou de classes específicas da sociedade portuguesa.

Mas mais largas ainda do que as da Internet serão as costas do «novo paradigma», à boleia do qual se têm cometido todo o tipo de «erros estratégicos», aceitando (com voluntarismo até) que se acordizem os textos dos jornalistas que escrevem em bom português, dessa forma sujeitando-os (amiúde contra a sua vontade, como é natural em escreventes profissionais da Língua) à novilíngua disforme que é o AO90, ou aceitando que nos jornais se corra prevalecentemente atrás da notícia que morre no dia seguinte e será reproduzida em toda a parte, em vez de fazer jornalismo de investigação, e de fazer o que não há e tem de ser feito: um jornalismo de fundo (apenas ele pode competir com o chamado «jornalismo do cidadão», seja lá o que isso for para além de um «mercado» criado pela espectacular liberdade de expressão que a Internet propiciou), mediante uma leitura atenta, profunda e incessante da sociedade (que só pode ser assegurada pela reportagem e pela investigação realizadas por profissionais), leitura necessariamente independente relativamente aos interesses particulares das administrações, e, finalmente, por uma diferenciação do «produto» jornalístico.

«Produto», «conteúdos», eis duas palavras que não podem continuar a definir o jornalismo, nem a ocupar o lugar central de todos os debates sobre como salvá-lo. Um jornal é um negócio, é inquestionável, mas não é um negócio qualquer. Uma reportagem não é um iogurte. Uma redacção não é uma fábrica. Uma sociedade não é um hipermercado. Um leitor não é um cliente qualquer. O universo de leitores de um jornal não é um «mercado» indistinto de consumidores indiferenciados, como grandemente acontece no caso do sector alimentar (apesar de haver grandes diferenças entre os supermercados dos armazéns El Corte Inglés e os da cadeia lower-cost Minipreço).

Devagarinho, sem querer dar por isso, os jornalistas foram aceitando muita coisa inaceitável – tiros no pé em nome da manutenção de um emprego ou de uma colaboração precária que de modo algum valeu esse baixar de braços, essa aceitação, tantas vezes calada, de tudo o que foi transformando o jornalismo numa actividade indefinida, sujeita a imperativos de cariz essencialmente financeiro e comercial, grandemente dominada pelo discurso económico dos tempos, a que se acrescentou a «austeridade» que obrigou à redução das redacções, com as consequências que conhecemos. Muitos, aliás, vieram a perder o seu emprego, as suas colaborações, apesar de tudo o que se dispuseram a aceitar ao longo dos anos. Dupla amargura, de quem imaginou que o barato não saía caro.

Portugal está cheio de jornalistas e fotojornalistas desempregados. Alguns conseguiram arranjar outros modos de vida, abraçaram outras «escritas», alguns tornaram-se funcionários de empresas de «comunicação», outros relações públicas, outros assessores de imprensa (contra entrega da carteira profissional de jornalista), alguns são agora professores, outros tradutores, revisores, escritores-fantasma, autores disto e daquilo, fotógrafos de casamentos e baptizados, freelancersrecibo-verdistas de tudo e mais alguma coisa, etc, etc. Mas nunca mais deixarão de ser jornalistas, lá dentro deles, no lugar da verdade profunda de quem intrinsecamente são. E todos, ou muitos, sonham aos quarenta ou aos cinquenta anos com um novo projecto, anseio que ultrapassa em muito o desejo de voltar a ter trabalho.

O esquecimento a que na nossa sociedade se votam os mais experientes, por vezes os melhores, votou também esses jornalistas ao desprezo. Nenhum centro de emprego lhes arranjou ou arranjará trabalho, as contratações no jornalismo jamais se fizeram por essa via (o que de resto seria interessante estudar). E no entanto, apenas eles podem mudar para melhor o estado actual das coisas. Porque embora se tenham feito jornalistas na era analógica, experimentaram a mudança tecnológica, que aplicaram, pior ou melhor, mais ou menos depressa, ao chamado «novo paradigma». São aquilo a que gosto de chamar «tradutores», porque apenas eles dominam a um tempo as linguagens analógica e digital, que constituem duas culturas distintas, coexistindo ambas na actual sociedade global – habitada no Ocidente por um crescente número de leitores mais velhos, e não apenas pelos jovens dos países (e «mercados») emergentes.

Voltando ao caso português. Penso que os jornalistas mais jovens, os recém-licenciados a recibos verdes de 500 euros que proliferam nas redacções, transportam (muitas vezes por via da formação que tiveram nas escolas de jornalismo que espelham os equívocos a que o ofício foi sujeito) muitas das fragilidades que têm vindo a minar o sector: a prevalência da forma (do produto, do packaging, da embalagem) sobre o conteúdo (e não disse «conteúdos»), da vertigem sobre a reflexão, do acessório sobre o essencial. Mas na essência, o jornalismo é sempre a mesma coisa: informação, conhecimento, memória também. A pergunta é pois: como fazer uma informação diferenciada, que viabilize, pela qualidade profissional (distinta de tudo o que pode ser encontrado no vasto pântano de informação irrelevante que é a Internet dos «cidadãos» do Facebook e das caixas de comentários de toda a parte) novos projectos jornalísticos que a um tempo possam ser: a) editorialmente inovadores; b) financeiramente viáveis? Resposta: com a contribuição de ao menos uma parte desses tantos bons jornalistas nascidos nos «Trinta Gloriosos» e que naufragam hoje nos muitos mais anos «Desastrosos» que lhes calharam na rifa cósmica, societal, europeia, política. Há em cada um deles um jornal que ainda não foi inventado.

Projectos que serão sem dúvida ancorados na Internet, disponibilizando ao segundo a actualidade noticiosa colhida, seleccionada e editada por profissionais, mas também informação de fundo, que pense este mundo, que o interrogue, que o desconstrua para construí-lo mais adiante, de uma outra forma, e com outros «conteúdos» – alguns impressos em papel, com textos e imagens que não há na Internet.”

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“Um dia na vida”

Pelo Pedro Santos Guerreiro, ontem, no Expresso diário.

«Um dia na vida

Hoje. Ao fundo, um homem sai de um gabinete. O gabinete do chefe. Do ex-chefe. Do ex-chefe que ainda é chefe, ex é ele: ex-empregado. Acaba de ser despedido. É um de um rol de muitos, um nome a mais numa lista, uma fila a menos numa folha de cálculo. Sai calado, pelo espaço aberto, outros olhos viram-se primeiro para ele, depois para baixo. Outro nome é chamado, lá vai ele, o mesmo gabinete, o mesmo destino. Hoje a empresa não é uma empresa, é um matadouro. Morrem empregos. Saiu nas notícias e tudo. É um dia na vida.

A vida já continuará, mas hoje não. “Fui eu? Foram eles? O que fiz de errado? O que farei agora? Como vou dizer? Como vou fazer? Quero um abraço. Não quero ver ninguém. Quero viver. Quero morrer. Merda para isto. Respira fundo. Mas para quê? Rosna. Chora. Põe-te de pé! Desaba… Com esta idade? Com esta idade.”

Todos os dias são um dia na vida. De quem é chamado para sair. De quem não é chamado e fica, às vezes com mais culpa que alívio. Ou mais raiva que tristeza. Fuma-se lá fora, conversa-se lá dentro, recebe-se chamadas aflitas, “não, eu safei-me”. O que se faz aos braços, esmurra-se, cruzam-se? Num jogo de cadeiras, só os que tocam música não estão a jogar. De manhã, a empresa fora sacudida pelo comunicado. Alguns diretores são chamados para a consumação. Outros diretores tiraram férias, fugindo à notícia da razia. Veio o administrador, despedimento coletivo, reestruturação, corte de custos, a crise.

Ontem. Dez de Junho. “Portugueses, este ano de 2014 abre um caminho de esperança. Mas, para ter esperança no futuro, devemos continuar a trabalhar no presente. Não podemos ficar à espera, passivamente, que a situação se altere por si mesma.” Passivamente.

O discurso político é o mesmo desde 2011. É tudo muito difícil, é tudo sem alternativa, é preciso reformas estruturais, é preciso um largo consenso entre partidos e que inclua também os parceiros sociais. Tirando o não-há-alternativa, o discurso fazia sentido em 2011 e faz sentido em 2014 e é isso que não faz sentido nenhum. A devastação económica e social destes três anos tinha de ter tido um propósito de regeneração que não teve. Se tivesse tido, o discurso já seria outro. Isso é o imperdoável. Esse é o falhanço. Se ainda precisamos do que precisávamos ainda estamos como estávamos. Tirando estarmos mais pobres. E mais desiguais. E mais desempregados. “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”.

Todos os dias são um dia na vida de alguém. Hoje foi naquela empresa, ontem foi noutra, e tudo seria compreensível se fizesse parte do ciclo da vida. Faz parte do ciclo da morte. O desemprego de longa duração, o desemprego de jovens e de velhos, a redução dos apoios sociais (flexisegurança sem segurança) não é sentido de justiça nem uma sociedade a funcionar. É uma nação que exclui. Quem perde sai. Às vezes até é notícia. Hoje foi. Um dia de cada vez. Um dia é de vez.

Amanhã?

 

“I read the news today oh boy

About a lucky man who made the grade

And though the news was rather sad

Well I just had to laugh

I saw the photograph

He blew his mind out in a car

He didn’t notice that the lights had changed

A crowd of people stood and stared

They’d seen his face before

Nobody was really sure

If he was from the House of Lords”

A Day in the Life, The Beatles»

E não é por causa das plataformas digitais

“Corremos o risco de não ter jornais impressos tradicionais – jornais em papel – dentro de alguns meses em Portugal. Há problema sérios com o sector gráfico, com as gráficas que produzem jornais e revistas”

 

O alerta foi dado pelo presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, Carlos Magno, à margem da conferência “Motores de Busca – o seu a seu dono”, organizada pela Confederação Portuguesa dos Meios de Comunicação Social, em Lisboa.

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A prova de que não há nada como um jornal bem feito

É isto que os bons jornais fazem: captam a atenção dos leitores. Um vídeo da Newspaperswork.

Vendas na imprensa diária e semanária: todos a descer

Ontem foram conhecidos os últimos números da Associação Portuguesa de Controlo de Tiragem e Circulação (APCT). O período analisado, entre Janeiro e Outubro de 2012, mostra uma queda generalizada nas vendas dos jornais e revistas nacionais. Hoje, curiosamente (ou talvez não), o Correio da Manhã é o único diário a dar destaque aos dados da APCT. O Jornal de Notícias, o Público e o i não fazem qualquer referência aos números das vendas. Já o DN faz uma pequena notícia com uma particularidade: destaca o facto de ter sido o jornal que mais cresceu em percentagem na circulação digital paga. No entanto esquece de quantificar essa subida: de 126 para 272 exemplares.

Para quem quiser conhecer os dados ao detalhe – repartidos em vendas em banca, assinaturas, ofertas e vendas em bloco – é só clicar na imagem e explorar o gráfico interactivo. Os mesmos números relativos ao período entre Janeiro e Agosto estão aqui.

Vendas dos Jornais e Revistas entre Janeiro e Outubro de 2012 Many Eyes