As praxes no (meu) jornalismo

Entrei pela primeira vez numa redacção em Maio de 2002. Acompanhado pelo Enrique Pinto-Coelho subi ao sexto andar do edifício da Portugália, na Av. Almirante Reis, onde funcionava a redacção de O Independente. A sensação foi parecida com a primeira vez que entrei na faculdade. Ou com a primeira vez que atravessei os portões do liceu. Mas ao contrário do que aconteceu na época estudantil, na redacção não tinha ninguém à minha espera para uma praxe. Na altura já conhecia algumas histórias dos jornais do “tempo do antigamente”. Em que alguns jornalistas eram movidos a álcool e em que os fechos de O Independente faziam inveja a algumas das festas mais badaladas da capital. Mas, provavelmente, infelizmente para mim, o Paulo Pinto Mascarenhas não me recebeu com um copo na mão. Nem de vodka, gin ou sequer de cerveja – quanto mais de absinto. Só tinha um cigarro. Sim, fumava-se em todo o lado. 

Vem isto a propósito do Prós & Contras de segunda-feira. A certa altura da emissão, a presidente da Associação Académica da Universidade do Algarve, Pipa Braz da Silva, anunciou que ia fazer uma revelação. Depois, com o ar mais convicto do mundo, garantiu que existe uma praxe criminosa entre jornalistas: obrigar os jovens estagiários a beber um copo de absinto quando chegam à redacção. E questionava: “devem ser esses jornalistas expulsos das redacções?” Quando foi questionada sobre a origem da informação, a jovem estudante disse apenas que não podia revelar as suas fontes. Mas que a informação é verdadeira.

Não sei se a Associação Académica do Algarve tem algum jornal com repórteres profissionais ao seu serviço. Mas nas redacções que conheço, nunca ouvi falar de tal coisa. Há praxes? Sim, relacionadas com a profissão e não estão instituídas. São ocasionais. Brincadeiras. Ficam ao critério de cada um. Em O Independente recordo-me de uma em que um jornalista que tinha a capacidade de imitar quase na perfeição a voz do treinador Manuel José ligou para o número directo de uma jovem repórter. Disse-lhe que queria falar com um jornalista corajoso e que tinha documentação importante para revelar. E queria encontrar-se naquela noite no bar da cervejaria Portugália. Curiosa, mas desconfiada, a jovem jornalista falou com os colegas sobre a chamada que tinha recebido. E foi incentivada. “Isso pode ser uma grande bomba. Tens que lá ir”. Para lhe acabar com as dúvidas, uma jornalista ligou ao próprio Manuel José. Explicou-lhe que estavam a fazer uma brincadeira (não uma praxe) a uma jovem repórter e perguntou-lhe se ele se importava de entrar no jogo. O treinador não se importava e ligou imediatamente. Já não me lembro se ela chegou a ir à Portugália. Provavelmente não. Mas teve muita piada.

Já na SÁBADO a certa altura resolvemos fazer uma brincadeira a outra jornalista. Ela tinha acabado de escrever um perfil sobre uma apresentadora de televisão e a visada não tinha gostado especialmente do resultado. O editor da secção ligou-lhe para o número directo, identificou-se como um amigo da referida apresentadora e começou a disparar acusações de parcialidade e falta de profissionalismo. Basicamente disse-lhe que destruiu a vida da tal mulher.

Quando a jornalista tentou explicar que o editor tinha introduzido algumas alterações no texto ele não só respondeu que o editor era um bandalho que se queria vingar por ter sido abandonado pela apresentadora como, para tornar a situação mais assustadora, resolveu levar a ameaça a outro nível. Qualquer coisa como: “Eu sei de onde você é. Sei onde mora. Vai-se arrepender por isto”. A conversa prolongou-se num tom cada vez mais elevado. Quando desligou o telefone a jovem jornalista disse-me, já com as lágrimas nos olhos: “Nuno está lá em baixo um tipo que me está a ameaçar e a dizer para eu descer. Eu não vou lá sozinha”. Enquanto lutava para controlar o riso, descemos no elevador. Ela toda nervosa. Não quis sair para a rua. Quando a convenci a espreitar para o jardim em frente ao edifício, não consegui aguentar mais. Só então ela percebeu que o tal homem não existia – e que tudo não passou de uma brincadeira. Sem absinto.

enthusiastic journalist on the telephone

Presstroika: foi há 25 anos

Há exactamente 25 anos foi publicado o primeiro número de um jornal irreverente e provocador, que mudou a forma como se fazia jornalismo em Portugal. Por lá passaram grandes nomes da imprensa portuguesa e foram lá publicadas algumas das histórias que mudaram o panorama político nacional. Também se cometeram muitos erros e foram dados passos que constituem páginas negras na história do jornalismo deste pequeno cantinho ibérico. No entanto, é em tempos como os que vivemos hoje que o “Indy” – por onde me orgulho de ter passado – faz muita falta.

Indy

Paulo Portas, o Expresso e O Independente

A edição dos 40 anos do Expresso tinha muitas coisas boas: entrevistas, artigos de bastidores, retrospectivas, algumas notícias e artigos de opinião de alguns dos principais protagonistas da história do jornal. Mas o texto de que gostei mesmo vinha na página 15, encaixado entre uma publicidade com o actor Hugh Laurie (o famoso Dr. House) e era assinado por um autor improvável: Paulo Portas.

Foi surpreendente – e por isso, muito interessante – os actuais directores terem convidado o cérebro do único projecto que mordeu os calcanhares ao Expresso durante quatro décadas para assinalar o aniversário do semanário. O actual ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros aceitou e não desiludiu, pois se há coisa que faz bem, é escrever. Para além de dizer o óbvio – que O Independente não teria existido sem o Expresso -, recorda assim como o semanário de Pinto Balsemão era visto na “sua” redacção.

“Na redacção de “O Independente, onde a humildade não era propriamente o género dominante, O Expresso era olhado com um misto de emulação e suficiência. Algo nos movia para que uma história saísse à sexta-feira e não esperasse pelo dia seguinte. As nossas vendas eram semanalmente comparadas. Competimos, anos a fio, em colunas e colunistas. Fazíamos gala em recomendar filmes a que a crítica do Expresso atribuía uma bola preta. Éramos libertários na estética e conservadores na substância – duas alquimias improváveis mas que causavam urticária no código apertado da Duque de Palmela. Podíamos gostar tanto de uma fotografia que não lhe acrescentávamos mais nada (para horror dos comerciais). Usávamos o humor até à exaustão e tínhamos  com excessiva frequência, uma presunção de superioridade. (…) Como o Expresso era o regime e nós corríamos pela pista de fora chegámos a estar muito perto de vender tanto quanto o Expresso, mas em boa verdade nunca conseguimos vender mais um exemplar do que o Expresso. Depois, as nossas vidas dispersaram-se e o Expresso continuou. Essa é, aliás, a sua maior qualidade institucional: é inoxidável, como se tivesse imunidade ao tempo. (…)

Em França, dizia-se que, por uma razão ou outra, neste ou naquele momento, todos os franceses já tinham votado em De Gaulle. À escala de um jornal, acontece o mesmo com o Expresso. Mais longe ou mais perto, em alguma fase da vida, já todos fomos, somos ou seremos leitores do Expresso.”

Portas 003

É um grande elogio. Mas o que me surpreendeu mesmo neste texto de Paulo Portas, foi ele ter tido tempo para o escrever, dadas as suas actuais funções de Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. É que quando era ministro de Estado e da Defesa Nacional, no governo de Durão Barroso, o fundador de O Independente foi convidado para escrever um texto para o 15º aniversário do “seu” jornal. Miguel Esteves Cardoso, enviou um. Isaías Gomes Teixeira e Constança Cunha e Sá, também. Mas até ao fecho da edição, o director mais emblemático que o Indy alguma vez teve não foi capaz de enviar umas linhas.

À boa maneira da tradição de O Independente, a redacção não o deixou passar em claro. A coluna planeada com a fotografia de Paulo Portas foi publicada na mesma em formato de anúncio, com a seguinte explicação:

“Paulo Portas, nosso fundador e actual ministro de Estado e da Defesa Nacional não teve, sequer, tempo para escrever um miserável textozito para esta coluna de aniversário.

Aqui fica o anúncio, totalmente grátis:

Portas 002

Já não houve tempo. O Independente encerrou a 1 de Setembro de 2006. Tinha 18 anos.

 

Um grande ponto final

Fez no sábado seis anos que a imprensa portuguesa ficou mais pobre. O tempo passa depressa e é fácil caír no esquecimento. A memória apaga-se. Ou é apagada. Mas numa altura em que a imprensa escrita atravessa uma enorme crise – em todos os aspectos – é importante recordar que é sempre possível mudar e fazer melhor. O Independente fê-lo a partir de 1988, quando Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso decidiram criar um semanário que rompeu com os padrões da época e mudou o jornalismo em Portugal. Claro que foram cometidos muitos erros e bastantes injustiças. Isso não me impede de pensar que precisamos outra vez de uma Presstroika.