A unanimidade na hora da morte

A morte de uma figura pública parece ter um condão: tornar as pessoas unânimes e fazer caír no esquecimento episódios ou facetas menos positivas. Acontece sempre. Nos jornais e nas televisões assistimos aos amigos e próximos a elogiar o falecido, a salientar as suas qualidades e feitos e a omitir as suas falhas, erros ou crimes – mesmo que eles sejam extraordinariamente importantes para a respectiva personalidade. No máximo, fazem-se pequenas referências a períodos conturbados sem desenvolver os assuntos por aí além. É claro que na hora da morte é preciso, sobretudo, salvaguardar os que ficam. Mulher, filhos, família. Mas isso significa que alguém seja praticamente elevado a santo apenas porque morre? O dever dos jornalistas não é apenas para com os leitores e com a verdade?

Vem isto a propósito da morte recente de Manuel Forjaz. Não o conhecia. Li uma fantástica entrevista que deu à Catarina Carvalho na Notícias Magazine e os artigos que escreveu para a Sábado nas últimas semanas. Pelo que os amigos disseram era um ser humano extraordinário, que ajudou muita gente a lidar com a doença que acabou por o matar e que conseguiu que os jornais escrevessem a palavra cancro em vez de “doença prolongada”. Mas, pelo que vi numa reportagem emitida pela SIC emitida em 2012, também estava envolvido em processos menos claros de falência de empresas e com dívidas a inúmeros trabalhadores. Sim, o Manuel Forjaz não era unânime. Também tinha defeitos. Inimigos. Também fez coisas menos boas. Ora esse foi um aspecto que passou ao lado da morte dele. Como passou ao lado da morte de muitos outros. Será que isso é correcto? Para aqueles que sofreram por sua causa? Tenho poucas certezas. Gostava de perceber o que vocês, como leitores, acham disso.

Manuel-Forjaz

Eu e o King. Porque todos temos uma história com os nossos heróis

Olá King,

Foda-se. Morreste. Não posso dizer que tenha sido uma surpresa. Mas mesmo assim: foda-se. Morreste. Ontem de manhã, quando soube da notícia, fiquei sem reacção. Como muitos, fui seguindo o desfile de personalidades e declarações que surgiam em catadupa nas televisões. Umas atrás das outras. Todos pareciam ter alguma coisa a dizer. Uma história para contar. Como li hoje escrito por aí, é isso que distingue os heróis. Todos temos uma história com eles para contar. Mesmo que não os tenhamos conhecido ou com eles privado. E se dúvidas houvesse, elas acabaram: tu és um deles. Dos bons. Dos heróis.

Sim, também eu tenho histórias contigo. Nenhuma é de um grande feito. E tenho a certeza que tu, onde quer que estejas, não tens a mais pequena memória delas. São histórias de um miúdo que aos fins-de-semana ia para a catedral assistir aos jogos e que lá chegava com muita antecedência. Um miúdo que ia com o tio, que era o médico do Benfica, a tia e o primo mais novo. Um miúdo que adorava aquela sensação de poder atravessar o gradeamento por onde poucos passavam e entrar no estádio pela porta principal. Depois esperava. Pelos jogadores. Pelos treinadores. Por ti.

Tu chegavas sempre com o teu sorriso humilde e cumprimentavas-nos. “Como está doutor?” “Olá miúdo, estás bom?”. Eu lá abanava a cabeça. Eras o Eusébio. E estavas a falar comigo. Como podia dizer que não? Nunca te vi jogar. Ao vivo, pelo menos. Mas ouvi vezes sem conta a descrição da forma como corrias, como inclinavas o corpo para a frente quando rematavas a bola, como a tua perna ficava esticada a apontar para a baliza, como deixavas os braços perfeitamente equilibrados junto ao corpo, como os teus remates tinham uma potência incrível numa época em que as bolas de futebol, molhadas, deviam pesar uns três quilos – ao contrário dos balões com que hoje se joga futebol.

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Durante anos guardei uma bola do Benfica onde, junto ao símbolo, só havia espaço para um único autógrafo: o teu. Os dos outros jogadores da equipa estavam à volta. Guardei-a até o passar dos anos vencer a teimosia da tinta e as assinaturas desaparecerem. Mas havia um motivo para a tua ser a única junto ao símbolo da águia. Foi graças a ti, acima de todos os outros, que o Benfica, o meu clube, se tornou no maior clube do mundo. Que me fez chorar de alegria e de tristeza. Me fez celebrar. Por isso, mesmo sem te ter visto jogar, foi também graças a ti que festejei bastante.

Mas isso agora não importa. Acho que os meus amigos nunca acreditaram muito quando lhes contava que tinha estado contigo. Nem mesmo quando lhes descrevia que tinhamos ido jantar a um restaurante chamado “Petiscaqui” e nos tínhamos sentado na tua mesa. Ouvia-te com atenção contar histórias do tempo de jogador ou de quando tinhas ido com o Benfica a qualquer lado. Normalmente acabavam com uma gargalhada. Comias bem. Bebias melhor. Pedias sempre mais picante. Jindungo, de preferência.

Naqueles anos tu fazias parte da equipa técnica do Benfica. Alternavas entre adjunto e treinador de guarda-redes. E mesmo com mais de 40 anos batias aos pontos muitos dos avançados que faziam parte da equipa. Na potência de remate. Na colocação. No jeito. Hoje, quem revê os teus golos percebe facilmente porque eras idolatrado. Está lá tudo. A força, a garra, a alegria, a forma como festejavas todos os golos como se fosse o mais importante da tua vida. Em campo, tudo em ti era puro. Como se a beleza do futebol assumisse uma forma humana. Muito diferente dos ídolos de hoje, em que a humildade foi substuída pela arrogância. Em que o prazer da vitória foi trocado pela satisfação da derrota do adversário. Tu, mais do que qualquer outro, querias ganhar. Mas eras capaz de o fazer e, ao mesmo tempo, aplaudir uma defesa do guarda-redes adversário. Da bancada via-te sentado em todos os jogos ao lado do banco de suplentes. Tinhas o teu lugar reservado. A tua toalha branca sempre a postos. Só a tua presença deixava os adversários em sentido.

Durante muitos anos não te voltei a ver. Sim, ouvi muitas histórias tuas. Algumas boas. Muitas más. Bastantes, verdadeiras. É um lado teu que, mais tarde ou mais cedo, terá de ser contado. É inevitável. Porque todos os heróis tem um lado negro. E o teu era bastante. Ainda assim, hoje, o que importa é recordar o lado bom da força. E essa, tinhas muita. A última vez que voltei a estar contigo foi em 2008, na Suíça. Portugal tinha acabado de ser eliminado pela Alemanha no Campeonato Europeu. Eu desci para a zona mista e quando estava a chegar vi um vulto a cair e a apoiar-se num automóvel. Eras tu. Corri, ajudei-te a levantar e a encostar ao carro e, instintivamente, tratei-te como muitos dos que te eram próximos faziam: “King, estás bem?”

Lembro-me que olhaste para mim com uma expressão de desespero enquanto passavas a mão pela perna. Explicaste que tinhas muitas dores no joelho esquerdo por causa das operações e que às vezes as forças faltavam. Eu disse que sabia e não resisti em contar-te a minha história contigo quando era miúdo. E tu sorriste. Como se te lembrasses mesmo de mim. Perguntaste pelo meu tio, como ele estava e pediste-me para lhe enviar um abraço. Não sei se o cheguei a fazer. Provavelmente, não.

Nos últimos anos, as notícias que me chegavam sobre ti eram quase sempre más. Os internamentos sucessivos deviam ter-nos preparado para isto. Mas nada prepara. Morreste. Foda-se. Só hoje, quando vinha para a redacção, que fica junto ao estádio, é que caí em mim. Foda-se. Morreste. As milhares de pessoas que estavam à volta do estádio provavam-no. Tal como os cachecóis, bandeiras e flores deixados junto à tua estátua. Foda-se. Morreste.

À hora de almoço, como muitos, acabei por ir ao estádio despedir-me de ti. Durante a tua última volta à Catedral lembrei-me de muitas coisas. Algumas deixo-as aqui. Sei que não têm importância nenhuma. Mas deixo-as na mesma. É que, mais uma vez, é isso que define os heróis: as pequenas histórias que temos com eles; as lágrimas derramadas por estranhos. Ao cumprires o teu último desejo nós batemos palmas. Gritámos o teu nome. Cantámos o hino nacional. Chorámos. E entoámos o hino do Benfica. Porque tu mereces. Mas sabes uma coisa? Dificilmente a letra e a voz do Luís Piçarra voltarão a soar tão tristes como hoje. Morreste. Foda-se. O King morreu. Viva o King.

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Das desigualdades da morte.

Um texto de leitura obrigatória.

cinco dias

Morreu António Borges.

Certamente morreram muitos mais. Aqueles cujo nome não é passível de aparecer nos jornais. Nem nas televisões.

Mas o importante não é ele ter morrido, como morreu, como viveu (sobre isso os meus companheiros de blogue dirão bem melhor do que eu). O que eu quero sublinhar é a desigualdade da morte, de como se morre.

Não se pode dizer, para não ferir susceptibilidades, que me choca a forma como se morre em Portugal. Como um rico, com cancro, morre melhor do que um pobre. Aparentemente isto é raiva, ódio aos ricos. É falar sem racionalidade. Pois racionalidade é algo que nunca vi no tratamento de doentes crónicos, nomeadamente oncológicos, no nosso país.

E descrevo uma história que não é a minha. Tem todos os nomes, ou quase todos.

Em 22 de Março foi diagnosticado um cancro de pulmão, carcinoma de pequenas células, estágio IV ao meu…

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Michael Hastings: a morte levou o jornalista sem medo

Esta semana o jornalismo mundial ficou mais pobre: Michael Hastings, repórter do BuzzFeed e colaborador das revistas Rolling Stone e Newsweek morreu num acidente de viação. Tinha 33 anos.

Por cá, o nome de Michael Hastings não era assim tão conhecido. A juventude não lhe permitiu chegar ao reconhecimento público de Bob Woodward, por exemplo. Mas nos Estados Unidos, Hastings era conhecido por ser um dos mais tenazes e completos jornalistas de investigação. Talvez se recordem de um artigo que há dois anos ele escreveu para a Rolling Stone e que acabou por influenciar toda a estratégia norte-americana no Afeganistão. Era um perfil do general Stanley McChrystal e chamava-se The Runnaway General.

Quando a história foi publicada, estava em Washington a participar numa formação de jornalistas patrocinada pela Fundação Luso Americana. Recordo-me perfeitamente do seu impacto e de como levou Barack Obama a chamar o general à Casa Branca e depois a demiti-lo. Foi uma grande história. Mas não a única. Para além de dezenas de artigos memoráveis, Hastings escreveu ainda os livros The Operators: The Wild and Terrifying Inside Story of America’s War in Afghanistan e  I Lost My Love in Baghdad: A Modern War Story

Na sua morte, a Rolling Stone recordou-o assim:

“There’s a scene from Michael Hastings’ first book, I Lost My Love in Baghdad, where he describes being at a school assembly in his hometown of Malone, New York. He was in the fifth grade and his school (“a very small Catholic school in a very small town”) had brought in a returning veteran to describe his experiences in the first Iraq war. Michael put it this way:

We listened to a returning veteran who couldn’t have been older than twenty. I raised my hand and asked him: Did you carry an M-16, and does an M-16 have automatic and semiautomatic fire? And if so, is there a switch on the gun? (Yes, it was both, and there is a switch). He described trying to dig a foxhole in the desert, and how he went on a mission for two days, observing the enemy from a distance.

I was riveted. It was like being in the presence of a celebrity . . .

I remember reading this years ago and thinking how very much it reminded me of a famous scene from Serpico, where the now-grown ace policeman describes being a boy watching the cops show up at a crime scene:

All of a sudden the crowd just parted, like the Red Sea, you see? And there were these guys in blue, and I said, ‘They know.’ What do they know? What do they know?

I didn’t know Michael Hastings very well, but one thing about him was always obvious – he was born to be in the news business, he loved it, he was made for it. He wrote about Iraq and Afghanistan as places he had always been destined to visit. By that I mean not those countries particularly, but those places as global hot spots, the trouble zones, the places where the news happened. “I am finally here,” is how he described reaching Baghdad, and that was the lead-in to the school assembly story. Most people would describe Baghdad as a place one finally leaves. But Hastings, his whole life, he wanted to go to those places, he ached to do this job. He wanted to be one of those people who “knew.”

I repeat that I didn’t know him all that well, and I say this even though I’ve read his excellent books. Michael was refreshingly old-school in an Internet age when everybody overindulges in premature autobiography. He was all reporter. His mantra was “a fact in every sentence” and he once humorously admonished young journalists to never even talk to editors about “prose” or wanting to be a “writer” (he typed that word like an evidence tech holding a piece of decomposing brain with a rubber glove). For him it was all about getting the story, and at the terribly young age of 33 he was obviously already a master at that.

Most people know him from the story he wrote about General McChrystal, for his big scoops – a pure reporter measures his or herself by scoops, and Michael had some huge ones. But the wonderful thing about his work was his promiscuous fascination with facts of all kinds, news-cycle-shaking or not. He swallowed up extraneous details of all varieties and that fleshed out his books and stories, making the narratives three-dimensional, authoritative and believable, just the way they’re supposed to be.

His particular specialty was quickly adopting the local jargon, mastering the social geography of a new place, what things were called, where key people hung out. His books are full of these joyously-reported little insider details, like the fact that mercenary firms in Iraq like Blackwater and Triple Canopy were nicknamed “Bongwater and Triple Comedy,” or that an old British fort behind a soccer stadium in Kabul was the place for clandestine meetings, “spook central,” as he explained in The Operators.

What people don’t realize about the kinds of books Michael wrote is that they’re like novels, except that novelists get to invent every prop in every scene; Michael had to learn every single one of these little details either from personal experience or from a source, and I don’t recall ever hearing that he got any of them wrong.

I don’t know how he got the sources he did, except to say that in person he seemed immensely likeable, enthusiastic, smart; his books also show him to be a little bit of a chameleon, seamlessly speaking in the acronym-laden jargon of FOB America, the archipelago of military bases in Iraq and Afghanistan where he made his career. Reading his dialogues from airports and convoys and hotel lounges, you can see him subtly adjusting his tone or his opinions depending on the situation, sometimes to fit in better, sometimes to challenge people to shake something loose. “Being a contrarian, I argued with my antiwar colleagues,” he wrote about the Iraq war in I Lost My Love, “taking on the neoconservative talking points just to see how they felt . . .”

The few times I did meet Michael came in the wake of his sudden celebrity after the McChrystal story broke, and I remember being very surprised at how calmly he was taking it all, how unimpressed he was by – well, by himself, I guess. He may have been preparing since the fifth grade for the fame that comes with big scoops as well, for all I knew, but that didn’t really seem like the explanation. It seemed more to me that he was just fascinated by what he’d learned on the job, and talking about it on TV was just a natural thing to him. He was just into it.

He wasn’t even old enough yet to know how young he still was, if that makes any sense. Not long ago, he said that you have to act like reporting is “more important to you than anything else in your life – family, friends, social life, whatever.” That’s one of those things you say when you’re young, but it’s an idea that turns out to be a pleasure to outgrow. It’s a cruel thing that he may have missed the chance to find that out. But not many other things got by him. He was really that good. We will all miss him.”

Para que apareçam mais como ele talvez seja bom recordar a lista de conselhos para todos aqueles que se querem tornar jornalistas que ele elaborou à cerca de um ano:

Okay, here’s my advice to you (and young journalists in general):
1.) You basically have to be willing to devote your life to journalism if you want to break in. Treat it like it’s medical school or law school.
2.) When interviewing for a job, tell the editor how you love to report. How your passion is gathering information. Do not mention how you want to be a writer, use the word “prose,” or that deep down you have a sinking suspicion you are the next Norman Mailer.
3.) Be prepared to do a lot of things for free. This sucks, and it’s unfair, and it gives rich kids an edge. But it’s also the reality.
4.) When writing for a mass audience, put a fact in every sentence.
5.) Also, keep the stories simple and to the point, at least at first.
6.) You should have a blog and be following journalists you like on Twitter.
7.) If there’s a publication you want to work for or write for, cold call the editors and/or email them. This can work.
8) By the second sentence of a pitch, the entirety of the story should be explained. (In other words, if you can’t come up with a rough headline for your story idea, it’s going to be a challenge to get it published.)
9) Mainly you really have to love writing and reporting. Like it’s more important to you than anything else in your life–family, friends, social life, whatever.
10) Learn to embrace rejection as part of the gig. Keep writing/pitching/reading.

Realmente, o jornalismo ficou mais pobre.

Mikhail Galustov/Redux

Michael Hastings, no Afeganistão.
Foto: Mikhail Galustov/Redux