“Sou um kamikase angolano”

“O culpado da miséria no país não é só um, mas o principal, não é segredo, chama-se Zé Du.

Do comunismo ao conformismo, de marioneta a usur… pador de poderes, quem te menciona é morto ou vai para o zoo, zoo, zoo. (…) 

És um pedaço de ferro, mano, frio e inanimado, o teu coração, se tens algum, bate do lado contrário. Anunciaste, né, que não voltavas a candidatar-te, né? Mas o posto deu-te saudades, né? Antes de saltares, né?

José Edu Murphi o nosso actor mais caro. Em vez do Nobel era pelo Óscar que devias ter implorado.

A nossas única esperança seriam os militares, mas são tudo bons rapazes, saudáveis amizades.

Devia medir melhor as palavras mas agora é tarde. O desespero fez com que me tornasse num Kamikaze (…)

Isto é a minha nota de suicídio aos meus pais, amo-vos muito, desculpem, mas não aguento mais. Cada dia que passa a minha vida perde importância, cada dia que passa morre um pedaço de esperança. Num país onde a palavra democracia é defraudada, onde a corrupção não se esconde, faz-se de cara deslavada. Onde no fim todos são cúmplices, portanto, toda a gente é ilibada e as vozes revoltadas são delicadamente eliminadas.

Falo porque mais vale morrer por causa justa. Fico fodido quando a Isabel não tem prisão com massa pública. A Tchizé quer informar, ah, faz-me rir de repulsa. A rainha passeia-se no avião da presidência da República. (…) 

Falaste a verdade, estás no caixão. Falou verdade foi no caixão. Falo verdade vou no caisão. Que raio de democracia é essa?

Fala a verdade, estás no caixão. Falou verdade foi no caixão. Falámos verdade, no caixão. Que raio de democracia é essa?”

(Luaty Beirão, Kamicasio, 2012)  

(Entre os 45s e os 4m45s)

“Temos que vencer o medo pelos nossos filhos. O teu medo de hoje vai ser a tragédia dele amanhã”

Ouvi falar do Luaty Beirão pela primeira vez em 2012. Acho que foi quando ele foi preso à chegada a Lisboa depois de “alguém”, no aeroporto de Luanda, que lhe colocar um pacote de cocaína na bagagem. Mas a coisa foi tão mal feita que ele foi libertado no dia seguinte. O processo, obviamente, não deu em nada.

No mesmo ano voltei a vê-lo. Agora como um dos protagonistas de um documentário da Al Jazeera sobre o nascimento de um movimento de jovens inspirado na Primavera Árabe que pedia reformas democráticas. Um dado saltava à vista: as manifestações que tinham começado no ano anterior tinham sido as primeiras em 32 anos em Angola. Fui rever esse documentário para escrever o artigo sobre o Luaty Beirão que há 26 dias está em greve de fome em protesto contra o prolongamento da prisão preventiva de 16 jovens (por estarem a ler um livro, diga-se), passados que estão todos os prazos legais. Nele podemos recordar a origem dos protestos em Angola, percebemos a importância do rap como forma de luta e contestação social, encontramos todos os motivos que levaram este “filho do regime” a contestar a situação em Angola e as dificuldades com que eles se deparam.

#liberdadejá!