Filippo Cristofaro libertado em Portugal

É um dos mais famosos presos italianos, condenado a prisão perpétua por um homicido cometido em 1998. Depois de em 2014 não ter regressado à cadeia após uma saída precária, foi preso em Sintra em Maio de 2016. A Itália pediu a extradição. Aquele que é conhecido como o “assassino do catamarã” opôs-se, recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça, depois para o Tribunal Constitucional, contestou a decisão e quando finalmente o processo voltou ao Tribunal da Relação de Lisboa para se processar a extradição, Cristofaro já tinha sido libertado do Estabelecimento Prisional de Monsanto. Motivo: ultrapassou o limite legal de 150 dias de detenção à ordem de um processo de extradição.

Toda a história no site da Sábado. 

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Um país de violadores

As estatísticas dizem que Portugal é um dos países mais pacíficos e seguros do mundo. Ainda assim, temos a nossa dose de criminalidade. É por isso que, todos os dias, recebemos nas redacções dezenas de comunicados da Polícia Judiciária, Polícia de Segurança Pública, Guarda Nacional Republicana e Serviço de Estrangeiros e Fronteiras – cada um dentro das respectivas competências de investigação criminal. Todos dizem respeito a uma detenção, uma operação, uma organização criminosa mais ou menos complexa desmantelada. E bem. Mas nos últimos tempos têm saltado à vista os crimes sexuais. Só hoje, por exemplo, dos cinco comunicados feitos pela  PJ, três dizem respeito a detenções pela prática de crimes de abuso sexual de menores. Na última semana foi assim

8 de Agosto

  • “A Polícia Judiciária, através do Departamento de Investigação Criminal de Setúbal, deteve um homem pela presumível prática de crimes de abuso sexual de menor”
  • “Foram detidos dois homens e uma mulher fortemente indiciados pela prática de crimes de abuso sexual de criança e lenocínio de menor, em Felgueiras”.
  • “A Polícia Judiciária, através da Directoria do Centro, identificou e deteve um homem, pela presumível prática, reiterada, de vários crimes de abuso sexual de crianças e de vários crimes de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência, de que foi vítima uma menor, actualmente com 15 anos”.

7 de Agosto

  • “A Polícia Judiciária, através da Unidade Local de Investigação Criminal de Vila Real, identificou e deteve um homem pela presumível autoria de crime de abuso sexual de crianças.
  • “A Polícia Judiciária, através do Departamento de Investigação Criminal de Braga, identificou e deteve um homem que, ao longo de vários anos, abusou sexualmente de uma criança, então com 11 anos de idade, sendo também suspeito de, recentemente, tendo a menor já 16 anos, ter voltado a cometer atos sexuais com a mesma, factos ocorridos, respectivamente, em V. N. de Famalicão e em Ponte da Barca.”

5 de Agosto

  • “Foi detido um homem fortemente indiciado pela prática de crime de abuso sexual de uma criança, em Freixo de Espada à Cinta.”

4 de Agosto

  • “A Polícia Judiciária, através da Diretoria do Norte, identificou e deteve um homem que, durante quatro meses, na sua residência, abusou sexualmente de uma menor, de 12 anos de idade, sua familiar próxima.”

1 de Agosto (ao fim-de-semana, não há comunicados)

  • “A Polícia Judiciária, através da Diretoria do Centro, com a colaboração da GNR de Viseu, identificou e deteve um homem pela presumível autoria de um crime de violação, de que foi vítima uma menor, com 14 anos de idade.”

A 31 de Dezembro de 2013, havia 266 pessoas presas por abuso sexual de menores e 207 por violação, num total de 11.692 detidos. Esta semana houve oito casos. O que dá uma média superior a um por dia. Pode ter sido uma semana má (na anterior houve mais dois casos e na que a antecedeu três). Mas é sinal que há muita gente doente por aí.

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Os desmentidos muito peculiares da Procuradoria Geral da República

A Procuradoria Geral da República tem um hábito pouco saudável de jogar com as palavras – e assim, enganar os portugueses. Não é de agora. Esperava-se que melhorasse. Mas pelos vistos não melhora. Ontem houve mais um exemplo.

Vejamos. Em reacção à notícia que faz hoje a capa da Sábado, a PGR emitiu uma nota de imprensa onde escreve: “Na sequência de notícias vindas a público nas últimas horas, esclarece-se que José Sócrates não está a ser investigado nem se encontra entre os arguidos constituídos no Processo Monte Branco.” À primeira vista é um desmentido. Preto no branco. Certo? Errado. No texto que chega amanhã às bancas, é dito que o ex-primeiro-ministro está sob vigilância há vários meses, que o MP já o ponderou deter e que as suspeitas incluem o primo que apareceu no caso Freeport e o amigo que comprou as casas da mãe de José Sócrates. Mas também é dito, claramente, logo no segundo parágrafo, o seguinte: “A operação Monte Branco, que já deu origem a vários processos-crime autónomos, incluindo aquele em que é visado José Sócrates…” Ou seja, o caso surgiu no processo Monte Branco, mas não faz parte do processo Monte Branco. É uma investigação autónoma. Logo, a PGR não está a mentir. Mas também não está a dizer a verdade. Está a desmentir uma coisa que não foi noticiada. A jogar com as palavras.

Não é a primeira vez que isso acontece. A última devia estar bem presente na memória de todos os jornalistas que acompanham esta área. A 30 de Janeiro de 2013, a PGR emitiu um comunicado em que garantia que Ricardo Salgado não era suspeito no caso Monte Branco e que não existiam indícios de crimes fiscais. Não é preciso recordar o que aconteceu na última semana.

Mas há mais. Quando Pinto Monteiro ocupava o lugar de Joana Marques Vidal, a PGR também desmentiu a existência de suspeitas sobre ministros do governo PS relacionadas com o caso Freeport. Como também desmentiu que as cartas rogatórias inglesas incluíssem matéria criminalmente relevante relacionadas com governantes socialistas. Foi preciso esperar pelo despacho de arquivamento do processo para saber que ficaram por fazer 27 perguntas a Pedro Silva Pereira e a José Sócrates.

E os submarinos? Sim, a então directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, Cândida Almeida, também afirmou que não havia indícios de natureza criminal contra Paulo Portas. Mas nas cartas rogatórias enviadas para o Reino Unido, o MP insinuava que o líder do CDS era suspeito e um dos alvos da investigação.

Claro que podemos ir mais atrás. Ficou célebre a entrevista do então Procurador Geral da República, Souto Moura, a dizer na televisão que “aparentemente” Carlos Cruz não era suspeito no processo Casa Pia (não encontrei link directo). Mais tarde o apresentador revelou mesmo que, após um encontro, Souto Moura lhe disse “vá descansado”. Pouco depois, Carlos Cruz era preso.

Portanto, volto ao início. A PGR tem um hábito pouco saudável de jogar com as palavras. De desmentir o que não está em causa. De desmentir o que está escrito nos processos judiciais. De desmentir os próprios magistrados. De desmentir o que está prestes a acontecer. Portanto, de mentir. E isso diz muito sobre o estado da justiça.

Socrates

Duarte Lima libertado

O advogado e ex-líder parlamentar do PSD vai deixar de estar em prisão domiciliária com pulseira electrónica. A notícia é da Lusa.

“O tribunal decretou hoje a libertação de Duarte Lima, que se encontrava em prisão domiciliária, por considerar que o perigo de fuga está diminuído, disse à Lusa o advogado do arguido.

“Houve reapreciação da medida de coação e considerou-se que o perigo de fuga e outros do género estão diminuídos”, disse Raul Soares da Veiga, que se mostrou de acordo com a decisão judicial, embora a tenha considerado “tardia”.

O advogado disse ainda que Duarte Lima, que se encontrava em casa com pulseira eletrónica, já foi notificado da decisão.

Em meados de março, a 7.ª Vara Criminal de Lisboa manteve a prisão domiciliária aplicada a Duarte Lima, um dos seis arguidos em julgamento no processo relacionado com aquisição de terrenos no concelho de Oeiras, através de empréstimo concedido pelo BPN.

Duarte Lima está acusado de três crimes de burla qualificada, dois crimes de branqueamento de capitais e um crime de abuso de confiança na forma agravada, esteve em prisão preventiva até maio de 2012, altura em que foi alterado o regime.”

Duarte Lima BPN

Leitura para o fim-de-semana: uma noite na solitária

Rick Raemish lidera o departamento correccional do estado norte-americano do Colorado. Para cumprir a tarefa que lhe foi delegada – reformar o sistema – decidiu conhecer melhor o que um detido sente quando é colocado na solitária. Este é o relato dessa experiência, publicada no The New York Times.

Jeffrey Smith

Jeffrey Smith

My Night in Solitary

By RICK RAEMISCH

COLORADO SPRINGS — AT 6:45 p.m. on Jan. 23, I was delivered to a Colorado state penitentiary, where I was issued an inmate uniform and a mesh bag with my toiletries and bedding. My arms were handcuffed behind my back, my legs were shackled and I was deposited in Administrative Segregation — solitary confinement.

I hadn’t committed a crime. Instead, as the new head of the state’s corrections department, I wanted to learn more about what we call Ad Seg.

Most states now agree that solitary confinement is overused, and many — like New York, which just agreed to a powerful set of reforms this week — are beginning to act. When I was appointed, Gov. John Hickenlooper charged me with three goals: limiting or eliminating the use of solitary confinement for mentally ill inmates; addressing the needs of those who have been in solitary for long periods; and reducing the number of offenders released directly from solitary back into their communities. If I was going to accomplish these, I needed a better sense of what solitary confinement was like, and what it did to the prisoners who were housed there, sometimes for years.

My cell, No. 22, was on the second floor, at the end of what seemed like a very long walk. At the cell, the officers removed my shackles. The door closed and the feed tray door opened. I was told to put my hands through it so the cuffs could be removed. And then I was alone — classified as an R.F.P., or “Removed From Population.”

In regular Ad Seg, inmates can have books or TVs. But in R.F.P. Ad Seg, no personal property is allowed. The room is about 7 by 13 feet. What little there is inside — bed, toilet, sink — is steel and screwed to the floor.

First thing you notice is that it’s anything but quiet. You’re immersed in a drone of garbled noise — other inmates’ blaring TVs, distant conversations, shouted arguments. I couldn’t make sense of any of it, and was left feeling twitchy and paranoid. I kept waiting for the lights to turn off, to signal the end of the day. But the lights did not shut off. I began to count the small holes carved in the walls. Tiny grooves made by inmates who’d chipped away at the cell as the cell chipped away at them.

For a sound mind, those are daunting circumstances. But every prison in America has become a dumping ground for the mentally ill, and often the “worst of the worst” — some of society’s most unsound minds — are dumped in Ad Seg.

If an inmate acts up, we slam a steel door on him. Ad Seg allows a prison to run more efficiently for a period of time, but by placing a difficult offender in isolation you have not solved the problem — only delayed or more likely exacerbated it, not only for the prison, but ultimately for the public. Our job in corrections is to protect the community, not to release people who are worse than they were when they came in.

Terry Kupers, a psychiatrist and expert on confinement, described in a paper published last year the many psychological effects of solitary. Inmates reported nightmares, heart palpitations and “fear of impending nervous breakdowns.” He pointed to research from the 1980s that found that a third of those studied had experienced “paranoia, aggressive fantasies, and impulse control problems … In almost all instances the prisoners had not previously experienced any of these psychiatric reactions.”

Too often, these prisoners are “maxed out,” meaning they are released from solitary directly into society. In Colorado, in 2012, 140 people were released into the public from Ad Seg; last year, 70; so far in 2014, two.

O artigo completo está aqui.

Advogadas sexys: o vídeo de que toda a gente fala

Maria do Rosário Mattos e as suas associadas de escritório fizeram um vídeo de promoção que se tornou viral na internet. As advogadas passeiam pelas ruas de Lisboa e anunciam que não há impossíveis de uma forma pouco comum entre advogados. Claro que entre os respectivos pares a iniciativa não caiu bem e já deu origem a um inquérito na Ordem dos Advogados. Da minha parte, acho mal.

Presos por engano

Pelo menos 56 pessoas foram presas por engano em São Paulo desde 1994. Algumas foram por ter um nome parecido com o dos verdadeiros criminosos. Outros por os seus documentos terem sido roubados. Algumas chegaram mesmo a cumprir pena. A reportagem é da Folha de São Paulo.

A prisão de Fernanda e a impunidade de Fernando (também conhecido como Jorge Jesus)

Fernanda Policarpo é uma actriz de 49 anos. No último ano tornou-se conhecida em Lisboa por comparecer nas manifestações contra as políticas de austeridade, descalça, com um vestido azul e cor-de-rosa, uma bandeira nacional numa mão e um ramo de alecrim na outra. Em Abril deste ano esteve em mais uma manifestação do movimento Que se Lixe a Troika, à porta do Hotel Ritz. Andava calmamente quando um agente da PSP a tentou empurrar para fora do cordão policial. Ela resistiu e entre empurrões atingiu o agente com o pau da bandeira. Em seguida, três outros polícias agarraram-na, arrastara-na e deitaram-na no chão. Enquanto um a algemava, outro agente colocou-lhe um joelho nas costas. Como não conseguiam segurá-la, o polícia ajustou a posição da perna: enfiou o joelho no pescoço de Fernanda Policarpo e, com isso, obrigou-a a esfregar a cara na relva. Depois de a imobilizarem, levaram-na. Foi detida e constituída arguida. Já disse que era uma mulher de 49 anos?

Ontem, Fernando Pinheiro, também conhecido por Jorge Jesus, um treinador de futebol de de 59 anos, empurrou repetidamente vários agentes da PSP em directo na televisão. Alguns tentaram acalmá-lo. Outros, segurá-lo. Ele continuava a gritar e a empurrar os polícias, alegadamente, em defesa de um adepto que tinha ido buscar a camisola de um jogador. Parece que nos próximos dias vai ser constituído arguido e sujeito a termo de identidade e residência. Não consta que nessa altura seja algemado nem atirado ao relvado. 

O julgamento do padrinho de Boston

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James (Whitey) Bulger foi um dos mais conhecidos gangsters americanos. Durante décadas liderou o Winter Hill Gang, um grupo irlandês que dominou o submundo de Boston. Em 1994 fugiu da cidade. Sete anos depois foi capturado na Califórnia, onde vivia com a namorada num apartamento alugado. Agora, aos 83 anos, está a ser julgado por 32 crimes, incluindo a participação em 19 homicídios. As audiências têm trazido à luz do dia os códigos de honra e lealdade que regem a vida dos membros do grupo. Entre eles está a proibição de matar mulheres e dar informações à polícia – duas das coisas de que James Whitey Burger é acusado.

Neste vídeo do The New York Times, os jornalistas que acompanharam a sua história descrevem como ele se tornou o verdadeiro gangster dos tempos modernos.

Como Isaltino Morais enriqueceu (e porque foi preso)

Quando, em Agosto de 2009, Isaltino Morais foi condenado a sete anos de cadeia, publiquei na Sábado um artigo sobre o enriquecimento do presidente da Câmara Municipal de Oeiras. Na ocasião, o histórico social-democrata anunciou que ia recorrer e voltar a ganhar as eleições autárquicas. Fez as duas coisas. Graças aos recursos – 44 -, a pena acabou por ser reduzida para dois anos. Em Oeiras, venceu sem oposição digna desse nome. No entanto, o texto continua actual – porque os factos são os mesmos. Agora, ao fim e intermináveis anos de investigações e recursos, Isaltino Morais foi preso. Será o primeiro político a cumprir uma pena de prisão. O charuto apagou-se.

MP foi a casa de José Maria Ricciardi

O caso Monte Branco continua a fazer mossa. Ontem, o António José Vilela conta na Sábado que o Departamento Central de Investigação e Acção Penal fez buscas domiciliárias a José Maria Ricciardi e Miguel Horta e Costa, presidente e vice-presidente da Comissão Executiva do BESI. Objectivo: apurar suspeitas da prática dos crimes de fraude fiscal, corrupção, tráfico de influências e abuso de informação privilegiada.

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“Tiques imperiais”

No sábado, o Expresso noticiou a investigação do Ministério Público ao Procurador-Geral da República de Angola, João Maria de Sousa. No dia seguinte, a resposta de Luanda chegou, como é habitual, por via do Jornal de Angola e do seu director, José Ribeiro. O artigo chama-se Portugal e Jonas Savimbi. 

“O pesadelo da guerra terminou com a morte de Jonas Savimbi, o traidor da Pátria angolana até ao fim dos seus dias. Mas ontem como hoje ainda há entre nós uma minoria pouco esclarecida que tem saudades do colonialismo que serviu convictamente. Como serviu o “apartheid” e está pronta a servir tudo desde que esteja contra Angola e o seu povo. O mesmo se passa com a desvairada imprensa portuguesa e as elites corruptas políticas e económicas daquele país em profunda crise moral, acossado pelos credores e ao mesmo tempo a exibir tiques imperiais ridículos.
Uma parte significativa das elites políticas corruptas e intelectuais portuguesas fez tudo para que Angola não fosse um país independente. Se o plano aprovado na ilha do Sal por Spínola, Nixon e Mobutu tivesse resultado, hoje as elites portuguesas e a sua imprensa tratavam os angolanos como trataram durante décadas a UNITA. Já a ONU tinha aprovado pesadas sanções contra a organização de Jonas Savimbi e os seus dirigentes e Portugal era ainda um paraíso para os sancionados. A imprensa portuguesa apresentava Savimbi como um herói. Mário Soares, então presidente da República, tratava-o como um amigo e o seu filho João como compadre. Altos dirigentes políticos seguiram o exemplo e curvaram-se reverenciais diante dos servidores do colonialismo e organizados nas forças repressivas do regime de “apartheid” da África do Sul.
Nunca a imprensa portuguesa referiu que Savimbi foi um dos carcereiros de Nelson Mandela, ao colaborar com o regime racista da África do Sul. Ou que pôs as suas armas ao serviço da sangrenta guerra colonial. Os dirigentes da UNITA andaram décadas por Lisboa a traficar armas e diamantes e a tratar das suas negociatas criminosas. Mas nunca a Procuradoria-Geral da República Portuguesa ou os serviços de combate ao banditismo investigaram os traficantes e criminosos que circulavam livremente em Portugal. Muito menos os raptores e assassinos de cidadãos portugueses que viviam em Angola. Antes pelo contrário, muitos foram premiados com a atribuição da nacionalidade portuguesa e integrados em instituições e sociedades secretas para ficarem melhor protegidos.
Qualquer jornalista português sabe disso, mas todos se calaram. O império mediático português foi sempre um fiel servidor de Jonas Savimbi. Os jornais e canais de televisão do senhor Pinto Balsemão trataram a rede criminosa como se os seus membros fossem os seus heróis. Savimbi escolhia a dedo os jornalistas portugueses necessários às acções de propaganda para a guerra em Angola. Os nomes dos jornalistas a quem Savimbi pagava os seus serviços são conhecidos e continuam activos nas redacções. Mas mantêm um silêncio cúmplice até hoje. Alguns estão agora em lugares-chave das grandes empresas e passaram a ter como nova tarefa prejudicar ao máximo as relações luso-angolanas. Já o escrevi aqui e volto a repetir: a imprensa portuguesa foi responsável pelo prolongamento da guerra em Angola e as elites corruptas portuguesas apenas se servem dos angolanos. Por trás estimulam ataques violentos contra quem lhes dá a mão e oferece amizade desinteressada. Continuamos a lidar com uma chocante falta de carácter.
Um antigo ministro da Defesa português, Castro Caldas, voltou a pôr a mão na ferida. Confirmou o que todos sabíamos: Jonas Savimbi e a UNITA foram agentes das autoridades coloniais portuguesas, que armaram, municiaram e financiaram as suas operações para impedir a libertação de Angola. Pensava eu que face a mais esta confirmação oficial da traição, a actual direcção da UNITA fosse rever a sua posição de continuar a apresentar o fundador do partido como um patriota. Mas nada aconteceu. O defunto chefe da UNITA continua a ser glorificado pela desacreditada imprensa portuguesa e pela liderança do maior partido da oposição.
Oa recursos que foram roubados pela UNITA em Angola para pagar os serviços prestados pelos jornalistas portugueses ordena os silêncios e as cumplicidades em Portugal. Mas essa cobardia merece uma profunda indignação em Angola.
Por continuar ainda hoje, décadas depois da independência, a perseguição aos interesses de Angola em Portugal, soa mal e gera muita desconfiança quando vem a Luanda um ministro do governo de Lisboa afiançar que a amizade entre Portugal e Angola continua de pé e os investimentos angolanos são “bem vindos” em Portugal. Já começamos a acreditar que isso não é sincero. Mesmo quando o portador da mensagem é Paulo Portas, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros de Portugal, que é líder de um partido que nunca escondeu a sua simpatia por Jonas Savimbi e que foi director de um jornal, “O Independente”, que tanta desinformação verteu para a opinião pública sobre a nossa realidade.
Hoje Paulo Portas é um grande amigo de Angola e está a ser lançado para liderar a direita portuguesa em caso de as coisas correrem mal à actual coligação, o que mostra que é possível, afinal de contas, um entendimento com Portugal, se calhar igual ao Entendimento do Luena, para que se ponha fim, de uma vez por todas, às guerras e guerrinhas portuguesas contra Angola.”

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O negócio que fez cair Duarte Lima

Duarte Lima foi recentemente acusado pelo Ministério Público de burla e branqueamento de capitais, num processo em que o lesado foi o BPN. O esquema começou com a obtenção de um empréstimo para financiar a compra de vários terrenos em Oeiras, junto ao local onde esteve para ser construído o novo edifício do IPO. Tudo foi feito através de um fundo criado para o efeito, o Homeland, do qual Pedro Lima, filho do advogado, era o principal titular – apesar dos seus parcos rendimentos. É interessante comparar a acusação do Ministério Público – que, por motivos legais, não pode ser aqui reproduzida -, com as notícias publicadas na Sábado pelo António José Vilela  em Janeiro de 2010. Está lá tudo. Resta saber porque o processo levou tanto tempo a ser concluido.

O cerco ao império de Rupert Murdoch

Desde que o escândalo das escutas ilegais e dos subornos a agentes da autoridade atingiu a News International que a justiça britânica tem vindo a cercar o fundador do grupo, Rupert Murdoch, o seu filho, James e outros altos responsáveis. Jornalistas, editores, detectives privados, motoristas e até o principal assessor de imprensa do primeiro-ministro britânico foram presos ou acusados. A ProPublica tem estado a actualizar um gráfico interactivo com os principais desenvolvimentos. A última evolução é de ontem: Andy Coulson, antigo porta-voz de David Cameron, e Rebekah Brooks, a antiga responsável da News International foram acusados de conspirar para subornar funcionários públicos em mais de 125 mil euros. Os antigos reporteres do The Sun e do News of the World, John Kay e Clive Goodman   também foram acusados.

A resposta de Angola

Após a publicação, pelo Expresso, de que três figuras próximas de José Eduardo dos Santos – Manuel Vicente, vice-presidente de Angola e ex-director-geral da empresa petrolífera nacional Sonangol, o general Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, ministro de Estado e chefe da Casa Militar da Presidência da República, e o general Leopoldino Nascimento “Dino”, consultor do ministro de Estado e ex-chefe de Comunicações da Presidência da República – estão a ser investigados em Portugal por suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais mereceu uma resposta por parte do poder angolano. A via, o editorial do Jornal de Angola.

Jogos perigosos

Camões, faminto de tudo, até de pão, na hora da partida desta vida, descontente, ainda foi capaz de um último grito de amor. Morreu sem nada, mas com a sua ditosa e amada pátria no coração. Ele que sofreu as agruras do exílio e foi emigrante nas sete partidas, escorraçado pelos que se enfeitavam com a glória de mandar e a vã cobiça, morreu no seu país.

O mais universal dos poetas de língua portuguesa deixou-nos uma obra que é o orgulho de todos os que falam a doce e bem-amada língua de Camões. Mas também deixou, seguramente por querer, a marca das elites nacionais que o desprezaram e atiraram para a mais humilhante pobreza. O seu poema épico acaba com a palavra Inveja. Desde então, mais do que uma palavra, esse é o estado de espírito das elites portuguesas que não são capazes de compreender a grandeza do seu povo e muito menos a dimensão da sua História. Nós em Angola aprendemos, desde sempre, o que quer dizer a palavra que fecha o poema épico, com chave de chumbo sobre a masmorra que guarda ciosamente a baixeza humana. A inveja moveu os primeiros portugueses que chegaram à foz do Rio Zaire e encontraram gente feliz, em comunhão com a natureza. Seres humanos que apenas se moviam para honrar a sua dimensão humana e nunca atrás de riquezas e honrarias.

A inveja fez mover os invasores estrangeiros nesta imensa terra angolana. Inveja foi o combustível que alimentou os beneficiários da guerra colonial. Inveja foi o estado de alma de Mário Soares quando entrou na reunião do Conselho da Revolução, que discutia o reconhecimento do novo país chamado Angola, na madrugada de 10 para 11 de Novembro de 1975. Roído de inveja e de cabeça perdida porque a CIA não conseguiu fazer com êxito o seu trabalho sujo contra Angola, disse aos conselheiros, Capitães de Abril: não vale a pena reconhecerem o regime de Agostinho Neto porque Holden Roberto e as suas tropas já entraram em Luanda. Uma mentira ditada pela inveja e a vã cobiça.

A inveja alimentou em Portugal o ódio contra Angola todos estes anos de Independência Nacional. E já lá vão 37! Os invejosos e ingratos para com quem os quer ajudar estão gastos de tanto odiar. Que o diga a chanceler Angela Merkel, que ajudou a salvar Portugal da bancarrota, mas é todos os dias insultada. Recusam aceitar que foram derrotados depois de alimentarem décadas de rebelião em Angola, de braço dado com as forças do apartheid de uma África do Sul zelosa guardiã da humilhação de África.

As elites políticas portuguesas odeiam Angola e são a inveja em figura de gente. Vivem rodeadas de matilhas que atacam cegamente os políticos angolanos democraticamente eleitos, com maiorias qualificadas. Esse banditismo político tem banca em jornais que são referência apenas por fazerem manchetes de notícias falsas ou simplesmente inventadas. E Mário Soares, Pinto Balsemão, Belmiro de Azevedo e outros amplificam o palavreado criminoso de um qualquer Rafael Marques, herdeiro do estilo de Savimbi.

Os angolanos estão em festa pela Independência Nacional. Em Portugal, a nova Procuradora-Geral da República foi a Belém onde deve ter explicado a Cavaco Silva as informações que no mesmo dia saíram na SIC Notícias e no Expresso, jornal oficial do PSD, que fizeram manchetes insultuosas e difamatórias visando o Vice-Presidente da República, Manuel Vicente, que acaba de ser eleito com mais de 72 por cento dos votos dos angolanos. Militares angolanos com o estatuto de Heróis Nacionais e ministros democraticamente eleitos foram igualmente vítimas da inveja e do ódio do banditismo político que impera em Portugal, neste 11 de Novembro, o Dia da Independência Nacional. A PGR portuguesa é amplamente citada como a fonte da notícia. A campanha contra Angola partiu do poder ao mais alto nível. Mas como a PGR até agora ficou calada, consente o crime. As relações entre Angola e Portugal são prejudicadas quando se age com tamanha deslealdade. A cooperação é torpedeada quando um ramo mafioso da Maçonaria em Portugal, que amamentou Savimbi e acalenta o lixo político que existe entre nós, hoje determina publicamente o sentido das nossas relações, destilando ódio e inveja contra os angolanos de bem. Da boca para fora, são sempre amigos de Angola e dos angolanos, da Alemanha e dos alemães. Enchem os bornais de dinheiro, à custa de Angola, comem à custa da Alemanha. Sobrevivem à miséria, usando como último refúgio a antiga “jóia da coroa”, feliz expressão do capitão de Abril Pezarat Correia. Mas na hora da verdade, conspiram e ofendem angolanos e alemães, usando a sua máquina mediática.“De sorte que Alexandre em nós se veja,/ sem à dita de Aquiles ter inveja.” Estes são os dois últimos versos de Camões no seu poema épico. Os restos do império, que estrebucham na miséria moral, na corrupção e no embuste, deviam render-se à evidência. Angola não é um joguete! Nós somos Aquiles! Tão grandes e vulneráveis como ele. Mas não tenham Inveja do nosso êxito, porque fazemos tudo para merecê-lo.

 

A ligação francesa do chef Michel

O chef Michel da Costa foi detido em Portugal no âmbito de um processo relacionado com o escândalo financeiro que causou prejuízos de 4.9 mil milhões de euros ao banco Societé Generale. A história é contada esta semana na SÁBADO, pelo António José Vilela.

Na origem da fraude está o corrector Jérôme Kerviel, que realizou transacções financeiras não autorizadas num montante de 50 mil milhões de euros. Como? De acordo com a The Atlantic, com muita perícia em computadores:

“Kerviel was an arbitrage trader at Société Générale who wanted to take out the “arbitrage” part. In plain English, arbitrage just means taking advantage of discrepancies when things should have the same price, but don’t. The idea is to buy the cheaper one, sell the more expensive one, and then wait for them to converge. The beauty is it doesn’t matter whether markets go up or down — you’re both long and short — just that the prices actually converge.

“This is what Kerviel was supposed to do with European stock futures. He only did half of it. In other words, he took, say, a long position and then pretended to offset it with a fictitious short position. That’s where the computer hacking came in. But how did he end up betting such mind-boggling sums? Well, arbitrageurs are usually exploiting such small price discrepancies that the only way to make decent money at it is to bet lots and lots of money. And Kerviel certainly did that. Société Générale didn’t notice because it only monitored the net, and not the gross, value of these paired trades — which again, were not really paired. So the bank took Kerviel’s actual bets and subtracted his fake bets. Voilà, €50 billion worth of trades disappeared. Of course, it’s impossible to maintain a continuous fraud like this if you’re not at work. That’s where vacation, or the lack thereof, comes in. That’s another banking no-no, precisely to prevent this kind of chicanery. By the time Société Générale uncovered the fraud, Kerviel had built up huge one-way bets and huge one-way losses.”

Agora, Jérôme Kerviel é o homem mais endividado do mundo: um tribunal francês condenou-o a devolver ao banco os 4.9 mil milhões de euros assim que cumprir a pena de prisão de três anos a que foi condenado. A sentença talvez seja irrealista – mas podia ser dissuasora se fosse aplicada cá.

Ele protestou. E depois?

José Maria Ricciardi é claramente um tipo importante. Como presidente do Banco Espirito Santo de Investimento tem estado presente em grande parte dos negócios que nos últimos anos envolveram o Estado. Por isso, tem uma enorme proximidade do poder político. É então normal que, quando se sinta solitário ou aborrecido, pegue no telefone e marque o número do membro do governo que lhe estiver mais à mão. Seja do PSD ou do PS. O problema é que tanto Ricciardi como o presidente do BES, Ricardo Salgado, estiveram durante meses sob escuta no âmbito do processo Monte Branco – que envolve suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Era uma questão de tempo até os estados de alma dos dois homens serem conhecidos. Há pouco mais de uma semana, o Público noticiou que Ricciardi tinha sido apanhado a falar com Miguel Relvas sobre as privatizações. No último sábado, o Expresso avançou que uma escuta com Passos Coelho tinha sido enviada ao Supremo Tribunal de Justiça para validação. Por sua vez, Ricciardi garantiu, por escrito, que se limitou a protestar junto dos governantes pelo facto de o Estado ter decidido entregar à Perella Weinberg, por ajuste directo, a consultoria financeira das privatizações da EDP e da REN. A nova Procuradora-Geral da República já garantiu que não há suspeitas da “prática de ilicitos” por parte do primeiro-ministro, o que vai ao encontro do que foi dito no Diário de Notícias: que o MP suspeita de pressões sobre membros do governo. E é isso que interessa descobrir: o que aconteceu nas semanas seguintes ao protesto de José Maria Ricciardi? Os ministros foram “influenciados” em alguma das suas decisões?

Contabilidade da semana

1 a 7 de Outubro

Polícia Judiciária – 14 detidos em todo o país por tráfico de estupefacientes, homicídio, burla qualificada, abuso sexual, violação, violência doméstica e  incêndio florestal.

Polícia de Segurança Pública – 546 detidos em todo o país pelos crimes de furto, tráfico, roubo, posse ilegal de arma, condução sob o efeito de álcool e outros crimes

Guarda Nacional Republicana – 528 detidos em todo o país, pelos crimes de tráfico de estupefacientes, furto, posse ilegal de arma,  posse material contrafeito, condução sob efeito de álcool, condução sem habilitação legal, e outros delitos.

Comentário final à Mário Crespo: E José Sócrates continua a estudar em Paris

Fonte: contabilidade feita com base nos comunicados de imprensa da PJ, PSP e GNR

Contabilidade da semana

Polícia Judiciária: 13 detidos, pelos crimes de incêndio florestal; violação; explosão; roubo agravado tráfico de estupefacientes e furto qualificado.

Polícia de Segurança Pública: 604 detidos pelos crimes de roubo; posse de arma; tráfico de estupefacientes; posse de droga; furto; burla; falsificação de documentos; condução sob o efeito de álcool; condução sem habilitação legal e outros crimes. (Actualizado na segunda-feira, 1 de Outubro).

Guarda Nacional Republicana: 352 detidos pelos crimes de roubo; furto; tráfico de estupefacientes; condução sob o efeito do álcool; condução sem habilitação legal; posse ilegal de armas de fogo; permanência ilegal em Território Nacional; pesca em época de defeso; fogo posto; burla e outros crimes.

Comentário final à Mário Crespo: “E José Sócrates continua a estudar em Paris”

O país de criminosos

Às vezes já nem lhes ligo. Os emails a anunciar a prisão de mais alguém chegam a um ritmo alucinante. Parece que a Polícia Judiciária, a Polícia de Segurança Pública e a Guarda  Nacional Repúblicana (sem contar com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, mais comedido na comunicação) querem meter Portugal inteiro atrás das grades. Esta semana a contabilidade ainda não terminou. Mas, na semana passada, por exemplo, só da PJ recebi 21 comunicados a anunciar a detenção de 21 homens e duas mulheres pelos crimes de tráfico, homicídio, incêndio florestal, abuso sexual, coacção, roubo e abuso sexual de criança. É um número assustador. Sei que nem todos ficam em prisão preventiva. Se ficassem e se a PJ – atenção, só a PJ – mantivesse este ritmo e prendesse 20 pessoas por semana, chegava ao fim do ano com 1040 detenções. O incrível é que, mesmo assim, deixam escapar aqueles que, no fim da linha, podem ir estudar para Paris.