“O meu nome não é importante. Sou Charlie “

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Domingo, 11 de Janeiro de 2015. São 14h25m. Milhares de franceses continuam a dirigir-se à Praça da República, em Paris. Todos os caminhos parecem ir lá dar. Os transportes públicos são gratuitos. Mas as estações de metro daí até à Praça da Nação foram encerradas por motivos de segurança. Os autocarros também viram o seu percurso interrompido num perímetro largo. Não há táxis. Os únicos veículos que circulam são os das autoridades e as muitas bicicletas que se vêem na capital francesa.

No alto da estátua da República, dezenas de pessoas empunham bandeiras de diversos países e cartazes com declarações de liberdade e homenagem ao Charlie Hebdo, o semanário satírico barbaramente atacado na passada quarta-feira pelos irmãos Said e Chérif Kouachi. Por toda a praça são entoados gritos de “je suis Charlie”, “liberté” e entoada a Marselhesa. Chegar junto à estátua é uma tarefa difícil. Mas é lá que, há cerca de uma hora e meia, Andreia e Joaquim seguram uma bandeira portuguesa.

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Os dois estão em França há cerca de seis anos. Ela é de Vila do Conde. Ele de Leça da Palmeira. Apesar de terem emprego em Portugal, decidiram emigrar porque arranjaram melhores oportunidades na capital francesa, ambos na área das limpezas. Nenhum conhecia o semanário dirigido por Charb antes dos atentados da semana passada. “Decidimos vir para nos manifestarmos contra o terrorismo e pela liberdade de expressão que há em França”, diz à SABADO Andreia, 27 anos. É ela quem segura na bandeira. Ele regista os momentos na máquina fotográfica que transporta a tiracolo. E é ele quem não poupa críticas ao que tem visto na televisão portuguesa. “O que tem passado é que eles estavam direccionados contra o Islão, o que é mentira. Eles criticavam toda a gente”, diz Joaquim, 37 anos.

Na zona oeste da Praça, a multidão começa a aglomerar-se junto ao início da Boulevard Voltaire – a enorme avenida de três quilómetros que termina na Praça da Nação. O percurso não podia ser mais adequado ao motivo da manifestação. Afinal foi Voltaire quem disse as palavras que podiam aplicar-se ao modo como os ilustradores do Charlie Hebdo viam o mundo: “Posso não concordar com o que tem a dizer, mas defenderei até à morte o seu direito a dizê-lo”.

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Meia hora antes do início da marcha, marcada para as 15h30 (menos uma hora em Portugal), é praticamente impossível alguém conseguir mover-se naquela zona. A solução é aguardar imóvel até que as primeiras filas avancem. Alguns edifícios em redor estão decorados com faixas com frases como “fiquemos unidos”, “liberdade” e o já viral “je suis Charlie”. A disciplina ordeira e o silêncio que por vezes se instala entre a imensa multidão impressionam. Tanto que por vezes ele é interrompido pelos gritos de três raparigas pequenas que no ultimo andar de um dos edifícios em redor gritam “Charlie, Charlie, Charlie”. Com o aproximar da hora, os manifestantes começam a gritar “queremos marchar”. Mas ninguém se atreve a dar o primeiro passo antes de o relógio marcar o minuto indicado.

A maioria tem uma mensagem. Seja num cartaz, num papel ou um simples lápis e caneta que empunham em sinal de liberdade. O percurso inicial é feito lentamente. Para percorrer cerca de 300 metros, aquela impressionante massa humana levou quase 40 minutos. No topo de alguns edifícios é possível ver policias armados a observar o que se passava ao nível da rua. Foi o caso do número 18. Quando a multidão os viu, começou a aplaudir e a gritar “merci, merci, merci”. Passou-se o mesmo mais à frente, no número 45-47. E de cada vez que o polícia acenava em sinal de agradecimento, mais aplausos se seguiam.

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Apesar dos apelos dos líderes da comunidade muçulmana francesa à participação no encontro, a verdade é que, se compareceram, os seus membros não estavam visíveis. A esmagadora maioria dos manifestantes era de origem europeia. Uma das excepções era Bouchra. Jurista, nascida em França, caminhava no centro da coluna com um cartaz que dizia num dos lados “Eu sou muçulmana, eu sou Charlie e todas as outras vítimas” e do outro “Não em meu nome”. Decidiu comparecer e afirmar-se como muçulmana porque é preciso “não ter medo”. “Mesmo que não concorde com o que eles faziam, aqui há liberdade de expressão. As pessoas que fizeram isto não são verdadeiros muçulmanos”, diz à SABADO sem interromper a marcha. Os atentados chocaram-na. “Ainda por cima foi no meu bairro, estava a trabalhar quando soube e fiquei sem saber o que pensar. Usar a religião para justificar uma coisa destas é inaceitável”, diz.

Ao fim de três horas e meia a Praça da Nação surge já envolta em escuridão. Alguns milhares de pessoas ainda se juntam no meio da rotunda, mas a maioria acaba por seguir o seu caminho. Na zona onde se concentraram as câmaras de televisão, todos aqueles que empunham uma bandeira tentam mostrar a solidariedade do seu pais. É lá também que está Urbano Brites. Português, de Fátima, emigrou para França há 19 anos. As frases em português já são intercaladas por expressões em francês. Também ele empunha uma bandeira nacional. “Trouxe-a para mostrar as minhas origens”, diz à SABADO. “Comprei um pau de vassoura no caminho e colei-a”, diz. Não se importa que a maioria das pessoas que o aborda seja queira fazer apenas uma pergunta: “de que país é essa bandeira?”

A ex-mulher de Urbano abriu há pouco tempo um restaurante em Montrouge, a zona onde Amedy Coulibaly matou uma mulher polícia, na passada quinta-feira. “Não sabia se o meu filho estava com ela ou não. Fiquei muito preocupado”, conta. Um pouco mais ao lado, um homem segura um cartaz com uma mensagem em que assume o que muitos não fazem: “compreendi que a nossa liberdade se deve à irreverência deles e agora também às suas vidas. Je suis Charlie.” Com um ar visivelmente abatido explica à SABADO : “Escolhi esta mensagem porque foi o que senti. Seguia-os à distância e percebi que eles lutavam por toda a gente. Por isso tenho também um desenho deles que diz mais à cultura francesa [de Jesus a ter relações com Deus e com o Espírito Santo]. Toda a gente tem o direito de se exprimir”. Quando a SABADO lhe perguntou o nome ia começar a responder mas depois mudou de ideias: “o meu nome não é importante. Sou Charlie.”

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Sem desculpas para faltar

Manifestação pela liberdade e pela República: hoje, todos os transportes públicos em Paris são grátis.

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Uma manifestação de ódio, vencida por outra de amor

Em 1996 o Ku Klux Klan organizou uma manifestação na localidade de Ann Arbor, no Michigan. Keshia Thomas tinha 18 anos. Estava entre um grupo que se tinha juntado para mostrar aos supremacistas brancos que eles não eram bem-vindos. Apenas uma vedação os separava. Foi quando alguém gritou que, entre eles, estava um membro do Klan. A multidão virou-se e viu um homem branco, com uma bandeira confederada e uma tatuagem das SS alemãs. Ele tentou afastar-se, mas aquela multidão começou a segui-lo e a gritar “matem o nazi”. O homem tentou correr. Tentou. Não conseguiu. Foi atirado ao chão e o grupo começou a pontapeá-lo e a atingi-lo com paus de madeira. Foi quando Keshia Thomas se atirou para cima dele e começou a protegê-lo dos golpes. Sim, àquele homem que, provavelmente representava o contrário de tudo aquilo em que ela acreditava. A história está no site da BBC. Lá podem ver mais imagens e saber o que aconteceu depois. Numa época em que as dúvidas sobre a humanidade das pessoas em geral levanta muitas dúvidas, é bom ler histórias destas, mesmo que tenham 17 anos.

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A marcha contra a espionagem da NSA

A organização Stop Watching Us organiza amanhã, em Washington, uma manifestação contra a espionagem indiscriminada realizada pela National Security Agency. O grupo reúne actores e realizadores de Hollywood, activistas dos direitos humanos, advogados e antigos elementos dos serviços de inteligência dos EUA que denunciaram o sistema e foram acusados de espionagem. Para alertar o mundo dos perigos das intercepções electrónicas reveladas por Edward Snowden, produziram este vídeo. É que os alvos não são só líderes mundiais e terroristas. Somos todos nós.

O que eu vi e ouvi nas ruas de Lisboa

Vi policias a serem apedrejados durante uma hora. Vi miúdos de cara tapada a insultarem a PSP. Ouvi um pedido para haver civismo e bom comportamento. Vi um petardo rebentar no escudo de um agente. Vi dezenas de polícias a correr na minha direcção de cacetete em punho. Vi os tais miúdos de cara tapada a fugir para as ruas à volta da Assembleia da República. Vi pessoas mais velhas que não conseguiram fugir. Vi agentes descontrolados. Vi homens a sangrar da cabeça. Vi senhoras caídas no chão.

Vi os mesmos miúdos a continuarem a apedrejar a polícia. Ouvi agentes com um ar nervoso a implicar com mulheres que passavam na rua. Vi polícias a falar agressivamente com pessoas que estavam a sair do trabalho. Vi espanhóis, italianos e um grego a tentar organizar os distúrbios. Ouvi ordens num português mal amanhado. Vi estudantes universitários a cortar a Avenida D. Carlos com caixotes do lixo e ecopontos. Vi-os a incendiá-los. Ouvi os mesmos desordeiros a pedir cuidado com os carros. Vi um tipo com uma navalha “ponta e mola” a furar os pneus de todos os automóveis estacionados por que passava.

Vi um adolescente a destruir a Caixa Geral de Depósitos. Vi arquitectos, professores e “artistas” (sim, perguntei-lhes o que faziam) a apedrejar a polícia. Vi bombeiros a tentar apagar os fogos. Vi menores de idade a arrancar sinais de trânsito e a destruir mupis com anúncios do McDonalds. Vi um casal a enrolar um charro junto às fogueiras. Vi um espanhol a fugir quando percebeu que a polícia estava a cercar os desordeiros na Av. 24 de Julho. Vi desordeiros a trocar informações ao telefone sobre a localização da PSP.

Vi polícias à paisana a correr junto ao rio. Vi adolescentes encostados ao gradeamento da estação do Cais do Sodré e algemados junto ao passeio. Ouvi a PSP a organizar equipas para procurar os grupos responsáveis pelos desacatos. Vi os agentes a cercar os últimos manifestantes no Cais do Sodré. Vi dezenas de incêndios nas ruas de Lisboa. Vi as escadas da Assembleia da República cobertas de pedras, latas e garrafas. Vi que algo muito pior está para vir.

Encerramento da manifestação