Uma “media blitz”

O Macer Gifford teve uma expressão feliz para os dois dias que esteve em Lisboa. Chamou-lhe “media blitz”. E foi exactamente isso que aconteceu há uma semana, entre 17 e 18 de Novembro. A presença dele em Portugal para a apresentação do meu novo livro, Heróis Contra o Terror, chamou a atenção de muita gente interessada em conhecer melhor não só a história do Mário Nunes mas também dos outros voluntários internacionais que, como ele, decidiram juntar-se às Unidades de Protecção Popular curdas na luta contra o autoproclamado Estado Islâmico. Espero que gostem. Eles merecem.

Heróis Contra o Terror: estão convidados para o lançamento

É já na 5ª feira, 17 de Novembro, na livraria Bertrand do Amoreiras Shopping Center, com o Rui Cardoso Martins e o Macer Gifford. Tem tudo para ser um debate interessante. Apareçam, que estão todos convidados.

Se quiserem seguir as novidades do livro, é só clicar na imagem e fazer like na página de Facebook.

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Heróis Contra o Terror: pré-publicação na Sábado

No último ano, uma boa parte das minhas noites foram passadas à volta deste projecto. A fazer entrevistas por Skype, a pesquisar, a trocar (muitas) mensagens escritas e a escrever. O resultado chega esta semana às livrarias. O livro Heróis Contra o Terror tem como fio condutor a história de Mário Nunes, o primeiro português a ir para a Síria combater o Estado Islâmico. Mas pelo meio conta também a história de cerca de 15 voluntários internacionais que, como ele, deixaram para trás empregos, amigos e família, para ir combater a maior ameaça dos tempos modernos. Voluntariamente. Sem a colaboração deles, este livro não teria sido possível.

Esta quinta-feira, a Sábado faz a pré-publicação de um capítulo: aquele que conta como Mário Nunes, na segunda vez que esteve na Síria, conseguiu entrar para uma unidade secreta, composta só por voluntários ocidentais. Se quiserem é uma espécie de forças especiais das milícias curdas YPG. Espreitem. Espero que abra o apetite para o resto do livro.

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Coming soon…

… numa livraria perto de si.

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Para quem quiser saber mais sobre o Estado Islâmico

Hoje em dia há cada vez mais – e melhores – livros sobre o auto-proclamado Estado Islâmico. Ainda assim, não me levem a mal por puxar a brasa à minha sardinha. Este foi publicado em Maio. E apesar de o título ser Os combatentes portugueses do Estado Islâmico, lá podem encontrar toda a história do mais terrível grupo terrorista mundial, como se organiza, como funciona, como se financia, como comunica e como propaga a sua ideologia. Ficarão também a conhecer os seus líderes, para além dos protagonistas nacionais e luso-descendentes e a história sobre como as autoridades portuguesas foram informadas da sua presença na Síria.  Agora que o Natal se aproxima, nada melhor do que fazer uma sugestão para um presente a um amigo ou um familiar. E para abrir o apetite, deixo aqui um capítulo.

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As origens

Desde que saltou para as primeiras páginas dos jornais e para a abertura dos telejornais, o Estado Islâmico tem sido apresentado como um grupo dependente da Al Qaeda ou com origens na Al Qaeda do Iraque (AQI). Não sendo totalmente falsa, essa definição também não é inteiramente correcta. É apenas uma simplificação que ignora alguns detalhes – e esses podem fazer toda a diferença.

As origens do grupo remontam ao final do século XX quando, em 1999, Abu Musab al-Zarqawi (nome de guerra de Ahmad Fadl al-Nazal al-Khalayleh) foi libertado da prisão al-Sawwaqa, na Jordânia. Então com 33 anos, al-Zarqawi era já um veterano da guerra no Afeganistão, para onde tinha viajado em 1989. Nessa época, apesar de ter recebido treino militar, não se tornou logo guerrilheiro: foi repórter de uma pequena revista jihadista chamada Al-Bosnian al Marsous[1]. Mais importante: foi no Afeganistão que conheceu aquele que se tornaria no seu mentor ideológico: o também jordano Abu Muhammad al-Maqdisi (nome de guerra de Issam Muhammad Tahir al-Barqawi).

Al-Maqdisi era já um reputado clérigo salafista[2], um movimento originário do Egipto que, no século XX, evoluiu para uma escola de pensamento único baseada numa interpretação literal do Corão. No início da década de 1980 tinha publicado o livro O Credo de Abrão, obra que se tornou na mais importante fonte de ensinamentos dos movimentos Salafistas mundiais[3].

Em 1992, al-Maqdisi e al-Zarqawi voltaram à Jordânia onde criaram o grupo Bayat al-Iman (Fidelidade ao Iman), cujo principal objectivo era derrubar o regime e instaurar um governo islâmico. No ano seguinte, foram ambos presos e Zarqawi condenado a 15 nos de cadeia por posse de armas e por pertencer à organização clandestina[4]. Na prisão, al-Zarqawi tornou-se rapidamente um líder incontestado. No pátio era ele quem decidia quem cozinhava, quem lavava a roupa e até que programas de televisão podiam ser vistos. Passava o tempo a trabalhar o corpo, a ler o Corão e a angariar novos recrutas. Quando foi libertado, em Maio de 1999, graças a uma amnistia concedida pelo recém entronizado Rei Abdullah II, era tratado pelos outros reclusos por “emir” ou “principe”[5].

Novamente livre, viajou primeiro para o Paquistão e depois para o Afeganistão, onde conheceu Osama Bin Laden, em Kandahar. Os dois não se deram especialmente bem[6]. Ainda assim, al-Zarqawi obteve um empréstimo da Al Qaeda e autorização para criar um campo de treino em Herat, junto à fronteira com o Irão. Aí, estabeleceu o seu próprio grupo jihadista. Chamou-lhe inicialmente Jund al Sham (o Exército do Levante)[7]. Meses depois, alterou o nome para Jamaat al-Tawid wa al-Jihad (Organização para o Monoteísmo e Jihad), ou apenas Tawid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad)

O grupo tornou-se uma atracção imediata para militantes jordanos[8]. Começou com poucas dezenas de recrutas. Mas ao fim de dois anos, já reunia cerca de 3000 pessoas. Nesse período – entre 2000 e 2001 – Osama Bin Laden chamou al-Zarqawi a Kandahar cinco vezes para o convencer a prestar bayat, um juramento de fidelidade. Em todas elas, al-Zarqawi recusou[9].

Quando os Estados Unidos começaram a bombardear o Afeganistão, a 7 de Outubro de 2001, como retaliação pelos atentados do 11 de Setembro, al-Zarqawi lutou ao lado da Al Qaeda e dos Taliban pela primeira vez. No entanto, foi ferido no peito quando o tecto de um edifício desabou sobre ele durante um ataque aéreo. No final de 2001, atravessou a fronteira com o Irão, juntamente com cerca de 300 guerrilheiros. Nos 14 meses seguintes, viajou entre o Irão, o Iraque, a Síria e os campos de refugiados do sul do Líbano[10]. Nesse período, expandiu a sua rede: criou bases, campos de treino e recrutou novos membros.

Ele próprio terá ficado surpreendido quando, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretario de Estado norte-americano, Collin Powell, no famoso discurso onde denunciava a alegada existência de armas de destruição massiva no Iraque, o indicou como o elo de ligação entre a Al Qaeda e o regime de Saddam Hussein. Perante o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, ao tentar justificar a necessidade da invasão do Iraque, Colin Powell afirmou[11]:

O Iraque alberga uma rede terrorista mortal liderada por Abu Musab al-Zarqawi, um associado e colaborador de Osama Bin Laden e dos seus tenentes da Al Qaeda. [] Quando a nossa coligação depôs os Taliban, a rede Zarqawi ajudou a estabelecer um outro campo de treino de veneno e explosivos. E este campo fica no nordeste do Iraque. [] As actividades de Zarqawi não estão confinadas a este pequeno canto no nordeste do Iraque. Ele viajou para Bagdade em Maio de 2002 para tratamento médico, ficando na capital do Iraque durante dois meses, enquanto recuperava para lutar mais um dia. Durante a estadia, cerca de duas dúzias de extremistas convergiram para Bagdade e estabeleceram aíuma base de operações. Esses associados da Al Qaeda, sediados em Bagdade, coordenam agora o movimento de pessoas, dinheiro e abastecimentos para e através do Iraque para esta rede e estão a operar livremente na capital hámais de oito meses. [] Pedimos a um serviço de segurança amigo para abordar Bagdade sobre a extradição de Zarqawi e para fornecer informação sobre ele e os seus associados mais próximos. Este serviço contactou os oficiais iraquianos duas vezes e nós passámos detalhes que deviam ter tornado fácil encontrar Zarqawi. A rede continua em Bagdade. Zarqawi continua em liberdade.[] Não nos surpreende que o Iraque esteja a dar abrigo a Zarqawi e aos seus subordinados. Este entendimento assenta em décadas de experiência com respeito aos laços entre o Iraque e a Al Qaeda.   

Colin Powell estava errado. Não só não havia armas de destruição maciça no Iraque, como al-Zarqawi não estava formalmente ligado à Al Qaeda. Nessa altura, nem estaria sequer no Iraque, mas sim no Irão. O que não significa que o jordano não fosse perigoso.

Com a invasão anunciada a aproximar-se, al-Zarqawi estabeleceu uma pequena base em Biyara, na província curda de Sulaymaniya. O local foi um dos primeiros alvos da campanha aérea de Março de 2003. Graças à projecção internacional que lhe foi dada por Colin Powell, era um alvo a abater – apesar de ainda não ter realizado algo que fizesse jus à reputação. Mas isso estava prestes a mudar.

Em Agosto de 2003, a Tawid wa al-Jihad realizou uma série de ataques que transformariam al-Zarqawi num dos terroristas mais procurados do mundo. O primeiro no dia 7: um carro bomba explodiu junto à embaixada da Jordânia em Bagdade. Morreram 17 pessoas. O segundo a 19: um veículo suicida entrou na Zona Verde da capital iraquiana e explodiu junto à sede da Organização das Nações Unidas. Morreram 22 pessoas, incluindo o representante especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello. O terceiro a 29: um carro bomba explodiu nas imediações da mesquita do Iman Ali, em Najaf, um dos locais sagrados dos xiitas. Morreram 95 pessoas, naquele que na época foi o atentado mais mortífero da guerra, incluindo o líder do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, Ayatollah Muhammad Baqr al-Hakim[12]. O bombista suicida que levou a cabo o ataque chamava-se Yassin Jarad. Era um dos sogros de al-Zarqawi.

Os três ataques atingiram os principais alvos do líder da Tawid wa al-Jihad: os jordanos, a comunidade internacional e os xiitas. O objectivo também era claro: enfraquecer as forças internacionais e fomentar um conflito sectário para, através do caos, estabelecer-se como um defensor da comunidade sunita e apressar o estabelecimento de um Estado Islâmico.

No entanto, al-Zarqawi terá percebido que não o conseguiria fazer sozinho. E resolveu arranjar aliados. Em Janeiro de 2004, os militares norte-americanos capturaram um correio que transportava uma carta de 17 páginas dirigida aos líderes da Al Qaeda. Na missiva, o jordano faz um retrato da situação no terreno, identifica aqueles que considera os grandes inimigos – americanos, xiitas, curdos e forças de segurança -, pede apoio e traça um plano de actuação que passa por um ataque constante à população xiita. A carta termina com uma interrogação: “E vocês?”[13]

Vocês, irmãos graciosos, são os líderes, guias e figuras simbólicas da jihad e da batalha. Não nos vemos como dignos para vos desafiar, e nunca lutámos para alcançar a glória para nós próprios. Tudo o que desejamos ésermos a lança, a vanguarda e a ponte que a nação [islâmica] vai atravessar para a vitória que estáprometida e para o amanhãa que aspiramos. Esta éa nossa visão e explicámo-la. Este éo nosso caminho e nós tornámo-lo claro. Se concordarem connosco, se o adoptarem como programa e estrada e se estão convencidos da ideia de combater as seitas apóstatas, vamos ser os vossos soldados mais prontos, trabalhando sobre a vossa bandeira, cumprindo as vossas ordens e, de facto, jurando-vos fidelidade publicamente e nos média, vexando os infiéis e alegrando aqueles que pregam a unicidade de Deus. Nesse dia, os crentes vão rejubilar na vitória de Deus. Se as coisas vos parecem de outra forma, somos irmãos, e o desacordo não vai estragar a [nossa] amizade. [Esta é] uma causa [na qual] estamos a cooperar para o bem e apoio da jihad. Esperando a vossa resposta, que Deus vos preserve como as chaves para o bem e reservas do Islão e do seu povo.

 Ou seja, após cinco anos de resistência, al-Zarqawi mostrava-se disponível para jurar fidelidade a Bin Laden e à Al Qaeda. Foi o que aconteceu, mas só após oito meses de negociações. A 17 de Outubro de 2004, uma mensagem colocada num fórum islamita anunciava o juramento de lealdade de al-Zarqawi[14].

Numerosas mensagens foram trocadas entre Abu Musab(Deus o proteja) e a irmandade da Al Qaeda ao longo dos últimos oito meses, estabelecendo um diálogo entre eles. [] Os nossos generosos irmãos da Al-Qaeda perceberam a estratégia da organização Tawhid wal-Jihad no Iraque, a terra dos dois rios e dos Califas. [] [Para que se saiba]al-Tawhid wal-Jihad os seus líderes e os seus soldados juram fidelidade ao mujahedine, Sheikh Osama Bin Laden.

Foi uma aliança pragmática. Al-Zarqawi ganhava projecção ao associar-se à Al Qaeda e Bin Laden precisava de uma presença no Iraque, então o principal palco de guerra no Médio Oriente. Nessa altura, al-Zarqawi proclamou-se o “Emir das Operações da Al Qaeda na Terra da Mesopotâmia” e mudou o nome da organização para Tanzim Qaidat al-Jihad fi Bilad al-Rafidayin: Al Qaeda na Terra dos Dois Rios, Al Qaeda da Mesopotâmia ou o mais comum Al Qaeda no Iraque (AQI)[15].

Para além dos diversos atentados, al-Zarqawi tornou-se também conhecido pelo rapto e decapitação de reféns ocidentais – cujos vídeos eram depois partilhados na internet. Criou um estilo próprio: as vítimas eram vestidas em fatos cor-de-laranja, uma referência aos detidos na prisão de Guantánamo, em Cuba, e obrigadas a ajoelharem-se em frente a um grupo de homens vestidos de negro e voltados para uma câmara. Após uma breve declaração, os reféns eram executados. O primeiro foi o empresário norte-americano, Nicholas Berg, em Maio de 2004. [16] Outros se seguiram, como Eugene Armstrong e Jack Hensley. Decapitados pelo próprio al-Zarqawi.

A brutalidade dos seus métodos não se reflectia apenas nos prisioneiros ocidentais. Os ataques à população xiita, fosse em locais públicos ou templos religiosos, não pararam. E isso dificultou a já de si tensa relação que mantinha com a liderança da Al Qaeda.

Numa carta enviada a al-Zarqawi, no Verão de 2005, o braço direito e sucessor designado de Osama Bin Laden, o egípcio Ayman al-Zawahiri queixou-se dos métodos brutais aplicados pelo ramo iraquiano da Al Qaeda e do impacto negativo que os massacres e as decapitações estavam a ter na opinião pública mundial. Para al-Zawahiri, a Al Qaeda não devia cometer o erro dos Talibã, que alienaram a população, e ficar sem uma base de apoio para o estabelecimento de um futuro califado. A certa altura, o egípcio diz mesmo que podem “matar os reféns com uma bala”[17] – uma referência óbvia às imagens gráficas colocadas a circular na internet e que valeram a al-Zarqawi o cognome de “Xeique dos matadores.”

Ambos os grupos tinham o mesmo objectivo: estabelecer um Califado Islâmico. Apenas divergiam na forma de o alcançar. O jordano acreditava que a sociedade estava corrompida e necessitava de uma limpeza através da violência. Preferia também começar a purificação pelos regimes muçulmanos corruptos e obter resultados mais rapidamente. Já a Al Qaeda insistia em levar a guerra para o Ocidente e evitar, sempre que possível, acções que pudessem danificar a imagem do projecto jihadista. Era uma postura mais paciente, de longo prazo, que apostava no desgaste do inimigo[18].

Apesar das divergências entre a liderança da Al Qaeda e a sua filial iraquiana, a projecção atingida pela AQI começou a atrair outros grupos iraquianos que lutavam contra a ocupação dos Estados Unidos. Em Janeiro de 2006, a organização liderada por al-Zarqawi anunciou a fusão com cinco outras entidades: a Jaysh al-Taifa al-Mansura, a Saraya Ansar al-Tawhid, a Saraya al-Jihad al-Islami, a Saraya al-Ghuraba e a Kataib al-Ahwal. Juntos, formaram o  Majlis Shura al Mujahidin (Conselho Shura Mujahideen), uma coligação que tinha por objectivo coordenar melhor a resistência iraquiana[19].

Al-Zarqawi foi excluído do grupo de líderes com assento no conselho[20]. Apesar de ter tentado recuperar protagonismo, não teve tempo para o conseguir: a 7 de Junho desse ano, dois aviões F-16 da Força Aérea norte-americana bombardearam uma casa onde estava ele reunido com outros responsáveis da resistência iraquiana, na cidade de Baqubah, a norte de Bagdade[21]. A sua morte foi confirmada no local. Tinha 39 anos.

Na época, os Estados Unidos ofereciam uma recompensa de 25 milhões de dólares pela sua captura. Era o mesmo valor atribuído a Osama Bin Laden. Um sinal da sua importância. Por isso, esperava-se que a sua morte enfraquecesse a AQI. Na realidade, aconteceu exactamente o oposto. A organização, que já era financeiramente autónoma[22], reforçou-se. Em cinco dias, nomeou como novo líder Abu Ayyub al-Masri (nome de guerra de Abu Hamza al-Muhadhir). E, quatro meses mais tarde, o Conselho Shura Mujahideen anunciou a formação de um novo grupo: al-Dawla al-Islamiya fi Iraq, o Estado Islâmico do Iraque (ISI, em inglês). Tinha como líder, Abu Omar al-Baghdadi (nome de guerra de Hamid Dawud Muhammad Khalil al-Zawi).

Dois factos ocorridos nesta transição marcaram o futuro da relação da Al Qaeda central com a AQI – apesar de, na época, não se ter compreendido o seu significado mais profundo. O primeiro foi o juramento de fidelidade de Abu Ayyub al-Masri, sucessor de al-Zarqawi, ao líder do ISI, Abu Omar al-Baghdadi, a 10 de Novembro de 2006. O segundo foi a falta de uma declaração formal de fidelidade do ISI à Al Qaeda. São dois detalhes importantes. Os bayats são feitos entre líderes, não entre organizações. Ou seja, se um líder morrer ou for afastado, a nova liderança tem de prestar um novo juramento de fidelidade para se manter na órbita do grupo, no caso da Al Qaeda, ou então escolher afastar-se e tornar-se independente[23].

Nos anos seguintes, a Al Qaeda continuava determinada a ter o ISI como subordinado. Mas a verdade é que Abu Omar al-Baghdadi nunca jurou fidelidade a Osama Bin Laden. A criação do ISI tinha um objectivo: transformar grupos rebeldes num actor político-militar capaz de administrar território. Para isso, o ISI anunciou o controlo de uma área no oeste iraquiano, criou um governo, descreveu processos judiciais e exigiu às tribos que aceitassem a sua autoridade. Formalmente, a AQI deixou de existir e os seus combatentes tornaram-se soldados de um estado governado com base na religião[24]. No entanto, as comunidades que o grupo tentou governar acabaram por se opor à implementação da sua ideologia absolutista.

Mais do que uma divisão religiosa, estas comunidades obedecem a um sectarismo tribal. “O Iraque tem 176 tribos, várias têm xiitas e sunitas e para muitas delas não existem fronteiras”, explica o coronel do exército Nuno Pereira da Silva[25] que, entre 2009 e 2010, coordenou a equipa de aconselhamento e assessoria junto do Centro Nacional de Operações Conjuntas do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki, no âmbito da NATO. “Para eles em primeiro lugar está a família, depois a tribo, em seguida a religião e só no fim o Estado. Um exemplo: o gabinete de al-Maliki era composto apenas por elementos da sua família e a sua segurança era assegurada por membros da tribo, o mais próximos possíveis da família”, diz. “Além disso, há tribos com 10 milhões de pessoas que atravessam fronteiras. Cada chefe de tribo tem o seu partido político, as suas forças armadas e de segurança e os seus tribunais. Se um rapaz e uma rapariga de tribos diferentes fizerem qualquer coisa imprópria, os líderes negoceiam um casamento porque senão vão haver retaliações inter-tribais”, continua.

Quando o exército iraquiano foi desmantelado na sequência da invasão norte-americana, os militares que não foram integrados nas novas forças armadas regressaram à região de origem da sua tribo. “A maioria era sunita e foi para a zona norte, junto à fronteira com a Síria e atravessavam de um lado para o outro. Em 2010 todos os dias esses militares treinados faziam ataques para defender a sua população. Nessa época estavam identificados 34 ‘príncipes’ da AQI – indivíduos que degolaram 12 pessoas”, lembra o militar. Haveria então dezenas de atentados por dia.

Quando os militares norte-americanos compreenderam esta realidade, tentaram aproximar-se das tribos que tinham alienado e forneceram-lhes armas, treino e dinheiro para enfrentar os membros do ISI, num movimento que ficou conhecido Sahwa ou “Despertar”. Os chamados conselhos Sahwa reuniam militares norte-americanos e os líderes tribais sunitas, que tinham perdido privilégios com a deposição de Saddam Hussein, para discutir estratégias e coordenar esforços. Eles permitiram ainda integração de milhares de sunitas nas forças de segurança iraquianas e mais tarde em instituições estatais locais e nacionais[26]. O sucesso da iniciativa foi tão grande que, na Primavera de 2009, havia 100 mil sunitas a lutar contra o ISI.

A organização estava sob enorme pressão. As estimativas indicam que, ao todo, o ISI teria então 15.000 elementos. No início de 2008, 2400 tinham morrido em combate e 8.800 cumpriam pena de prisão. Muitos outros fugiram do país. A violência estava a diminuir de tal forma que o prémio oferecido pelos Estados Unidos em troca do líder da AQI, nomeado ministro da guerra do ISI, Abu Ayyub al-Masri, diminuiu de 4,7 milhões de euros para apenas 94.000 euros[27].

A 18 de Abril de 2010, os Estados Unidos pareciam ter desferido o golpe final sobre o grupo: Abu Ayyub al-Masri e Abu Omar al-Baghdadi foram mortos por um ataque aéreo. Em Julho desse ano, o principal comandante norte-americano no Iraque, General Ray Odierno, deu uma conferência de imprensa em Washington onde apresentou um discurso triunfal[28]: 34 dos 42 líderes da organização tinham sido mortos ou capturados, a organização tinha “perdido contacto” com a liderança central da Al Qaeda, no Paquistão, e teria problemas em criar novas bases. “Acho que eles estão em dificuldades e penso que vai ser difícil continuarem a recrutar”, afirmou. “Capturámos vários líderes que tratavam das finanças, planeamento e recrutamento – alguns advogados que trabalhavam de forma a levar prisioneiros que eram libertados para a Al Qaeda. Fomos capazes de entrar nesta rede”, disse.

O responsável deixou mesmo no ar a insinuação de que os novos líderes do grupo podiam não existir: “nem temos a certeza de que há pessoas por detrás dos nomes”. Havia. O principal era o do novo líder do ISI, Ibrahim bin Awwad al-Badri al Samarrai. Nome de guerra: Abu Bakr al-Baghdadi.

[1] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi, Mary Anne Weaver, The Atlantic, 1 de Julho de 2006, http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2006/07/the-short-violent-life-of-abu-musab-al-zarqawi/304983/, consultado em Dezembro de 2014

[2] The Islamic State. Richard Barrett, The Soufan Group, Novembro 2014, p.11,  http://soufangroup.com/the-islamic-state/

[3] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[4] Profiling the Islamic State, Charles Lister, Brookings Doha Center, Novembro 2014, p.6, http://www.brookings.edu/~/media/Research/Files/Reports/2014/11/profiling%20islamic%20state%20lister/en_web_lister.pdf

[5] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[6] Idem

[7] The Islamic State. Richard Barrett… p.11

[8] Al-Zarqawi’s Biography, Craig Whitlock, Washington Post, 8 de Junho de 2006, http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/06/08/AR2006060800299.html, consultado em Dezembro de 2014

[9] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[10] Al-Zarqawi’s Biography, Craig Whitlock…

[11] U.S. Secretary of State Colin Powell Addresses the U.N. Security Council, 5 de Fevereiro de 2003, http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/news/releases/2003/02/20030205-1.html, consultado em Novembro de 2014

[12] Profiling the Islamic State, Charles Lister… p.7

[13] Carta de al-Zarqawi, US Department of State, Archive http://2001-2009.state.gov/p/nea/rls/31694.htm consultado em Novembro de 2014

[14] Zarqawi’s Pledge of Allegiance to Al-Qaeda: From Mu’asker Al-Battar, Terrorism Monitor, volume 2, issue 24, The Jamestown Foundation, http://www.jamestown.org/single/?tx_ttnews%5Btt_news%5D=27305#.VOtdJSusVqU

[15] The Islamic State. Richard Barrett… p.11.

[16] Before Killing James Foley, ISIS Demanded Ransom From U.S., Rukmini Callimachi, 20 Agosto 2014, The New York Times, http://www.nytimes.com/2014/08/21/world/middleeast/isis-pressed-for-ransom-before-killing-james-foley.html?_r=0, consultado em Dezembro de 2014

[17] Office of the Director of National Intelligence, Letter from al-Zawahiri to al-Zarqawi, 11 Outubro 2005, http://fas.org/irp/news/2005/10/dni101105.html, consultado em Dezembro de 2014

[18] Profiling the Islamic State, Charles Lister… p.8

[19] Idem

[20] Al Qaeda in Iraq, M. J. Kirdar, CSIS – Center For Strategic & International Studies, Junho 2011, p.5 http://csis.org/files/publication/110614_Kirdar_AlQaedaIraq_Web.pdf consultado em Janeiro de 2015

[21] Insurgent Leader Al-Zarqawi Killed in Iraq, Ellen Knickmeyer e Jonathan Finer, The Washington Post, 8 de Junho de 2006, http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/06/08/AR2006060800114.html, consultado em Dezembro de 2014.

[22] An Economic Analysis of the Financial Records of al-Qa’ida in Iraq… p.14

[23] The Islamic State vs. al Qaeda, Who’s winning the war to become the jihadi superpower?, J.M. Berger, Foreign Policy, 2 de Setembro de 2014, http://foreignpolicy.com/2014/09/02/the-islamic-state-vs-al-qaeda/, consultado em Novembro de 2014

[24] Redefining the Islamic State, The Fall and Rise of Al Qaeda in Iraq, Brian Fishman, New America Foundation, Agosto de 2011, p.9, http://security.newamerica.net/sites/newamerica.net/files/policydocs/Fishman_Al_Qaeda_In_Iraq.pdf

[25] Entrevista realizada a 25 de Fevereiro de 2015

[26] The Status and Future of the Awakening Movements in Iraq, Michael Knights, Carnegie Endowment for International Peace, 2 de Junho de 2009, http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/the-status-and-future-of-the-awakening-movements

[27] Al Qaeda in Iraq, M. J. Kirdar… p.5

[28] Qaeda Leaders in Iraq Neutralized, U.S. Says, Thom Shanker, The New York Times, 4 de Junho de 2010, http://www.nytimes.com/2010/06/05/world/middleeast/05military.html, consultado em Novembro de 2014

Os segredos dos espiões

Quando falamos do jornalismo português, o mais vulgar é ouvirmos vozes que se lamentam da sua falta de qualidade, da inexistência de repórteres de investigação ou da ausência de jornalistas independentes. Muitas vezes essa crítica é injusta. Sobretudo para aquele grupo de repórteres que se dedicam a isso mesmo: a investigar, a denunciar, a trazer a lume histórias desconhecidas dos principais protagonistas da vida portuguesa ou de anónimos que, nos bastidores, movimentam influências. É o caso do António José Vilela.

Trabalho com ele há 10 anos. Primeiro (pouco), em O Independente. Depois, na Sábado. Nesta década vi-o, semana após semana, a publicar dos mais consistentes e certeiros trabalhos da imprensa portuguesa. Assim de repente lembro-me, entre outros, dos longos artigos sobre o caso Freeport; da investigação sobre o envolvimento de Duarte Lima no BPN; da notícia da existência de uma investigação aos Vistos Gold; das histórias dos casos BES, Furacão e Monte Branco; das revelações sobre a Maçonaria e negócios militares e, claro, no último ano, sobre a Operação Marquês.

Ao longo destes anos tive o privilégio de com ele assinar alguns trabalhos. Com ele aprendi muito sobre jornalismo – apesar de nem sempre estarmos de acordo sobre as opções a tomar. Nem temos que estar. As discordâncias são normais na vida. E normalmente chegamos a um consenso. Mais do que um simples colega, ele tornou-se um amigo. Daqueles com quem se pode contar. Mas não é por isso que escrevo este post: faço-o porque hoje é o dia do lançamento do seu mais recente livro Os códigos e as operações dos espiões portugueses – um tema sobre o qual ele escreve há muito e que surge numa altura em que as eventuais actividades dos serviços de informações estão a ser discutidas nos tribunais. É, por tudo, um livro importante. É, sobretudo, um livro bom. Muito bom. A apresentação é às 18h30 na Bertrand das Amoreiras. E como amostra fica aqui o primeiro capítulo.

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1 – As regras: o conde francês, a colega bisbilhoteira da loja da Baixa e o espião com bom senso

Alexandre de Marenches foi um aristocrata francês que se tornou militar e lutou contra os alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Na altura, chegou a escapar à prisão pela Gestapo atravessando a pé os Pirenéus para se juntar à resistência francesa. Acabou a guerra a combater em Itália depois de se juntar às tropas norte -americanas que tomaram Roma. Com o fim do conflito bélico, o oficial do Exército passou à reserva com o posto de coronel e entrou definitivamente nos negócios que a família mantinha na indústria. Mas manteve- se sempre próximo do poder político e extremamente crítico dos ideais comunistas. Em 1969, com a chegada à Presidência de França do antigo primeiro-ministro Georges Pompidou – após a demissão de Charles de Gaulle, o mais emblemático político francês do pós -guerra com quem Marenches se incompatibilizara –, o novo presidente decidiu proceder a alterações profundas nos serviços secretos, sobretudo ao nível da contraespionagem externa.

O homem escolhido para essa tarefa foi precisamente Alexandre de Marenches, que acabou por mandar durante mais de uma década, entre novembro de 1970 e junho de 1981, no poderoso Service de Documentation Extérieure et de Contre -Espionnage (SDECE), que deu origem no ano seguinte à Direction Générale de la Sécurité Extérieure (DGSE). O conde de Marenches – como era conhecido o aristocrata – tornou-se célebre no mundo da espionagem e também fora dele, sobretudo depois dos dois livros que escreveu já na reforma e em parceria com jornalistas.

Nos anos 80, ainda chegou a ser conselheiro especial do presidente norte -americano Ronald Reagan e foi a uma longa citação do antigo espião francês que o SIS recorreu para abrir, em 1988, o primeiro manual destinado à formação de espiões portugueses. «As informações são uma espécie de puzzle permanente, multiforme e policromo, que se faz e desfaz sem cessar, um pouco como os projetores coloridos que rodam nas discotecas dos jovens. As informações consistem em procurar continuamente, e por todo o lado, um certo número de pedaços que outras pessoas no interior do mesmo serviço tentam ajustar para formar o puzzle. A grande dificuldade é que, à medida que se consegue tapar os vazios com novas peças, o puzzle muda instantaneamente. Evolui sem parar.»

Recém- criado e envolto em forte polémica devido à cerrada oposição dos partidos políticos de esquerda, que viam nos serviços de informações um regresso ao tempo da polícia política PIDE/DGS, o SIS viveu os primeiros anos com grandes dificuldades, pois faltava -lhe quase tudo: apoio político, meios, experiência no terreno e formação. Mais de 25 anos depois, quando se lê o primeiro manual usado para ensinar os espiões do SIS, dificilmente se deixa de reparar em vários exemplos muito terra- a -terra que foram usados para ilustrar o que realmente se queria do novo serviço de informações e dos seus espiões.

Uma das principais qualidades exigidas era a de que um bom agente devia «saber calar -se» no momento certo, mas também deter o «domínio da oralidade». No manual do SIS estavam registados outros atributos dos espiões, quase todos relacionados com o bom senso, a discrição e a capacidade de trabalho. Eis alguns exemplos concretos do que se pedia a um bom agente:
– motivação para a realização de uma tarefa difícil; inteligência para assimilar rapidamente um grande número de factos; flexibilidade de espírito para se adaptar às novas situações; imaginação e curiosidade temperadas com bom senso; honestidade intelectual para captar e transmitir factos como são e não como o espião ou os seus chefes desejariam que fossem;capacidade de trabalho em grupo e sem horários; lealdade para com o seu país e o seu serviço; estabilidade emocional para fazer bons julgamentos; e capacidade de separar a realidade da ficção.
Os exemplos e as explicações usados pelo SIS eram simples, quase maniqueístas, mesmo quando o objetivo passava por mostrar aos espiões a diferença entre o que era uma «notícia», um facto isolado, e as verdadeiras informações que resultavam da integração de vários acontecimentos. Para ilustrar esta diferença fundamental, o manual recorria a uma história ficcionada com três personagens principais que integravam um grupo mais alargado de funcionários da Loja da Moda, situada na movimentada Baixa de Lisboa. Tratava -se de a «D. Ana», o «Sr. Lopes» e uma «colega bisbilhoteira».

O enredo começava no momento em que a funcionária desconfiada decidira anotar os locais onde cada um dos dois colegas lhe dizia que passava os fins de semana. Durante quatro meses a mulher registou as informações que lhe eram dadas de forma individual, e em incautas conversas, por cada um dos dois colegas. Para cada um dos alvos fez também corresponder um quadro com cada um dos 17 fins de semana onde escreveu de forma metódica os destinos – Sesimbra, Lisboa, Troia, Malveira, Ericeira… O primeiro passo da espia de ocasião estava dado. «Tanto num caso como no outro, a senhora bisbilhoteira obteve e registou notícias (neste caso, verdadeiras)», frisava o manual do SIS, notando que ainda era muito cedo para tirar conclusões: «Essas notícias não permitem concluir nada entre um possível relacionamento dos dois empregados na Loja da Moda.»

Pois não, mas o caminho era mesmo este para encontrar as conexões. Quando integrados e cruzadas as informações registadas da D. Ana e do Sr. Lopes num só quadro, a colega bisbilhoteira passaria a ter dados realmente interessantes: 14 das 17 saídas de fim de semana dos colegas tinham tido um destino comum. Para confirmar o maldizer alheio já bastaria, mas isso não chega no mundo da espionagem, conforme especificavam as recomendações do SIS: «Claro que não pode afirmar, por enquanto, que haja uma relação amorosa entre ambos. Para o fazer conscientemente teria de continuar a pesquisa.»

Depois deste pequeno capítulo sobre «Informações e Notícias», que ia buscar inspiração às escapadinhas amorosas de empregados de balcão, o manual do SIS ensinava os espiões a focalizar de imediato a atenção em problemas mundiais então relativamente recentes como a longa e devastadora guerra entre o Iraque e o Irão, a invasão falhada do Afeganistão pelas tropas soviéticas e a crise petrolífera que se seguira ao ataque militar do Egito e da Síria a Israel. Para a secreta portuguesa, algumas das nefastas consequências destes casos eram simplesmente explicáveis por falhas na recolha e tratamento de informações sobre o adversário e as ameaças reais, conforme concretizava o novo capítulo do manual chamado «Informações prospetivas: previsão de possibilidade». Num ápice, os agentes passavam a saber que as regras da espionagem tanto se aplicavam na Baixa de Lisboa como no palco internacional da intriga política.

Nos bastidores do colonialismo do século XXI

É um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Do jornalista do Financial Times, Tom Burgis, A Pilhagem de África faz um retrato cru da forma como os recursos naturais africanos estão a ser explorados por uma elite corrupta que pensa em primeiro lugar no seu próprio bem estar do que no das populações que devia proteger. Mais que isso: o repórter revela como uma série de intermediários se servem das suas ligações ao poder para facturar milhões enquanto permanecem nas sombras. No centro de toda a obra está o crescimento de Angola como exportador de matérias primas para a China e dois personagens chave: Manuel Vicente e um misterioso Sam Pa. Este é o capítulo de introdução.

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A MALDIÇÃO DAS RIQUEZAS

Do lado oposto da Bolsa de Nova Iorque, naquilo a que a placa de sinalização turística chama as «encruzilhadas financeiras do mundo», a fachada de pedra imponente do n.° 23 de Wall Street evoca o poder do homem para cujo banco foi construída para acolher em 1913: J.P. Morgan, o titã capitalista da América. O exterior do edifício é conhecido através de Hollywood — serviu de bolsa da cidade de Gotham no filme O Cavaleiro das Trevas Renasce, de 2012 — mas, quando o visitei, em 2013, a capete vermelha estava suja e encharcada com a chuva miudinha que soprava do Atlântico. Através dos vidros foscos dos portões de metal fechados, a única coisa visível no interior esventrado onde brilhou, em tempos, um grande e esplandecente lustre eram algumas lâmpadas fluorescentes, escadarias forradas em madeira contraplacada e um sinal vermelho brilhante que dizia «SAÍDA».

Apesar do mau estado, o n.° 23 de Wall Street permanece um símbolo da elite, um troféu no jogo permanentemente mutável do comércio mundial. O endereço dos seus atuais donos é um escritório no décimo andar de um arranha‑céus em Hong Kong. Anteriormente um quartel do exército britânico, o n.° 88 de Queensway foi transformado nas torres espelhadas do Pacific Place, refletindo a luz solar sobre o centro financeiro. O sumptuoso centro comercial do rés-do-chão, com ar condicionado contra a pesada humidade lá de fora, tem as paredes forradas com lojas de marcas de luxo: Armani, Prada, Chanel, Dior. O Hotel Shangri La, que ocupa os andares de cima da segunda das sete torres do Pacific Place, tem suites a 10 mil dólares por noite.

O escritório, no décimo andar, é muito mais discreto. Assim como o pequeno grupo de homens e mulheres que o usam como morada oficial para si próprios e para a sua rede de empresas. Para aqueles que tentaram seguir a sua evolução, são informalmente conhecidos como o «Queensway Group».  Os seus interesses, mantidos através de uma estrutura empresarial complexa e mecanismos offshore sigilosos, estão em Moscovo e Manhattan, Coreia do Norte e Indonésia. Os seus parceiros comerciais incluem empresas estatais chinesas; a BP, a Total e outras empresas petrolíferas ocidentais; e a Glencore, o gigante do comércio de bens essenciais sediado numa cidade suíça. Porém, a fortuna e influência do Queensway Group advêm‑lhe fundamentalmente dos recursos naturais que se encontram por baixo dos solos de África.

Aproximadamente equidistante, a cerca de 11 mil quilómetros de cada uma, entre o n.° 23 de Wall Street em Nova Iorque e o n.° 88 de Queensway, em Hong Kong, ergue-se outro arranha­céus. O edifício dourado no centro da capital de Angola, Luanda, sobe até aos 24 andares, oferecendo uma ampla vista para a baía onde o Atlântico banha as costas do sudoeste de África. É chamado CIF Luanda One, mas é conhecido pelos habitantes como o Edifício Tom e Jerry, por causa dos desenhos animados que eram projetados nas suas paredes exteriores quando tomava forma, em 2008. No interior, há um salão de baile, um bar com zona de fumadores e os escritórios de empresas petrolíferas estrangeiras que exploram as suas prodigiosas reservas submarinas de crude.

Um guarda com ar sólido vigia a entrada, acima da qual esvoaçam três bandeiras. Uma é a de Angola. A segunda é da China, a potência emergente que construiu estradas, pontes e caminhos de ferro em abundância em Angola, que, por sua vez, fornece um em cada sete barris do petróleo que a China importa para alimentar o seu vertiginoso crescimento económico. A estrela amarela do comunismo adorna ambas as bandeiras, mas, hoje em dia, as credenciais socialistas dos governantes de cada nação coexistem desconfortavelmente com a sua riqueza fabulosa.

A terceira bandeira não pertence a nenhuma nação, mas sim à empresa que construiu a torre. Sobre um fundo branco, ostenta três grandes letras: CIF, que quer dizer China International Fund (Fundo Internacional da China), um dos braços mais visíveis da misteriosa rede multinacional do Queensway Group. Combinadas, as três bandeiras são estandartes de um novo tipo de império.

Em 2008, comecei a trabalhar como correspondente do Financial Times em Joanesburgo. Eram tempos de crescimento acelerado — ou, pelo menos, tinham sido. Os preços das matérias‑primas que a África do Sul e os seus vizinhos possuem em abundância tinham crescido inexoravelmente desde o princípio do milénio, à medida que a China, a Índia e outras economias de crescimento rápido desenvolviam um apetite voraz por recursos. Durante os anos 90 do século passado, o preço médio de uma onça de platina tinha sido de 470 dólares. Uma tonelada de cobre custava $2600, um barril de petróleo bruto, $22. Em 2008, o preço da platina triplicara para $1500, e o cobre era duas vezes e meia mais caro, estando a $6800. O petróleo tinha mais do que quadruplicado, para $95, e, num dia de julho de 2008, atingiu $147 por barril. Até que o sistema bancário americano implodiu. As ondas de choque fizeram‑se sentir na economia à escala global e os preços das matérias‑primas caíram. Executivos, ministros e mineiros desempregados assistiam horrorizados enquanto a irresponsabilidade de banqueiros distantes punha em perigo os rendimentos dos recursos que representavam a sobrevivência económica de África. Mas a China e o resto do mundo continuaram a crescer. Alguns anos depois, os preços das matérias‑primas regressaram aos níveis que antecederam a crise. O crescimento foi retomado.

Andei pelo sul de África durante um ano, cobrindo eleições, golpes de estado e julgamentos por corrupção, esforços para aliviar a pobreza e as fortunas das empresas mineiras gigantes com sede em Joanesburgo. Em 2009, fui viver para Lagos a fim de passar dois anos a acompanhar o barril de pólvora que constituem as nações da África Ocidental.

Há muitas teorias sobre as causas da penúria e conflitos do continente, muitas das quais encaram os 900 milhões de pessoas e 48 países da África negra, a região a sul do deserto do Sara, como uma massa homogénea. Os colonizadores tinham arruinado a África, diziam alguns dos autores das teorias, e o seu sofrimento foi agravado pelos ditames do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional; outros consideravam que os africanos são incapazes de se governar, são excessivamente «tribais» e, por natureza, dados à corrupção e à violência. Depois, havia aqueles que achavam que África estava a ir muito bem, em geral, mas que os jornalistas que procuram histórias sensacionalistas e as organizações de beneficência que pretendem sensibilizar os doadores distorciam a sua imagem. As receitas eram tão variadas e contraditórias como os diagnósticos: cortar os gastos dos governos para permitir que as empresas privadas cresçam; concentrar‑se na reforma das forças armadas; promover a «boa governação» ou capacitar as mulheres; bombardear o continente com ajuda; ou forçar a abertura dos mercados africanos a fim de arrastar o continente para a economia global.

Enquanto o mundo rico lutava com a recessão, os analistas, investidores e peritos em desenvolvimento começaram a declarar que África, pelo contrário, estava a crescer. Os indicadores comerciais sugeriam que, graças a uma revolução económica conduzida pelo aumento da procura de matérias‑primas, uma classe média florescente estava a substituir a tendência africana para o conflito por um consumo vertiginoso de telemóveis e whiskey caro. Porém, esta análise otimista apenas se justificava em zonas muito delimitadas do continente. Quando viajei pelo Delta do Níger, a zona poluída por derrames de petróleo onde se situa a indústria petrolífera da Nigéria, ou nos campos de batalha ricos em minerais do leste do Congo, comecei a acreditar que a grande abundância de recursos naturais de África não iria ser a sua salvação, mas sim a sua maldição.

Há mais de duas décadas que os economistas tentam perceber o que faz com que os recursos naturais semeiem o caos. «Paradoxalmente», escreveram Macartan Humphreys, Jeffrey Sachs e Joseph Stiglitz da Universidade de Columbia, em 2007, «apesar das perspetivas de riqueza e oportunidades que acompanham a descoberta e extração de petróleo e outros recursos naturais, é demasiado frequente tais dádivas impedirem em vez de promoverem o desenvolvimento sustentável e equilibrado».

Os analistas da consultora McKinsey calcularam que 69 por cento das pessoas em pobreza extrema vivem nos países onde o petróleo, gás e minerais desempenham um papel dominante na economia e que os rendimentos médios nesses países se encontram esmagadoramente abaixo da média global. O enorme número de pessoas que vive naqueles que são alguns dos estados mais ricos do planeta, medidos pelos seus recursos naturais, é impressionante. Segundo o Banco Mundial, a proporção da população que vive em pobreza extrema, calculada como sendo aqueles que vivem com menos do que $1,25 por dia e ajustada ao que essa miserável quantia compra em cada país, é de 68 por cento na Nigéria e 43 por cento em Angola, respetivamente o primeiro e segundo maiores produtores de petróleo e gás. Na Zâmbia e no Congo, cuja fronteira comum divide a cintura de cobre de África, a taxa de pobreza extrema é de 75 por cento e 88 por cento, respetivamente. Por comparação, 33 por cento dos indianos vive em pobreza extrema, 12 por cento dos chineses, 0,7 por cento dos mexicanos e 0,1 por cento dos polacos.

O fenómeno a que os economistas chamam «a maldição dos recursos» não dá, obviamente, uma explicação universal para a existência da guerra nem da fome, em África ou noutra parte do mundo: a corrupção e a violência étnica também atingiram países africanos onde as indústrias de recursos são uma parte relativamente insignificante da economia, como o Quénia. Nem todos os países ricos em recursos estão condenados: veja‑se a Noruega. Porém, a maior parte das vezes, acontecem coisas desagradáveis nos países onde as indústrias extrativas, como são conhecidas as empresas petrolíferas e mineiras, dominam a economia. O resto da economia fica distorcido à medida que os dólares são despejados no país para  comprar recursos. A receita que os governos recebem dos recursos das suas nações não é ganha: os estados simplesmente atribuem licenças a empresas estrangeiras para bombear petróleo ou escavar minério. Este tipo de rendimento é chamado «renda económica» e não promove uma boa gestão. Cria um pote de dinheiro à disposição daqueles que controlam o estado. Em níveis extremos, o contrato entre governantes e governados quebra‑se porque a classe governante não precisa de lançar impostos sobre as pessoas para financiar o governo — por isso, não precisa do consentimento delas.

Sem qualquer compromisso para com a população, um regime alimentado por recursos naturais tem tendência para gastar o rendimento nacional em coisas que beneficiam os seus próprios interesses: as despesas com a educação caem, ao mesmo tempo que os orçamentos militares aumentam. A indústria de recursos é geneticamente propensa à corrupção. A cleptocracia, ou governo pelo roubo, prospera. Uma vez no poder, há poucos incentivos para o deixarem. Uma economia baseada num pote central de rendimentos dos recursos é a receita para uma política de «homens grandes». Os quatro governantes que há mais tempo se mantêm no poder — Teodoro Obiang Nguema, da Guiné Equatorial, José Eduardo dos Santos, de Angola, Robert Mugabe, do Zimbabué, e Paul Biya, dos Camarões — presidem todos a estados africanos ricos em petróleo e minerais. Somados, governam há 136 anos.

Dos oligarcas russos do petróleo até aos conquistadores que saquearam o ouro e a prata da América Latina há séculos, as rendas dos recursos concentram riqueza e poder nas mãos de poucos. Eles geram aquilo a que Said Djinnit, um político argelino que, como alto funcionário das Nações Unidas na África Ocidental, servindo como mediador numa sucessão de golpes de estado, chama «a luta pela sobrevivência ao mais alto nível.» A sobrevivência significa capturar esse pote de rendimento. Muitas vezes, significa que outros têm de morrer. A maldição dos recursos não é exclusiva de África, mas é mais virulenta no continente que é, ao mesmo tempo, o mais pobre do mundo e, provavelmente, o mais rico.

África tem 13 por cento da população mundial e apenas 2 por cento do seu produto interno bruto cumulativo, mas é o repositório de 15 por cento das reservas de petróleo bruto do planeta, 40 por cento do seu ouro e 80 por cento da sua platina — e esta é provavelmente uma subavaliação, dado que o continente foi menos minuciosamente explorado do que outros.  As minas de diamantes mais ricas estão em África, tal como estão significativos depósitos de urânio, cobre, minério de ferro, bauxite (o minério usado para fazer o alumínio), e praticamente todos os outros frutos da geologia vulcânica. Segundo um cálculo, a África contém cerca de um terço dos recursos minerais e hidrocarbonetos.

As pessoas de fora muitas vezes pensam em África como um sumidouro de filantropia, um continente que engole ajuda em vão, e, em troca, contribui pouco para a economia global. Mas olhe‑se mais atentamente para a indústria dos recursos, e a relação entre África e o resto do mundo parece bastante diferente. Em 2010, as exportações minerais e de combustíveis vindas de África valiam $333 mil milhões, mais do que sete vezes o valor da ajuda que seguiu em sentido contrário (e isto antes de incluir as vastas somas que se esfumaram para fora do continente através da corrupção e de artimanhas fiscais).10 Contudo, a disparidade entre a vida nos lugares onde esses recursos se encontram e os lugares onde são consumidos dá uma ideia de onde os benefícios do petróleo e da atividade mineira se acumulam — e por que razão a maior parte dos africanos ainda mal sobrevive. Por cada mulher que morre de parto em França, cem morrem na nação desértica do Níger, a principal fonte de urânio que abastece uma economia de França alimentada por energia nuclear. O finlandês ou sul‑coreano médio pode esperar viver 80 anos, sustentados por economias entre cujas empresas mais valiosas estão, respetivamente, a Nokia e a Samsung, os dois principais fabricantes de telemóveis do mundo. Por contraste, se por acaso nasceu na República Democrática do Congo, que tem alguns dos depósitos mais ricos de minerais que são cruciais para a produção de baterias de telemóveis, terá sorte se passar dos 50 anos.

Os carregamentos de petróleo e minério africanos andam para cá e para lá, principalmente para a América do Norte, Europa e, cada vez mais, para a China, mas em geral os recursos naturais do continente afluem para um mercado global no qual os operadores baseados em Londres, Nova Iorque e Hong Kong estabelecem os preços. Se a África do Sul exportar menos ouro, a Nigéria menos petróleo, ou o Congo menos cobre, o preço sobe para toda a gente. As rotas comerciais mudam: a produção crescente de gás de xisto nos Estados Unidos fez reduzir as importações de petróleo da Nigéria ultimamente, por exemplo, com o petróleo a ir antes para a Ásia. Porém, com base na proporção do fornecimento mundial total pelo qual África é responsável, se se abastecer o carro 14 vezes, um desses depósitos terá sido refinado a partir de petróleo africano.11 Da mesma maneira, há uma lasca de tântalo das terras áridas do leste do Congo dentro de um em cada cinco telemóveis.

África não só é desproporcionalmente rica em recursos naturais, como também é desproporcionalmente dependente deles. O Fundo Monetário Internacional define um país «rico em recursos» — um país que está em risco de sucumbir à maldição dos recursos — como sendo um país que depende dos recursos naturais em mais de um quarto das suas exportações. Há pelo menos 20 países africanos que se incluem nesta categoria. Os recursos são responsáveis por 11 por cento das exportações da Europa, 12 por cento das da Ásia, 15 das da América do Norte, 42 por cento da América Latina e 66 por cento das de África —ligeiramente mais do que nos antigos estados soviéticos e ligeiramente menos do que no Médio Oriente.13 O petróleo e o gás são responsáveis por 97 por cento das exportações da Nigéria e 98 por cento das de Angola, onde os diamantes constituem grande parte do resto.14 Quando, na segunda metade de 2014, os preços das matérias‑primas começaram a cair, os estados africanos donos dos recursos foram lembrados dessa dependência: o crescimento acelerado conduzira a extravagâncias ao nível dos gastos e do crédito, e a perspetiva de uma queda abrupta nos rendimentos dos recursos fizeram os orçamentos da Nigéria, Angola e outros países ficar numa situação claramente precária.

A maldição dos recursos não é meramente um fenómeno económico infeliz, produto de uma força intangível; pelo contrário, o que está a acontecer nos estados donos de recursos em África é uma pilhagem sistemática. Tal como as suas vítimas, os seus beneficiários têm nomes. O saque do sul de África começou no século xix, quando as expedições de descobridores, enviados imperiais, mineiros, mercadores e mercenários se internavam desde a costa até ao interior do continente, o seu apetite por riquezas minerais aguçado por diamantes e ouro à volta do entreposto que haviam fundado em Joanesburgo. Ao longo da costa africana, os operadores costeiros partiam já com escravos, ouro e óleo de palma. Em meados do século xx já era extraído petróleo na Nigéria. À medida que os colonos europeus partiam e os estados africanos conquistavam a sua soberania, os colossos empresariais da indústria dos recursos conservaram os seus interesses. Apesar de todos os avanços tecnológicos que definiram o início do milénio — e apesar do começo da perceção dos danos que os combustíveis fósseis estão a impor ao planeta —, as matérias‑primas básicas que existem em abundância em África continuam a ser os principais ingredientes da economia global.

Os responsáveis das indústrias mineira e do petróleo, que compreendem muitas das empresas multinacionais mais ricas, não gostam de pensar em si próprios como parte do problema. Alguns consideram‑se parte da solução. «Metade do PIB do mundo é baseado nos recursos», disse Andrew Mackenzie, diretor executivo da maior empresa mineira do mundo, BHP Billiton, num jantar de 500 altos dignitários da indústria, no Lord’s Cricket Ground, em Londres, em 2013. «Eu diria: é todo», continuou ele. «É esse o nobre objetivo da nossa atividade: fornecer o crescimento económico que ajuda milhões, se não milhares de milhões de pessoas a sair da pobreza.» A extração mineira não é necessariamente pilhagem; há mineiros, senhores do petróleo e empresas inteiras cuja ética e conduta são contrárias à dos saqueadores. Muitos das centenas de executivos, geólogos e financiadores desta área que conheci acreditam que estão efetivamente a servir uma causa nobre — e muitos conseguem argumentar justificando que, sem os seus esforços, as coisas estariam muito piores. O mesmo acontece com os políticos e funcionários públicos africanos que lutam por aproveitar os recursos naturais para tirar os seus compatriotas da pobreza. Contudo, a máquina que está a pilhar África é mais poderosa do que todos eles.

Essa máquina de pilhagem foi modernizada. Onde outrora os tratados assinados à força expropriavam os habitantes de África da sua terra, ouro e diamantes, hoje as falanges de advogados que representam as empresas petrolíferas e empresas mineiras com receitas anuais de centenas de milhares de milhões de dólares impõem condições de miséria aos governos africanos e utilizam esquemas de evasão fiscal para retirar receita às nações pobres. Em vez dos antigos impérios, ocultam‑se agora redes de multinacionais, agentes e potentados africanos. Estas redes fundem o poder dos estados e das empresas. Não estão alinhados com nenhuma nação e pertencem, antes, a elites transnacionais que floresceram na era da globalização. Servem, acima de tudo, o seu próprio enriquecimento.

O primeiro capítulo, dedicado a Angola, está disponível aqui.

O vídeo do “regresso a casa”

O meu regresso à SIC Notícias, como contei aqui, agora em vídeo.

Tudo o que precisam de saber sobre José Sócrates

Está aqui, no novo livro do Fernando Esteves. Sai hoje. A apresentação é esta tarde, no Hotel do Chiado. A não perder.

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O português por detrás da máscara

“Estávamos em Abril de 2014. O governo tinha acabado de divulgar o Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2013. Pela primeira vez, era reconhecida publicamente a presença de cidadãos nacionais na guerra civil síria. Mas não se conheciam as suas identidades. Foi então que surgiu na Internet um vídeo de um guerrilheiro de cara tapada, a segurar uma metralhadora AK-47, a apelar aos muçulmanos que se juntassem à jihad na Síria (…) O seu nome: Abu Issa Al Andaluzi [Celso Rodrigues da Costa].”

Em “Os combatentes portugueses do Estado Islâmico”

Cinquenta murros no estômago

Parece que foi ontem. Não foi. Há precisamente quatro anos, o livro Dias de Coragem e Amizade chegava às livrarias. Foram meses de trabalho. Dezenas de entrevistas de norte a sul do país. Muitas delas interrompidas por lágrimas provocadas pela intensidade das memórias. Intensidade que revivi vezes sem conta enquanto transcrevia as gravações. São palavras sentidas. Saem bem lá do fundo. Muitas vezes revolvem as entranhas. Batem de frente. O impacto é o equivalente ao de sucessivos murros no estômago. São 50 testemunhos. Podiam ser muito mais. Uma pequena amostra que talvez ajude a que a memória não se apague. Porque há actos e pessoas que merecem ser recordados. Nunca esquecidos.

Os combatentes portugueses do Estado Islâmico: um excerto

Esta tarde é apresentado, na Fnac do Centro Comercial Colombo, o meu novo livro, Os Combatentes Portugueses do Estado Islâmico. Para aguçar o apetite, fica aqui um excerto do capítulo Jihad 2.0, que se debruça sobre a investigação da Polícia Judiciária e sobre a recolha de informações do Serviço de Informações de Segurança. Este mesmo excerto foi usado para a pré-publicação do livro na Sábado, a 23 de Abril. Estão obviamente convidados a aparecer. A apresentação estará a cargo do presidente da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento, Vasco Rato.

Nero

“Bastaram três parágrafos num documento com 413 páginas para revelar uma realidade que estava na ordem do dia em vários países europeus mas que até então tinha passado ao lado da sociedade portuguesa: havia cidadãos nacionais a combater na Síria. Fosse em forças apoiadas pela União Europeia ou em grupos rebeldes já então classificados como organizações terroristas. Divulgado a 28 de Março de 2014, o documento não mencionava um dado importante: essa realidade era já do conhecimento das autoridades portuguesas há mais de um ano e meio. A decisão de a divulgar teve por objectivo chamar a atenção da sociedade portuguesa para o fenómeno – e, em última instância, preveni-lo.

Os primeiros indícios de que haveria portugueses em palcos de “guerra santa” começaram a chegar à Polícia Judiciária e ao Serviço de Informações de Segurança através dos mecanismos de cooperação internacional na segunda metade de 2012. Na época foram uma surpresa. Mas não total. As várias polícias e serviços de informações dos Estados-membros da União Europeia há algum tempo que vinham assinalando a deslocação crescente de combatentes ocidentais, primeiro para o Iraque, depois para a Síria. Portugal era, até então, uma das excepções. A viagem ou a identificação de um ou mais cidadãos nacionais era uma questão de tempo. Que tinha chegado.

Na época, o fenómeno não suscitava grande preocupação. Era visto como uma repetição do que já tinha ocorrido no passado: primeiro no Afeganistão, depois na Bósnia e na Tchechénia, por fim, no Iraque. Havia mesmo quem o comparasse com o que aconteceu na guerra civil de Espanha. Para além disso, a rebelião armada contra Bashar al -Assad, que começara em 2011, era encarada com simpatia por parte do Ocidente. No ano seguinte, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido apoiaram a oposição síria com dinheiro e informações e, em Maio de 2013, a União Europeia levantou o embargo da venda de armas aos rebeldes, como forma de demonstrar um apoio total à instauração de um regime democrático. O problema, ainda pouco perceptível, é que já então havia grupos a actuar com um segundo objectivo: a instauração de um califado islâmico na região.

Foi um desses ainda pequenos grupos radicais que, a 19 Julho de 2012, se atravessou no caminho dos fotojornalistas John Cantlie e Jeroen Oerlemans: o britânico e o holandês tinham acabado de atravessar a fronteira turca, rumo a um campo que desconheciam ter sido tomado por rebeldes, quando foram capturados e feitos prisioneiros. Primeiro os jihadistas julgaram que eles eram espiões. Depois começaram a pensar pedir um resgate pela sua libertação.

No segundo dia de cativeiro, os repórteres tentaram fugir. Estavam descalços. Ainda assim, correram algemados entre as pedras e os arbustos – apenas para serem parados a tiro: Cantlie foi atingido no braço esquerdo; Oerlemans na anca. Recapturados, receberam cuidados médicos dos rebeldes. Mais concretamente, de um clínico do serviço nacional de saúde inglês. A partir daí foram vendados. Ouviam apenas o som de facas a serem afiadas, ameaças de decapitação e vozes que viriam a revelar -se importantes para as autoridades britânicas após a sua libertação, ao fim de uma semana, pelo Exército Livre Sírio. “Falavam-nos todo o dia no Corão e em como iriam instaurar a sharia na Síria. Acho que não eram da Al-Qaeda; pareciam demasiado amadores. Diziam: ‘Não somos a Al-Qaeda, mas a Al-Qaeda está ali em baixo’”, recordou o fotojornalista holandês ao The New York Times. Mais importante: “Eram todos jihadistas estrangeiros; acho que não havia um único sírio entre eles.” John Cantlie foi mais concreto, num artigo escrito para o The Sunday Times: “Ao todo eram uns 30, uma dúzia falava inglês e cerca de nove tinham sotaques londrinos. Dois deles estavam tão ocidentalizados [a expressão usada foi “anglicised”] que não falavam árabe.”

A presença de ingleses (ou de antigos residentes no Reino Unido) no conflito já então preocupava as autoridades britânicas. Polícias e serviços secretos começaram então a investigar. E ao reverem as listas de passageiros que tinham viajado recentemente de Londres para a Turquia repararam que entre eles estavam vários portugueses. Alguns tinham já regressado à Europa. Mas pelo menos um membro do grupo continuava na região: chamava-se Nero Patrício Saraiva.

“Vivia na zona entre a Turquia e a Síria. As informações que temos indicam que ele passava muito de um lado para o outro da fronteira. Por isso é bastante provável que estivesse entre o grupo que raptou os jornalistas britânicos”, conta uma fonte bem informada. Confrontado com uma fotografia de Nero Saraiva, Jeroen Oerlemans diz que o rosto não lhe é familiar: “Lamento mas não o reconheço.” Para as autoridades, esta negação explica-se de uma única forma: “Ou não o viu ou está com medo. Por outro lado não sabemos o que o John Cantlie teria dito se visse as fotografias.” Em Novembro desse ano, o fotojornalista britânico voltou à Síria, apenas para ser raptado. Ainda hoje continua refém do Estado Islâmico.

Na época, questionadas pelas congéneres britânicas, as autoridades portuguesas recolheram e passaram a pouca informação disponível sobre o grupo: tinham todos raízes nas ex-colónias portuguesas; viviam todos na Linha de Sintra; tinham todos emigrado para Londres, alguns há mais de uma década; apesar da diferença de idades entre eles tinham todos pontos de contacto em comum; e – isso era importante – nenhum se tinha convertido ao Islão em Portugal.

Aos poucos, a Polícia Judiciária (PJ) e o Serviço de Informações de Segurança (SIS) foram recebendo mais dados sobre o grupo. Suspeitas de que teriam feito parte de redes que usariam jovens ambiciosos ou carenciados para, através dos seus documentos de identificação verdadeiros, obterem apoios estatais como bolsas de estudo, subsídios de desemprego ou de inserção social. Exactamente como e quando se radicalizaram permanece um mistério, apesar de, aparentemente, terem frequentado e vivido em bairros londrinos conhecidos pela presença de extremistas como Leyton ou Waltham Forest.

A 9 de Janeiro de 2013, as autoridades britânicas deram um novo passo. No âmbito da investigação ao rapto de John Cantlie e Jeroen Oerlemans, a Metropolitan Police da Scotland Yard prendeu quatro homens. Um deles preparava-se para embarcar, no aeroporto de Gatwick, num voo com destino a Damasco, capital da Síria. Apesar de ter dupla nacionalidade, foi identificado como “um português” de 33 anos. Era um dos amigos de Nero Saraiva em Londres [tal como a SÁBADO revelou na última edição, tratava-se de Sadjo Turé, nascido na Guiné-Bissau mas criado na zona de Massamá].

O português acabou por ser libertado uma semana depois sem acusação. Mas permaneceu no radar das autoridades. Tal como os restantes membros do grupo da Linha de Sintra reunido em Londres, cujo percurso até então continuava a ser reconstituído: os irmãos Celso e Edgar Rodrigues da Costa, Fábio Poças e Sandro Monteiro. Foi assim que se descobriram indícios de que Nero Saraiva e os irmãos Celso e Edgar teriam viajado até à zona do Iémen e da Somália no início de 2012, onde terão recebido formação militar. Só depois partiram para a Síria. Nero ficou por lá. Os irmãos regressaram à Europa.

Celso viajou para Lisboa no fim de 2012. Após a detenção do sexto membro do grupo no aeroporto de Gatwick, Edgar também decidiu regressar a Portugal. Passaram grande parte de 2013 em casa dos pais, num 9º andar em Massamá, na Linha de Sintra, perto de uma escola e de uma igreja católica. Mantiveram-se discretos. Embora activos. Ao longo desses meses, as autoridades detectaram mais de 10 transferências de dinheiro via Western Union que tinham os irmãos como destinatários. Terão recebido várias dezenas de milhares de euros que tiveram depois destinos diferentes. Uma parte foi reencaminhada para países africanos e do Médio Oriente como Guiné -Bissau, Somália, Iémen e Turquia; outra foi entregue em mãos a cerca de seis jihadistas que pernoitaram na zona de Lisboa antes de embarcarem para a Síria. Três terão ficado em casa de conhecidos dos dois irmãos. Os restantes foram recebidos por amigos de Sandro Monteiro. Não era uma operação complexa. “Funcionava tudo na base da informalidade. Eles ligavam a alguém, diziam que um amigo de Londres vinha cá passar uns dias e perguntavam se ele podia ficar lá em casa”, conta uma fonte.

Em Agosto desse ano, Fábio Poças veio a Portugal visitar a família. Passou três dias em Mem Martins antes de regressar a Londres. Mais ou menos na mesma altura, Celso Rodrigues da Costa voltou a partir. Primeiro para a capital britânica, depois para a Turquia. Aí, Nero te-lo-á recebido e ajudado a atravessar a fronteira com a Síria. Fez o mesmo com Fábio Poças em Setembro. Edgar juntou-se-lhes no final do ano. E Sandro seguiu-o em Janeiro de 2014 – tal como o português que tinha sido detido em Gatwick. Viagens registadas pelas autoridades.

Durante todo este tempo, a PJ, o SIS e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras continuaram a receber informações sobre a chegada de outros grupos de portugueses ou luso -descendentes à Síria. Conhecidos serão 15 – sem contar com aqueles que já terão morrido –, incluindo as mulheres que adquiriram a nacionalidade através do casamento antes da viagem para a Síria.”

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Os nove segundos mais emocionantes da TV portuguesa

Ok, o último episódio de A Guerra dos Tronos não foi mau. Mas foi transmitido na segunda-feira. Durante o fim-de-semana, o grande frisson foi provocado por Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. 

Para abrir o apetite

A pré-publicação de Os combatentes portugueses do Estado Islâmico, na Sábado desta semana. Podem ler a história sobre como a Polícia Judiciária e os Serviços Secretos souberam da existência de portugueses a lutar na Síria, o seu possível envolvimento no primeiro rapto de John Cantlie, ainda em 2012 e as transferências de dinheiro que passaram por Lisboa são algumas das novidades. A revista hoje nas bancas. O livro, amanhã nas livrarias. fotografia (6)

A partir de amanhã nas livrarias

A comida favorita dos ditadores

Hitler sofria de flatulência e tornou-se vegetariano. Kadaffi também, mas não se importava. Kim il-Sung tinha uma equipa que lhe seleccionava individualmente os grãos de arroz. Já Ceausescu levava os próprios alimentos para onde quer que fosse. Estaline tinha outro passatempo: obrigar os convidados a participar em jogos de bebida obrigatória que se estendiam até às 5h da madrugada. Os desafios eram tão violentos que Tito só aguentava se vomitasse para dentro das próprias mangas. Estas são algumas das revelações do livro Dictators’ Dinners: A Bad Taste Guide to Entertaining Tyrants, escrito por Victoria Clark e Melissa Scott e contados pela BBC.

Stalin gostava de fazer piqueniques na sua Dacha

Estaline gostava de fazer piqueniques na sua Dacha

“Fidel colocou milhões em contas no exterior”

Durante 17 anos, Juan Reinaldo Sanchés fez parte da guarda pessoal de Fidel Castro. Com o passar do tempo, tornou-se um dos seus mais próximos colaboradores: era ele quem tinha de anotar num diário tudo o que El Comandante fazia. Quando quis abandonar o círculo que o rodeava, caiu em desgraça: foi preso e torturado. Após oito tentativas conseguiu fugir de Cuba para os Estados Unidos onde, este ano, lançou um livro com os detalhes da vida desconhecida de Fidel e as suas contradições com a ideologia comunista. De acordo com Juan Reinaldo Sanchés, El Comandante possui mais de 20 casas, incluindo uma ilha privada com tartarugas e golfinhos, só bebe leite fresco da sua vaca particular, grava todas as conversas no gabinete, esteve duas vezes às portas da morte e desviou milhões de dólares para contas por si controladas – para além de ser cúmplice com o tráfico de droga para os EUA. No dia em que ele está em Lisboa a promover a edição do seu livro em Portugal, deixo aqui a entrevista que lhe fiz há cerca de três meses e que foi a base para um artigo publicado na SÁBADO.

Juan Reinaldo mostra uma das fotografias com Fidel Castro

Juan Reinaldo mostra uma das fotografias com Fidel Castro

Quando se tornou guarda-costas de Fidel Castro?

A 1 de Maio de 1977. Antes tinha tirado um curso de dois anos numa escola de especialistas em segurança pessoal e já tinha uma experiência de nove anos em segurança pessoal, fazendo parte de outros “anéis” da segurança de Fidel.

Porque o escolheram?

Por causa do meu desempenho durante nove anos e pelos meus resultados na escola de especialistas em segurança pessoal. Já tinha cinturão negro em artes marciais e era campeão de tiro.

Como se tornou um dos mais próximos de Fidel no grupo de guarda-costas?

Não era o único mais próximo dele. Havia o chefe de equipa e o seu médico pessoal. Acontece que, como tinha a responsabilidade de escrever o diário pessoal de Fidel, isso aproximava-me bastante dele. Tinha de anotar tudo o que ele fazia desde que se levantava até que se deitava, quem via, com quem conversava, o que comia, por que vias circulava, etc. E para fazer essas anotações, devia estar sempre ao lado dele. Neste trabalho conheci diferentes presidentes que visitaram cuba entre 1977 e 1994 e também dirigente da esquerda latino-americana como Luís Gorvalán, do Chile, Schafik Jorge Handal, da FMLN de El Salvador, e Joaquín Villalobos, do Exército revolucionário do Povo.

No meu livro, que escrevi com a colaboração do jornalista francês Axel Guilden, conto a história de que Fidel Castro realizou várias reuniões em Cuba com estes homens de esquerda e comandantes guerrilheiros para utilizar em El Salvador a mesma estratégia que tinha desenvolvido na Nicarágua: a união das diferentes frentes guerrilheiras numa única grande ofensiva militar contra a capital. Mas Villalobos e Schafik nunca chegaram a acordo porque entre eles havia uma rivalidade pela liderança desta luta e nunca foi possível unirem-se para Fidel alcançar os seus objectivos

Quais eram as suas responsabilidades?

Primeiro tinha a responsabilidade da sua segurança. Depois tinha que escrever o seu diário pessoal. Além disso, durante alguns anos fui responsável pela preparação técnica, profissional e física dos outros membros da escolta. Fiz também parte da equipa avançada das viagens de Fidel Castro ao exterior e tornei-me responsável directo da segurança no estrangeiro a partir de 1989.  Numa dessas avançadas realizou-se a viagem ao Zimbabwe para a VIII cimeira dos países não alinhados em 1986. Conto como preparei várias casas que se compraram em dinheiro, assim como automóveis Mercedes e Toyotas para a segurança de Fidel durante a estada no país. Foi construído um refúgio na própria residência e uma sala de reuniões totalmente segura contra escutas estrangeiras. Esta operação, detalhada no livro, custou mais de dois milhões de dólares, para apenas uns dias de Fidel Castro neste país africano.

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Juan Reinaldo a retirar a caneta entregue por uma jornalista a Fidel Castro. A segurança temia tentativas de assassinato

 

Toda a sua vida Fidel Castro afirmou que não tinha património. Isso é verdade?

Não. Fidel tem residências espalhadas por toda a ilha. Durante o meu trabalho conheci pessoalmente mais de 20 casas de uso exclusivo de Fidel, moradias que não são habitadas por mais ninguém. Além disso, Fidel tem marinas com iates, como aquela que fica a sul de Cienaga de Zapata, chamada Caleta del Rosário, onde trabalham mais de 100 homens como marinheiros, mecânicos navais, pessoal de serviço e guardas, apenas para uso exclusivo de Fidel. Ele tem também uma ilha privada a sul da Cienaga de Zapata, possui um iate de 80 pés de comprimento por 20 de largura e outros três iates mais pequenos de 54 pés de comprimento por 17 de largura. Como se isso não bastasse, tem também à sua disposição barcos de pesca de 60 metros de comprimento a pescar apenas para ele. Todas as embarcações estão na Marina Caleta del Rosário. Fidel é ainda proprietário de um couto de caça nos arredores da povoação de Los Palácios, na província de Pinar del Rio, onde, no Inverno, se dedica a caçar patos que emigram da Florida.

Revela também a existência da ilha de Cayo Piedra. Pode descrevê-la?

Na verdade são duas ilhas pequenas unidas por uma ponte com mais de 200 metros de comprimento. Esta ilha fica a sul da Ciernaga de Zapata, na província de Matanzas. Fidel habita uma casa que anteriormente pertencia a um faroleiro e que foi convertida num chalet. Tem pista de helicóptero, molhe para atracar os iates, um restaurante flutuante, criadores de tartarugas e até um delfinário, para além de uma residência para visitantes com piscina olímpica e outras instalações.

Fidel ia para lá com frequência?

Geralmente ia aos fins-de-semana no Verão e passava a maior parte de Agosto na ilha. Eu ia com ele na maioria das vezes porque fazia parte dos mergulhadores que pescavam com Fidel.

Ele levava a família ou ia sozinho?

Geralmente ia com a família, a mulher Dália e o seu filho mais pequeno, Angel. Os outros filhos iam uns dias mas saíam já que estavam a estudar ou simplesmente gostavam mais de passar as férias em Varadero, rodeados de outros jovens filhos de dirigentes. Quando Fidel levava algum convidado então ia sozinho. A sua esposa, Dália, nunca apareceu em público até se conhecer a doença de Fidel em 2008.

Tinha amantes? Levava-as para lá?

Geralmente a sua amante Juanita Vera ia à ilha quando Fidel convidava algum estrangeiro que falava inglês porque ela era a tradutora de Castro.

E os filhos?

Os cinco filhos com Dália (Alexis, Alex, Alejandro, António e Angel) iam regularmente à ilha. Mas os outros filhos (Fidel Castro Diaz Balart e Jorge Angel Castro) não iam com frequência. Só os vi lá em duas ou três ocasiões e sempre em separado.

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No iate Aquarama II

O que faziam para passar o tempo?

Actividades próprias do mar, pesca submarina, pesca em barcos, nadar no mar alto, visitar outras ilhas da zona, etc.

Costumava levar convidados?

Os mais frequentes eram os seus amigos Gabriel Garcia Marquez e António Neñez Jimenez, assim como os seus familiares. Além deles também visitaram a ilha estrangeiros como o milionário Ted Turner e a jornalista Bárbara Walters.

Fala no iate Aquarama II. Pode descrevê-lo?

Foi fabricado em cuba com madeira preciosa enviada de Angola. O anterior, o Aquarama I, foi de um dirigente do governo anterior a 1959 e Fidel utilizou-o muitos anos até não poder navegar mais. Então mandou construir este, muito parecido com o anterior, mas com equipamentos de navegação mais modernos e uma estrutura mais aerodinâmica.

Fidel é um conhecido fã de desporto. Mas no livro diz que a pesca é o seu desporto favorito. Porquê?

Ele gosta imenso de pesca submarina. É o desporto que mais praticava durante o Verão. Mas no Inverno ia para o couto de caça particular, chamado La deseada.

Pode descrever o ritual da pesca submarina e o seu papel nessa actividade?

Fidel Castro pescava de uma forma pouco habitual. Entregávamos-lhe as armas de caça já carregadas e prontas para atirar. Ele disparava e quando um peixe ficava no arpão não o recolhia. Era um dos mergulhadores que o apanhava e levava para o barco. Fidel depois estedia a mão e outro mergulhador entregava-lhe um novo arpão pronto a disparar. O meu trabalho era apoiar estes mergulhadores e com uma espingarda submarina muito mais potente espantar os tubarões, barracudas e moreias que rodeavam Fidel Castro. Protegia-o desta forma quando estava na água.

Descreve Fidel como uma espécie de Luís XV. Porquê?

Porque tinha toda uma corte de servidores em seu redor, unicamente para o servir em todos os seus gostos e prazeres e porque tem condomínios e propriedades única e exclusivamente para seu uso pessoal, ilhas, iates, marinas, couto de caça, etc.

Como é possível que a existência da ilha se tenha mantido em segredo todos estes anos?

Porque tudo o que está relacionado com a vida pessoal de Fidel Castro sempre foi tratado em Cuba como um segredo de estado e apenas as pessoas escolhidas pelo próprio Fidel o podiam visitar.

A entregar a Fidel um presente no seu dia de anos

A entregar a Fidel um presente no seu dia de anos

Havia outros luxos?

Sim: vacas exclusivas para o leite que toma, fábricas de tabaco, iogurte, queijos, gelados, etc. Mas este aspecto está bem detalhado no livro já que se trata da vida oculta de Fidel.

Como era um dia normal?

Em Havana, levantava-se por volta das 13h ou 14h. A primeira coisa que fazíamos era dar-lhe “os telegramas”, ou seja, todas as notícias que saiam nas mais importantes agências de imprensa a nível mundial, juntamente com um relatório do ministério do interior, fundamentalmente da espionagem e contra espionagem, com o estado e desenvolvimento de actividades de espionagem em diferentes países, especialmente nos Estados Unidos e ainda outro relatório das forças armadas cubanas relativas às actividades das missões cubanas no exterior, seja em Angola, Nicarágua ou outro país. Saia de casa de Punto Cero às 15h ou 16h, ia ao Palácio ou ao Ministério das Forças Armadas para ver Raul ou aos dois lugares. No Palácio recebia as pessoas que queriam vê-lo ou ele tinha interesse em ver, nacionais ou estrangeiros, assistia às reuniões programadas do partido, Estado ou governo. Ao final da tarde ia visitar algum dignitário estrangeiro, ou então Garcia Marques ou Nuñez Jimenez nas suas casas. Depois ia para a sua residência de Punto Cero já de madrugada. Ficava lá ou saia com a mulher, Dália, para ver um filme no seu cinema particular que ficava a cerca de 1,5km de casa.

Mesmo em casa comiam como se estivessem num restaurante?

Na residência trabalham dois ou três cozinheiros e as refeições são feitas em função do que cada membro da família deseja comer. Este pedido é deixado na cozinha da residência por Dália no dia anterior, assinalando o que cada membro deseja comer ao pequeno almoço, ao almoço ou a comida e a que hora cada pedido deve estar pronto.

Falou em vacas exclusivas. O que quer dizer?

Na residência de Punto Cero há vacas, uma para cada membro da família. A destinada a Fidel é a número cinco. O leite é fresco, do dia. Mesmo quando Fidel viajava para o estrangeiro, um avião cubano ia ao encontro da delegação para enviar os telegramas e relatórios de que já falámos, assim como o leite, iogurte e vegetais que Fidel consumia.

É descrito como um indivíduo paranóico. Por quê?

Fidel quer mostra-se como uma pessoa calma e equilibrada e consegue-o em muitas ocasiões. Mas há momentos em que se mostra paranóico sobretudo no seu círculo mais intimo. Ninguém o pode contradizer, nem tem valor para o fazer – mesmo quando acha que ele está errado.

Ele grava todas as conversas?

Dentro de casa não sei. Grava as conversas telefónicas e também as da sua escolta. Para isso há, no perímetro de Punto Cero, uma pequena casa onde estão as equipas e membros da segurança que as manipulam a fim de ter todas as gravações que desejem. Dália sabe disto, uma vez que é ela quem dirige todo o que se relaciona com a residência e o pessoal que lá trabalha.

No seu gabinete no palácio, grava tudo. Desde as conversas com os visitantes, às que realiza por telefone. Há uma equipa de repórteres e gravadores. À frente desta equipa está Hilda Castro, uma antiga colaboradora de Fidel desde os anos 1960. Esta equipa faz também a transcrição das conversas telefónicas para quando Fidel as quiser ler.

Fidel Castro e Juan Reinaldo Sanches

Fidel Castro e Juan Reinaldo Sanches

Diz que os convidados estrangeiros eram vigiados pelos serviços de segurança. O que faziam concretamente?

Todas as pessoas de interesse, sejam presidentes, personalidades da cultura ou jornalistas, são vigiados constantemente pelos órgãos da contra-inteligência. Seja nas suas residências em Cuba ou quando estão a circular pelas ruas da cidade. Os relatórios são guardados e usados por Fidel num momento que considere oportuno.

Conta também que um diplomata francês apanhado no tráfico de arte se converteu num espião cubano?

Soube disto através de um relatório que a espionagem cubana enviou a Fidel sobre o caso dele.

Muitas vezes o mundo não conhecia o verdadeiro estado de saúde de Fidel. Como fazia para o ocultar?

Era um segredo de estado. Quando ele esteve internado em 1983 e 1993, vítima da doença que mais tarde o afastou do poder em 2006, nós na escolta fazíamos trabalhos de desinformação que consistia em utilizar um membro da escolta chamado Silvino Alvarez e disfarçá-lo com o uniforme de Fidel e uma barba postiça. Este duplo era utilizado à distância das pessoas, ou seja não era para o substituir numa reunião ou num discurso. Só o fazíamos quando o colocávamos no automóvel pessoal de Fidel e o passeávamos por Havana enquanto Fidel estava internado na sua clínica, com o objectivo de dar a impressão de que Fidel continuava a fazer a vida normal.

Qual era a relação dele com Angola?

Sempre disse que de Angola levaria só os mortos. No livro conto como foram parar a cuba madeiras preciosas e diamentes de Angola. E, no caso dos diamantes, como Fidel os recebeu em mão e também como desde a sede do ministério das Forças Armadas dirigiu toda a guerra neste país africano.

Ele tinha empresas e contas em bancos?

Sim, criou sociedades anónimas nos anos 1980 e que não estavam subordinadas à economia nacional: apenas ao conselho de estado, de forma a que os lucros dessas empresas fossem parar directamente às mãos de Fidel Castro. E sim, tinha contas em bancos mas só Fidel podia dispor delas. Empresas como a Coorporación Cimex, Cubalse, Cubanacán, etc. No livro conto como em várias ocasiões vi Abrahan Masique, então director de Cubanacán SA, entregar a Fidel Castro um milhão de dólares proveniente dos lucros de Cubanacán. Milhões que ele mandou um ajudante colocar em contas no exterior.

Porque deixou a escolta?

Em 1989 ouvi uma conversa (tal como os microfones do gabinete) entre Fidel Castro e o seu ministro do interior relacionado com o tráfico de droga. Aí dei-me conta que Fidel dirigia e sabia de tudo o que estava relacionado com a droga. Nesse momento senti-me enganado e defraudado por Fidel e pela revolução e estabeleci como objectivo sair. Mas tive de esperar até 1994, ano em que tinha todas as condições para pedir a reforma. Quando chegou a essa data pedi-a e Fidel enviou-me para a prisão. Passei dois anos detido, nas condições normais em Cuba: má alimentação, abusos por parte dos guardas, má higiene, etc.

Durante uma visita ao estrangeiro

Durante uma visita ao estrangeiro

Como foi para os Estados Unidos?

Quando saí da prisão, em 1996, comecei a tentar sair ilegalmente de Cuba, mas todas as tentativas foram infrutíferas até ao ano 2008 em que consegui sair ilegalmente através do México e daí para os Estados Unidos.

Porquê escrever este livro? .

Porque o mundo deve conhecer quem é verdadeiramente Fidel Castro. E não é o Fidel Castro que o próprio Fidel e o governo cubano trataram de promover pelo mundo.  Todos os livros sobre Fidel partem da informação dada por ele próprio ou pelo governo. Assim vemos os livros Um Grão de Milho, escrito por Tomás Borge, Fidel e a religião, de Frei Betto, e 100 horas com Fidel Castro, de Ignacio Ramonet. Todos partem de entrevistas a Fidel.

Na prisão dei-me conta de toda a informação que possuía e estabeleci o objectivo de dar a conhecer ao mundo o verdadeiro Fidel Castro. Fui tirando essa informação de Cuba por diferentes vias: na memória, em CD, em documentos e fotografias, de forma a que quando cheguei aos EUA tinha 90% da documentação que precisava. Posteriormente, em Miami, continuei a sacar informação valiosa de Cuba, o que me ajudou muito não só a escrever o livro como a provar o que dizemos. Este livro é o primeiro que aborda a vida privada de Fidel Castro, escrito por um testemunho presencial dos acontecimentos que ele trata. Daí a importância da obra.

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Os verdadeiros “abre-portas”

Conheci o Gustavo Sampaio há cerca de 10 anos. Era então editor de sociedade e internacional de O Independente. Precisávamos de uma pessoa para a redacção. Entre os vários candidatos, apareceu-me um rapaz alto, com ar de erasmus, e pasta de cabedal na mão. Chamava-se Gustavo Sampaio. Tinha passado pelo Público, onde, como estagiário, assinou várias peças. Boas. Tinha as melhores referências dele. Apesar de me parecer um bocado calado, deu todas as respostas certas. Ou melhor, quase todas. No final da entrevista, disse-lhe que ia fazer uma pergunta decisiva: qual era o clube dele? Numa manobra que achei diplomática, respondeu-me “Académica de Coimbra”. Ainda assim, ele ficou.

Nos meses seguintes fizemos juntos o internacional do Indy e ele foi contribuindo para a sociedade. Quando já estava na Sábado e o jornal fechou ele foi uma das pessoas a quem foi possível “dar a mão”. Sem fazer nenhum favor. Na revista, o Gustavo especializou-se numa coisa: investigar as relações políticas e empresariais dos mais poderosos da sociedade. E quando voltou ao regime de freelancer, publicou uma obra que teve um impacto mediático imenso: Os Privilegiados, uma obra que mostra como políticos e ex-políticos beneficiam de direitos adquiridos, gerem interesses e movem influências.

Agora, ele regressa com Os Facilitadores, uma investigação jornalística que sistematiza as listas de clientes das maiores sociedades de advogados e as participações dos mesmos escritórios na produção legislativa e actividade regulatória em que os seus clientes têm interesses. No fundo, é um livro, como o próprio diz, sobre aqueles homens e mulheres que “transitam continuamente entre os escritórios de advocacia e os gabinetes ministeriais, órgãos de regulação, direcções nacionais de partidos políticos, cargos governativos, comissões parlamentares, grupos de trabalho encarregues de produção legislativa, etc. Servem como vasos comunicantes, fornecedores de contactos, intermediários de relações, facilitadores de negócios, produtores de blindagem jurídica, depositários de informação sigilosa, gestores de influências, criadores de soluções, movendo-se habilmente nos interstícios de um sistema “kafkiano”.”

Voltando ao início. Dez anos depois, o Gustavo continua a ser um tipo calado e a torcer pela Académica de Coimbra. Mas tornou-se um belíssimo jornalista. E permitiu-me publicar aqui um pequeno excerto deste trabalho monstruoso, concretamente sobre o escritório CMS, de Rui Pena & Arnaut. A apresentação do livro é hoje, às 18h30, na FNAC do Chiado. Não faltem.

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A quadratura CMS/Vinci/Lusoponte/Mota-Engil 
De volta a Portugal. Em suma, tanto na Rádio Renascença como na SIC Notícias, Arnaut comentou matérias directamente implicadas com a firma de advogados de que é sócio fundador: as privatizações da REN, ANA e TAP. Não por acaso, em ambos os comentários políticos, o ex-ministro apontou no mesmo sentido: acelerar e concretizar as privatizações dessas empresas públicas.
“A equipa de serviço completo da CMS permanece activa em sofisticadas transacções transfronteiriças. Entre os mandatos mais recentes destaca-se a privatização da TAP, bem como a oferta por parte da Vinci Concessões de valores mobiliários relacionados com a privatização a ANA”, realça o directório “The Legal 500” de 2014, no sector “mercados de capitais”.
Na mesma edição, mas no sector “corporativo, fusões e aquisições”, refere-se também que a equipa da CMS “aconselhou a Vinci e a TAP na privatização dos aeroportos portugueses.” De resto, a Vinci Concessões (do Grupo Vinci) também é indicada como cliente da CMS no sector “energia e ambiente” (ou seja, envolvendo outras operações, não relacionadas com a privatização da ANA). O mesmo se aplica à TAP, mas no sector “imobiliário”.
Entretanto, a partir de Dezembro de 2013, os valores de diversas taxas cobradas no aeroporto de Lisboa aumentaram 4,40%. Trata-se de “uma subida que a ANA – Aeroportos de Portugal estima que tenha um impacto de cerca de 380 mil euros para os clientes. […] A subida que entra hoje [dia 1 de Dezembro de 2013] em vigor, e que se segue a um aumento de 4,37% no início de Junho, é justificada pela ANA com o facto de o aeroporto de Lisboa ter registado ‘um desempenho do tráfego acima do esperado.’”
Ainda no que concerne à venda da ANA, “a CMS foi a sociedade escolhida pela Vinci para assessorar juridicamente a empresa no processo de privatização da ANA. A CMS foi responsável pelo aconselhamento jurídico desde a fase inicial de elaboração da proposta, sob a coordenação dos advogados José Luís Arnaut, Mónica Carneiro e Francisco Xavier de Almeida.
Neste processo, o Estado português vendeu 95 por cento do capital da ANA ao grupo francês Vinci pelo valor de 3.080 milhões de euros, representando o maior processo de privatização realizado em Portugal.
A operação contou com o contributo de José Luís Arnaut, ‘managing partner’ da CMS, Mónica Carneiro Pacheco, coordenadora dos departamentos de Energia e Direito Público, e Francisco Xavier de Almeida, coordenador do departamento de Fusões e Aquisições”, revelou o jornal “Advocatus” (edição 19 de Setembro de 2013).
Por coincidência, Mónica Carneiro Pacheco (sócia da CMS desde 2007) exerceu anteriormente as funções de adjunta no Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, entre 1994 e 1995, quando o respectivo ministro dava pelo nome de Joaquim Ferreira do Amaral.
Nas funções de ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Ferreira do Amaral tomou várias decisões relacionadas com a Lusoponte (da qual se tornou administrador em 2005), nomeadamente a concessão do projecto, construção, financiamento e exploração da segunda travessia (ponte Vasco da Gama) sobre o rio Tejo.
O contrato de concessão firmado com a Lusoponte, em 1994 (quando Mónica Carneiro Pacheco era adjunta do ministro Ferreira do Amaral), também outorgou à empresa a receita da cobrança de portagens na ponte 25 de Abril e o direito de exclusividade em relação a futuras travessias do rio Tejo, a jusante da ponte de Vila Franca de Xira.
O Grupo Vinci (assessorado por Mónica Carneiro Pacheco, da CMS, na aquisição da ANA) está ligado à Mota-Engil na estrutura accionista da Lusoponte (administrada pelo ex-ministro Ferreira do Amaral). A Mota-Engil detém 38% do capital da Lusoponte, enquanto o Grupo Vinci controla 37% do capital.
Entre os contratos por ajuste directo mais avultados da CMS destaca-se, por exemplo, um de 153 mil euros que foi adjudicado pela EP – Estradas de Portugal em Março de 2012, visando “consultoria jurídica no âmbito da renegociação dos contratos de subconcessão.” Ou seja, potencialmente relacionado com as PPP rodoviárias da concessionária Ascendi (cujo accionista maioritário é o Grupo Mota-Engil).

O novo aeroporto em Alcochete
“A Vinci tem garantido o exclusivo da construção do novo aeroporto internacional de Lisboa. Apesar de não ser uma cláusula directamente negociada entre o Estado português e o grupo francês, essa prerrogativa resulta do contrato de concessão assinado entre o Estado e a ANA, a que o ‘Diário Económico’ teve acesso, e confere a quem detiver o controlo da gestora aeroportuária nacional o exclusivo, não só de gerir o novo aeroporto da capital – como sempre esteve previsto – mas também o direito de o construir sem recurso a terceiros através de concurso.
Confrontada com esta questão, fonte oficial da ANA confirmou ao ‘Diário Económico’ que este direito está garantido. Questionada por escrito sobre se ‘o futuro dono da ANA terá o exclusivo, não só da gestão, mas também da construção do novo aeroporto internacional de Lisboa”, essa mesma fonte oficial da ANA respondeu laconicamente: ‘sim.’”
O jornalista Daniel Deusdado como que anteviu a sinopse do filme, através de um premonitório artigo de opinião que foi publicado no “Jornal de Notícias” (edição 3 de Janeiro de 2013) e do qual extraímos os seguintes excertos:
“A ANA geria os aeroportos com lucros fabulosos para o seu pai, Estado, que, entretanto falido, leiloou a filha ao melhor pretendente. Um francês de apelido Vinci, especialista em autoestradas e mais recentemente em aeroportos, pediu a nossa ANA em casamento. E o Estado entregou-a pela melhor maquia (três mil milhões de euros), tornando lícita a exploração deste monopólio a partir de uma base fabulosa: 47% de margem de exploração (EBITDA).
O Governo rejubilou com o encaixe… Mas vejamos a coisa mais em pormenor. O grupo francês Vinci tem 37% da Lusoponte, uma PPP constituída com a Mota-Engil e assente numa especialidade nacional: o monopólio (mais um) das travessias sobre o Tejo. Ora é por aqui que percebo por que consegue a Vinci pagar muito mais do que os concorrentes à ANA. As estimativas indicam que a mudança do aeroporto da Portela para Alcochete venha a gerar um tráfego de 50 mil veículos e camiões diários entre Lisboa e a nova cidade aeroportuária.
Mas isto só será lucro quando houver um novo aeroporto. Sabemos que a construção de Alcochete depende da saturação da Portela. Para o fazer, a Vinci tem a faca e o queijo na mão. Para começar pode, por exemplo, abrir as portas à Ryanair.”
“Portanto, num primeiro momento os franceses podem apostar em baixar as taxas para as ‘low-cost’ e os incautos aplaudirão. Todavia, a prazo, gerarão a necessidade de um novo aeroporto através do aumento de passageiros.
Quando isso acontecer, a Vinci (certamente com os seus amigos da Mota-Engil) monta um apetecível sindicato de construção (a sua especialidade) e financiamento (com bancos parceiros). A obra do século em Portugal. Bingo! O Estado português será certamente chamado a dar avais e a negociar com a União Europeia fundos estruturais para a nova cidade aeroportuária de Alcochete. Bingo! A Portela ficará livre para os interesses imobiliários ligados ao Bloco Central que sempre existiram para o local. Bingo!
Mas isto não fica por aqui porque não se pode mudar um aeroporto para 50 quilómetros de distância da capital sem se levar o comboio até lá. Portanto, é preciso fazer-se uma ponte ferroviária para ligar Alcochete ao centro de Lisboa. E já agora, com tanto trânsito, outra para carros (ou em alternativa uma ponte apenas, rodoferroviária). Surge portanto e finalmente a prevista ponte Chelas-Barreiro (por onde, já agora, pode passar também o futuro TGV Lisboa-Madrid). Bingo!
E, já agora: quem detém o monopólio e ‘know-how’ das travessias do Tejo? Exactamente, a Lusoponte (Mota-Engil e Vinci). Que concorrerá à nova obra. Mas, mesmo que não ganhe, diz o contrato com o Estado, terá de ser indemnizada pela perda de receitas na Vasco da Gama e 25 de Abril por força da existência de uma nova ponte. Bingo!”
No que respeita à eventual abertura de portas à Ryanair – “a Vinci tem a faca e o queijo na mão” –, eis uma notícia mais recente: “A Ryanair arranca hoje [dia 1 de Abril
de 2014] com a sua base no aeroporto de Lisboa. A companhia ‘low-cost’ abre com quatro novas rotas e inicia amanhã a ligação entre a capital e a cidade do Porto.
O CEO da Ryanair, Michael O’Leary, garante que até ao fim do ano a companhia vai ser a segunda maior no aeroporto de Lisboa, ultrapassando a ‘easyJet’ em número de passageiros de e para a capital portuguesa, e que ‘nos próximos 18 meses’ vai superar a TAP.
A companhia aérea de baixo custo esteve durante muito tempo em conversações com a ANA Aeroportos para entrar em Lisboa, mas as partes nunca chegaram a entendimento até agora.”
Quanto à eventual “saturação da Portela”, há que ler nas entrelinhas da primeira entrevista que Nicolas Notebaert, presidente da Vinci Airports, do grupo francês Vinci, concedeu em Portugal (ao jornal “Expresso”, edição 8 de Fevereiro de 2014) após a aquisição da ANA. Sobretudo as duas respostas finais:
_ O aeroporto de Lisboa teve em 2013 cerca de 16 milhões de passageiros. Qual é a sua capacidade máxima?
_ Aproxima-se dos 25 milhões de passageiros, sendo 22 milhões o número que está previsto no contrato de concessão para começar a discutir o futuro do novo aeroporto de Lisboa. Até lá, vamos investir de forma regular para melhorar a capacidade do actual aeroporto.
_ Quando é que essa capacidade estará esgotada?
_ Ninguém sabe exactamente.
Outro pormenor a ter em conta são os custos decorrentes da eventual construção de um novo aeroporto. “O contrato de venda da ANA aos franceses da Vinci não exclui que o investimento necessário à construção do novo aeroporto de Lisboa venha a recair sobre o Estado. Da mesma forma que as infraestruturas de acesso podem também vir a ser uma factura pública. O alerta é dado no parecer da comissão de acompanhamento à privatização da ANA, ontem [dia 13 de Março de 2014, ou seja, mais de 15 meses após a consumação da venda da ANA] divulgado pelo Governo.”
José Luís Arnaut e Mónica Carneiro Pacheco, entre outros advogados da CMS, intervieram directamente no processo de privatização da ANA, em representação dos interesses do comprador: o Grupo Vinci. Concluída a privatização, Arnaut foi nomeado como presidente da Mesa da Assembleia Geral da ANA, assumindo um mandato referente ao triénio 2012-2014.”

in “Os Facilitadores”, págs. 128-133

Glenn Greenwald, um ano depois das primeiras revelações sobre a NSA

A 1 de Junho de 2013, Glenn Greenwald foi o primeiro jornalista a encontrar-se com Edward Snowden. Conheceram-se em Hong Kong, após meses de trocas de mensagens encriptadas. As primeiras horas foram passadas com o repórter a interrogar o antigo analista da NSA num hotel para perceber quais as motivações para aquela que seria uma das maiores fugas de informação da história. A primeira de um conjunto de notícias que lhe valeram o prémio Pulitzer foi publicada a 5 de Julho. Quase um ano depois, Greenwald está a lançar o livro “Sem Esconderijo” onde conta como tudo aconteceu e, em entrevista à PBS, recordou a importância das revelações que foram feitas.

Jorge Coelho, a entrada na maçonaria e a desilusão

Jorge Coelho é dos políticos mais influentes dos últimos 20 anos. Sim. É. Como em continua a ser. Ainda hoje tem uma capacidade de interferir em decisões das mais altas esferas do país que não está ao alcance de muitos. Por isso, o Fernando Esteves passou os últimos anos a investigar e a reconstruir a vida de um homem que para muitos continua a ser um mistério. Da infância à entrada na política, da passagem por Macau à doença que quase o matou, da maçonaria ao mundo dos negócios. Está lá tudo. O Todo-Poderoso é um livro incontornável para se conhecer não só o homem como também os bastidores de muitas decisões que influenciaram o país – incluindo a forma como José Sócrates chegou à liderança do PS. Digo isto com especial orgulho: para além de trabalhar com o Fernando há mais de 10 anos, ele é um dos meus amigos mais próximos. Talvez por isso me tenha permitido publicar aqui um dos capítulos da sua obra: sobre a entrada de Jorge Coelho na maçonaria. Leiam, avaliem e comprem. Vão ver que vale a pena.

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“Capítulo XIII

O MERGULHO NA MAÇONARIA

Sentado numa câmara exígua e sombria, Jorge Coelho reflectia. Olhava para as caveiras humanas desenhadas nas paredes gastas da sede do Grande Oriente Lusitano (GOL), em Lisboa, enquanto tentava encontrar as palavras certas para registar os seus últimos pensamentos na qualidade de membro da sociedade «profana». Tinha sido conduzido à sala com os olhos vendados, depois de ter sido obrigado a dar várias voltas pelo palácio maçónico. As curvas e contracurvas confundiram‑no ao ponto de não saber exactamente onde se encontrava. Era esse o objectivo. Se quisesse fugir, não sabia para que lado correr. Restava‑lhe continuar.

Tinha alguns minutos. Sistematizou ideias. Avançou para a folha em branco. Colou a ponta da caneta ao papel e fez o que tinha a fazer. O momento em que finalmente assinou o «testamento maçónico» simbolizou a sua morte profana. O mestre‑de‑cerimonias – uma espécie de mordomo numa loja maçónica, encarregado de fazer cumprir escrupulosamente o ritual – surgiu à porta. Pediu‑lhe o testamento. Precisava de o partilhar com os seus irmãos, no sentido de perceber se Jorge Coelho reunia condições para ser aceite na família maçónica. Seguiram‑se mais uns instantes de reclusão. Até que o mestre‑de‑cerimonias voltou ao seu encontro.

Minutos depois, novamente de venda negra a cobrir‑lhe os olhos, com a perna esquerda das calças arregaçada e uma parte do peito completamente exposta, Jorge Coelho conseguia apenas distinguir sons, vozes e instruções dadas pelo Venerável Mestre – que presidia à cerimónia – da loja a que estava prestes a aderir como aprendiz. O cenário era intimidatório.

Na derradeira prova antes de poder ser membro de pleno direito do GOL, fizeram‑no dar três voltas completas ao templo. Sempre acompanhado pelo mestre‑de‑cerimonias, superou o teste. Pelo caminho, teve de ouvir barulhos violentos de espadas contra o chão e de malhetes a martelar em madeiras. Sentiu o calor do fogo nas mãos e a temperatura fria da água no corpo. Já com os percursos feitos – sempre da esquerda para a direita da loja, que é como quem diz das trevas para a luz –, mas ainda de olhos vendados, foi conduzido ao altar. Estava na altura de ser finalmente iluminado pela figura do Venerável. Tiraram‑lhe a venda.

O cenário era impressionante: dezenas de homens ornamentados com aventais de cores e disposições variadas, alinhados como numa parada militar, olhavam para si. Estavam ansiosos por recebe‑lo. Identificou algumas figuras que lhe eram familiares: João Cravinho, que foi seu colega no Governo; José Miguel Boquinhas, ex‑secretario de Estado da Saúde e seu grande amigo, ou Maldonado Gonelha, ex‑ministro da Saúde. Depois disso ainda apareceria João Soares, ex‑presidente da Câmara Municipal de Lisboa. À sua frente, o Venerável Mestre – Luís Nunes de Almeida, ex‑presidente do Tribunal Constitucional, entretanto morto – levantou uma espada que atravessava o testamento maçónico que o neófito escrevera antes de entrar. Acto contínuo, pegou‑lhe fogo.

Ficaram todos a assistir à transformação dos pensamentos do aprendiz em cinzas. O socialista era oficialmente membro de pleno direito de uma das organizações mais discretas do mundo. Jorge Coelho foi um maçon tardio. Seduzido a entrar no GOL, a maior e mais tradicional obediência maçónica portuguesa, por Maldonado Gonelha, nunca foi um «irmão» exemplar. Apesar do entusiasmo inicial, a sua taxa de comparência nas reuniões da loja sempre foi muito baixa. «Não tinha muito tempo. Entrei porque tinha curiosidade. Os meus amigos que lá estavam diziam‑me maravilhas da instituição e comecei a desenvolver a vontade de participar, na perspectiva do aperfeiçoamento pessoal.»

Ao contrário do que acontece com muitos dos aderentes à maçonaria, naquela altura Jorge Coelho não precisava da organização para nada. Já tinha sido tudo o que queria na política. Mas o contrário não era verdade: alguns membros da organizaçãoprecisavam de si, nem que fosse para ostentar – e tirar disso proveito junto de outros, quer no plano político quer no campo empresarial – a alegada «influência» que o estatuto de «irmandade» com o dirigente socialista lhes proporcionava.

Em Fevereiro de 2005, José Sócrates venceu, como se esperava, as eleições legislativas, derrotando um Santana Lopes profundamente desgastado pela sucessão de escândalos que ditou a convocação de eleições antecipadas por Jorge Sampaio. Com a maioria absoluta que obteve Sócrates, poderia fazer literalmente o que quisesse. O seu estado de graça era total.

No processo de formação de Governo deu que falar a alegada «varridela» sofrida pela ala maçónica do partido, na qual se incluía Jorge Coelho. Novas figuras como Pedro Silva Pereira, Freitas do Amaral (convidado para ministro dos Negócios Estrangeiros) ou Mário Lino estavam distantes de quaisquer rituais relacionados com a utilização de aventais e outro tipo de parafernália pouco ortodoxa. À boca fechada, os pedreiros livres criticavam o processo.

Numa escuta telefónica do Caso Portucale (uma investigação ao alegado tráfico de influências, dentro do Governo PSD/CDS, para a aprovação de um projecto imobiliário do grupo Espírito Santo), o dirigente do CDS Abel Pinheiro (responsável pelas finanças do partido e proprietário do telefone sob escuta) e Rui Gomes da Silva (ex‑ministro do Governo cessante de Santana Lopes), concordavam que os maçons estavam sob fogo cerrado de José Sócrates, que supostamente se encontraria empenhado em afrontar os «irmãos» do GOL.

Para Abel Pinheiro e Rui Gomes da Silva, as nomeações para o Governo deveriam respeitar uma quota maçónica. E, garantiu Abel Pinheiro, as escolhas de Sócrates mereciam a censura de muitos, incluindo a de Jorge Coelho. A transcrição da escuta, realizada no dia 6 de Março de 2005 entre as 16h15 e as 16h36, é reveladora sobre dois fenómenos: a leviandade com que dois maçons falam entre si sobre assuntos do Estado e a tentação da utilização do nome de outros para insinuar uma influência e um acesso ao poder que é muitas vezes ilusório:

Rui Gomes da Silva: Tou!

Abel Pinheiro: Rui!

Rui Gomes da Silva: Abel, como está?

Abel Pinheiro: Você está a descansar, já?

Rui Gomes da Silva: Tou, tou, estou a descansar.

(…)

Abel Pinheiro: Eles [o PS] vão dar cabo disto tudo, não é? (…)

Quando o professor Freitas [do Amaral] é ministro dos Negócios

Estrangeiros, isto revela variadíssimas coisas.

Rui Gomes da Silva: É.

Abel Pinheiro: Revela que o PS comprou um ministro.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Comprou, como se compra… vá lá, o queijo limiano, isto é o queijo limiano elevado ao cubo, não é?

Rui Gomes da Silva: Exactamente. Isto é o queijo limiano.

Abel Pinheiro: Bom, eu acho que isto é mau porque ninguém tem coragem de dizer que o Freitas é um vigarista! Tem de se dizer com todas as letras: «É um vigarista!» (…) E segundo: um ministério, um ministério, que um sujeito aceita ser ministro e faz as declarações que fez ao Expresso.

Rui Gomes da Silva: Ah, da carta a dizer que isto…

Abel Pinheiro: Aceitei ser ministro depois de saber a lista dos outros.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Quer dizer, isto é uma vergonha para um primeiro‑ministro! Logo à cabeça.

Rui Gomes da Silva: É, é uma vergonha.

Abel Pinheiro: Quer dizer, um primeiro‑ministro que aceita um senhor ser ministro, diga «Diga cá os nomes a ver se me servem.» Ó meu caro amigo! Bom, isto é para pôr de lado, o senhor. Depois, quando você vê – disse‑me o Miguel Relvas que falou ontem… falou… falou‑me ontem, que tinha falado na sexta‑feira com o Jorge Coelho, que está em Paris a fazer tratamento.

Rui Gomes da Silva: O senhor está em que estado? Ai está pior, não é?

Abel Pinheiro: Ele foi fazer aquilo… não sei se está pior, mas tem… aquilo é recidivante, tem de fazer… pronto, coitado, tem de fazer o tratamento. E diz que o Coelho estava de cabeça perdida! Disse uma coisa logo. «Eles que não pensem que o Seguro vai ficar como líder parlamentar!»

Rui Gomes da Silva: Pois, porque ele… mas ouça lá! Ele fez isto como? Este Governo? Este Governo é uma vergonha, porque não (imperceptível) ninguém…

Abel Pinheiro: Mas ouça, eu acho o Governo, como disse o António José… como é que se chama? O gajo do Noticias do Porto?

Rui Gomes da Silva: António José Teixeira, sim.

Abel Pinheiro: Que não é do nosso lado, é do lado deles.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Disse aquilo que é definitivo: «Isto não é um Governo do PS, é um Governo do Engenheiro Sócrates.»

Rui Gomes da Silva: É, sim.

(…)

Abel Pinheiro: Quer dizer, isto é um Governo em que quem tem na prática o poder é o preto [António Costa], não é?

Rui Gomes da Silva: É, é.

Abel Pinheiro: O resto são histórias.

Rui Gomes da Silva: Olhe uma coisa, e maçonaria, não entra ninguém, pois não? Ele…

Abel Pinheiro: Quem?

Rui Gomes da Silva: Os gajos da maçonaria [estão] todos fora.

(…)

Abel Pinheiro: Dizia o Nobre Guedes ontem lá no Conselho Nacional que este é o Governo mais anti‑clerical desde o 25 de Abril!

Rui Gomes da Silva: Eu acho… é o mais anti‑clerical e anti‑maconaria. O gajo mete os gajos da Igreja todos fora e da maçonaria todos fora.

(…)

Abel Pinheiro: [o] que o torna muito vulnerável, não é!

Rui Gomes da Silva: Claro, sim.

Sobre esta escuta, Jorge Coelho limita‑se a dizer que «o senhor Abel Pinheiro tem uma imaginação muito fértil. Nunca disse nada daquilo, como é óbvio!»

Na Camões, o socialista era a figura mais proeminente. Ao contrário do que seria expectável, não foi colocado numa das lojas mais importantes do GOL. Poderia ter escolhido estruturas tradicionalmente ligadas ao poder, como as lojas Convergência, Universalis, República ou outras. Nelas poderia privar com figuras como Rui Pereira, ex‑ministro da Administração Interna; Miguel Relvas, ex‑ministro do PSD; ou Armando Vara, ex‑presidente da Caixa Geral de Depósitos. Não escolheu. Mais do que esticar o seu poder, procurava a afirmação de uma certa espiritualidade laica. Que acabou por não encontrar nos corredores do velho palacete situado no Bairro Alto. «Foi uma desilusão.» Resultado: actualmente não pertence à maçonaria. Pediu o «atestado de quite» há cerca de dois anos. “