O aviso do “animal feroz”

“A política para si acabou?

Oh, pelo contrário. Isto ainda agora começou.”

José Sócrates, ao Diário de Notícias

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Tudo o que precisam de saber sobre José Sócrates

Está aqui, no novo livro do Fernando Esteves. Sai hoje. A apresentação é esta tarde, no Hotel do Chiado. A não perder.

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José Sócrates continua em prisão preventiva. Saibam porquê

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“Assim, sem embargo da relevância das questões suscitadas e da sua importância processual, entende.se que as mesmas não podem fundamentar a providência requerida. Nestes termos julga-se improcedente o pedido de habeas corpus formulado pelo requerente”

O supremo Tribunal de Justiça indeferiu o pedido de habeas corpus apresentado pela defesa de José Sócrates. O juiz conselheiro Santos Cabral considerou que o juiz de instrução criminal, Carlos Alexandre, tinha competência para decretar a prisão preventiva do ex-primeiro-ministro. Escreveu também que o magistrado não fundamentou convenientemente o despacho de 24 de Fevereiro em que decidiu não ouvir José Sócrates, mas acrescentou: “o habeas corpus não é o meio adequado para impugnar as decisões processuais ou arguir nulidades e irregularidades processuais, as quais terão de ser impugnadas através do meio próprio.”

Para não haver dúvidas ou falsas interpretações fica aqui o documento, na íntegra.

O país onde ninguém se lembra de nada

Ricardo Salgado esqueceu-se de declarar ao fisco os 14 milhões recebidos do construtor José Guilherme. Recorreu ao Regime Excepcional de Regularização Tributária, pagou os impostos em atraso e o assunto morreu aí. Zeinal Bava, antigo presidente executivo da PT e da Oi, não tem memória de quem aprovou a aplicação de 500 milhões de euros da Espírito Santo Internacional. Pedro Passos Coelho não se recorda se recebeu ou não pagamentos da Tecnoforma enquanto exerceu as funções de deputado em regime de exclusividade. José Sócrates não sabe quanto dinheiro recebeu do amigo Carlos Santos Silva. Mas diz que admite penhorar a casa para lhe pagar. Rui Nobre Gonçalves, antigo secretário de Estado do Ambiente quando José Sócrates era ministro, esqueceu-se de quem esteve presente numa reunião sobre o Freeport. O agente de Luís Figo não se lembra de quem tratou do pequeno almoço do ex-futebolista com José Sócrates. Na Comissão de Inquérito ao negócio PT/TVI o presidente da PT, Henrique Granadeiro, disse não se lembrar quem sugeriu Rui Pedro Soares para administrador da empresa. O antigo presidente da Tranquilidade, Pedro Brito e Cunha, esqueceu-se dos motivos invocados por Ricardo Salgado para pedir um investimento de 150 milhões no GES. Os ex-directores do Citigroup, um deles foi brevemente secretário de estado, não se recordam de tentar vender swaps ao governo socialista. Vítor Constâncio, então governador do Banco de Portugal, não se lembra de ter sido chamado por Durão Barroso para falar do caso BPN. Cavaco Silva não se recorda de ter preenchido uma ficha na PIDE para aceder a documentos da NATO. Armando vara não se lembra de enviar um SMS a José Sócrates para o avisar do afastamento de Manuela Moura Guedes da TVI. Agora, Passos Coelho esqueceu-se de pagar a Segurança Social porque não foi notificado nem sabia que tinha de o fazer.

As empresas de suplementos para a memória têm aqui um nicho de mercado – ainda por cima com poder de compra.

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Os comentadores em estado de negação

Pelo José Manuel Fernandes, no Observador

É talvez altura de nos curarmos de vez do socratismo

“Uma parte do país – e um contingente notável de comentadores – parecem continuar em estado de negação. Durante anos não quiseram ver, não quiseram ouvir, não quiseram admitir que havia no comportamento de José Sócrates ministro e de José Sócrates primeiro-ministro demasiados “casos”. Em vez disso só viram cabalas, só falaram em perseguições, só trataram eles mesmo de ostracizar ou mesmo perseguir os que se obstinavam em querer respostas, os que insistiam em não ignorar o óbvio, isto é, que Sócrates não tinha forma de justificar os gastos associados ao seu estilo de vida.

Agora, que finalmente a Justiça se moveu, eles continuam firmes na sua devoção – e nas suas cadeiras nos estúdios de televisão. Não lhes interessa conhecer o que se vai sabendo sobre os esquemas que Sócrates utilizaria para fazer circular o dinheiro, apenas lhes interessa que parte do que foi divulgado pelos jornais devia estar em segredo de Justiça. Antes, anos a fio, quando não havia segredo de justiça para invocar, desvalorizaram sempre todas as investigações jornalísticas que tinham por centro José Sócrates.

Isto é doentio e revela até que ponto o país ainda não se libertou da carapaça que caiu sobre ele nos anos em que o ex-primeiro-ministro punha e dispunha. Nessa altura também muitos, quase todos, se recusavam a ver, ouvir ou ler, até a tomar conhecimento. Não me esqueço, não me posso esquecer que quando o Público, de que eu era director, revelou pela primeira vez a história da licenciatura, seguiu-se uma semana de pesado silêncio que só foi quebrada quando o Expresso, então dirigido por Henrique Monteiro, resistiu às pressões do próprio Sócrates e repegou na história e denunciou as pressões. Não me esqueço que tivemos uma Entidade Reguladora da Comunicação Social que fez um inquérito e concluiu que o silêncio de toda a comunicação num caso de evidente interesse público não resultara de qualquer pressão – a mesma ERC que depois condenaria a TVI por estar a investigar o caso Freeport. Como não me esqueço de como uma comissão parlamentar chegou mais tarde à mesma conclusão, tal como não me esqueço de como vi gestores de grandes empresas deporem com medo do que diziam.

Muitos dos que agora rasgam as vestes porque o antigo primeiro-ministro foi detido no aeroporto foram os mesmos que nunca quiseram admitir que havia um problema com Sócrates, com os seus casos, com o seu comportamento, com o seu autoritarismo. E também com o seu estilo de vida.

Há momentos que chegam a ser patéticos. Como é possível, por exemplo, que um homem supostamente inteligente, como Pinto Monteiro, queira que nós acreditemos que foi convidado por José Sócrates para um almoço, de um dia para o outro, numa altura em que o cerco se apertava, e que, naquele que terá sido o seu primeiro almoço a sós, só falaram de livros e viagens, como se fossem dois velhos amigos? Como é possível que continue a defender a decisão absurda sobre a destruição das escutas? Ou a achar que nada mais podia ter sido feito na investigação do caso Freeport?

Mas há também um lado doentio e provinciano na forma como se tem comentado este caso. Uma das raras pessoas que detectou essa anormalidade foiNuno Garoupa, professor catedrático de Direito nos Estados Unidos e que, por ter respirado ares mais arejados, não teve dúvidas, notando que “nós é que vivemos num mundo mediático”, não é a Justiça que cria o circo, como se repetiu ad nauseam nas televisões. Mais: “A opinião pública pode e deve fazer um julgamento político, independentemente do julgamento legal e judicial. A política e a justiça não são a mesma coisa.” Ou seja, deixem-se da hipocrisia do “inocente até prova em contrário”, pois isso é verdade nos tribunais mas não é verdade quando temos de julgar politicamente alguém como José Sócrates. O julgamento político, como ele sublinha, não está sujeito aos mesmos critérios do julgamento penal.

A clareza do debate político exige pois que saibamos fazer distinções. A distinção que António Costa fez logo na madrugada de sábado, quando disse que “os sentimentos de solidariedade e amizade pessoais não devem confundir a acção política do PS”, é justa e mantém toda a sua pertinência. Se o PS tem conseguido manter a frieza – quase todo o PS, pois são raras e muito pontuais as excepções –, é importante para esse mesmo PS ir mais longe. E tocar um ponto nevrálgico: aquilo que nós, cá fora, sabíamos sobre as excentricidades e as práticas de José Sócrates dão-nos apenas uma pequena amostra do que se sabia em muitos círculos do PS. Sabia, mas não se comentava, mal se sussurrava.

Vou mais longe: nos partidos estas coisas são conhecidas. Pelo menos no PSD e no CDS, para além do PS. Ninguém ficou surpreendido quando a Justiça caiu sobre Duarte Lima – todos os seus companheiros de bancada conheciam as suas excentricidades. Pior: muitos ainda hoje comentam como a Justiça ainda não apanhou alguns antigos secretários-gerais, aqueles que tratavam das contas e apareceram ricos de um dia para o outro. Pior ainda: nos bastidores dos partidos as histórias de autarcas, em particular de alguns dinossauros, são infindáveis. E há longínquas férias na neve de dirigentes partidários que incomodam os seus correligionários sem que nada aconteça para além de um comentário fugaz.

Vamos ser claros, deixando a hipocrisia do respeitinho de lado. A dúvida que havia sobre José Sócrates era sobre se seria algum dia apanhado. A percepção que corroía a confiança nas instituições não era sobre se os seus direitos humanos poderiam vir a ser negados (a sugestiva preocupação de Alberto João Jardim), mas sim sobre se algum dia um aparelho judicial que, anos a fio, pareceu amestrado seria capaz de apanhar alguns dos fios das muitas meadas tecidas pelo antigo primeiro-ministro.

Escrevi-o muitas vezes e vou repeti-lo: José Sócrates foi a pior coisa que aconteceu na democracia portuguesa nos últimos 40 anos, e não o digo por causa da bancarrota. Digo-o por causa da forma como exerceu o poder, esperando fazê-lo de forma absoluta, sem contestação, sem obstáculos, sem críticos. Não os tolerava no PS, no Governo, nos jornais, nos bancos, nas grandes empresas do regime.

Não sou a primeira pessoa a descrever assim José Sócrates. Nem essa descrição é recente. Recordo apenas um texto de António Barreto, de Janeiro de 2008 (há quase sete anos, bem antes da bancarrota), onde se escrevia que “o primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas”. Lembram-se? Eu não o esqueci.

O que distingue o socratismo não é uma visão da forma de ser socialista, é uma visão schmittiana de exercício do poder. Compreendo que o seu estilo de líder forte possa ter fascinado quem cavalgou a onda, mas é bom que hoje olhem para o elixir que provaram e que os inebriou, e percebam que era um veneno. Ou seja: acordem para a realidade. Depois do que se passou nos últimos dias, do que já sabemos sobre os contornos do processo e das acusações, do que imaginamos mas ainda não sabemos, a pergunta que muitos têm de intimamente fazer é “como foi possível?”, “como é que acreditei?”. Porque se não forem por esse caminho o seu único refúgio acabará por ser uma qualquer teoria da conspiração como a imaginada pelo insubstituível MRPP.

Ao contrário do que se repetiu à exaustão, o carácter não é um detalhe em política. E se ninguém deve apagar rostos em fotografias, à la Stalin, também é preciso de olhar de frente para o que, no passado, recomenda que se exorcizem fantasmas, demónios, maus hábitos e práticas não recomendáveis.”

Os comentários conspirativos de Estrela Serrano

Não costumo responder a posts colocados em outros blogues. Não é para isso que O Informador serve. Mas vou abrir uma excepção, por causa deste comentário de Estrela Serrano à capa da Sábado. Faço-o apenas porque, por ser professora universitária de jornalismo, uma investigadora da área dos média e também pelas responsabilidades que já teve como assessora de imprensa de Mário Soares, Estrela Serrano devia ser um pouco mais responsável nos comentários que faz ao que se passa na imprensa.

  1. Ao contrário do que escreve Estrela Serrano, a Sábado não antecipou a notícia que era para saír na 5ª feira. Como ela tem obrigação de saber, a Sábado, como a Visão, chega aos assinantes à quarta-feira. É por isso que o fecho de edição decorre entre segunda-feira e terça-feira. Foi por isso que a SIC Notícias mostrou a revista em directo a meio da tarde de quarta-feira. A única coisa que a Sábado fez, e que faz todas as semanas, foi colocar a capa da revista no site e na página de Facebook para os leitores saberem o que poderão comprar no dia seguinte. É assim há anos. Tal como todas as noites vemos as capas dos jornais do dia seguinte nas revistas de imprensa das televisões.
  2. A Procuradoria Geral da República não desmentiu a notícia da Sábado.
  3. Estrela Serrano está errada. Não houve nenhuma “estratégia”, nem a Sábado recebeu “um sopro vindo do sítio do costume”. Este trabalho está a ser preparado há várias semanas, com uma cuidada confirmação de factos, cruzamento de fontes, pesquisas de empresas e consultas em conservatórias. Para o perceber bastaria ter lido o texto antes de fazer qualquer comentário. Ou conhecer o trabalho e reputação do jornalista que a assina.
  4. Estrela Serrano esquece-se qual a função dos jornalistas – contar histórias, revelar segredos, dar notícias. Independentemente de quem elas envolvam. Foi isso que a Sábado fez, com respeito por todos os princípios deontológicos da profissão. Por isso, dizer que “não interessa se a notícia é ou não verdadeira porque se não é podia ser” é, no mínimo, ofensivo. E as ofensas ficam com quem as profere. Porque normalmente são um reflexo dos próprios.
  5. José Sócrates desmentiu. É verdade. Resta saber porque não o fez quando foi confrontado com a informação.
  6. Todo o raciocínio de Estrela Serrano parece estar montado à volta de uma suposta conspiração contra José Sócrates. É interessante que não tenha sido elaborado um raciocínio semelhante quando a Sábado (através do mesmo jornalista) noticiou a iminência da prisão de Duarte Lima, nem, mais recentemente, o esquema de fuga ao fisco por parte de Ricardo Salgado. Ou seja, parece que para Estrela Serrano há conspirações apenas quando elas envolvem socialistas.

Socrates

Os desmentidos muito peculiares da Procuradoria Geral da República

A Procuradoria Geral da República tem um hábito pouco saudável de jogar com as palavras – e assim, enganar os portugueses. Não é de agora. Esperava-se que melhorasse. Mas pelos vistos não melhora. Ontem houve mais um exemplo.

Vejamos. Em reacção à notícia que faz hoje a capa da Sábado, a PGR emitiu uma nota de imprensa onde escreve: “Na sequência de notícias vindas a público nas últimas horas, esclarece-se que José Sócrates não está a ser investigado nem se encontra entre os arguidos constituídos no Processo Monte Branco.” À primeira vista é um desmentido. Preto no branco. Certo? Errado. No texto que chega amanhã às bancas, é dito que o ex-primeiro-ministro está sob vigilância há vários meses, que o MP já o ponderou deter e que as suspeitas incluem o primo que apareceu no caso Freeport e o amigo que comprou as casas da mãe de José Sócrates. Mas também é dito, claramente, logo no segundo parágrafo, o seguinte: “A operação Monte Branco, que já deu origem a vários processos-crime autónomos, incluindo aquele em que é visado José Sócrates…” Ou seja, o caso surgiu no processo Monte Branco, mas não faz parte do processo Monte Branco. É uma investigação autónoma. Logo, a PGR não está a mentir. Mas também não está a dizer a verdade. Está a desmentir uma coisa que não foi noticiada. A jogar com as palavras.

Não é a primeira vez que isso acontece. A última devia estar bem presente na memória de todos os jornalistas que acompanham esta área. A 30 de Janeiro de 2013, a PGR emitiu um comunicado em que garantia que Ricardo Salgado não era suspeito no caso Monte Branco e que não existiam indícios de crimes fiscais. Não é preciso recordar o que aconteceu na última semana.

Mas há mais. Quando Pinto Monteiro ocupava o lugar de Joana Marques Vidal, a PGR também desmentiu a existência de suspeitas sobre ministros do governo PS relacionadas com o caso Freeport. Como também desmentiu que as cartas rogatórias inglesas incluíssem matéria criminalmente relevante relacionadas com governantes socialistas. Foi preciso esperar pelo despacho de arquivamento do processo para saber que ficaram por fazer 27 perguntas a Pedro Silva Pereira e a José Sócrates.

E os submarinos? Sim, a então directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, Cândida Almeida, também afirmou que não havia indícios de natureza criminal contra Paulo Portas. Mas nas cartas rogatórias enviadas para o Reino Unido, o MP insinuava que o líder do CDS era suspeito e um dos alvos da investigação.

Claro que podemos ir mais atrás. Ficou célebre a entrevista do então Procurador Geral da República, Souto Moura, a dizer na televisão que “aparentemente” Carlos Cruz não era suspeito no processo Casa Pia (não encontrei link directo). Mais tarde o apresentador revelou mesmo que, após um encontro, Souto Moura lhe disse “vá descansado”. Pouco depois, Carlos Cruz era preso.

Portanto, volto ao início. A PGR tem um hábito pouco saudável de jogar com as palavras. De desmentir o que não está em causa. De desmentir o que está escrito nos processos judiciais. De desmentir os próprios magistrados. De desmentir o que está prestes a acontecer. Portanto, de mentir. E isso diz muito sobre o estado da justiça.

Socrates

A batalha, parte dois: José Sócrates vs José Rodrigues dos Santos

Se dúvidas houvesse de que José Sócrates não concordou com a mudança de estilo do seu programa de comentário político ontem à noite elas ficaram desfeitas. Na segunda vez em que partilhou o ecrã com José Rodrigues dos Santos, o ex-primeiro-ministro mostrou ao que vinha: passou toda a emissão ao ataque e a tentar irritar o jornalista da RTP com referências constantes aos “seus arquivos”. (Enquadramento: há 15 dias, José Rodrigues dos Santos disse que tinha estado a “organizar os arquivos” e que foi por isso que encontrou as divergências de opinião de Sócrates relativamente à austeridade).

Para além disso, José Sócrates não pareceu tão bem preparado como prometeu. Ou melhor: José Rodrigues dos Santos pareceu ainda melhor preparado do que ele. Munido de documentos oficiais que citou incessantemente, foi, afinal, o pivot da RTP quem conseguiu irritar o ex-líder do PS. Sócrates começou por dizer: “este programa chama-se a minha opinião, se me permite, gostaria de dar a minha opinião. Já ouvimos o seu ponto de vista”. Mas piorou. Novamente confrontado com uma “opinião” diferente da sua, Sócrates partiu para o insulto: “Eu compreendo o seu ponto de vista. Você acha que se deve comportar no sentido de colocar-se no papel do ‘advogado do diabo’… estou a citá-lo bem? Só que até o advogado do diabo pode ser inteligente e pode perceber que não basta papaguearmos tudo aquilo que nos dizem para fazer uma entrevista”. Colocado numa situação muito difícil – em directo – Rodrigues dos Santos disse apenas: “Muito bem. Fica registado o seu insulto ao qual não vou responder”.

Como já disse aqui, acho que o formato assim não faz sentido. Uma entrevista semanal a José Sócrates sobre o seu passado como governante não tem grande futuro – para além do interesse inicial. Agora ou a RTP quer acabar com o programa ou deixa de o identificar como um espaço de opinião. Que deixou de ser há 15 dias. Como ainda não foi colocada no YouTube, a entrevista está aqui.

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O dia das mentiras é quando um político quiser

Eu já tive ocasião de dizer que o PSD, e eu próprio, não vamos mexer naquilo que são as taxas de IVA que estão previstas, nomeadamente no acordo que foi estabelecido com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional. Nós vamos ter de recolher mais dinheiro dos impostos alargando a base, que não aumentando ou agravando as taxas do imposto”, Passos Coelho, 30 de Maio 2011.

“Eu nunca ouvi falar disso no PSD. Eu já ouvi o primeiro-ministro dizer, infelizmente, que o PSD quer acabar com muitas coisas e também com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e isso é um disparate”, Passos Coelho, 1 de Abril 2011

“Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer“, Paulo Portas, 2 de julho de 2013

“Só a partir de duas ou mais pensões acumuladas com um valor superior a 2 mil euros sofrerá alguma forma redução”, Paulo Portas, 13 de Outubro de 2013.

“Tão pouco pertenci à administração, conselho fiscal, fui ou sou sócio ou acionista da Sociedade Lusa de Negócios”, Rui Machete, Novembro de 2008

“Tal como já foi explicitado pela própria na Comissão Parlamentar de Inquérito à Celebração de Contratos de Gestão de Risco Financeiro por Empresas do Setor Público, as funções de Maria Luis Albuquerque no IGCP eram de análise de pedidos das empresas públicas sobre empréstimos e não sobre “swaps'””, comunicado de Maria Luís Albuquerque, 17 de Setembro de 2013.

O Governo não dá orientações, nem recebeu qualquer tipo de informação, sobre negócios que têm em conta as perspectivas estratégicas da TVI”, José Sócrates, 24 de Junho de 2009

“Não. Era só o que faltava! Numa altura em que país enfrenta uma crise destas, acha que proporia aumentar os impostos? Se pudesse, até desceria mais os impostos, para que as empresas pudessem ter melhores condições. Baixámos o que pudemos”, José Sócrates, 10 de maio de 2009

“Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa”, Cavaco de Silva, 9 de Março de 2006 e 9 de Março de 2011.

“O primeiro-ministro não é candidato e o Governo português apoia a candidatura de António Vitorino à presidência da Comissão Europeia”, gabinete do primeiro-ministro Durão Barroso, 16 de Junho de 2004

Durão Barroso garante que viu provas das armas de destruição maciça iraquianas, Junho de 2003

Aceitam-se sugestões para aumentar a lista.

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O comentário/entrevista de José Sócrates também está no YouTube

No canal da RTP

A cilada de José Rodrigues dos Santos a José Sócrates

É isto. Pelo Daniel Oliveira, no Expresso online.

“A cilada da RTP a Sócrates

Daniel Oliveira

Não tenho qualquer problema com espaços de comentário televisivo de pessoas que tenham tido responsabilidades governativas. Tenho dúvidas da sua utilidade informativa, mas parece indiscutível que têm saída. Entre os comentadores políticos temos quatro ex-líderes do PSD, um ex-líder do PS, um ex-líder do BE, dois ex-primeiros-ministros e muitos ex-ministros. Por uma qualquer razão que me escapa, apenas um levantou grande celeuma, com petições e protestos. Mas adiante.

O modelo usado na maioria dos espaços ocupados por estes comentadores é o mesmo: um jornalista lança os temas, eles comentam. Não é uma entrevista, que seria absurdo, já que teria de se repetir todas as semanas e a coisa acabaria por se esgotar. Também não é um modelo de confronto. Marcelo comentou anos na RTP, tendo até, durante algum tempo, uma excelente jornalista (Flor Pedroso) a chamar-lhe a atenção para alguma contradição no seu comentário, sem que nunca se tivesse chegado ao ponto dum enfrentamento ou duma entrevista. O que é natural: ou bem que se tem um comentador que comenta e o registo é amistoso, ou bem que se tem um entrevistado que se entrevista e o registo é um pouco mais distanciado, ou bem que se tem um opositor com que se debate, para o qual se chama um debatente qualificado, e o registo é mais crispado. Até se pode arriscar, mudar as coisas e ter comentadores que são tratados com agressividade. Em todos os casos, mandam as regras que quem ali vai saiba o que o espera. Se não se montam armadilhas a entrevistados, por maioria de razão não se faz tal coisa a um comentador da estação. E os telespetadores também é suposto saberem o que é aquilo a que estão a assistir.

No último domingo assistimos a um dos momentos mais bizarros do jornalismo nacional. A jornalista que costuma acompanhar o espaço de comentário de José Sócrates foi substituída por José Rodrigues dos Santos (e, alternado, João Adelino Faria). Pelo menos de quinzenalmente, um espaço de comentário passou a ser um espaço de entrevista agressiva. Mudança para qual o entrevistado evidentemente não tinha sido prevenido. As coisas não foram tomando esse caminho. Foram planeadas. Era evidente que o “entrevistador” se tinha preparado, estando munido de material do “seu arquivo”, disse este autor de tantos trabalhos jornalísticos sobre a política nacional (ironia), que não lhe caiu na mesa à última da hora. E que não deu ao comentador transformado em entrevistado a mesma possibilidade de preparação. É que (sei o que digo) a preparação para fazer um comentário é diferente da preparação para uma entrevista.

Nunca, em anos e anos de comentário político de Marcelo Rebelo de Sousa ou qualquer outro ex-dirigente partidário transformado em comentador, tal aconteceu. Muito mais grave: nunca o atual primeiro-ministro foi entrevistado com tanta agressividade na RTP. Muito menos foi confrontado, de forma tão sistemática, com as inúmeras contradições entre o que disse no passado e o que diz agora. Mais estranho ainda: nunca o anterior primeiro-ministro, o mesmíssimo José Sócrates, foi entrevistado com esta agressividade na RTP quando exercia funções. O que só pode querer dizer que a RTP tem mais respeito pelos primeiros-ministros em funções do que pelas pessoas que convida para ter espaços de comentário na estação. Mesmo quando a pessoa é a mesma.

Não me custa nada ver um jornalista a confrontar José Sócrates com as suas incoerências. Com o que disse no passado e diz no presente, que muitas vezes é diferente. Pelo contrário, acho muitíssimo justo que isso seja feito. Se lamento alguma coisa, é não ver o mesmo exercício experimentado com outros ex-políticos comentadores. E preferia que fosse feito por jornalistas com mais preparação política do que o cidadão comum, para não passarem pelo desnecessário enxovalho que passou Rodrigues dos Santos. Até porque algumas dúvidas eram pertinentes. Só faltava o jornalista conseguir perceber o que estava a perguntar. Sócrates quis regressar para se bater pelo seu legado político, não vejo mal nenhum que seja confrontado com ele. O que me parece um pouco estranho é que a RTP o convide para fazer comentário político – quando era necessário ensombrar Seguro com a anterior liderança – e, sem aviso nem razão aparente, esse espaço passe a ser, quando essa função deixa de ser útil ao governo, de julgamento político do comentador.

Sabendo alguma coisa de jornais e televisões, não tenho qualquer dúvida que José Rodrigues dos Santos não agiu espontaneamente nem sequer por decisão individual. Tratou-se, vamos chamar as coisas pelos nomes, de uma encomenda. Basta ver Rodrigues dos Santos com Morais Sarmento para saber que não se trata de um “estilo”. Mas ainda que se tratasse, esse estilo tem um problema: o debate agressivo exige muita preparação política. E, quando de um dos lados está um jornalista, exige uma enorme habilidade para que este não passe a ser visto pelos telespetadores como uma das partes. No fim, depois de várias semanas a que Sócrates, com bastante experiência de debate, resistirá facilmente, será Rodrigues dos Santos que ficará a perder na sua própria imagem de isenção. Foi ele que subiu a parada. Parece-me que não percebeu bem em que jogo perigoso se meteu.

Estou-me nas tintas para a facilidade ou dificuldade que aquele momento teve para Sócrates. Estou-me ainda mais nas tintas para os amores e ódios que o homem provoca em tanta gente. Confesso que esta relação passional com os políticos me deixa sempre indiferente. Interessam-me, isso sim, os jogos políticos que se fazem na televisão pública nacional. Tenho as minhas teorias. O objetivo do convite feito a Sócrates para ter um espaço de comentário era fragilizar Seguro o suficiente para que a sua liderança nunca se impusesse no PS. Era garantir, através da sombra do ex-primeiro-ministro, um líder fraco na oposição. Não era dar a Sócrates a oportunidade de ser o ator político com mais influência na base eleitoral socialista, capaz de dificultar futuros entendimentos do PS com o PSD.

O papel de Sócrates está cumprido. Depois de lhe facilitar a vida, agora trata-se de a dificultar. Há que o empurrar para fora da RTP. Apenas se esquecem de uma coisa: se há político que não é fácil empurrar é este. Esse é, aliás, um dos segredos da sua popularidade e da sua impopularidade. E não me parece que Rodrigues dos Santos chegue para tal empreitada. Mesmo quando o tenta através de uma inaceitável cilada, oferecendo-se a si próprio a vantagem de não ter previamente dado ao entrevistado a relevante informação de que iria estar numa entrevista.

Nota: José Rodrigues dos Santos respondeu à polémica que ali aconteceu. Diz que Sócrates sabia de tudo porque lhe disse num almoço. Porque não estive no almoço, não sei nem tenho como saber o que em rigor foi dito e tenho pouco paciência para o diz que disse. Fico-me por o que ouvi na RTP: Sócrates disse “não vinha preparado para isto” e José Rodrigues dos Santos não o desmentiu, “olhos nos olhos”. É toda a informação rigorsa que tenho. Em todo o seu esclarecimento, Rodrigues dos Santos fala permanentemente numa “entrevista”. Desconhecia que a RTP tinha uma entrevista semanal com José Sócrates, outra com Morais Sarmento e no passado teve anos de entrevistas semanais com Marcelo Rebelo de Sousa. Seria bom, então, que o espaço “Opinião de José Sócrates” (assim se chama) mudasse de nome, para não levar ao engano os telespetadores. Para facilitar, vou dar uma ajuda: isto que aqui estou a escrever não é uma entrevista. E para os jornalistas a distinção clara do que é opinião e do que é outro género costumava ser importante. Rodrigues dos Santos não gosta de espaços de opinião com a participação de jornalistas? É um bom debate e dele só poderia resultar a sua não participação naquele espaço. Mas entrevistas semanais à mesma pessoa é coisa que nunca se viu em lado algum. E “entrevistas confrontacionais” semanais, com a mesma pessoa, são uma impossibilidade prática. Como deveria saber Rodrigues dos Santos se estivesse de boa-fé em todo este episódio.”

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O estilo de José Rodrigues dos Santos com Morais Sarmento

“É uma questão de estilo do jornalista. Quando o José Rodrigues dos Santos fizer o programa de comentário de Morais Sarmento, acredito que será igual. Embora também saibamos que é diferente falar com um ex-primeiro-ministro como José Sócrates ou com alguém que foi ministro, como Morais Sarmento. Os graus de responsabilidade são diferentes”

O comentário à postura de José Rodrigues dos Santos perante José Sócrates é de José Manuel Portugal, director de informação da RTP e foi feito ontem, ao Expresso online (o sublinhado é meu). Mas tem uma incorrecção: José Rodrigues dos Santos já faz o programa de comentário de Nuno Morais Sarmento, à quinta-feira, quando apresenta o Telejornal. E, embora seja realmente diferente falar com José Sócrates – um ex-primeiro-ministro que governou seis anos e assinou o memorando com a troika – ou com o ex-ministro do PSD, o estilo não é igual. Como se pode ver aqui, aqui ou aqui.

Sendo Nuno Morais Sarmento um político, ex-ministro e militante do PSD, será interessante perceber o que fez José Rodrigues dos Santos aplicar a noção que tem de qual deve ser o papel de um jornalista perante um político apenas quando se confrontou com José Sócrates. Que, volto a dizer, foi um brilhante momento de jornalismo.

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As justificações de José Rodrigues dos Santos sobre a batalha com José Sócrates

Ontem, o espaço de comentário de José Sócrates, foi transformado numa entrevista à actuação do ex-primeiro-ministro. Ainda não a viram? Então vão aqui, espreitem e depois voltem. Vale a pena.

Agora, que já sabem do que estou a falar, ficam também a saber que na sequência da sua postura confontativa, José Rodrigues dos Santos foi insultado por alegados fiéis de José Sócrates na página que mantém no Facebook para promover os seus livros. Por isso, o jornalista da RTP publicou um longo comunicado sobre o assunto, em que, para além de exibir os galões do seu passado na BBC, explica o seu entendimento sobre qual deve ser o papel de um jornalista numa conversa com um político. É isto que diz Rodrigues dos Santos:

1. A isenção de um jornalista não é obrigatória. Depende da linha editorial do jornal. Não faz sentido esperar que um jornalista do «Avante!», por exemplo, seja isento. A linha editorial do «Avante!» é claramente comunista e um jornalista que não a queira respeitar tem a opção de se ir embora. Há muitos casos que se podem encontrar de linhas editoriais que implicam alinhamentos (partidários, desportivos, ideológicos, etc).

2. No caso da RTP, a linha editorial é de isenção. Isto acontece porque se trata de um meio público, pago por todos os contribuintes, pelo que deve reflectir as diferentes correntes de opinião. Os jornalistas esforçam-se por escrever as notícias com neutralidade e, nos debates, os moderadores esforçam-se por permanecer neutrais.

3. Nas entrevistas, no entanto, as regras podem mudar. Há dois tipos de entrevista: a confrontacional (normalmente a entrevista política) e a não confrontacional. Em ambos os casos a isenção pode perder-se, não porque o entrevistador seja pouco profissional, mas justamente porque é profissional. Por exemplo, numa entrevista não confrontacional com a vítima de uma violação é normal que o entrevistador se choque com o que aconteceu à sua entrevistada. Estranho seria que ele permanecesse indiferente ao sofrimento. Não se trata um violador e uma mulher violada da mesma maneira, não se trata um genocida e uma pessoa que perdeu a família inteira da mesma maneira – a regra da isenção não se aplica necessariamente.

4. As entrevistas políticas são, por natureza, confrontacionais (estranho seria que não fossem e que jornalista e político tivessem uma relação de cumplicidade). Uma vez que o agente político que está a falar não tem ninguém de outra força política que lhe faça o contraditório (como aconteceria num debate), essa função é assumida pelo entrevistador. O entrevistador faz o contraditório, assume o papel de advogado do diabo. Portanto, o jornalista suspende por momentos a sua isenção para questionar o entrevistado. Isto é uma prática absolutamente normal. O entrevistador não o faz para “atacar” o entrevistado, mas simplesmente para fazer o contraditório. Acontece até frequentemente fazer perguntas com as quais não concorda, mas sabe que o seu papel é fazer de “oposição” ao entrevistado.

5. Dizem os manuais de formação da BBC, e é assim que entendo o meu trabalho, que o entrevistador não é nem pode ser uma figura passiva que está ali para oferecer um tempo de antena ao político. O entrevistador não é o “ponto” do teatro cuja função é dar deixas ao actor. Ele tem de fazer perguntas variadas, incluindo perguntas incómodas para o entrevistado. Não deve combinar perguntas com os políticos, mas deve informá-lo dos temas. No acto da entrevista o entrevistado “puxa” pela sua faceta positiva e o entrevistador confronta-o com a sua faceta potencialmente negativa. Espera-se assim que o espectador veja as duas facetas.

6. Uma vez apresentado o princípio geral, vejamos o caso de José Sócrates. É falso que José Sócrates desconhecesse esta minha linha de pensamento. Almoçámos e expliquei-lhe o meu raciocínio. Avisei-o de que, se encontrasse contradições ou aparentes contradições entre o que diz agora e o que disse e fez no passado, as colocaria frente a frente e olhos nos olhos, sem tergiversações nem subterfúgios, como mandam as regras da minha profissão. Far-me-ão a justiça de reconhecer que fiz o que disse que ia fazer.

7. Como todas as figuras polémicas, José Sócrates é amado por uns e odiado por outros. É normal com as figuras públicas, passa-se com ele e passa-se comigo e com toda a gente que aparece em público. Mas o que se está a passar com ele é que muita gente fala mal nas costas e ninguém pelos vistos se atreve a colocar-lhe as questões frontalmente. Fui educado fora de Portugal e há coisas que me escapam sobre o país, mas dizem-me que é um traço normal da cultura portuguesa: falar mal pelas costas e calar quando se está diante da pessoa. Acho isso, devo dizer, lamentável. Quando alguém é muito atacado, devemos colocar-lhe frontalmente as questões para que ele tenha o direito de as esclarecer e assim defender-se. Foi o que foi feito na conversa com José Sócrates. As questões que muita gente coloca pelas costas foram-lhe apresentadas directamente e ele defendeu-se e esclareceu-as. Se o fez bem ou mal, cabe ao juízo dos espectadores.

8. O caso de José Sócrates tem alguns contornos especiais e raros. Ele foi Primeiro-Ministro durante seis anos e acabou o mandato com o país sob a tutela da troika. Quando era chefe do Governo, começou a aplicar medidas de austeridade. No PEC I foram muito suaves (cortes em deduções fiscais e outras coisas), mas foram-se agravando no PEC II (aumento de impostos) e no chamado PEC III, que na verdade era o Orçamento de 2011 (corte de salários no sector público, introdução da Contribuição Especial de Solidariedade aos pensionistas, aumento de impostos, cortes nas deduções, etc). Defendendo estas medidas, afirmou em público que “a austeridade é o único caminho”. Agora, nas suas declarações públicas, ele mostra-se contra a austeridade. Estamos aqui, pois, perante uma contradição – ou aparente contradição. Não tem um jornalista o dever de o colocar perante essa (aparente ou não) contradição, dando-lhe assim oportunidade para esclarecer as coisas?

9. Na entrevista não é para mim necessariamente relevante se ele tinha razão quando aplicou a austeridade ou se tem razão agora que critica a austeridade. O que é relevante é que há uma aparente contradição e cabe ao jornalista confrontá-lo com ela. Foi o que foi feito e ele prestou os seus esclarecimentos. Se foi convincente ou não, cabe a cada espectador ajuizar, não a mim. Limitei-me a apresentar-lhe directamente os problemas e a dar-lhe a oportunidade de os esclarecer. O meu trabalho ficou completo.

10. Como disse no ponto 8, o caso de José Sócrates é raro. Não é muito normal termos entrevistados com as circunstâncias dele. O tipo de conversa que era necessário para esclarecer as coisas não nasce do facto de ele ser do PS, mas das suas circunstâncias únicas. Se o entrevistado fosse, por exemplo, Ferro Rodrigues ou Maria de Belém ou Francisco Assis ou qualquer outra figura do partido, o perfil da conversa teria de ser diferente porque nenhum deles teve funções de Primeiro-Ministro durante tanto tempo e imediatamente antes da chegada da troika nem entrou num discurso tão aparentemente contraditório como José Sócrates. São as suas circunstâncias específicas que exigem uma abordagem específica. Se o Primeiro-Ministro que governou nos seis anos antes da chegada da troika fosse do PSD, CDS, PCP, BE, MRPP ou o que quer que seja, e fizesse declarações tão aparentemente contraditórias com o que disse e fez quando governava, não tenham dúvidas de que as minhas perguntas seriam exactamente as mesmas.

11. No final, temos de nos perguntar: José Sócrates esclareceu bem a sua posição? Essa resposta cabe a cada um e aí não meto eu o dedo. Limitei-me a dar-lhe a oportunidade de tudo esclarecer.

12. E aquele espaço?, perguntarão alguns. É entrevista? É comentário? Boa pergunta. A minha resposta está no ponto 5.

Um abraço a todos.

José Rodrigues dos Santos

Ou seja, José Rodrigues dos Santos entende que aquele espaço que foi apresentado como de “comentário” por parte de José Sócrates não é de opinião. É uma entrevista. Pura e dura. O que levanta algumas questões. Para além de estar a passar um atestado de incompetência a todos os camaradas de profissão que partilham – ou já partilharam – espaços de comentários com políticos (Cristina Esteves, Judite de Sousa, Rodrigo Guedes de Carvalho, Clara de Sousa, Maria da Flor Pedroso, Ana Lourenço, etc), José Rodrigues dos Santos parece ter inventado um novo género jornalístico: a entrevista fixa. 

Normalmente, a importância de uma entrevista mede-se por um conjunto de factores incluindo a sua exclusividade (quanto mais rara, melhor), a relevância do entrevistado e do conteúdo e o momento em que é dada. Sendo aquele um espaço semanal, José Sócrates passará a ser o único político mundial com uma entrevista marcada para o horário nobre de todos os domingos.

Tenho imensas dúvidas de que políticos profissionais mereçam ter um espaço de opinião nos principais telejornais. Já o disse. A sua posição não é isenta e, na maioria das vezes, estão ali a servir um interesse: o deles próprios. No entanto, foi sempre assim que ele foi apresentado: como o espaço de “comentário” de José Sócrates. O entendimento de que  a presença de um jornalista o torna, obrigatoriamente, numa entrevista parece-me, no mínimo, peculiar. Para além disso, será interessante perceber o que acontecerá quando, salvaguardadas as respectivas diferenças, o jornalista da RTP moderar o espaço de comentário de Nuno Morais Sarmento? Será tão agressivo? 

Por fim, saiu uma informação útil do comunicado: José Sócrates não foi totalmente apanhado de surpresa: o jornalista e o ex-primeiro ministro almoçaram e José Rodrigues dos Santos avisou-o de que seria mais interventivo e que lhe apontaria as contradições. Talvez não tenha dito o quanto o faria. 

P.S. – Não estou aqui a defender José Sócrates. Há muito que o ex-primeiro-ministro devia ter sido confrontado com as suas contradições narrativas. E, para que conste, José Rodrigues dos Santos fê-lo muito bem.

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A batalha: José Sócrates vs José Rodrigues dos Santos

Ontem, José Sócrates foi surpreendido por José Rodrigues dos Santos no espaço semanal de comentário na RTP. Quando o ex-primeiro-ministro se preparava para o habitual passeio opinativo, o jornalista surgiu munido com os seus “arquivos”. Uma por uma, foi contrapondo as afirmações de José Sócrates com declarações passadas sobre consensos, negociações, austeridade, dívida, cortes de salários, etc. Não sei o formato mais confrontativo foi combinado. Não pareceu. Nesse caso, apesar de dar um belo momento televisivo e suscitar todo um novo interesse sobre o espaço de comentário, não foi uma decisão honesta. Foi uma armadilha. Desde então, a emissão – ou a batalha televisiva – tem sido partilhada no You Tube e sucessivamente retirada pela RTP dos diversos links devido aos direitos de autor. No entanto, pode ser vista no site da própria RTP. Aqui: Telejornal.

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EUSÉBIO, Sócrates e a doença nacional

As últimas páginas do Público e do Diário de Notícias de hoje valem o preço pago por todo o jornal. No primeiro, o Vasco Pulido Valente escreve sobre EUSÉBIO e o Panteão. No segundo, o Ferreira Fernandes sobre a doença nacional que é escrever sobre nada.

Sobre a Doença

Agora, devagarinho. Esta crónica não é sobre Sócrates. Aliás, a de ontem também não. Esta crónica é sobre uma doença mental. E a de ontem também. Esta semana, Sócrates falou, como tanta gente, sobre Eusébio e “eu”. Não disse nada de empolgante: que foi na escola que ele comemorou, tinha 8 anos, o jogo Portugal-Coreia do Norte. Sobre o âmago do assunto, Eusébio, li muito melhor. Na caixa de comentários do Guardian, um leitor lembrou a história que o seu pai sempre contara: que, em miúdo, vira o Eusébio no estádio de St. James” Park, em Newcastle, jogar de luvas, “era a primeira vez que via neve”, e marcar um belo golo de livre. No domingo, o filho disse ao pai que o “grande homem” morrera. Então, o pai repetiu a história e os por-menores. Ora, no ano passado, o Benfica jogou com o Newcastle e o filho soube que o Benfica e Eusébio nunca tinham estado em St. James” Park. No domingo, o filho rematou: “Não tive a coragem de dizer ao meu pai a verdade.” Ele escreveu heart, que em inglês quer dizer, além de coragem, coração. Reparem, ele não cobrava ao pai a inverdade, o pai baralhara memórias, como tantas vezes fazemos às antigas e por vezes às mais queridas. José Sócrates não baralhou a memória, o essencial do que disse já se confirmou – alguns garotos da Covilhã iam para o pátio da escola mesmo aos sábados e nas férias. O problema aqui não é Sócrates e o seu testemunho vulgar. O problema foi o alarido sobre esse nada. Esse nada, nada. Cometeram-no um diretor de jornal, um eurodeputado, blogues e o jornal mais vendido, patrulhando uma memória velha de 47 anos do que aconteceu a um miúdo de 8. Mesmo se ele se tivesse enganado merecia só um sorriso. A sanha persecutória, essa, sim, é doentia. Aliás, ela é a doença. Uma obsessão. Há três anos, ela diabolizou um lado a ponto de ter impedido o que era então necessário e o Presidente diz, só agora, ser necessário: um esforço conjunto para combater a crise. A doença já nos cegou uma vez. E a minha memória é exata.”

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Os ódios fáceis

Aconteceu nos últimos dias. Duas vezes. Ambas relacionadas com EUSÉBIO. A primeira vítima foi José Sócrates (não me diz muito): depois de dizer na RTP que se lembrava de assistir ao relato do jogo entre Portugal e a Coreia do Norte, em 1966, quando ia a caminho da escola, o ex-primeiro-ministro foi acusado nas redes sociais de mentir com quantos dentes tinha. Porquê? Porque o jogo foi a 23 de Julho, um sábado – e à tarde.

Ontem passou-se o mesmo com o Benfica (já me diz muito). Foi posta a circular na internet uma fotografia com um segurança a segurar vários cachecóis do Sporting. Rapidamente o clube foi acusado de estar a desrespeitar todos aqueles que, sendo adeptos de outra agremiação, tinham ido prestar homenagem ao jogador.

Em ambos os casos as mensagens estavam carregadas de ódio e de insultos. Mas afinal parece que nenhuma teria razão de ser. Ainda ontem, horas depois de a imagem ser partilhada nas redes sociais, o Benfica explicou que algumas pessoas tinham tentado vandalizar os cachecóis de outros clubes colocados junto à estátua de EUSÉBIO. Por isso, alguns estavam a ser removidos até ser construída uma estrutura que protegesse a estátua e as ofertas de adeptos de todos os clubes. Quanto a José Sócrates, parece que afinal, não só em 1966 haveria aulas de manhã como à tarde os alunos tinham actividades escolares. Mais: as aulas só terminavam no fim de Julho. 

Ou seja, nem Sócrates (diz-me pouco) nem o Benfica (diz-me muito) eram culpados. Pelo contrário. Culpados são todos aqueles que assumem que tudo o que lêem na internet é verdadeiro. E não hesitam em comentar, criticar, acusar, insultar sem ter a certeza de o que está em causa é verdadeiro. Ou de reflectir um pouco. É o mais fácil. É por isso que a internet é uma coisa maravilhosa. Está acessivel a todos. Mas é preciso ter cuidado. Nem tudo o que por aqui anda é verdadeiro.

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A entrevista a José Sócrates é uma notável peça jornalística

No dia em que o antigo-primeiro ministro lança o livro “A Confiança no Mundo”, sobre a tortura em países democráticos, as suas palavras impressas na última revista do Expresso ainda não desapareceram por completo. Episódios como a discussão com o primeiro-ministro holandês, os insultos ao ministro das finanças alemão, os ataques a Santana Lopes, as afirmações sobre os históricos socialistas ainda são discutidas em conversas de café, em jantares prolongados ou em artigos de opinião nos jornais. Já a entrevista em si vai ficar para a história como um grande momento do jornalismo português. Sim, um grande momento.

O texto da Clara Ferreira Alves é uma notável peça jornalística que devia ser lida por todos os candidatos a entrevistadores. Muitos dirão que o formato em que foi publicado não permite ao leitor perceber se a conversa decorreu num tom cordial ou se houve confronto. Se José Sócrates se tornou tão expansivo e utilizou uma linguagem pouco habitual num político porque bebeu uns copos de vinho a mais ao almoço ou se foi levado ao extremo por uma entrevistadora agressiva. Ainda assim, conseguir que um ex-primeiro-ministro, alguém que continua a ter ambições políticas, se exponha de uma forma que nunca tinha feito antes – falou dos filhos, do irmão, da ex-namorada, da vida em Paris, etc – e utilize uma linguagem raramente vista num político, não acontece por acaso. Acontece por mérito do entrevistador. Neste caso, entrevistadora.

Também não está em causa se José Sócrates é um mentiroso compulsivo, se boa parte das suas afirmações não resiste a um fact-checking rigoroso, ou se ele repete à exaustão a teoria de que foi vítima de uma cabala dos malvados da direita. O texto lê-se de um fôlego e quem já tentou fazer alguma coisa do género só pode reconhecer que é extremamente difícil fazê-lo bem. É por isso, que a entrevista vai direitinha para a página dos recortes de imprensa (que, lamentavelmente, está muito desactualizada).

A mentira de José Sócrates

Há cerca de um mês, a Maria Henrique Espada ligou a José Sócrates para confirmar uma informação: a tese do ex-primeiro ministro seria sobre tortura. Na altura, Sócrates foi peremptório: “Não. Aliás, peço-lhe que não escreva isso porque estará a enganar e a induzir em erro os leitores da sua revista, estará a dar-lhes uma informação errada.” Ainda acrescentou: “Isso não é verdade”. Afinal, era mesmo. Foi o próprio que o admitiu ao Expresso. José Sócrates não teve um “equivoco factual”. Muito menos disse uma “inverdade”. Ele, simplesmente, mentiu. E confrontado com a mentira teve uma reacção à “animal feroz”: “Eu não lhe admito isso, nem que me peça explicações”. Depois lá deu uma explicação para o sucedido – que é bastante reveladora sobre ele próprio. Está hoje na Sábado.

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José Sócrates, o observador internacional

A convite da Comissão Nacional de Eleições da Venezuela.

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Sócrates: a verdade e a mentira.

Um fack checking do Jornal de Negócios. Bom jornalismo. Aqui.

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