As verdades, as meias verdades e as faltas à verdade de Passos Coelho

Ontem, na RTP, Pedro Passos Coelho, respondeu aos portugueses de forma aparentemente sincera. E em grande parte, verdadeira. Mas também não disse a verdade toda. Mais: também ele faltou à verdade em algumas ocasiões (para usar uma expressão muito em voga na política portuguesa). O fact check foi feito pelo Jornal de Negócios na edição online. Isto é jornalismo sério e especializado.

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É por isto que são precisos jornalistas, para evitar tempos de antena disfarçados

Pedro Passos Coelho foi à RTP ser entrevistado por 20 pessoas com as mais diversas origens e de diferentes estratos sociais. O formato é uma espécie de debate que nos habituámos a ver nas campanhas eleitorais americanas. Com a diferença de que nos Estados Unidos não há um entrevistado, há dois. Um de cada lado. A ideia em si, é interessante. Dá ao canal que transmite o programa uma aura de proximidade com a população. Uma espécie de estação feita pelas pessoas, para as pessoas. Mas, neste caso, não foi só boa para o canal. Foi boa para o primeiro-ministro.

Não sei isto foi feito. Mas gostava que cada uma daquelas 20 pessoas tivesse respondido a um conjunto de questões sobre a actuação do governo, do primeiro-ministro e o estado do país antes de entrar em estúdio. E gostava que tivessem respondido às mesmas questões no final do programa. Aposto que os dados seriam surpreendentes – e mais favoráveis a Pedro Passos Coelho.

A explicação é simples. Cada uma daquelas pessoas teve a oportunidade de fazer uma pergunta a ao primeiro-ministro. Um privilégio que a maioria da população não tem. Nos últimos dias devem ter sido bombardeados com sugestões de amigos e conhecidos. “Tens de perguntar” isto. “Tens de perguntar” aquilo. E eles só podiam escolher uma de tantas e tantas perguntas que há a fazer. Ainda para mais, iam fazê-lo num estúdio de televisão – onde a maioria nunca tinha entrado – e em directo. Pode parecer que não. Mas saber que milhões de pessoas, sobretudo aquelas que nos conhecem, estão a ver pode ser muito stressante.

Ou seja, Passos Coelho estava em vantagem. Habituado aos holofotes mediáticos, apresentou-se tranquilo e com a lição bem estudada: levantou-se para responder, tratou as pessoas pelo primeiro nome – o que lhe deu um ar de intimidade – olhou-as nos olhos e respondeu com um ar firme e um raciocínio aparentemente lógico. Reconheceu os problemas que lhe foram apresentados e tentou colocar a audiência no seu lugar: “se eu perder 100 milhões com a baixa do IVA, tenho que os ir buscar a outro lado”. Como é hábito, não poupou nos termos técnicos.

O problema é que, ao contrário de uma entrevista normal, ou de um debate, o primeiro-ministro não foi contrariado. Os seus argumentos não foram questionados. Os seus números não foram rebatidos. Para cada pergunta tinha uma resposta preparada. Fosse sobre a educação, o IVA nos restaurantes, as florestas, a agricultura, as exportações, as reformas na administração pública, os voos para os Açores, ou o offshore da Madeira. Não contabilizei a duração do programa. Mas foi provavelmente o maior tempo de antena que algum político jamais teve na televisão portuguesa. Só que disfarçado de entrevista.

A esta distância, talvez se possa dizer que a Comissão Nacional de Eleições fez um grande favor ao primeiro-ministro ao proibir este programa antes das últimas eleições autárquicas. Provavelmente não teria grande influência na derrota estrondosa do PSD. Mas agora, no pós-eleições, talvez tenha dado um grande jeito ao primeiro-ministro. Com António José Seguro incapaz de descolar nas sondagens mesmo com o actual estado do país, era interessante conhecer os resultados de uma sondagem feitas logo após O País Pergunta. Mais uma vez, aposto que seriam interessantes para Pedro Passos Coelho.

Foto: Alberto Frias