Uma “media blitz”

O Macer Gifford teve uma expressão feliz para os dois dias que esteve em Lisboa. Chamou-lhe “media blitz”. E foi exactamente isso que aconteceu há uma semana, entre 17 e 18 de Novembro. A presença dele em Portugal para a apresentação do meu novo livro, Heróis Contra o Terror, chamou a atenção de muita gente interessada em conhecer melhor não só a história do Mário Nunes mas também dos outros voluntários internacionais que, como ele, decidiram juntar-se às Unidades de Protecção Popular curdas na luta contra o autoproclamado Estado Islâmico. Espero que gostem. Eles merecem.

Heróis Contra o Terror: estão convidados para o lançamento

É já na 5ª feira, 17 de Novembro, na livraria Bertrand do Amoreiras Shopping Center, com o Rui Cardoso Martins e o Macer Gifford. Tem tudo para ser um debate interessante. Apareçam, que estão todos convidados.

Se quiserem seguir as novidades do livro, é só clicar na imagem e fazer like na página de Facebook.

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Heróis Contra o Terror: pré-publicação na Sábado

No último ano, uma boa parte das minhas noites foram passadas à volta deste projecto. A fazer entrevistas por Skype, a pesquisar, a trocar (muitas) mensagens escritas e a escrever. O resultado chega esta semana às livrarias. O livro Heróis Contra o Terror tem como fio condutor a história de Mário Nunes, o primeiro português a ir para a Síria combater o Estado Islâmico. Mas pelo meio conta também a história de cerca de 15 voluntários internacionais que, como ele, deixaram para trás empregos, amigos e família, para ir combater a maior ameaça dos tempos modernos. Voluntariamente. Sem a colaboração deles, este livro não teria sido possível.

Esta quinta-feira, a Sábado faz a pré-publicação de um capítulo: aquele que conta como Mário Nunes, na segunda vez que esteve na Síria, conseguiu entrar para uma unidade secreta, composta só por voluntários ocidentais. Se quiserem é uma espécie de forças especiais das milícias curdas YPG. Espreitem. Espero que abra o apetite para o resto do livro.

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Coming soon…

… numa livraria perto de si.

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Para quem quiser saber mais sobre o Estado Islâmico

Hoje em dia há cada vez mais – e melhores – livros sobre o auto-proclamado Estado Islâmico. Ainda assim, não me levem a mal por puxar a brasa à minha sardinha. Este foi publicado em Maio. E apesar de o título ser Os combatentes portugueses do Estado Islâmico, lá podem encontrar toda a história do mais terrível grupo terrorista mundial, como se organiza, como funciona, como se financia, como comunica e como propaga a sua ideologia. Ficarão também a conhecer os seus líderes, para além dos protagonistas nacionais e luso-descendentes e a história sobre como as autoridades portuguesas foram informadas da sua presença na Síria.  Agora que o Natal se aproxima, nada melhor do que fazer uma sugestão para um presente a um amigo ou um familiar. E para abrir o apetite, deixo aqui um capítulo.

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As origens

Desde que saltou para as primeiras páginas dos jornais e para a abertura dos telejornais, o Estado Islâmico tem sido apresentado como um grupo dependente da Al Qaeda ou com origens na Al Qaeda do Iraque (AQI). Não sendo totalmente falsa, essa definição também não é inteiramente correcta. É apenas uma simplificação que ignora alguns detalhes – e esses podem fazer toda a diferença.

As origens do grupo remontam ao final do século XX quando, em 1999, Abu Musab al-Zarqawi (nome de guerra de Ahmad Fadl al-Nazal al-Khalayleh) foi libertado da prisão al-Sawwaqa, na Jordânia. Então com 33 anos, al-Zarqawi era já um veterano da guerra no Afeganistão, para onde tinha viajado em 1989. Nessa época, apesar de ter recebido treino militar, não se tornou logo guerrilheiro: foi repórter de uma pequena revista jihadista chamada Al-Bosnian al Marsous[1]. Mais importante: foi no Afeganistão que conheceu aquele que se tornaria no seu mentor ideológico: o também jordano Abu Muhammad al-Maqdisi (nome de guerra de Issam Muhammad Tahir al-Barqawi).

Al-Maqdisi era já um reputado clérigo salafista[2], um movimento originário do Egipto que, no século XX, evoluiu para uma escola de pensamento único baseada numa interpretação literal do Corão. No início da década de 1980 tinha publicado o livro O Credo de Abrão, obra que se tornou na mais importante fonte de ensinamentos dos movimentos Salafistas mundiais[3].

Em 1992, al-Maqdisi e al-Zarqawi voltaram à Jordânia onde criaram o grupo Bayat al-Iman (Fidelidade ao Iman), cujo principal objectivo era derrubar o regime e instaurar um governo islâmico. No ano seguinte, foram ambos presos e Zarqawi condenado a 15 nos de cadeia por posse de armas e por pertencer à organização clandestina[4]. Na prisão, al-Zarqawi tornou-se rapidamente um líder incontestado. No pátio era ele quem decidia quem cozinhava, quem lavava a roupa e até que programas de televisão podiam ser vistos. Passava o tempo a trabalhar o corpo, a ler o Corão e a angariar novos recrutas. Quando foi libertado, em Maio de 1999, graças a uma amnistia concedida pelo recém entronizado Rei Abdullah II, era tratado pelos outros reclusos por “emir” ou “principe”[5].

Novamente livre, viajou primeiro para o Paquistão e depois para o Afeganistão, onde conheceu Osama Bin Laden, em Kandahar. Os dois não se deram especialmente bem[6]. Ainda assim, al-Zarqawi obteve um empréstimo da Al Qaeda e autorização para criar um campo de treino em Herat, junto à fronteira com o Irão. Aí, estabeleceu o seu próprio grupo jihadista. Chamou-lhe inicialmente Jund al Sham (o Exército do Levante)[7]. Meses depois, alterou o nome para Jamaat al-Tawid wa al-Jihad (Organização para o Monoteísmo e Jihad), ou apenas Tawid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad)

O grupo tornou-se uma atracção imediata para militantes jordanos[8]. Começou com poucas dezenas de recrutas. Mas ao fim de dois anos, já reunia cerca de 3000 pessoas. Nesse período – entre 2000 e 2001 – Osama Bin Laden chamou al-Zarqawi a Kandahar cinco vezes para o convencer a prestar bayat, um juramento de fidelidade. Em todas elas, al-Zarqawi recusou[9].

Quando os Estados Unidos começaram a bombardear o Afeganistão, a 7 de Outubro de 2001, como retaliação pelos atentados do 11 de Setembro, al-Zarqawi lutou ao lado da Al Qaeda e dos Taliban pela primeira vez. No entanto, foi ferido no peito quando o tecto de um edifício desabou sobre ele durante um ataque aéreo. No final de 2001, atravessou a fronteira com o Irão, juntamente com cerca de 300 guerrilheiros. Nos 14 meses seguintes, viajou entre o Irão, o Iraque, a Síria e os campos de refugiados do sul do Líbano[10]. Nesse período, expandiu a sua rede: criou bases, campos de treino e recrutou novos membros.

Ele próprio terá ficado surpreendido quando, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretario de Estado norte-americano, Collin Powell, no famoso discurso onde denunciava a alegada existência de armas de destruição massiva no Iraque, o indicou como o elo de ligação entre a Al Qaeda e o regime de Saddam Hussein. Perante o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, ao tentar justificar a necessidade da invasão do Iraque, Colin Powell afirmou[11]:

O Iraque alberga uma rede terrorista mortal liderada por Abu Musab al-Zarqawi, um associado e colaborador de Osama Bin Laden e dos seus tenentes da Al Qaeda. [] Quando a nossa coligação depôs os Taliban, a rede Zarqawi ajudou a estabelecer um outro campo de treino de veneno e explosivos. E este campo fica no nordeste do Iraque. [] As actividades de Zarqawi não estão confinadas a este pequeno canto no nordeste do Iraque. Ele viajou para Bagdade em Maio de 2002 para tratamento médico, ficando na capital do Iraque durante dois meses, enquanto recuperava para lutar mais um dia. Durante a estadia, cerca de duas dúzias de extremistas convergiram para Bagdade e estabeleceram aíuma base de operações. Esses associados da Al Qaeda, sediados em Bagdade, coordenam agora o movimento de pessoas, dinheiro e abastecimentos para e através do Iraque para esta rede e estão a operar livremente na capital hámais de oito meses. [] Pedimos a um serviço de segurança amigo para abordar Bagdade sobre a extradição de Zarqawi e para fornecer informação sobre ele e os seus associados mais próximos. Este serviço contactou os oficiais iraquianos duas vezes e nós passámos detalhes que deviam ter tornado fácil encontrar Zarqawi. A rede continua em Bagdade. Zarqawi continua em liberdade.[] Não nos surpreende que o Iraque esteja a dar abrigo a Zarqawi e aos seus subordinados. Este entendimento assenta em décadas de experiência com respeito aos laços entre o Iraque e a Al Qaeda.   

Colin Powell estava errado. Não só não havia armas de destruição maciça no Iraque, como al-Zarqawi não estava formalmente ligado à Al Qaeda. Nessa altura, nem estaria sequer no Iraque, mas sim no Irão. O que não significa que o jordano não fosse perigoso.

Com a invasão anunciada a aproximar-se, al-Zarqawi estabeleceu uma pequena base em Biyara, na província curda de Sulaymaniya. O local foi um dos primeiros alvos da campanha aérea de Março de 2003. Graças à projecção internacional que lhe foi dada por Colin Powell, era um alvo a abater – apesar de ainda não ter realizado algo que fizesse jus à reputação. Mas isso estava prestes a mudar.

Em Agosto de 2003, a Tawid wa al-Jihad realizou uma série de ataques que transformariam al-Zarqawi num dos terroristas mais procurados do mundo. O primeiro no dia 7: um carro bomba explodiu junto à embaixada da Jordânia em Bagdade. Morreram 17 pessoas. O segundo a 19: um veículo suicida entrou na Zona Verde da capital iraquiana e explodiu junto à sede da Organização das Nações Unidas. Morreram 22 pessoas, incluindo o representante especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello. O terceiro a 29: um carro bomba explodiu nas imediações da mesquita do Iman Ali, em Najaf, um dos locais sagrados dos xiitas. Morreram 95 pessoas, naquele que na época foi o atentado mais mortífero da guerra, incluindo o líder do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, Ayatollah Muhammad Baqr al-Hakim[12]. O bombista suicida que levou a cabo o ataque chamava-se Yassin Jarad. Era um dos sogros de al-Zarqawi.

Os três ataques atingiram os principais alvos do líder da Tawid wa al-Jihad: os jordanos, a comunidade internacional e os xiitas. O objectivo também era claro: enfraquecer as forças internacionais e fomentar um conflito sectário para, através do caos, estabelecer-se como um defensor da comunidade sunita e apressar o estabelecimento de um Estado Islâmico.

No entanto, al-Zarqawi terá percebido que não o conseguiria fazer sozinho. E resolveu arranjar aliados. Em Janeiro de 2004, os militares norte-americanos capturaram um correio que transportava uma carta de 17 páginas dirigida aos líderes da Al Qaeda. Na missiva, o jordano faz um retrato da situação no terreno, identifica aqueles que considera os grandes inimigos – americanos, xiitas, curdos e forças de segurança -, pede apoio e traça um plano de actuação que passa por um ataque constante à população xiita. A carta termina com uma interrogação: “E vocês?”[13]

Vocês, irmãos graciosos, são os líderes, guias e figuras simbólicas da jihad e da batalha. Não nos vemos como dignos para vos desafiar, e nunca lutámos para alcançar a glória para nós próprios. Tudo o que desejamos ésermos a lança, a vanguarda e a ponte que a nação [islâmica] vai atravessar para a vitória que estáprometida e para o amanhãa que aspiramos. Esta éa nossa visão e explicámo-la. Este éo nosso caminho e nós tornámo-lo claro. Se concordarem connosco, se o adoptarem como programa e estrada e se estão convencidos da ideia de combater as seitas apóstatas, vamos ser os vossos soldados mais prontos, trabalhando sobre a vossa bandeira, cumprindo as vossas ordens e, de facto, jurando-vos fidelidade publicamente e nos média, vexando os infiéis e alegrando aqueles que pregam a unicidade de Deus. Nesse dia, os crentes vão rejubilar na vitória de Deus. Se as coisas vos parecem de outra forma, somos irmãos, e o desacordo não vai estragar a [nossa] amizade. [Esta é] uma causa [na qual] estamos a cooperar para o bem e apoio da jihad. Esperando a vossa resposta, que Deus vos preserve como as chaves para o bem e reservas do Islão e do seu povo.

 Ou seja, após cinco anos de resistência, al-Zarqawi mostrava-se disponível para jurar fidelidade a Bin Laden e à Al Qaeda. Foi o que aconteceu, mas só após oito meses de negociações. A 17 de Outubro de 2004, uma mensagem colocada num fórum islamita anunciava o juramento de lealdade de al-Zarqawi[14].

Numerosas mensagens foram trocadas entre Abu Musab(Deus o proteja) e a irmandade da Al Qaeda ao longo dos últimos oito meses, estabelecendo um diálogo entre eles. [] Os nossos generosos irmãos da Al-Qaeda perceberam a estratégia da organização Tawhid wal-Jihad no Iraque, a terra dos dois rios e dos Califas. [] [Para que se saiba]al-Tawhid wal-Jihad os seus líderes e os seus soldados juram fidelidade ao mujahedine, Sheikh Osama Bin Laden.

Foi uma aliança pragmática. Al-Zarqawi ganhava projecção ao associar-se à Al Qaeda e Bin Laden precisava de uma presença no Iraque, então o principal palco de guerra no Médio Oriente. Nessa altura, al-Zarqawi proclamou-se o “Emir das Operações da Al Qaeda na Terra da Mesopotâmia” e mudou o nome da organização para Tanzim Qaidat al-Jihad fi Bilad al-Rafidayin: Al Qaeda na Terra dos Dois Rios, Al Qaeda da Mesopotâmia ou o mais comum Al Qaeda no Iraque (AQI)[15].

Para além dos diversos atentados, al-Zarqawi tornou-se também conhecido pelo rapto e decapitação de reféns ocidentais – cujos vídeos eram depois partilhados na internet. Criou um estilo próprio: as vítimas eram vestidas em fatos cor-de-laranja, uma referência aos detidos na prisão de Guantánamo, em Cuba, e obrigadas a ajoelharem-se em frente a um grupo de homens vestidos de negro e voltados para uma câmara. Após uma breve declaração, os reféns eram executados. O primeiro foi o empresário norte-americano, Nicholas Berg, em Maio de 2004. [16] Outros se seguiram, como Eugene Armstrong e Jack Hensley. Decapitados pelo próprio al-Zarqawi.

A brutalidade dos seus métodos não se reflectia apenas nos prisioneiros ocidentais. Os ataques à população xiita, fosse em locais públicos ou templos religiosos, não pararam. E isso dificultou a já de si tensa relação que mantinha com a liderança da Al Qaeda.

Numa carta enviada a al-Zarqawi, no Verão de 2005, o braço direito e sucessor designado de Osama Bin Laden, o egípcio Ayman al-Zawahiri queixou-se dos métodos brutais aplicados pelo ramo iraquiano da Al Qaeda e do impacto negativo que os massacres e as decapitações estavam a ter na opinião pública mundial. Para al-Zawahiri, a Al Qaeda não devia cometer o erro dos Talibã, que alienaram a população, e ficar sem uma base de apoio para o estabelecimento de um futuro califado. A certa altura, o egípcio diz mesmo que podem “matar os reféns com uma bala”[17] – uma referência óbvia às imagens gráficas colocadas a circular na internet e que valeram a al-Zarqawi o cognome de “Xeique dos matadores.”

Ambos os grupos tinham o mesmo objectivo: estabelecer um Califado Islâmico. Apenas divergiam na forma de o alcançar. O jordano acreditava que a sociedade estava corrompida e necessitava de uma limpeza através da violência. Preferia também começar a purificação pelos regimes muçulmanos corruptos e obter resultados mais rapidamente. Já a Al Qaeda insistia em levar a guerra para o Ocidente e evitar, sempre que possível, acções que pudessem danificar a imagem do projecto jihadista. Era uma postura mais paciente, de longo prazo, que apostava no desgaste do inimigo[18].

Apesar das divergências entre a liderança da Al Qaeda e a sua filial iraquiana, a projecção atingida pela AQI começou a atrair outros grupos iraquianos que lutavam contra a ocupação dos Estados Unidos. Em Janeiro de 2006, a organização liderada por al-Zarqawi anunciou a fusão com cinco outras entidades: a Jaysh al-Taifa al-Mansura, a Saraya Ansar al-Tawhid, a Saraya al-Jihad al-Islami, a Saraya al-Ghuraba e a Kataib al-Ahwal. Juntos, formaram o  Majlis Shura al Mujahidin (Conselho Shura Mujahideen), uma coligação que tinha por objectivo coordenar melhor a resistência iraquiana[19].

Al-Zarqawi foi excluído do grupo de líderes com assento no conselho[20]. Apesar de ter tentado recuperar protagonismo, não teve tempo para o conseguir: a 7 de Junho desse ano, dois aviões F-16 da Força Aérea norte-americana bombardearam uma casa onde estava ele reunido com outros responsáveis da resistência iraquiana, na cidade de Baqubah, a norte de Bagdade[21]. A sua morte foi confirmada no local. Tinha 39 anos.

Na época, os Estados Unidos ofereciam uma recompensa de 25 milhões de dólares pela sua captura. Era o mesmo valor atribuído a Osama Bin Laden. Um sinal da sua importância. Por isso, esperava-se que a sua morte enfraquecesse a AQI. Na realidade, aconteceu exactamente o oposto. A organização, que já era financeiramente autónoma[22], reforçou-se. Em cinco dias, nomeou como novo líder Abu Ayyub al-Masri (nome de guerra de Abu Hamza al-Muhadhir). E, quatro meses mais tarde, o Conselho Shura Mujahideen anunciou a formação de um novo grupo: al-Dawla al-Islamiya fi Iraq, o Estado Islâmico do Iraque (ISI, em inglês). Tinha como líder, Abu Omar al-Baghdadi (nome de guerra de Hamid Dawud Muhammad Khalil al-Zawi).

Dois factos ocorridos nesta transição marcaram o futuro da relação da Al Qaeda central com a AQI – apesar de, na época, não se ter compreendido o seu significado mais profundo. O primeiro foi o juramento de fidelidade de Abu Ayyub al-Masri, sucessor de al-Zarqawi, ao líder do ISI, Abu Omar al-Baghdadi, a 10 de Novembro de 2006. O segundo foi a falta de uma declaração formal de fidelidade do ISI à Al Qaeda. São dois detalhes importantes. Os bayats são feitos entre líderes, não entre organizações. Ou seja, se um líder morrer ou for afastado, a nova liderança tem de prestar um novo juramento de fidelidade para se manter na órbita do grupo, no caso da Al Qaeda, ou então escolher afastar-se e tornar-se independente[23].

Nos anos seguintes, a Al Qaeda continuava determinada a ter o ISI como subordinado. Mas a verdade é que Abu Omar al-Baghdadi nunca jurou fidelidade a Osama Bin Laden. A criação do ISI tinha um objectivo: transformar grupos rebeldes num actor político-militar capaz de administrar território. Para isso, o ISI anunciou o controlo de uma área no oeste iraquiano, criou um governo, descreveu processos judiciais e exigiu às tribos que aceitassem a sua autoridade. Formalmente, a AQI deixou de existir e os seus combatentes tornaram-se soldados de um estado governado com base na religião[24]. No entanto, as comunidades que o grupo tentou governar acabaram por se opor à implementação da sua ideologia absolutista.

Mais do que uma divisão religiosa, estas comunidades obedecem a um sectarismo tribal. “O Iraque tem 176 tribos, várias têm xiitas e sunitas e para muitas delas não existem fronteiras”, explica o coronel do exército Nuno Pereira da Silva[25] que, entre 2009 e 2010, coordenou a equipa de aconselhamento e assessoria junto do Centro Nacional de Operações Conjuntas do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki, no âmbito da NATO. “Para eles em primeiro lugar está a família, depois a tribo, em seguida a religião e só no fim o Estado. Um exemplo: o gabinete de al-Maliki era composto apenas por elementos da sua família e a sua segurança era assegurada por membros da tribo, o mais próximos possíveis da família”, diz. “Além disso, há tribos com 10 milhões de pessoas que atravessam fronteiras. Cada chefe de tribo tem o seu partido político, as suas forças armadas e de segurança e os seus tribunais. Se um rapaz e uma rapariga de tribos diferentes fizerem qualquer coisa imprópria, os líderes negoceiam um casamento porque senão vão haver retaliações inter-tribais”, continua.

Quando o exército iraquiano foi desmantelado na sequência da invasão norte-americana, os militares que não foram integrados nas novas forças armadas regressaram à região de origem da sua tribo. “A maioria era sunita e foi para a zona norte, junto à fronteira com a Síria e atravessavam de um lado para o outro. Em 2010 todos os dias esses militares treinados faziam ataques para defender a sua população. Nessa época estavam identificados 34 ‘príncipes’ da AQI – indivíduos que degolaram 12 pessoas”, lembra o militar. Haveria então dezenas de atentados por dia.

Quando os militares norte-americanos compreenderam esta realidade, tentaram aproximar-se das tribos que tinham alienado e forneceram-lhes armas, treino e dinheiro para enfrentar os membros do ISI, num movimento que ficou conhecido Sahwa ou “Despertar”. Os chamados conselhos Sahwa reuniam militares norte-americanos e os líderes tribais sunitas, que tinham perdido privilégios com a deposição de Saddam Hussein, para discutir estratégias e coordenar esforços. Eles permitiram ainda integração de milhares de sunitas nas forças de segurança iraquianas e mais tarde em instituições estatais locais e nacionais[26]. O sucesso da iniciativa foi tão grande que, na Primavera de 2009, havia 100 mil sunitas a lutar contra o ISI.

A organização estava sob enorme pressão. As estimativas indicam que, ao todo, o ISI teria então 15.000 elementos. No início de 2008, 2400 tinham morrido em combate e 8.800 cumpriam pena de prisão. Muitos outros fugiram do país. A violência estava a diminuir de tal forma que o prémio oferecido pelos Estados Unidos em troca do líder da AQI, nomeado ministro da guerra do ISI, Abu Ayyub al-Masri, diminuiu de 4,7 milhões de euros para apenas 94.000 euros[27].

A 18 de Abril de 2010, os Estados Unidos pareciam ter desferido o golpe final sobre o grupo: Abu Ayyub al-Masri e Abu Omar al-Baghdadi foram mortos por um ataque aéreo. Em Julho desse ano, o principal comandante norte-americano no Iraque, General Ray Odierno, deu uma conferência de imprensa em Washington onde apresentou um discurso triunfal[28]: 34 dos 42 líderes da organização tinham sido mortos ou capturados, a organização tinha “perdido contacto” com a liderança central da Al Qaeda, no Paquistão, e teria problemas em criar novas bases. “Acho que eles estão em dificuldades e penso que vai ser difícil continuarem a recrutar”, afirmou. “Capturámos vários líderes que tratavam das finanças, planeamento e recrutamento – alguns advogados que trabalhavam de forma a levar prisioneiros que eram libertados para a Al Qaeda. Fomos capazes de entrar nesta rede”, disse.

O responsável deixou mesmo no ar a insinuação de que os novos líderes do grupo podiam não existir: “nem temos a certeza de que há pessoas por detrás dos nomes”. Havia. O principal era o do novo líder do ISI, Ibrahim bin Awwad al-Badri al Samarrai. Nome de guerra: Abu Bakr al-Baghdadi.

[1] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi, Mary Anne Weaver, The Atlantic, 1 de Julho de 2006, http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2006/07/the-short-violent-life-of-abu-musab-al-zarqawi/304983/, consultado em Dezembro de 2014

[2] The Islamic State. Richard Barrett, The Soufan Group, Novembro 2014, p.11,  http://soufangroup.com/the-islamic-state/

[3] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[4] Profiling the Islamic State, Charles Lister, Brookings Doha Center, Novembro 2014, p.6, http://www.brookings.edu/~/media/Research/Files/Reports/2014/11/profiling%20islamic%20state%20lister/en_web_lister.pdf

[5] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[6] Idem

[7] The Islamic State. Richard Barrett… p.11

[8] Al-Zarqawi’s Biography, Craig Whitlock, Washington Post, 8 de Junho de 2006, http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/06/08/AR2006060800299.html, consultado em Dezembro de 2014

[9] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[10] Al-Zarqawi’s Biography, Craig Whitlock…

[11] U.S. Secretary of State Colin Powell Addresses the U.N. Security Council, 5 de Fevereiro de 2003, http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/news/releases/2003/02/20030205-1.html, consultado em Novembro de 2014

[12] Profiling the Islamic State, Charles Lister… p.7

[13] Carta de al-Zarqawi, US Department of State, Archive http://2001-2009.state.gov/p/nea/rls/31694.htm consultado em Novembro de 2014

[14] Zarqawi’s Pledge of Allegiance to Al-Qaeda: From Mu’asker Al-Battar, Terrorism Monitor, volume 2, issue 24, The Jamestown Foundation, http://www.jamestown.org/single/?tx_ttnews%5Btt_news%5D=27305#.VOtdJSusVqU

[15] The Islamic State. Richard Barrett… p.11.

[16] Before Killing James Foley, ISIS Demanded Ransom From U.S., Rukmini Callimachi, 20 Agosto 2014, The New York Times, http://www.nytimes.com/2014/08/21/world/middleeast/isis-pressed-for-ransom-before-killing-james-foley.html?_r=0, consultado em Dezembro de 2014

[17] Office of the Director of National Intelligence, Letter from al-Zawahiri to al-Zarqawi, 11 Outubro 2005, http://fas.org/irp/news/2005/10/dni101105.html, consultado em Dezembro de 2014

[18] Profiling the Islamic State, Charles Lister… p.8

[19] Idem

[20] Al Qaeda in Iraq, M. J. Kirdar, CSIS – Center For Strategic & International Studies, Junho 2011, p.5 http://csis.org/files/publication/110614_Kirdar_AlQaedaIraq_Web.pdf consultado em Janeiro de 2015

[21] Insurgent Leader Al-Zarqawi Killed in Iraq, Ellen Knickmeyer e Jonathan Finer, The Washington Post, 8 de Junho de 2006, http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/06/08/AR2006060800114.html, consultado em Dezembro de 2014.

[22] An Economic Analysis of the Financial Records of al-Qa’ida in Iraq… p.14

[23] The Islamic State vs. al Qaeda, Who’s winning the war to become the jihadi superpower?, J.M. Berger, Foreign Policy, 2 de Setembro de 2014, http://foreignpolicy.com/2014/09/02/the-islamic-state-vs-al-qaeda/, consultado em Novembro de 2014

[24] Redefining the Islamic State, The Fall and Rise of Al Qaeda in Iraq, Brian Fishman, New America Foundation, Agosto de 2011, p.9, http://security.newamerica.net/sites/newamerica.net/files/policydocs/Fishman_Al_Qaeda_In_Iraq.pdf

[25] Entrevista realizada a 25 de Fevereiro de 2015

[26] The Status and Future of the Awakening Movements in Iraq, Michael Knights, Carnegie Endowment for International Peace, 2 de Junho de 2009, http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/the-status-and-future-of-the-awakening-movements

[27] Al Qaeda in Iraq, M. J. Kirdar… p.5

[28] Qaeda Leaders in Iraq Neutralized, U.S. Says, Thom Shanker, The New York Times, 4 de Junho de 2010, http://www.nytimes.com/2010/06/05/world/middleeast/05military.html, consultado em Novembro de 2014

Os segredos dos espiões

Quando falamos do jornalismo português, o mais vulgar é ouvirmos vozes que se lamentam da sua falta de qualidade, da inexistência de repórteres de investigação ou da ausência de jornalistas independentes. Muitas vezes essa crítica é injusta. Sobretudo para aquele grupo de repórteres que se dedicam a isso mesmo: a investigar, a denunciar, a trazer a lume histórias desconhecidas dos principais protagonistas da vida portuguesa ou de anónimos que, nos bastidores, movimentam influências. É o caso do António José Vilela.

Trabalho com ele há 10 anos. Primeiro (pouco), em O Independente. Depois, na Sábado. Nesta década vi-o, semana após semana, a publicar dos mais consistentes e certeiros trabalhos da imprensa portuguesa. Assim de repente lembro-me, entre outros, dos longos artigos sobre o caso Freeport; da investigação sobre o envolvimento de Duarte Lima no BPN; da notícia da existência de uma investigação aos Vistos Gold; das histórias dos casos BES, Furacão e Monte Branco; das revelações sobre a Maçonaria e negócios militares e, claro, no último ano, sobre a Operação Marquês.

Ao longo destes anos tive o privilégio de com ele assinar alguns trabalhos. Com ele aprendi muito sobre jornalismo – apesar de nem sempre estarmos de acordo sobre as opções a tomar. Nem temos que estar. As discordâncias são normais na vida. E normalmente chegamos a um consenso. Mais do que um simples colega, ele tornou-se um amigo. Daqueles com quem se pode contar. Mas não é por isso que escrevo este post: faço-o porque hoje é o dia do lançamento do seu mais recente livro Os códigos e as operações dos espiões portugueses – um tema sobre o qual ele escreve há muito e que surge numa altura em que as eventuais actividades dos serviços de informações estão a ser discutidas nos tribunais. É, por tudo, um livro importante. É, sobretudo, um livro bom. Muito bom. A apresentação é às 18h30 na Bertrand das Amoreiras. E como amostra fica aqui o primeiro capítulo.

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1 – As regras: o conde francês, a colega bisbilhoteira da loja da Baixa e o espião com bom senso

Alexandre de Marenches foi um aristocrata francês que se tornou militar e lutou contra os alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Na altura, chegou a escapar à prisão pela Gestapo atravessando a pé os Pirenéus para se juntar à resistência francesa. Acabou a guerra a combater em Itália depois de se juntar às tropas norte -americanas que tomaram Roma. Com o fim do conflito bélico, o oficial do Exército passou à reserva com o posto de coronel e entrou definitivamente nos negócios que a família mantinha na indústria. Mas manteve- se sempre próximo do poder político e extremamente crítico dos ideais comunistas. Em 1969, com a chegada à Presidência de França do antigo primeiro-ministro Georges Pompidou – após a demissão de Charles de Gaulle, o mais emblemático político francês do pós -guerra com quem Marenches se incompatibilizara –, o novo presidente decidiu proceder a alterações profundas nos serviços secretos, sobretudo ao nível da contraespionagem externa.

O homem escolhido para essa tarefa foi precisamente Alexandre de Marenches, que acabou por mandar durante mais de uma década, entre novembro de 1970 e junho de 1981, no poderoso Service de Documentation Extérieure et de Contre -Espionnage (SDECE), que deu origem no ano seguinte à Direction Générale de la Sécurité Extérieure (DGSE). O conde de Marenches – como era conhecido o aristocrata – tornou-se célebre no mundo da espionagem e também fora dele, sobretudo depois dos dois livros que escreveu já na reforma e em parceria com jornalistas.

Nos anos 80, ainda chegou a ser conselheiro especial do presidente norte -americano Ronald Reagan e foi a uma longa citação do antigo espião francês que o SIS recorreu para abrir, em 1988, o primeiro manual destinado à formação de espiões portugueses. «As informações são uma espécie de puzzle permanente, multiforme e policromo, que se faz e desfaz sem cessar, um pouco como os projetores coloridos que rodam nas discotecas dos jovens. As informações consistem em procurar continuamente, e por todo o lado, um certo número de pedaços que outras pessoas no interior do mesmo serviço tentam ajustar para formar o puzzle. A grande dificuldade é que, à medida que se consegue tapar os vazios com novas peças, o puzzle muda instantaneamente. Evolui sem parar.»

Recém- criado e envolto em forte polémica devido à cerrada oposição dos partidos políticos de esquerda, que viam nos serviços de informações um regresso ao tempo da polícia política PIDE/DGS, o SIS viveu os primeiros anos com grandes dificuldades, pois faltava -lhe quase tudo: apoio político, meios, experiência no terreno e formação. Mais de 25 anos depois, quando se lê o primeiro manual usado para ensinar os espiões do SIS, dificilmente se deixa de reparar em vários exemplos muito terra- a -terra que foram usados para ilustrar o que realmente se queria do novo serviço de informações e dos seus espiões.

Uma das principais qualidades exigidas era a de que um bom agente devia «saber calar -se» no momento certo, mas também deter o «domínio da oralidade». No manual do SIS estavam registados outros atributos dos espiões, quase todos relacionados com o bom senso, a discrição e a capacidade de trabalho. Eis alguns exemplos concretos do que se pedia a um bom agente:
– motivação para a realização de uma tarefa difícil; inteligência para assimilar rapidamente um grande número de factos; flexibilidade de espírito para se adaptar às novas situações; imaginação e curiosidade temperadas com bom senso; honestidade intelectual para captar e transmitir factos como são e não como o espião ou os seus chefes desejariam que fossem;capacidade de trabalho em grupo e sem horários; lealdade para com o seu país e o seu serviço; estabilidade emocional para fazer bons julgamentos; e capacidade de separar a realidade da ficção.
Os exemplos e as explicações usados pelo SIS eram simples, quase maniqueístas, mesmo quando o objetivo passava por mostrar aos espiões a diferença entre o que era uma «notícia», um facto isolado, e as verdadeiras informações que resultavam da integração de vários acontecimentos. Para ilustrar esta diferença fundamental, o manual recorria a uma história ficcionada com três personagens principais que integravam um grupo mais alargado de funcionários da Loja da Moda, situada na movimentada Baixa de Lisboa. Tratava -se de a «D. Ana», o «Sr. Lopes» e uma «colega bisbilhoteira».

O enredo começava no momento em que a funcionária desconfiada decidira anotar os locais onde cada um dos dois colegas lhe dizia que passava os fins de semana. Durante quatro meses a mulher registou as informações que lhe eram dadas de forma individual, e em incautas conversas, por cada um dos dois colegas. Para cada um dos alvos fez também corresponder um quadro com cada um dos 17 fins de semana onde escreveu de forma metódica os destinos – Sesimbra, Lisboa, Troia, Malveira, Ericeira… O primeiro passo da espia de ocasião estava dado. «Tanto num caso como no outro, a senhora bisbilhoteira obteve e registou notícias (neste caso, verdadeiras)», frisava o manual do SIS, notando que ainda era muito cedo para tirar conclusões: «Essas notícias não permitem concluir nada entre um possível relacionamento dos dois empregados na Loja da Moda.»

Pois não, mas o caminho era mesmo este para encontrar as conexões. Quando integrados e cruzadas as informações registadas da D. Ana e do Sr. Lopes num só quadro, a colega bisbilhoteira passaria a ter dados realmente interessantes: 14 das 17 saídas de fim de semana dos colegas tinham tido um destino comum. Para confirmar o maldizer alheio já bastaria, mas isso não chega no mundo da espionagem, conforme especificavam as recomendações do SIS: «Claro que não pode afirmar, por enquanto, que haja uma relação amorosa entre ambos. Para o fazer conscientemente teria de continuar a pesquisa.»

Depois deste pequeno capítulo sobre «Informações e Notícias», que ia buscar inspiração às escapadinhas amorosas de empregados de balcão, o manual do SIS ensinava os espiões a focalizar de imediato a atenção em problemas mundiais então relativamente recentes como a longa e devastadora guerra entre o Iraque e o Irão, a invasão falhada do Afeganistão pelas tropas soviéticas e a crise petrolífera que se seguira ao ataque militar do Egito e da Síria a Israel. Para a secreta portuguesa, algumas das nefastas consequências destes casos eram simplesmente explicáveis por falhas na recolha e tratamento de informações sobre o adversário e as ameaças reais, conforme concretizava o novo capítulo do manual chamado «Informações prospetivas: previsão de possibilidade». Num ápice, os agentes passavam a saber que as regras da espionagem tanto se aplicavam na Baixa de Lisboa como no palco internacional da intriga política.

Nos bastidores do colonialismo do século XXI

É um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Do jornalista do Financial Times, Tom Burgis, A Pilhagem de África faz um retrato cru da forma como os recursos naturais africanos estão a ser explorados por uma elite corrupta que pensa em primeiro lugar no seu próprio bem estar do que no das populações que devia proteger. Mais que isso: o repórter revela como uma série de intermediários se servem das suas ligações ao poder para facturar milhões enquanto permanecem nas sombras. No centro de toda a obra está o crescimento de Angola como exportador de matérias primas para a China e dois personagens chave: Manuel Vicente e um misterioso Sam Pa. Este é o capítulo de introdução.

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A MALDIÇÃO DAS RIQUEZAS

Do lado oposto da Bolsa de Nova Iorque, naquilo a que a placa de sinalização turística chama as «encruzilhadas financeiras do mundo», a fachada de pedra imponente do n.° 23 de Wall Street evoca o poder do homem para cujo banco foi construída para acolher em 1913: J.P. Morgan, o titã capitalista da América. O exterior do edifício é conhecido através de Hollywood — serviu de bolsa da cidade de Gotham no filme O Cavaleiro das Trevas Renasce, de 2012 — mas, quando o visitei, em 2013, a capete vermelha estava suja e encharcada com a chuva miudinha que soprava do Atlântico. Através dos vidros foscos dos portões de metal fechados, a única coisa visível no interior esventrado onde brilhou, em tempos, um grande e esplandecente lustre eram algumas lâmpadas fluorescentes, escadarias forradas em madeira contraplacada e um sinal vermelho brilhante que dizia «SAÍDA».

Apesar do mau estado, o n.° 23 de Wall Street permanece um símbolo da elite, um troféu no jogo permanentemente mutável do comércio mundial. O endereço dos seus atuais donos é um escritório no décimo andar de um arranha‑céus em Hong Kong. Anteriormente um quartel do exército britânico, o n.° 88 de Queensway foi transformado nas torres espelhadas do Pacific Place, refletindo a luz solar sobre o centro financeiro. O sumptuoso centro comercial do rés-do-chão, com ar condicionado contra a pesada humidade lá de fora, tem as paredes forradas com lojas de marcas de luxo: Armani, Prada, Chanel, Dior. O Hotel Shangri La, que ocupa os andares de cima da segunda das sete torres do Pacific Place, tem suites a 10 mil dólares por noite.

O escritório, no décimo andar, é muito mais discreto. Assim como o pequeno grupo de homens e mulheres que o usam como morada oficial para si próprios e para a sua rede de empresas. Para aqueles que tentaram seguir a sua evolução, são informalmente conhecidos como o «Queensway Group».  Os seus interesses, mantidos através de uma estrutura empresarial complexa e mecanismos offshore sigilosos, estão em Moscovo e Manhattan, Coreia do Norte e Indonésia. Os seus parceiros comerciais incluem empresas estatais chinesas; a BP, a Total e outras empresas petrolíferas ocidentais; e a Glencore, o gigante do comércio de bens essenciais sediado numa cidade suíça. Porém, a fortuna e influência do Queensway Group advêm‑lhe fundamentalmente dos recursos naturais que se encontram por baixo dos solos de África.

Aproximadamente equidistante, a cerca de 11 mil quilómetros de cada uma, entre o n.° 23 de Wall Street em Nova Iorque e o n.° 88 de Queensway, em Hong Kong, ergue-se outro arranha­céus. O edifício dourado no centro da capital de Angola, Luanda, sobe até aos 24 andares, oferecendo uma ampla vista para a baía onde o Atlântico banha as costas do sudoeste de África. É chamado CIF Luanda One, mas é conhecido pelos habitantes como o Edifício Tom e Jerry, por causa dos desenhos animados que eram projetados nas suas paredes exteriores quando tomava forma, em 2008. No interior, há um salão de baile, um bar com zona de fumadores e os escritórios de empresas petrolíferas estrangeiras que exploram as suas prodigiosas reservas submarinas de crude.

Um guarda com ar sólido vigia a entrada, acima da qual esvoaçam três bandeiras. Uma é a de Angola. A segunda é da China, a potência emergente que construiu estradas, pontes e caminhos de ferro em abundância em Angola, que, por sua vez, fornece um em cada sete barris do petróleo que a China importa para alimentar o seu vertiginoso crescimento económico. A estrela amarela do comunismo adorna ambas as bandeiras, mas, hoje em dia, as credenciais socialistas dos governantes de cada nação coexistem desconfortavelmente com a sua riqueza fabulosa.

A terceira bandeira não pertence a nenhuma nação, mas sim à empresa que construiu a torre. Sobre um fundo branco, ostenta três grandes letras: CIF, que quer dizer China International Fund (Fundo Internacional da China), um dos braços mais visíveis da misteriosa rede multinacional do Queensway Group. Combinadas, as três bandeiras são estandartes de um novo tipo de império.

Em 2008, comecei a trabalhar como correspondente do Financial Times em Joanesburgo. Eram tempos de crescimento acelerado — ou, pelo menos, tinham sido. Os preços das matérias‑primas que a África do Sul e os seus vizinhos possuem em abundância tinham crescido inexoravelmente desde o princípio do milénio, à medida que a China, a Índia e outras economias de crescimento rápido desenvolviam um apetite voraz por recursos. Durante os anos 90 do século passado, o preço médio de uma onça de platina tinha sido de 470 dólares. Uma tonelada de cobre custava $2600, um barril de petróleo bruto, $22. Em 2008, o preço da platina triplicara para $1500, e o cobre era duas vezes e meia mais caro, estando a $6800. O petróleo tinha mais do que quadruplicado, para $95, e, num dia de julho de 2008, atingiu $147 por barril. Até que o sistema bancário americano implodiu. As ondas de choque fizeram‑se sentir na economia à escala global e os preços das matérias‑primas caíram. Executivos, ministros e mineiros desempregados assistiam horrorizados enquanto a irresponsabilidade de banqueiros distantes punha em perigo os rendimentos dos recursos que representavam a sobrevivência económica de África. Mas a China e o resto do mundo continuaram a crescer. Alguns anos depois, os preços das matérias‑primas regressaram aos níveis que antecederam a crise. O crescimento foi retomado.

Andei pelo sul de África durante um ano, cobrindo eleições, golpes de estado e julgamentos por corrupção, esforços para aliviar a pobreza e as fortunas das empresas mineiras gigantes com sede em Joanesburgo. Em 2009, fui viver para Lagos a fim de passar dois anos a acompanhar o barril de pólvora que constituem as nações da África Ocidental.

Há muitas teorias sobre as causas da penúria e conflitos do continente, muitas das quais encaram os 900 milhões de pessoas e 48 países da África negra, a região a sul do deserto do Sara, como uma massa homogénea. Os colonizadores tinham arruinado a África, diziam alguns dos autores das teorias, e o seu sofrimento foi agravado pelos ditames do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional; outros consideravam que os africanos são incapazes de se governar, são excessivamente «tribais» e, por natureza, dados à corrupção e à violência. Depois, havia aqueles que achavam que África estava a ir muito bem, em geral, mas que os jornalistas que procuram histórias sensacionalistas e as organizações de beneficência que pretendem sensibilizar os doadores distorciam a sua imagem. As receitas eram tão variadas e contraditórias como os diagnósticos: cortar os gastos dos governos para permitir que as empresas privadas cresçam; concentrar‑se na reforma das forças armadas; promover a «boa governação» ou capacitar as mulheres; bombardear o continente com ajuda; ou forçar a abertura dos mercados africanos a fim de arrastar o continente para a economia global.

Enquanto o mundo rico lutava com a recessão, os analistas, investidores e peritos em desenvolvimento começaram a declarar que África, pelo contrário, estava a crescer. Os indicadores comerciais sugeriam que, graças a uma revolução económica conduzida pelo aumento da procura de matérias‑primas, uma classe média florescente estava a substituir a tendência africana para o conflito por um consumo vertiginoso de telemóveis e whiskey caro. Porém, esta análise otimista apenas se justificava em zonas muito delimitadas do continente. Quando viajei pelo Delta do Níger, a zona poluída por derrames de petróleo onde se situa a indústria petrolífera da Nigéria, ou nos campos de batalha ricos em minerais do leste do Congo, comecei a acreditar que a grande abundância de recursos naturais de África não iria ser a sua salvação, mas sim a sua maldição.

Há mais de duas décadas que os economistas tentam perceber o que faz com que os recursos naturais semeiem o caos. «Paradoxalmente», escreveram Macartan Humphreys, Jeffrey Sachs e Joseph Stiglitz da Universidade de Columbia, em 2007, «apesar das perspetivas de riqueza e oportunidades que acompanham a descoberta e extração de petróleo e outros recursos naturais, é demasiado frequente tais dádivas impedirem em vez de promoverem o desenvolvimento sustentável e equilibrado».

Os analistas da consultora McKinsey calcularam que 69 por cento das pessoas em pobreza extrema vivem nos países onde o petróleo, gás e minerais desempenham um papel dominante na economia e que os rendimentos médios nesses países se encontram esmagadoramente abaixo da média global. O enorme número de pessoas que vive naqueles que são alguns dos estados mais ricos do planeta, medidos pelos seus recursos naturais, é impressionante. Segundo o Banco Mundial, a proporção da população que vive em pobreza extrema, calculada como sendo aqueles que vivem com menos do que $1,25 por dia e ajustada ao que essa miserável quantia compra em cada país, é de 68 por cento na Nigéria e 43 por cento em Angola, respetivamente o primeiro e segundo maiores produtores de petróleo e gás. Na Zâmbia e no Congo, cuja fronteira comum divide a cintura de cobre de África, a taxa de pobreza extrema é de 75 por cento e 88 por cento, respetivamente. Por comparação, 33 por cento dos indianos vive em pobreza extrema, 12 por cento dos chineses, 0,7 por cento dos mexicanos e 0,1 por cento dos polacos.

O fenómeno a que os economistas chamam «a maldição dos recursos» não dá, obviamente, uma explicação universal para a existência da guerra nem da fome, em África ou noutra parte do mundo: a corrupção e a violência étnica também atingiram países africanos onde as indústrias de recursos são uma parte relativamente insignificante da economia, como o Quénia. Nem todos os países ricos em recursos estão condenados: veja‑se a Noruega. Porém, a maior parte das vezes, acontecem coisas desagradáveis nos países onde as indústrias extrativas, como são conhecidas as empresas petrolíferas e mineiras, dominam a economia. O resto da economia fica distorcido à medida que os dólares são despejados no país para  comprar recursos. A receita que os governos recebem dos recursos das suas nações não é ganha: os estados simplesmente atribuem licenças a empresas estrangeiras para bombear petróleo ou escavar minério. Este tipo de rendimento é chamado «renda económica» e não promove uma boa gestão. Cria um pote de dinheiro à disposição daqueles que controlam o estado. Em níveis extremos, o contrato entre governantes e governados quebra‑se porque a classe governante não precisa de lançar impostos sobre as pessoas para financiar o governo — por isso, não precisa do consentimento delas.

Sem qualquer compromisso para com a população, um regime alimentado por recursos naturais tem tendência para gastar o rendimento nacional em coisas que beneficiam os seus próprios interesses: as despesas com a educação caem, ao mesmo tempo que os orçamentos militares aumentam. A indústria de recursos é geneticamente propensa à corrupção. A cleptocracia, ou governo pelo roubo, prospera. Uma vez no poder, há poucos incentivos para o deixarem. Uma economia baseada num pote central de rendimentos dos recursos é a receita para uma política de «homens grandes». Os quatro governantes que há mais tempo se mantêm no poder — Teodoro Obiang Nguema, da Guiné Equatorial, José Eduardo dos Santos, de Angola, Robert Mugabe, do Zimbabué, e Paul Biya, dos Camarões — presidem todos a estados africanos ricos em petróleo e minerais. Somados, governam há 136 anos.

Dos oligarcas russos do petróleo até aos conquistadores que saquearam o ouro e a prata da América Latina há séculos, as rendas dos recursos concentram riqueza e poder nas mãos de poucos. Eles geram aquilo a que Said Djinnit, um político argelino que, como alto funcionário das Nações Unidas na África Ocidental, servindo como mediador numa sucessão de golpes de estado, chama «a luta pela sobrevivência ao mais alto nível.» A sobrevivência significa capturar esse pote de rendimento. Muitas vezes, significa que outros têm de morrer. A maldição dos recursos não é exclusiva de África, mas é mais virulenta no continente que é, ao mesmo tempo, o mais pobre do mundo e, provavelmente, o mais rico.

África tem 13 por cento da população mundial e apenas 2 por cento do seu produto interno bruto cumulativo, mas é o repositório de 15 por cento das reservas de petróleo bruto do planeta, 40 por cento do seu ouro e 80 por cento da sua platina — e esta é provavelmente uma subavaliação, dado que o continente foi menos minuciosamente explorado do que outros.  As minas de diamantes mais ricas estão em África, tal como estão significativos depósitos de urânio, cobre, minério de ferro, bauxite (o minério usado para fazer o alumínio), e praticamente todos os outros frutos da geologia vulcânica. Segundo um cálculo, a África contém cerca de um terço dos recursos minerais e hidrocarbonetos.

As pessoas de fora muitas vezes pensam em África como um sumidouro de filantropia, um continente que engole ajuda em vão, e, em troca, contribui pouco para a economia global. Mas olhe‑se mais atentamente para a indústria dos recursos, e a relação entre África e o resto do mundo parece bastante diferente. Em 2010, as exportações minerais e de combustíveis vindas de África valiam $333 mil milhões, mais do que sete vezes o valor da ajuda que seguiu em sentido contrário (e isto antes de incluir as vastas somas que se esfumaram para fora do continente através da corrupção e de artimanhas fiscais).10 Contudo, a disparidade entre a vida nos lugares onde esses recursos se encontram e os lugares onde são consumidos dá uma ideia de onde os benefícios do petróleo e da atividade mineira se acumulam — e por que razão a maior parte dos africanos ainda mal sobrevive. Por cada mulher que morre de parto em França, cem morrem na nação desértica do Níger, a principal fonte de urânio que abastece uma economia de França alimentada por energia nuclear. O finlandês ou sul‑coreano médio pode esperar viver 80 anos, sustentados por economias entre cujas empresas mais valiosas estão, respetivamente, a Nokia e a Samsung, os dois principais fabricantes de telemóveis do mundo. Por contraste, se por acaso nasceu na República Democrática do Congo, que tem alguns dos depósitos mais ricos de minerais que são cruciais para a produção de baterias de telemóveis, terá sorte se passar dos 50 anos.

Os carregamentos de petróleo e minério africanos andam para cá e para lá, principalmente para a América do Norte, Europa e, cada vez mais, para a China, mas em geral os recursos naturais do continente afluem para um mercado global no qual os operadores baseados em Londres, Nova Iorque e Hong Kong estabelecem os preços. Se a África do Sul exportar menos ouro, a Nigéria menos petróleo, ou o Congo menos cobre, o preço sobe para toda a gente. As rotas comerciais mudam: a produção crescente de gás de xisto nos Estados Unidos fez reduzir as importações de petróleo da Nigéria ultimamente, por exemplo, com o petróleo a ir antes para a Ásia. Porém, com base na proporção do fornecimento mundial total pelo qual África é responsável, se se abastecer o carro 14 vezes, um desses depósitos terá sido refinado a partir de petróleo africano.11 Da mesma maneira, há uma lasca de tântalo das terras áridas do leste do Congo dentro de um em cada cinco telemóveis.

África não só é desproporcionalmente rica em recursos naturais, como também é desproporcionalmente dependente deles. O Fundo Monetário Internacional define um país «rico em recursos» — um país que está em risco de sucumbir à maldição dos recursos — como sendo um país que depende dos recursos naturais em mais de um quarto das suas exportações. Há pelo menos 20 países africanos que se incluem nesta categoria. Os recursos são responsáveis por 11 por cento das exportações da Europa, 12 por cento das da Ásia, 15 das da América do Norte, 42 por cento da América Latina e 66 por cento das de África —ligeiramente mais do que nos antigos estados soviéticos e ligeiramente menos do que no Médio Oriente.13 O petróleo e o gás são responsáveis por 97 por cento das exportações da Nigéria e 98 por cento das de Angola, onde os diamantes constituem grande parte do resto.14 Quando, na segunda metade de 2014, os preços das matérias‑primas começaram a cair, os estados africanos donos dos recursos foram lembrados dessa dependência: o crescimento acelerado conduzira a extravagâncias ao nível dos gastos e do crédito, e a perspetiva de uma queda abrupta nos rendimentos dos recursos fizeram os orçamentos da Nigéria, Angola e outros países ficar numa situação claramente precária.

A maldição dos recursos não é meramente um fenómeno económico infeliz, produto de uma força intangível; pelo contrário, o que está a acontecer nos estados donos de recursos em África é uma pilhagem sistemática. Tal como as suas vítimas, os seus beneficiários têm nomes. O saque do sul de África começou no século xix, quando as expedições de descobridores, enviados imperiais, mineiros, mercadores e mercenários se internavam desde a costa até ao interior do continente, o seu apetite por riquezas minerais aguçado por diamantes e ouro à volta do entreposto que haviam fundado em Joanesburgo. Ao longo da costa africana, os operadores costeiros partiam já com escravos, ouro e óleo de palma. Em meados do século xx já era extraído petróleo na Nigéria. À medida que os colonos europeus partiam e os estados africanos conquistavam a sua soberania, os colossos empresariais da indústria dos recursos conservaram os seus interesses. Apesar de todos os avanços tecnológicos que definiram o início do milénio — e apesar do começo da perceção dos danos que os combustíveis fósseis estão a impor ao planeta —, as matérias‑primas básicas que existem em abundância em África continuam a ser os principais ingredientes da economia global.

Os responsáveis das indústrias mineira e do petróleo, que compreendem muitas das empresas multinacionais mais ricas, não gostam de pensar em si próprios como parte do problema. Alguns consideram‑se parte da solução. «Metade do PIB do mundo é baseado nos recursos», disse Andrew Mackenzie, diretor executivo da maior empresa mineira do mundo, BHP Billiton, num jantar de 500 altos dignitários da indústria, no Lord’s Cricket Ground, em Londres, em 2013. «Eu diria: é todo», continuou ele. «É esse o nobre objetivo da nossa atividade: fornecer o crescimento económico que ajuda milhões, se não milhares de milhões de pessoas a sair da pobreza.» A extração mineira não é necessariamente pilhagem; há mineiros, senhores do petróleo e empresas inteiras cuja ética e conduta são contrárias à dos saqueadores. Muitos das centenas de executivos, geólogos e financiadores desta área que conheci acreditam que estão efetivamente a servir uma causa nobre — e muitos conseguem argumentar justificando que, sem os seus esforços, as coisas estariam muito piores. O mesmo acontece com os políticos e funcionários públicos africanos que lutam por aproveitar os recursos naturais para tirar os seus compatriotas da pobreza. Contudo, a máquina que está a pilhar África é mais poderosa do que todos eles.

Essa máquina de pilhagem foi modernizada. Onde outrora os tratados assinados à força expropriavam os habitantes de África da sua terra, ouro e diamantes, hoje as falanges de advogados que representam as empresas petrolíferas e empresas mineiras com receitas anuais de centenas de milhares de milhões de dólares impõem condições de miséria aos governos africanos e utilizam esquemas de evasão fiscal para retirar receita às nações pobres. Em vez dos antigos impérios, ocultam‑se agora redes de multinacionais, agentes e potentados africanos. Estas redes fundem o poder dos estados e das empresas. Não estão alinhados com nenhuma nação e pertencem, antes, a elites transnacionais que floresceram na era da globalização. Servem, acima de tudo, o seu próprio enriquecimento.

O primeiro capítulo, dedicado a Angola, está disponível aqui.