Uma história alternativa da guerra ao terrorismo

A história de que toda a gente fala. Barack Obama mentiu e os paquistaneses colaboraram no assalto à casa de Abbottabad? O jornalista Seymour M. Hersh garante que sim no artigo “A morte de Osama Bin Laden”, publicado na London Review of Books.

Foto: AP

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Novidades em breve

O blogue tem estado mais calmo, mas não está esquecido. Pelo contrário. Há um bom motivo para esta pausa, que deverá terminar em breve. Ou seja, há boas notícias a chegar.

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Uma memória de Guantánamo

Mohamedou Ould Slahi está preso em Guantánamo desde 2002. Nunca foi acusado de nenhum crime. Em 2005, anunciou aos guardas ter escrito um livro: um relato detalhado do programa de transferências de prisioneiros e as torturas a que eles foram submetidos, do ponto de vista de um dos detidos. No entanto, o documento foi classificado de secreto. Foram precisos seis anos de uma intensa batalha legal para o manuscrito ser desclassificado – e só após 2500 redacções e com partes censuradas para proteger a “segurança nacional”. Esta terça-feira, finalmente, o livro foi publicado. E o The Guardian fez um trabalho de vídeo incrível sobre estas memórias.

Uma forma (muito diferente) de tratar as notícias

Rap-News

Hugo Farrant é um MC e poeta britânico que vive em Melbourne. Giordano Nanni tem um passado nas áreas da história, música e jornalismo. Em 2009 juntaram-se para lançar o Juice Rap News, um programa na internet que usa a sátira e o hip-hop para fazer uma análise poética e cómica de eventos actuais. Apresentado pelo personagem Robert Foster – interpretado de forma brilhante por Hugo Farrant – o programa alcançou, nos últimos dias, uma notoriedade internacional que ainda não tinha obtido graças à participação de Julian Assange numa paródia sobre as eleições australianas. O fundador do Wikileaks (que será candidato) usa uma peruca amarela e canta uma versão do hit de John Farnham You’re the Voice.

Apesar do escândalo, o episódio em causa é muito divertido. Chama-se A Game of Polls e vai buscar elementos ao Senhor dos Anéis, à Guerra dos Tronos, ao Beavis & Butt-head e, claro, os factos à realidade política australiana. Aqui está uma reportagem sobre os bastidores das gravações.

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Ao longo dos 20 episódios, o Juice Rap News já abordou os ataques através de drones, questões ambientais, a venda de armas e, claro, o caso da NSA, Edward Snowden e Glenn Greenwald. Esse foi o tema central da penúltima paródia que usa a sátira e um conjunto incrível de rimas para contar como o governo norte-americano tem espiado os cidadãos, como nós próprios temos reagido a estas questões e lembrar que aqueles que são hoje considerados heróis, no passado desobedeceram às leis para tornar o mundo um lugar melhor para se viver. Vale mesmo a pena ver. 

O Google Earth a pregar partidas aos chineses

O antigo analista da CIA, Allen Thompson, está habituado a usar imagens de satélite para descobrir segredos de outros países. Em 2011 encontrou umas grelhas suspeitas no deserto chinês e em 2008 já tinha localizado um bunker subterrâneo no Irão. Mas até ele ficou surpreendido com o que encontrou no mês passado, quando estava a utilizar o Google Earth para tentar localizar um complexo espacial perto da cidade de Kashgarm no sudoeste da China: estruturas enormes, suspeitas e construídas rapidamente.

Para o ajudar a resolver o mistério, o Danger Room, da Wired, pediu ajuda aos leitores. As ideias e sugestões sobre o que as imagens podem representar serão depois enviadas ao homem que fez da análise para a CIA a sua vida entre 1972 e 1985 e que foi consultor do National Intelligence Council até 1996. As 10 imagens aéreas do complexo estão aqui.

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Humor angolano

adequado para o dia de hoje

O Economista Português

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O negócio que se esperava… e temia

Confirmam-se finalmente os rumores que circulavam pelas redacções há vários meses: Joaquim Oliveira vendeu a Controlinveste a um grupo económico angolano. A notícia está a ser avançada pela edição online do Diário Económico,

“Joaquim Oliveira já formalizou a venda do grupo de media que detém os títulos Diário de Notícias, Jornal de Notícias, O Jogo e TSF.

O negócio foi confirmado ao Económico por fonte oficial do grupo. O comprador é um grupo angolano, desconhecendo-se o seu nome e os valores envolvidos.

O Económico sabe também que a participação de 33% na VASP também está incluída na transacção.

Joaquim Oliveira fica assim com o seu negócio centrado na área dos direitos televisivos e desportivos. Mantém-se também a sua participação na Sport tv.

O DE promete desenvolver a notícia na edição de amanhã. Depois do Sol, grupos angolanos passam a controlar o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, a TSF e O Jogo. Se os rumores se confirmarem, as compras de meios de comunicação portugueses por empresas angolanas pode não ficar por aqui.

Português assassinado em Bissau

Do Ditadura do Consenso:

“Um cidadão português, de nome Luis Rijo, e que residia em Bissau desde o mês de fevereiro, em casa de um cidadão espanhol, foi assassinado à facada, presumivelmente por uma cidadã guineense, namorada deste último, casa onde de resto o português residia. O cidadão espanhol encontrava-se, ao que tudo indica, ausente na altura do crime. Os contornos do crime ainda estão por esclarecer pois a presumível homicida ainda está a monte, procurada pela polícia Judiciária.

A embaixada de Portugal em Bissau, ao que apurou o Ditadura do Consenso, está a acompanhar o caso.”

Os dinheiros da Mota-Engil no Malawi

O jornal i faz hoje manchete com a alegada oferta de 40 mil euros por parte da Mota-Engil ao ex-presidente do Malawi, o falecido Bingu wa Mutharika. A notícia do diário foi feita com base na investigação do jornal The Nation à riqueza do antigo chefe de Estado. De acordo com o diário malawiano, a empresa fundada por António Mota – e actualmente presidida por Jorge Coelho – chegou ao país em 1990 e, desde então, facturou centenas de milhões de euros em obras adjudicadas pelo governo. Segundo o The Nation, a primeira obra executada pela Mota-Engil no país foi a auto-estrada M5. Mas a empresa portuguesa só se tornou um dos principais construtores locais durante o consulado de Mutharika. Entre as suas obras mais emblemáticas estão a Villa pessoal do antigo presidente e o local onde ele acabou por ser enterrado.

Ao i, a Mota-Engil garantiu que não houve pagamentos ilegais:

“Os donativos foram efectuados em actos públicos, como é o caso de uma prenda de casamento no valor de 10 milhões de kwachas (29 mil euros) e do apoio no lançamento de um livro, ‘O Sonho Africano: da Pobreza à Prosperidade’, no valor aproximado de 3,5 milhões de kwachas (cerca de 10 mil euros), pelo que não existiu ou existe qualquer outro montante pago.”

No entanto, estas declarações divergem das que o director da empresa no país africano fez ao The Nation. Antonmarco Zorzi explicou que os três cheques emitidos serviram para pagar três dos livros do antigo presidente num leilão.

“Um dos livros custou 10 milhões de kwachas (29 mil euros), o outro 2,5 milhões de kwachas (7800 euros) e o outro um milhão (3100 euros)”.

Quem fala a verdade?

 

O apagão

Nos últimos anos, os jornais portugueses têm sofrido de uma espécie de “síndrome comunista”: cada vez que são divulgados os últimos números da  APCT – Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação, todos parecem crescer, apesar de as vendas não pararem de diminuir.

Este exercício masoquista é conseguido graças a diversos factores. Na análise aos números, normalmente publicada no dia seguinte, uns dão mais importância às vendas em banca. Outros preferem valorizar a circulação paga – que inclui banca, assinaturas e as chamadas vendas em bloco (ofertas ou vendas de grandes quantidades de jornais e revistas a um preço simbólico). Uns fazem a comparação das vendas com o mês ou o semestre anterior. Outros com o período homólogo do último ano. Há sempre uma forma de crescer. Apesar de, mais uma vez, as vendas não pararem de descer.

Os últimos números saíram na segunda-feira, dia 3. Entre Janeiro e Julho, os cinco jornais generalistas venderam, ao todo, menos 29.500 exemplares por dia. É muito papel. Mas, mais uma vez, há interpretações diferentes para o mesmo cenário desastroso.

Na terça-feira, o Diário de Notícias, que perdeu 2.725 leitores, salientava que “foi o segundo jornal diário generalista que menos caiu no que toca à circulação impressa paga” e que vendeu, em média, 26.755 exemplares contra os 29.480 da primeira metade de 2011. Como comparação, o DN salientava que o Correio da Manhã vendeu menos 5.754 jornais.

Mas quem leu o Correio da Manhã ficou com uma ideia diferente. “Apesar de uma ligeira quebra, de 4,7%, o CM reforçou a sua liderança na imprensa nacional e aumentou a sua quota de mercado entre os diários generalistas em 3.8 pontos percentuais” a que equivalem 116.214 jornais vendidos por dia. O diário da Cofina foca-se nas vendas em banca e, aí, o DN vende apenas 15.205 exemplares por dia.

Mas os últimos números mostraram uma tendência curiosa. O Jornal de Notícias (que vendeu menos 17.249 exemplares) o Expresso (menos 14.659), o Sol (menos 6.609) e o i (que vendeu apenas 1.525 jornais por dia) simplesmente ignoraram os dados da APCT e não os noticiaram.

A forma como os jornais tratam os dados das suas próprias vendas – sempre numa perspectiva positiva – diz muito sobre o estado e a credibilidade da imprensa em Portugal.

Coisas da Sábado

Amanhã nas bancas: as histórias de vários jovens que criaram os próprios negócios e facturam meio milhão de euros por ano; a forma como Miguel Relvas se moveu nos bastidores do caso RTP; os preparativos para a vinda da troika a Portugal; uma entrevista de vida a Adriano Moreira; toda a história de Neil Armstrong (sabiam que a bandeira dos EUA colocada na lua foi cosida por uma portuguesa?); os esquemas do maior burlão no mercado de arte português; as polémicas dos primeiros campeonatos nacionais de futebol; e uma notícia bombástica: uma lista com os nomes e as respectivas lojas de 1438 maçons foi colocada na internet.

Uma bela edição.

O cônsul de Bordéus

Em 1940, após a ocupação alemã de Paris, milhares de pessoas fugiram para Bordéus em busca de uma saída que lhes permitisse viver. Muitos conseguiram-no, graças ao cônsul português Aristides Sousa Mendes – que decidiu desobedecer às ordens de António Oliveira Salazar de não intervir no conflito qualquer que fosse o motivo. Durante dois dias o consulado português em Bordeus tornou-se uma fábrica de vistos e salvo-condutos que permitiram a 30 mil pessoas, entre as quais 10 mil judeus, escapar a uma morte certa.

Setenta e dois anos depois, Francisco Manso e João Correa realizaram The Consul of Bordeaux, uma produção luso-espanhola que conta a história do diplomata português. O filme já está a ser exibido em alguns festivais e no Outono chegará às salas portuguesas.

O silêncio

Escreveu Pacheco Pereira:
“Talvez o mais preocupante sinal dos condicionamentos à liberdade de informação em Portugal se revele no estranhíssimo silêncio sobre o que se passa em Angola. Em Angola estão a decorrer eleições, todo o mínimo protesto é reprimido por uma combinação de polícias e milícias do MPLA, as condições do acto eleitoral são contestadas pelo principal partido da oposição, a UNITA, que ameaça não ir às urnas nestas circunstâncias. Dentro e fora de Luanda, tem havido e estão anunciadas grandes manifestações da UNITA, ameaçadas sempre de contramanifestações do MPLA. Na verdade, nem isto se sabe pela comunicação social portuguesa, sabe-se pela circulação de fotografias, informações dispersas e algumas declarações corajosas de angolanos que são silenciadas em Portugal.
Em Angola está tudo bem, os negócios vão de vento em popa, o dinheiro vindo da corrupção e do nepotismo flui para os bancos portugueses em malas, importantes posições na banca, em empresas estratégicas e na comunicação social são compradas por membros da elite do poder angolana. Presume-se que ainda mais compras vão ser feitas, em particular na comunicação social, dados os apertos financeiros dos grupos portugueses e as boas relações de governantes locais com os corruptos de lá, ambos partilhando a ideia de que o dinheiro nunca teve cor e isso das ditaduras corruptas em África é “normal” para criar “países”. Usei a palavra corrupção várias vezes nas frases anteriores, devia usar mil, porque ainda gostava que alguém me explicasse de onde vem o dinheiro de gente que, fora das relações de poder no MPLA e com o Presidente e a família, nunca teve qualquer actividade que explique os milhões que tem, seja sequer uma lanchonete numa rua de Luanda.
Escrevo isto, com a sensação muito forte, de que, a continuar assim, em breve isto não vai poder ser escrito na comunicação social portuguesa.”

@JAIMAGENS

Um sinal ignorado

“O consulados de Angola em Lisboa e Porto recusaram a emissão de vistos a dois observadores internacionais convidados pela Comissão Nacional Eleitoral (CNE), para cobertura das eleições de 31 de Agosto por alegadas ‘ordens de Luanda’.” A notícia, avançada ontem pelo site Maka Angola, do jornalista Rafael Marques, foi basicamente ignorada pela imprensa de hoje – e parece ser um prenúncio sobre como vão decorrer as eleições em Angola.

Os dois observadores em causa, Maria João Sande Lemos e António Vilar, foram indicados pela UNITA à CNE. Nessa mesma qualidade já tinham estado em Angola durante as eleições de 1992. Ambos são fundadores do PSD e, no caso de Maria João Sande Lemos, é conhecida a sua longa ligação ao partido do falecido Jonas Savimbi.

A cultura de exigência americana

À medida que a data das eleições norte-americanas se aproxima, o debate em torno do mandato de Barack Obama tem ganho novas proporções. Esta semana, o historiador britânico Niall Fergusson, escreveu o tema de capa da Newsweek com o título “Why Obama must go”, onde defende, com base em factos muito concretos, porque os eleitores não lhe devem conceder um novo mandato.

A capa gerou uma enorme controvérsia. De início porque era um britânico, conselheiro declarado de John McCain e apoiante de Mitt Rommney, a escrevê-la. Mais tarde porque a maioria dos factos citados por Niall Fergusson estão… errados.

O primeiro a reparar nos lapsos do historiador inglês foi o colunista do The New York Times e prémio Nobel da Economia, Paul Krugman.  “Presumo que eles não façam um fact-cheking”, escreveu. O website Politico perguntou à Newsweek e confirmou-o: a revista, como muitas outras, confia que os autores entregam textos factualmente correctos. Na The Atlantic, James Fallows e Matthew O’Brien decidiram analisar todos os factos citados por Fergusson e chegaram à conclusão de que o historiador apresenta uma profusão de dados de uma forma tendenciosa ou, simplesmente, errada.

Tudo isto para falar numa figura que não existe na imprensa portuguesa mas que na americana tem um papel fundamental nas publicações de referência: os fact checkers. Em teoria, são uma espécie de vigilantes dos repórteres que garantem a sua honestidade e a fiabilidade dos factos enunciados nas peças jornalísticas.

O editor da The Atlantic, Ta-Nehisi Coates, recorda aqui o sistema que sistema encontrou quando chegou à revista americana, em 2008: “I was subjected to arguably the most thorough fact-checking procedure in all of popular publishing. That meant submitting an annotated version of the story with all sources cited, turning over all my notes, transcripts or audio, and the names and numbers of each of my sources, all of whom were called to confirm the veracity of my quotes. When I freelanced for The New Yorker, it was pretty much the same deal and the same level of scrutiny.”  

Um sistema deste género seria provavelmente impraticável num diário português. Nem todos os jornais podem ter fact-checkers. Não só pelos custos. Mas é certo que se evitariam muitos erros e os jornalistas – onde me incluo – teriam certamente mais cuidado com o que escrevem.

A aula do mestre Portas

Paulo Portas é um mestre na gestão da sua imagem. Não admira que, segundo o último estudo da Eurosondagem, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros se mantenha como o mais popular dos líderes políticos – apesar do desgaste do governo de coligação. Apesar de ocupar um cargo que, historicamente, passa ao lado de polémicas e que mantém níveis elevados de popularidade, o líder do CDS tem sabido capitalizar o seu estatuto e aparecer em momentos chave. Foi assim na viagem relâmpago à Líbia (apesar de ainda não ter colocado lá um embaixador), no acordo com Angola sobre vistos (apesar dos problemas que logo surgiram), na viagem de três dias ao Brasil (que não teve retorno conhecido), ou na ainda mal explicada venda legal de vistos. Mas o golpe de mestre foi dado ontem, na cerimónia de assinatura do empréstimo de  mil milhões de euros à EDP por parte de um banco chinês.

Hoje, o jornal i é o único a “dar” a notícia de que o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros apareceu na cerimónia de “surpresa” e quase baralhou o protocolo ao falar antes do presidente da EDP. O detalhe, foi revelado numa pequena legenda e revela bem o génio político do antigo director de O Independente. Ao surgir sem avisar, Paulo Portas pôde falar num palco sem que alguém o questionasse sobre as eventuais novas medidas de austeridade, o aumento do desemprego, os cortes nos apoios sociais, a diminuição da segurança no emprego, a privatização da RTP e por aí fora. Pelo contrário. Jornais e televisões destacaram o discurso do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros e soundbytes cuidadosamente preparados como “Portugal será na Europa o que trouxer à Europa, de fora da Europa”. De Passos Coelho, que decidiu quem seria o comprador da EDP, do ministro das Finanças, que negociou a privatização, e até do ministro da Economia, nem sinal. Quem brilhou? Paulo Portas, mais uma vez associado a uma notícia positiva. Brilhante.

O euro bem gasto

A história repete-se todos os anos (excepto talvez em 2011). Chega o Verão e com a ausência de notícias, provocada pela ida a banhos das classes política, judicial, económica, etc., os jornais e revistas são invadidos por reportagens sobre incêndios (quando os há), altas temperaturas (ou chuva), eventos desportivos (mundiais, europeus e olimpíadas), insólitos e fait-divers.

Isto acontece, de facto, porque, em bom português, não se passa mesmo nada. É a chamada “silly season“. Mas não só. É tese dominante entre as chefias dos jornais e revistas nacionais que, no Verão, os leitores querem temas leves para relaxar na praia, no campo ou na esplanada. Mas há uma outra corrente, minoritária: defende que, no Verão, os leitores têm mais tempo para dedicar aos jornais e às revistas e que, por isso, estão mais disponíveis para trabalhos longos e profundos. No fundo, mais receptivos à informação.

Entre os jornais e revistas portugueses, parece-me que o Público é o único que tem seguido esta última corrente. A consequência dessa decisão é a publicação de reportagens como esta. Assinada pela Andreia Sanches (que não conheço), é uma história que, além de muito bem escrita, provoca arrepios na espinha e faz valer a pena aquele euro gasto na compra do jornal.

Não sei qual vai ser o resultado das vendas do Público no fim do Verão. Mas espero que o investimento feito neste género de reportagens sirva para provar que o bom jornalismo tem compradores – e que a ausência de notícias é uma boa oportunidade para dar espaço a temas que durante o resto do ano não o têm.

Os hambúrgueres estão a matar o planeta

Esqueçam os automóveis, os aviões, os comboios, as fábricas e as centrais energéticas como os principais responsáveis pelo efeito estufa. As vacas é que estão a matar o planeta. Mais concretamente, o consumo de hambúrgueres. Como fica demonstrado neste excelente trabalho do Center for Investigative Reporting, as vacas norte-americanas, necessárias à produção dos 48 mil milhões de hambúrgueres consumidos todos os anos nos Estados Unidos, emitem mais gases com efeito de estufa do que 22 milhões de automóveis. Sem contar com os efeitos colaterais no solo, água e a poluição produzida no processo de distribuição. Os dados são impressionantes. O texto é simples, factual, com fontes atribuídas e está brilhantemente ilustrado neste vídeo:

Vigilância permanente

As escutas em aparelhos de ar condicionado podiam até ser um recurso da guerra fria (de utilidade duvidosa porque os aparelhos não são muito silenciosos). Mas hoje em dia os sistemas de vigilância atingiram outra dimensão. Depois do Echelon, que permite interceptar conversas telefónicas, emails, computadores e até localizar contas bancárias, o governo norte-americano tem agora disponível uma tecnologia a que nos habituámos a ver em séries como :24 ou Segurança Nacional: o reconhecimento facial.

A tecnologia terá sido desenvolvida pela empresa Trapwire, fundada por antigos agentes da CIA e adquirida pelas cidades de Washington e Seatle por 832 mil dólares. A informação sobre esta tecnologia foi noticiada na passada segunda-feira, dia 13 de Agosto, pelo The Guardian, com base nos milhões de emails da Stratfor, a agência privada de inteligência, divulgados pela Wikileaks.

Todos aqueles que hoje em dia se recusam a falar por telefone com medo das escutas – e são muitos – têm uma nova preocupação. Qualquer dia, nem pessoalmente aceitam falar com jornalistas.

Última hora

A blogosfera portuguesa tem uma nova página. O Informador nasceu nos primeiros dias de Agosto e promete tornar-se num local obrigatório de passagem de todos os que procuram informação de qualidade, opinião não alinhada, mas também daqueles que não dispensam conhecer a profusão de factos irrelevantes sobre a vida política e jornalística portuguesa que circulam pelas redacções.

O Informador não é nem pretende ser um jornal ou uma revista. Não tem por objectivo dar notícias. É apenas um espaço que vai funcionar como complemento à actividade jornalística e servirá para explorar as novas possibilidades que a internet oferece. De preferência, numa perspectiva positiva.

Segundo disse ao Informador o próprio autor do blogue, “vou escrever sobre aquilo que me apetecer. Uns dias vou ser sério, outros nem por isso. Hoje posso debater o futuro do jornalismo ou da nação e amanhã a exibição da mais recente contratação do Benfica [escreva Benfica com letra grande, ouviu?]”. E concluiu: “Sejam bem-vindos. Vamos ver se dura”.