Marco Borges: os chineses mostraram-lhe a sua outra face

Há alguns meses escrevi a história de como Marco Borges tinha mudado a sua vida radicalmente: arrumou a pasta de vendedor e foi para Israel fazer uma formação em, defesa pessoal e contra-terrorismo. Aquilo correu-lhe tão bem que nunca mais parou. Especializou-se, tornou-se instrutor e, na altura, estava a dar um curso de formação para guarda-costas na China. Era a segunda vez que o fazia e isso levou-o até a ser alvo de vários artigos internacionais, incluindo na revista Time.

Em Fevereiro deste ano, o Marco tinha nova viagem marcada para a China onde ia iniciar o terceiro curso. Desta vez, parece que levou com ele alguns portugueses que também quiseram fazer a formação de guarda-costas. Agora, vi no blogue do Fernando Esteves, parece que as coisas não correram tão bem. Os quatro terão sido agredidos, detidos e impedidos de completar a formação. Dois deles deram a cara e falaram ao Porto Canal.

Como é natural, quis saber o que tinha acontecido. Ontem enviei uma mensagem ao Marco Borges para saber se ele estava bem e o que se passou realmente. Ele não me respondeu directamente. Preferiu contar a história a todos. Foi esta a mensagem que deixou no seu mural no Facebook:

“Hoje chegarei à Suiça com o grupo de Portugueses que regressou juntamente comigo da China, para Concluirem a formação na sede da ISA International Security Academy na Europa(Suiça).
Esteja eu onde estiver como responsavel, nunca permitirei que Cidadãos Portugueses ou de outra Nacionalidade qualquer sejam alvo de Xenofobia e Racismo por parte seja de quem for.
O único comportamento que estes 3 Portugueses tiveram que seja digno de registo foi a sua máxima entrega e Generosidade em todos os exercicios e práticas durante o Curso.
A sua generosidade para com os restantes estudantes foi confundida com tentaivas de Humilhação (Segundo os responsaveis Militares Chineses que seguiam de muito perto a Formação dada por mim). E para que não fiquem quaisquer duvidas passo a explicar; O simples acto de os estudantes Portugueses carregarem às suas costas um estudante (que só por acaso era Chinês) que apresentava muitas dificuldades em concluir a prova sozinho, quando por mim era visto como Espirito de Equipa, Solidadriedade e Camaradagem. Já aos olhos dos responsáveis Militares Chineses era visto unica e exclusivamente como uma tentativa de os Portugueses mostrarem a sua supirioridade e com isto Humilharem os Chineses.
Sem conseguir perceber o porque de tal avaliação por parte das entidades Chinesas, tentei de seguida ser mais (para não dizer bastante mais) duro com os estudantes Portugueses, na tentativa de lhes fazer ver que independentemente de serem Portugueses não os estava a favorecer na minha avaliação como Instrutor Responsável, e ainda mais importante, a sua vontade de fazer e empenhamento nas tarefas era irrepreensível. Pois independentemente das dificuldades com que foram confrontados, sempre trabalharam em equipa e se ajudaram mutuamente sem nunca se queixar ou reclamar (O que me deixou extraordinariamente orgulhoso de ver tamanho espirito de corpo nestes 3 estudantes).
Pensando eu que depois de tamanha manifestação de Vontade, Espirito de Sacrificio, Espirito de Entre Ajuda, e Capacidade por parte destes estudantes a opinião dos Militares Chineses Mudaria…, bem a única coisa que mudou foi a inexplicável raiva e agressividade sempre que comunicavam com eles. Era bem explicita na expressão do seu olhar e na sua face.
Inclusive, nas provas individuais (que promovem a competitividade) fui confrontado com uma realidade que nunca tinha observado em parte alguma do Mundo.
Os Militares e Instrutores Chineses, Gritavam palavras de incentivo para os estudantes Chineses e Apupos aos estudantes de Outra Nacionalidade(Que por acaso eram Portugueses).
Assim que tal aconteceu, parei a instrução e chamei todos os Militares e Instrutores Chineses para uma reunião, onde lhes comuniquei que ali não existia nenhuma guerra de nacionalidades mas sim unica e exclusivamente um grupo de Alunos, que iria ter de nós toda a atenção e respeito como sempre tinha acontecido nos cursos anteriores.
Foram vários os episódios de tentativas de Humilhar este Grupo de 3 estudantes sempre que eu me ausentava. E era à noite no seu quarto que me relatavam tudo o que lhes tinha acontecido na minha ausencia.
No quarto dia sou informado pelos Militares Chineses que os Estudantes Portugueses não poderão participar na parte de Tiro e como tal não teriam a Certificação para Zonas de Alto Risco, curioso com os Motivos de tal mudança no planeamento, perguntei o Porque, ao que me responderam porque não, são estrangeiros e não podem!
Tudo bem disse eu, mas estes 3 estudantes pagaram para participarem em 3 Modulos, se não os podem fazer todos tenho de lhos comunicar imediatamente.
Quando comuniquei ao Davide, Miguel e Mário esta novidade (Alteração ou quebra Contractual) por parte da Empresa/Militares Chineses, logo me disseram que foram para a China fazer esta Formação com o objectivo de terminarem com exito todos os Módulos, e já fartos de serem alvos de tantas manifestações Racistas e Xenofobas por parte dos Militares e Instrutores Chineses comunicaram-me a sua intenção de abandonar a formação e de reclamarem o dinheiro pago por eles.
Concordei e apoei plenamente a sua decisão, e disse-lhes que na manhã seguinte iria falar com os responsaveis Militares e da Empresa para que lhes fosse restituido o dinheiro investido por eles, visto terem sido as Entidades Chinesas a Quebrar o Acordado e Anunciado.
Na manhã seguinte já na Academia Militar, peço para falar com os Responsaveis antes de iniciar a 1ª formação.
Os responsaveis chegam estranhamente e fortemente acompanhados por um grupo de Militares.
Reunimos e comunico-lhes o desagrado dos 3 estudantes estrangeiros façe à noticia de não poderem concluir todos os Modulos para os quais tinham pago e por isso tinham decidido abandonar a formação e pediam que lhes devolvessem o Dinheiro que tinham pago antecipadamente.
Esta simples noticia, que penso que todas as pessoas de bem compreenderiam, despoletou uma furia e raiva incompreensiveis e foi interpretada como mais uma forma de os estudantes estrangeiros Minimizarem as Autoridades Chinesas.
Não, nem pensar, eles estão na China e aqui quem manda ou decide seja o que for somos nós (era só tudo o que gritavam e repetiam vezes sem conta).
Calmamente tentei apelar ao seu bom senso dizendo-lhes que de facto não estavam a cumprir com o que tinha sido anunciado e que se no Futuro não quizessem ser rotulados de Pouco Sérios ou Mentirosos para toda a comunidade estrangeira tinham de tentar perceber o Ponto de vista dos estudantes Estrangeiros e devolver-lhes o Dinheiro que tinham pago.
Meus amigos foi o principio do fim, o individuo que está à minha frente quando acaba de ouvir a tradução tenta-me agredir de imediato, consigo impedi-lo e neutralizar e depois…………….
Recupero os sentidos já po Exterior, sinto o Frio e o conforto do alcatrão e ao sentir tanta pancada em simultaneo, procuro fazer a unica coisa sensata a fazer numa altura destas, tentar fechar o meu corpo e proteger pelo menos as partes mais vitais, e ao mesmo tempo gritava (Porquê? Porquê?…)
Quando se cansaram de me pontapear e espesinhar, lá me permitiram levantar, era surreal, nem vos consigo explicar o que sentia, estava cansado, coberto de sangue, e depois de ninguem me responder o porquê de tal estar a contecer, contei todos os elementos presentes olhando cada um nos olhos e disse-lhes que eram muito Bravos e Corajosos…….
Mais um arraial de Socos e Pontapés( Sinceramente pensei que tinha chegado a minha Hora, e só conseguia pensar ” É agora, Vai ser Agora ”
Amigos não querendo aborrecer-vos com mais do mesmo, digo só que durou muito mais do que eu pensava conseguir aguentar.
Quando se cansaram e acabaram de me espancar, disse-lhes que ia sair da Academia Militar pois precisava de me dirigir a um Hospital para tratar os ferimentos que tinha na minha cabeça.
Ao que me responderam de imediato que não, pois estava preso!
Preso? Porquê?
Porque sim, aqui não tens direito a nada e lembra-te deste ditado Chinês, “Se os Chineses cuspirem todos ao mesmo tempo a Europa Morre afogada!”
Estava exausto, e só disse ok tudo bem, mas por favor digam-me que os estudantes Portugueses estão bem. Não tive qualquer resposta e fui levado para a sala onde estive preso várias horas.
Este encarceramento só terminou quando um Alemão e um Francês que me auxiliavam no curso, procuraram por mim e deram comigo no estado em que estava.
Surpreendidos e revoltados perguntarm o que se tinha passado, primeiro pedi-lhes que se mantivessem calmos e contei-lhes o ocorrido.
Completamente surpreendidos com o que aacabaram de ouvir. disseram que iriam falar com o comanadante da Base, mais uma vez pedi-lhes que se mantivessem calmos, pois receava que lhes pudesse acontecer o mesmo que a mim.
Depois de me ouvirem lá concordaram que o mais sensato seria seguir o meu conselho e agir com calma.
Depois de falarem com o comandante da Academia Militar, regressaram e disseram que os estudantes Portugueses tambem estavam detidos, mas que tinham recebido autorização para me levarem ao Hospital e que os estudantes Portugueses Iriam ser transportados para o Hotel onde ficariam detidos no seu quarto até ordens em contrário.
Asssim que saio aos portões da Base Militar, peço aos meus dois colegas estrangeiros que me deixem no Hotel e não no Hospital, ” Mas Marco tu precisas de ser visto por um Médico!”.
Amigos por favor deixem-me no Hotel, tenho de ver se os estudantes Portugueses estão bem!
Quando chego ao Hotel, constato que estão no quarto mas sem qualquer tipo de vigilancia, e quando os vejo sinto um alivio por saber que estão bem.
Eles ficaram um pouco mais surpreendidos por me verem no estado em que eu estava, e foram eles que me ajudaram e prestaram os Primeiros Socorros.
Enquanto me ajudavam, relatavam ao mesmo tempo a experiencia que viveram, as Agressões, Rapto, Sequestro e acima de tudo a forma Desumana com que foram tratados pelas autoridades Chinesas – Sem Motivo ou Razão Alguma Para Tal!
Decidimos de imediato que visto não estar nenhum militar presente a vigiar-nos, tinhamos de sair do Hotel e da Vigilãncia e Controle deles.
Dirigimo-nos para o Aeroporto de Beijing, e tentá-mos apanhar o 1º voo para Portugal, e já em Portugal e em Segurança denunciaria-mos ás Autoridades Portuguesas o que Passámos e vivemos em Território Chinês.
Foi tudo o que se passou, mal chegamos, envia-mos uma queixa denuncia para o Ministerios dos Negocios Estrangeiros, e até agora nada…………
Comuniquei de imediato ao Presidente( Mirza David )da Entidade Israelita ISA International Security Academy que supervisiona e regula a minha actividade como Instructor tudo o que vos acabei de Contar e mais algumas coisas que não posso aqui publicar.

A sua resposta foi imediata, apoiou incondicinalmente a posição que tomei, lamentou a experiencia pela qual tive de passar e depois de saber que os estudantes Portugueses estavam bem disse-me que os levasse para a Sede Da ISA na Europa(Suiça) onde poderiam concluir gratuitamente a sua formação em Close Protection.
Este gesto atesta bem a Credebilidade e Seriedade desta Instituição de Ensino reconhecida Mundialmente como a melhor Entidade de formação na Area da Segurança e Contra Terrorismo.
Se o mesmo voltasse a acontecer, eu iria agir da mesma Forma!
A todos o meu muito Obrigado.

Semper Fi

Marco Borges”

Sendo assim, duvido que imagens como esta se voltem a repetir. Sobretudo, na China.

©Ed Jones/AFP/Getty Images

©Ed Jones/AFP/Getty Images

Marco Borges: a aventura chegou a Espanha

Depois de ser notícia na Time, no USA Today e na revista Sábado, a aventura de Marco Borges na China como treinador de guarda-costas foi motivo de uma reportagem da espanhola RTVE. Em 1m25s assistimos aos detalhes dos treinos e também às explicações do português – que recebeu formação e se tornou formador na International Security Academy de Israel – sobre o que é ser guarda-gostas em ambientes de risco elevado.

O seu a seu dono: soube desta emissão através do Alter Ego.

A nova vida de Marco Borges como treinador de guarda-costas

Podia ter sido mais um resumo da imprensa internacional do dia a chegar ao email. Daqueles por que passamos os olhos quase automaticamente, sem reparar verdadeiramente na importância das notícias. Mas um dos últimos destaques chamou-me a atenção: dizia que um antigo membro das forças especiais portuguesas estava em Pequim a treinar guarda-costas que deverão proteger os interesses da China e dos seus empresários em zonas de conflito. O link remetia para uma fotogaleria da revista Time. As primeiras imagens não tinham nada de especial. Mostravam os recrutas em pleno treino. Até que, na oitava fotografia, aparecia Marco Borges, o tal ex-militar, vestido de camuflado preto, óculos de sol e metralhadora a tiracolo a gritar ordens aos alunos. A imagem tinha sido tirada a 16 de Janeiro durante um exercício numa base militar nos arredores de Pequim, usada pela Genghis Security Academy, com temperaturas negativas.

©Ed Jones/AFP/Getty Images

©Ed Jones/AFP/Getty Images

O nome era-me familiar. A cara também. Mas as dúvidas eram muitas. Aquele era o Marco Borges, do Big Brother? Bastou uma pesquisa rápida para encontrar outras imagens tiradas pela AFP/Getty Imagens para o confirmar. No site da empresa chinesa, encontrei a fotografia do português, identificado como instrutor principal, bem como inúmeros vídeos dos treinos duríssimos que mostram a forma respeitosa como Marco Borges é tratado na China. Era uma grande história. Que tinha mais para esclarecer para além do interesse imediato provocado por ver uma cara conhecida por outros “feitos” a dar ordens a chineses assustados.

Pouco sabia da vida de Marco Borges após a aventura televisiva. Ocasionalmente ele aparecia na TVI a comentar um dos programas sucedâneos e a última vez que tinha ouvido falar nele tinha sido quando da participação num programa de Bruno Nogueira na RTP chamado O último a sair. Agora ele aparecia como um instrutor militar em Pequim. Como tinha ido lá parar? Qual tinha sido o seu percurso? Eram apenas algumas das questões a que importava responder.

Era dia de fecho da revista. O número de telemóvel que tínhamos dele estava desactualizado. Enviei-lhe uma mensagem pelo Facebook – sem me lembrar que a grande firewall chinesa provavelmente o impediria de ter acesso ao site – e nada. Agarrei no telefone e liguei para a única pessoa que tinha a certeza saber o que se passava: Marta Cardoso, a sua ex-mulher. Ela atendeu-me quando ia no carro (com auricular). Disse-me que sabia exactamente o que ele estava a fazer mas que não lhe cabia a ela contar-me. E sugeriu: “Porque não fala com ele. Está neste momento a voltar de Pequim e aterra às 15h30. Eu dou-lhe o número e você liga-lhe.” Assim foi.

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Às 16h da passada terça-feira, Marco Borges atendeu-me o telefone. Tinha acabado de chegar a casa e estava a matar as saudades da família. Disse-lhe que queria perceber como é que ele tinha ido parar a Pequim e, apesar do cansaço, aceitou falar comigo durante mais de uma hora. À medida que a conversa avançou, revelou-se mais descontraído. Contou-me como um despedimento colectivo o fez regressar a um sonho antigo: a vida militar. Falou-me das reticências iniciais da família. Da dureza dos vários cursos pagos a peso de ouro na International Security Academy, em Israel, a mais conceituada escola de segurança pessoal do mundo. Explicou-me como acabou por se tornar o único português convidado para ficar a colaborar com a instituição como formador. E como começou a trabalhar na área da segurança pessoal um pouco por todo o mundo.

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A nova carreira levou-o à Palestina, Síria, Líbia, Grécia, Egipto e agora à China. Na conversa, Marco Borges foi de uma simpatia incrível. Teve apenas duas preocupações. A primeira foi não revelar demasiado sobre os trabalhos que já fez nem sobre uma equipa portuguesa que formou. A segunda foi perguntar: “Isto é uma coisa séria, não é? É que já tive oportunidade de falar para revistas do social e nunca quis” Garanti-lhe que sim. Afinal, há mais de três anos que Marco Borges mantinha uma actividade desconhecida para a maioria dos portugueses. Por sua vontade. Queria afastar-se do passado televisivo, apesar de ter a noção de que, em Portugal, será sempre lembrado pela polémica participação no programa da TVI. Talvez por isso me tenha dito que, não só pelas dificuldades do mercado, dificilmente trabalhará em Portugal na área da segurança. E também por isso, mais facilmente será reconhecido pelas actuais aptidões no estrangeiro – como aconteceu. Depois da primeira conversa ainda voltámos a falar mais algumas vezes no mesmo dia. Ele ainda teve a disponibilidade para me enviar dois emails com fotografias que tinha trazido de Pequim. Agradeci-lhe e voltei ao trabalho. Este foi o texto que escrevi e que, com algumas alterações, foi publicado na edição de hoje (456) da Sábado.

©Ed Jones/AFP/Getty Images

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O durão que faz os chineses chorar

Em Portugal, é conhecido como o “Marco do Big Brother”, que deu um pontapé numa concorrente no programa da TVI. Mas fora do país, Marco Borges tornou-se um especialista em segurança pessoal, contra-terrorismo e intervenção em zonas de alto risco – e é agora o principal formador de uma empresa chinesa que pretende tornar-se a maior fornecedora de guarda-costas do país. “Acabei agora a segunda formação e regresso a Pequim a 22 de Fevereiro. Vou ficar pelo menos um ano a trabalhar com eles”, diz Marco Borges à SÁBADO.

A mudança de vida aconteceu quase por acaso. “Era director comercial de uma empresa que teve problemas e fez um despedimento colectivo. Andava um bocado desanimado até que encontrei um ex-comandante dos Fuzileiros que me sugeriu que fosse fazer um curso na área da segurança a Israel”, conta. O curso era na International Security Academy, uma instituição criada em 1987 e que se assumiu como a melhor do mundo na área da segurança privada e onde a formação clássica, de quatro semanas, custa €6500. Estávamos em 2009. Marco Borges reuniu as economias, pediu apoio à família e percorreu todas as etapas. Começou com os cursos de segurança pessoal, fez formação em protecção em zonas de alto risco, líder de equipa/sea marshall, condução, especializou-se em planeamento e gestão de equipas de segurança. “Depois fiz a formação para instrutor e fui convidado a ficar a trabalhar com eles. Foi assim que fui parar à China”, explica.

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Logo após os primeiros cursos, Marco Borges começou a trabalhar na área da segurança fora de Portugal. “Cá não vou fazer nada. O mercado é reduzido e não há necessidade. Só se falarmos de empresários que vão para Angola, por exemplo”, diz. Já trabalhou na Jordânia, Palestina, Líbano, Grécia e Egipto. “Foi sempre na área da segurança pessoal ou marítima. Ou então para fazer a avaliação de ameaças para empresas que queiram deslocar quadros superiores para esses países. Querem saber quais as zonas mais seguras para morar, o que podem necessitar em termos logísticos, etc”, conta.

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Não diz exactamente o que fez, para quem, ou quanto ganhou. Mas revela que já formou uma unidade de cinco portugueses que estão prontos para intervir na área da segurança marítima e protecção pessoal: “Em 2011 estive numa conferência em Hamburgo e fui contactado pelo Seraph Protection Group, uma empresa com sede no Panamá, para criar uma unidade de resgates por causa dos sequestros em alto mar que acontecem no Golfo de Áden ou no Corno de África”. Durante 94 dias, um grupo de 17 candidatos, que incluía membros dos comandos, operações especiais e fuzileiros, estiveram a receber formação em várias zonas do país. “Treinámos em Bucelas e Serra da Estrela, por exemplo. Alguns desistiram, outros foram convidados a abandonar o grupo. A parte de treino de tiro teve de ser em Israel. Estivemos lá 22 dias. E no final, ficaram cinco”, conta Marco Borges. O nome do grupo? Alcateia.

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No início de 2012, regressou a Israel para dar nova formação. Ficou encarregue de um grupo onde estavam nigerianos, quenianos e chineses. “No final disseram-me que qualquer dia tinha que ir à China. Respondi que nunca lá tinha ido que estava disponível”, lembra. O convite não demorou muito. Em Julho chegou a Pequim com mais oito instrutores – franceses, americanos e israelitas – e foram levados para uma ilha no sul do país para treinar um grupo de 110 homens. “Pediram-nos para dar o módulo básico, de segurança pessoal, e dividiram-nos por nove grupos. Aos poucos eles começaram a eliminar os instrutores de acordo com os critérios deles e a convidá-los a abandonar o treino. Ao fim de 48h fiquei só eu”, diz. Oito dias depois preparava-se para apanhar o avião de regresso quando um membro da empresa – a Genghis Security Academy – lhe perguntou se podia continuar o curso. Ficou mais duas semanas.

Em Dezembro regressou ao país para novo treino de 21 dias. “Desta vez a formação já decorreu num complexo militar do exército chinês nos arredores de Pequim. Já foi com ex-militares, indivíduos das operações especiais e que já teve treino de tiro básico”, explica. Ficou alojado num hotel localizado a três quilómetros da base. Antes da formação, iam buscá-lo. No final, levavam-no. Os treinos são duros. “Se eles se portarem bem começa às 5h da manhã e termina à 1h da madrugada seguinte. Se não correr bem durante o dia não precisam de dormir”, diz.

Vídeos da formação mostram os recrutas a rastejar sobre pedras, com os braços a sangrar, a treinar luta corpo a corpo e a fazer exercícios com troncos de árvores. Num dos vídeos vê-se Marco Borges a dar um estalo num recruta. “Isso…a primeira vez que dei uma chapada num gajo parou tudo. Não estavam habituados. Ainda por cima era estrangeiro. Agora estranham é se não desato ao estalo e ao pontapé no primeiro dia”, ri-se. “Quando me venho embora adoram-me. Até choram. Duvido que algum goste de mim durante a formação.”

©Ed Jones/AFP/Getty Images

©Ed Jones/AFP/Getty Images

Chegou a Lisboa na passada terça-feira. E já tem data de partida: 22 de Fevereiro. Vai ficar 60 dias. Marco Borges não diz se compensa financeiramente. “A minha mulher diz que não. Mas não pagam mal, em arroz dá umas sacas valentes”, brinca. O certo é que o investimento foi grande. “É a diferença entre estudar na Lusófona e na Católica. Posso dizer que ainda hoje estou a pagar à família”.