O Estado Islâmico em debate no Observador

O último Conversas à Quinta, do Observador, com Jaime Gama, Jaime Nogueira Pinto e José Manuel Fernandes teve como tema “O Islão, o Ocidente e o Estado Islâmico. O pretexto foi a edição recente de quatro livros de autores portugueses sobre o tema: O Islão e o Ocidente, a grande discórdia, de Jaime Nogueira Pinto; O mistério das bandeiras negras, de Nuno Rogeito; o meu Os combatentes portugueses do Estado Islâmico; Os jihadistas portugueses, do Hugo Franco e da Raquel Moleiro.

Apesar de, naturalmente, a conversa ter-se centrado no livro de Jaime Nogueira Pinto, o debate foi bastante interessante. Para ver ou ouvir aqui.  unnamed

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Os comentadores em estado de negação

Pelo José Manuel Fernandes, no Observador

É talvez altura de nos curarmos de vez do socratismo

“Uma parte do país – e um contingente notável de comentadores – parecem continuar em estado de negação. Durante anos não quiseram ver, não quiseram ouvir, não quiseram admitir que havia no comportamento de José Sócrates ministro e de José Sócrates primeiro-ministro demasiados “casos”. Em vez disso só viram cabalas, só falaram em perseguições, só trataram eles mesmo de ostracizar ou mesmo perseguir os que se obstinavam em querer respostas, os que insistiam em não ignorar o óbvio, isto é, que Sócrates não tinha forma de justificar os gastos associados ao seu estilo de vida.

Agora, que finalmente a Justiça se moveu, eles continuam firmes na sua devoção – e nas suas cadeiras nos estúdios de televisão. Não lhes interessa conhecer o que se vai sabendo sobre os esquemas que Sócrates utilizaria para fazer circular o dinheiro, apenas lhes interessa que parte do que foi divulgado pelos jornais devia estar em segredo de Justiça. Antes, anos a fio, quando não havia segredo de justiça para invocar, desvalorizaram sempre todas as investigações jornalísticas que tinham por centro José Sócrates.

Isto é doentio e revela até que ponto o país ainda não se libertou da carapaça que caiu sobre ele nos anos em que o ex-primeiro-ministro punha e dispunha. Nessa altura também muitos, quase todos, se recusavam a ver, ouvir ou ler, até a tomar conhecimento. Não me esqueço, não me posso esquecer que quando o Público, de que eu era director, revelou pela primeira vez a história da licenciatura, seguiu-se uma semana de pesado silêncio que só foi quebrada quando o Expresso, então dirigido por Henrique Monteiro, resistiu às pressões do próprio Sócrates e repegou na história e denunciou as pressões. Não me esqueço que tivemos uma Entidade Reguladora da Comunicação Social que fez um inquérito e concluiu que o silêncio de toda a comunicação num caso de evidente interesse público não resultara de qualquer pressão – a mesma ERC que depois condenaria a TVI por estar a investigar o caso Freeport. Como não me esqueço de como uma comissão parlamentar chegou mais tarde à mesma conclusão, tal como não me esqueço de como vi gestores de grandes empresas deporem com medo do que diziam.

Muitos dos que agora rasgam as vestes porque o antigo primeiro-ministro foi detido no aeroporto foram os mesmos que nunca quiseram admitir que havia um problema com Sócrates, com os seus casos, com o seu comportamento, com o seu autoritarismo. E também com o seu estilo de vida.

Há momentos que chegam a ser patéticos. Como é possível, por exemplo, que um homem supostamente inteligente, como Pinto Monteiro, queira que nós acreditemos que foi convidado por José Sócrates para um almoço, de um dia para o outro, numa altura em que o cerco se apertava, e que, naquele que terá sido o seu primeiro almoço a sós, só falaram de livros e viagens, como se fossem dois velhos amigos? Como é possível que continue a defender a decisão absurda sobre a destruição das escutas? Ou a achar que nada mais podia ter sido feito na investigação do caso Freeport?

Mas há também um lado doentio e provinciano na forma como se tem comentado este caso. Uma das raras pessoas que detectou essa anormalidade foiNuno Garoupa, professor catedrático de Direito nos Estados Unidos e que, por ter respirado ares mais arejados, não teve dúvidas, notando que “nós é que vivemos num mundo mediático”, não é a Justiça que cria o circo, como se repetiu ad nauseam nas televisões. Mais: “A opinião pública pode e deve fazer um julgamento político, independentemente do julgamento legal e judicial. A política e a justiça não são a mesma coisa.” Ou seja, deixem-se da hipocrisia do “inocente até prova em contrário”, pois isso é verdade nos tribunais mas não é verdade quando temos de julgar politicamente alguém como José Sócrates. O julgamento político, como ele sublinha, não está sujeito aos mesmos critérios do julgamento penal.

A clareza do debate político exige pois que saibamos fazer distinções. A distinção que António Costa fez logo na madrugada de sábado, quando disse que “os sentimentos de solidariedade e amizade pessoais não devem confundir a acção política do PS”, é justa e mantém toda a sua pertinência. Se o PS tem conseguido manter a frieza – quase todo o PS, pois são raras e muito pontuais as excepções –, é importante para esse mesmo PS ir mais longe. E tocar um ponto nevrálgico: aquilo que nós, cá fora, sabíamos sobre as excentricidades e as práticas de José Sócrates dão-nos apenas uma pequena amostra do que se sabia em muitos círculos do PS. Sabia, mas não se comentava, mal se sussurrava.

Vou mais longe: nos partidos estas coisas são conhecidas. Pelo menos no PSD e no CDS, para além do PS. Ninguém ficou surpreendido quando a Justiça caiu sobre Duarte Lima – todos os seus companheiros de bancada conheciam as suas excentricidades. Pior: muitos ainda hoje comentam como a Justiça ainda não apanhou alguns antigos secretários-gerais, aqueles que tratavam das contas e apareceram ricos de um dia para o outro. Pior ainda: nos bastidores dos partidos as histórias de autarcas, em particular de alguns dinossauros, são infindáveis. E há longínquas férias na neve de dirigentes partidários que incomodam os seus correligionários sem que nada aconteça para além de um comentário fugaz.

Vamos ser claros, deixando a hipocrisia do respeitinho de lado. A dúvida que havia sobre José Sócrates era sobre se seria algum dia apanhado. A percepção que corroía a confiança nas instituições não era sobre se os seus direitos humanos poderiam vir a ser negados (a sugestiva preocupação de Alberto João Jardim), mas sim sobre se algum dia um aparelho judicial que, anos a fio, pareceu amestrado seria capaz de apanhar alguns dos fios das muitas meadas tecidas pelo antigo primeiro-ministro.

Escrevi-o muitas vezes e vou repeti-lo: José Sócrates foi a pior coisa que aconteceu na democracia portuguesa nos últimos 40 anos, e não o digo por causa da bancarrota. Digo-o por causa da forma como exerceu o poder, esperando fazê-lo de forma absoluta, sem contestação, sem obstáculos, sem críticos. Não os tolerava no PS, no Governo, nos jornais, nos bancos, nas grandes empresas do regime.

Não sou a primeira pessoa a descrever assim José Sócrates. Nem essa descrição é recente. Recordo apenas um texto de António Barreto, de Janeiro de 2008 (há quase sete anos, bem antes da bancarrota), onde se escrevia que “o primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas”. Lembram-se? Eu não o esqueci.

O que distingue o socratismo não é uma visão da forma de ser socialista, é uma visão schmittiana de exercício do poder. Compreendo que o seu estilo de líder forte possa ter fascinado quem cavalgou a onda, mas é bom que hoje olhem para o elixir que provaram e que os inebriou, e percebam que era um veneno. Ou seja: acordem para a realidade. Depois do que se passou nos últimos dias, do que já sabemos sobre os contornos do processo e das acusações, do que imaginamos mas ainda não sabemos, a pergunta que muitos têm de intimamente fazer é “como foi possível?”, “como é que acreditei?”. Porque se não forem por esse caminho o seu único refúgio acabará por ser uma qualquer teoria da conspiração como a imaginada pelo insubstituível MRPP.

Ao contrário do que se repetiu à exaustão, o carácter não é um detalhe em política. E se ninguém deve apagar rostos em fotografias, à la Stalin, também é preciso de olhar de frente para o que, no passado, recomenda que se exorcizem fantasmas, demónios, maus hábitos e práticas não recomendáveis.”

Leitura para o fim-de-semana: a noite mais longa do Estado Novo

Durante 10 anos o Miguel Pinheiro dirigiu a Sábado com mestria. Enquanto foi director publicou a biografia de Sá Carneiro. Desde que deixou de o ser já publicou, com o Gonçalo Bordalo Pinheiro, o livro A Máquina do Poder, que relata os bastidores da campanha para as eleições europeias e a forma como os partidos manipulam a opinião pública. Agora, lançou o livro A noite mais longa, um relato detalhado das 13 horas em que Salazar esteve deitado na mesa de operações, cruzado com o outro grande acontecimento dessa noite: o “baile do século”, dado pelo milionário Antenor Patiño. E pelo excerto pré-publicado pelo Observador, vale todos os cêntimos.

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O calista que viu Salazar cair da cadeira

Miguel Pinheiro

Salazar não estava pronto para nada daquilo. Quando o motorista parou o Cadillac à porta do Hospital dos Capuchos, em Lisboa, onde iria ser feito um eletroencefalograma, o presidente do Conselho saiu pelo seu pé mas não andou muito. Tinha à espera uma cadeira de rodas. Precisou de ajuda para se sentar e disse, em voz baixa:

– É inacreditável, parece inacreditável.

Ao longo do mês anterior, o ditador tinha passado por uma acentuada deterioração física. Cometera o enorme erro de resistir aos conselhos do seu médico, de tentar adiar um tratamento inevitável e de esconder a verdadeira extensão dos seus sintomas. Se naquele momento estava sentado numa cadeira de rodas era por causa de tudo o que fizera – e, tão importante quanto isso, de tudo o que não fizera – desde o início de agosto. Os acontecimentos que se sucederam ao longo dessas semanas ajudam a explicar a gravidade e o dramatismo da noite de 6 de setembro de 1968.

Salazar nunca pensou que uma pequena queda acabasse assim. Na altura, tinha tudo parecido muito insignificante – até pouco depois das 9 horas da manhã, o dia 1 de agosto fora exatamente igual aos outros. Perto das 8 horas, um carro da Presidência do Conselho tinha parado na Rua do Carmo, em Lisboa, para apanhar um homem «elegante, alto e magro». Tratava‐se de Augusto Hilário, que se tornara enfermeiro‐calista do presidente do Conselho por herança. O pai era de Viseu e tinha estudado na mesma escola que Salazar. Quando morreu, deixou ao filho o consultório e o cliente.

O calista e o ditador costumavam ver‐se de três em três semanas. Essa periodicidade não era um capricho – era uma necessidade. Quando era mais novo, Salazar partira o pé direito e nunca recuperara. Tinha os ossos encavalitados uns nos outros e apareciam‐lhe calos que lhe provocavam dores. Aliás, por isso é que usava umas botas de pelica muito fina, característica que levaria os opositores do regime a tratá‐lo, com desprezo, por O Botas.

Nessa quinta‐feira, ao chegar ao Forte de Santo António, no Estoril, Augusto Hilário passou a porta de madeira e ferro. No átrio, onde existe um azulejo com excertos de Os Lusíadas em cada parede, a temperatura estava mais fresca do que lá fora. Subiu um primeiro lanço de escadas e logo depois outro. Virou à direita e atravessou o longo corredor com o teto em abóbada que divide as duas alas do forte. Era ali, na zona conhecida como «Arca de Noé», que Salazar costumava ler os jornais, almoçar e receber visitas – mas àquela hora não havia ninguém. O calista abriu a quarta porta à esquerda e entrou numa sala grande, a que chamavam «rouparia», dividida por um arco e com armários pintados de branco em todas as paredes. À direita ficava um recanto onde D. Maria costumava cozinhar para Salazar. Hilário pousou a pasta e começou a preparar os instrumentos de que ia precisar para o tratamento.

Naquele momento, Salazar estava a acabar de vestir o seu casaco de linho branco, no primeiro andar do forte. Saiu do quarto, atravessou um pequeno corredor, desceu dois lanços de escadas, atravessou a «Arca de Noé», entrou na sala onde estava o calista e cumprimentou‐o. Depois pediu‐lhe:

– Empreste‐me os seus jornais.

Hilário sabia que, sempre que ia ao forte, tinha de levar os matutinos. Era um pedido de D. Maria, a governanta de Salazar. Por causa de um daqueles inexplicáveis atrasos de que apenas as burocracias estatais são capazes, os jornais do presidente do Conselho só costumavam chegar ao fim da manhã. Quando havia visitas, podia começar a lê‐los mais cedo. Naquele dia, Salazar podia escolher: Hilário tinha‐lhe trazido o Diário de Notícias e A Bola. Preferiu o DN.

Desta vez, não houve tempo para falarem sobre música, sobre teatro ou sobre os espetáculos no São Carlos, como era hábito. Hilário virou‐se para ensaboar as mãos num lavatório encostado à parede, junto à porta, e ouviu um estrondo. Virou‐se imediatamente. Salazar, que tinha o perigoso hábito de se deixar cair quando se sentava, calculara mal a distância que o separava da cadeira de lona estilo realizador. Estava no chão e tinha batido fortemente com a cabeça. Quando se baixou para o ajudar a levantar‐se, Hilário viu que Salazar estava «branco como a cal».

Em pânico, sentou‐o «com cuidado» na cadeira e sugeriu que talvez fosse mais prudente pedir ajuda. Salazar disse‐lhe que não com a cabeça. Minutos depois, o ditador decidiu que não bastava o silêncio, era preciso um segredo: exigiu que o calista prometesse que nunca contaria a ninguém o que tinha acabado de ver. Hilário aceitou, mas ainda insistiu:

– Tome ao menos um pouco de água com açúcar.

Nem isso Salazar quis. Não voltou a pegar no jornal e manteve‐se quieto, enquanto o calista trabalhava. Ao fim de algum tempo estava melhor, pelo menos aparentemente.

– O senhor presidente já parece outro!

– E o senhor também. Olhe que ficou muito pálido…

No forte, havia uma terceira pessoa assustada. D. Maria, que estava no seu quarto, ouviu um estrondo e primeiro achou que tinha sido uma porta a bater. Quando desceu, percebeu que aquilo que tinha tomado por um contratempo doméstico era afinal uma preocupação clínica. Tentou convencer Salazar a chamar imediatamente um médico, mas ele recusou – dentro de cinco dias teria a sua consulta quinzenal de rotina com Eduardo Coelho e não via nenhuma razão para a antecipar.

O artigo completo está aqui.

Leitura para o feriado: “A vítima perfeita”

Foi há 19 anos. Alcindo Monteiro, um português de origem cabo-verdiana, foi espancado até à morte por um grupo de skinheads, na Rua Garret, em Lisboa, depois de uma série de confrontos que começaram no Bairro Alto. Esta semana, o Observador publicou uma excelente reportagem escrita pelo Fábio Monteiro que reconstitui detalhadamente os acontecimentos dessa noite e que serve para refrescar a memória a muitos de nós que vamos mesmo ao ponto de escrever de forma errada o nome da vítima.

O tema é sensível, sobretudo depois da polémica causada pela publicação recente da reportagem sobre a relação de Mário Machado com uma militante socialista. É por isso mesmo que, apesar dos muitos méritos desta reportagem, me parece que ela tem uma falha: não explica qual o papel de Mário Machado nos confrontos, nem diz se ele participou nas agressões que levaram à morte de Alcindo Monteiro. Diz apenas que ele foi preso no Cais do Sodré com a namorada, que hoje está arrependido e se prepara para fundar um novo partido. Não inclui sequer a pena a que foi condenado [dois anos e seis meses]. E isso é grave, apesar de a leitura valer muito a pena.

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A vítima perfeita

Entre 1995 e 1997, o nome Alcindo Monteiro fez manchete inúmeras vezes dos jornais portugueses. Passados 19 anos, foi só isso que restou: um nome, muitas vezes escrito de formaerrada. Uma memória a dissipar-se e silêncio. Quem foi a pessoa no epicentro de uma mudança tão importante na realidade portuguesa?

I

Pirilampos brancos e vermelhos, apressados. Lisboa, madrugada do dia 11 de Junho de 1995. Domingo. As ambulâncias pareciam andar num carrossel e não paravam de chegar desde a uma e meia da manhã ao hospital de São José. Andavam em círculo, entre as ruas do Bairro Alto e o Martim Moniz. A cada cinco ou dez minutos voltavam com novos pacientes. Apareciam a cambalear, ajudados pelos enfermeiros ou acompanhantes, em macas ensanguentadas, com hematomas em forma de punho ou cilíndricos. As faces de alguns estavam desfiguradas, os narizes partidos. Num caso notavam-se mesmo falhas no cabelo, aparentemente arrancado à força, e a nuca amolgada – como uma bola de futebol furada que fica com a forma do pé quando pontapeada. Contavam-se 10 indivíduos agredidos, todos negros.

Pouco antes das três da manhã, a polícia trouxe um décimo-primeiro também para receber cuidados. Um homem branco. No hospital de S. José, na zona do Martim Moniz, ninguém sabia ao certo o que estava a acontecer, mas também não se estranhava porque vinha do sítio do costume: o Bairro Alto. Uma noite de confusão, era só mais uma noite. O código das ruas ditava que, em caso de zaragata, se entrasse em tudo o que fossem portas abertas, fechando-as atrás de si. Em último caso ir a correr para o Cais do Sodré. A maioria das vezes eram escaramuças ligeiras, embebidas pelo álcool, que não chegavam a ser noticiadas.

Naquela noite foi diferente. À primeira vista, os feridos tinham estado envolvidos em cenas de pancadaria. Nalguns conseguia mesmo distinguir-se, a olho nu, marcas de soqueiras e objectos redondos, no corpo. Um dos registos clínicos era especialmente dramático em comparação com os outros.

Lia-se no relatório médico: “Hemorragias sub-pleurais e sub-endocirdicas; edema pulmonar; graves lesões traumáticas crânio-vasculo-encefálicas; lesão no tronco cerebral; edema cerebral muito marcado; fractura da calote craniana.” Dias mais tarde, Jorge Sampaio, presidente da Câmara Municipal de Lisboa na época, lançaria a pergunta: “Como é que é possível que a 500 metros do Governo Civil nada aconteça durante estas duas horas?”

O paciente Alcindo Monteiro, português nascido em Cabo Verde, tinha 27 anos e foi encontrado sem sentidos na rua Garrett, em frente à montra da loja da Gianni Versace. O corpo do homem era tão franzino que dava para imaginá-lo a levar uma lambada e a rodopiar sobre si próprio. Nos bolsos, Alcindo tinha uma carteira cinzenta. Lá dentro, estava um bilhete de identidade português, algum dinheiro e uma agenda de contactos amarrotada. Na primeira página da agenda estavam escritos os dados pessoais.

Era 1h16min da madrugada quando, na linha de emergência pública nacional – o número 115 – começaram a chover denúncias, mais uma vez, da barafunda no Bairro Alto, principalmente nas ruas da Rosa, Atalaia e Diário de Notícias.

Nessa noite, a maioria das forças de segurança estava concentrada entre o Rossio e a Avenida 24 de Julho. Os cachecóis verdes e brancos e as bandeiras leoninas levantavam-se bem alto, pelos adeptos sportinguistas. Afinal, passados 18 anos desde a última conquista da Taça de Portugal, acabaram por vencer, num jogo em que o avançado Iordanov fora o herói.

A televisão pública, que tinha transmitido a partida de futebol durante a tarde, filmava agora o banho da vitória de alguns dos membros da claque Juve Leo, mergulhados no fontanário, alheios ao que se passava a poucos quarteirões de distância. Já todos os feridos estavam no Hospital de S. José quando a polícia reagiu, às 2h30 da manhã, e capturou nove indivíduos – sete rapazes e duas raparigas –, diante do nº32 da Rua D.Luís I, uma rua paralela à avenida 24 de Julho, não muito longe do Cais do Sodré.

Identificar os agressores foi fácil. O modo como se vestiam e a aparência física denunciou-os: as calças de ganga curtas e dobradas no fundo, para mostrarem as botas de biqueira de aço – na maioria da marca britânica Doc Martens e Sendra -, as t-shirts e calças com padrão camuflado, blusões negros, e o cabelo rapado – um suposto sinal de limpeza.

Dos nove detidos, dois eram militares no activo: Mário Machado, 2º Cabo da Polícia Aérea da Força Aérea Portuguesa; Nuno Monteiro, soldado do exército português. Outro era natural de uma ex-colónia portuguesa, Moçambique: Nuno Cláudio Cerejeira, escriturário no Aeroporto de Lisboa; um outro da Venezuela: Nelson Silva, empregado de balcão. Os restantes: Nuno Themudo, vigilante nocturno; Jaime Hélder, mecânico de frio; Alexandre Cordeiro, estudante. No grupo estavam também duas raparigas, namoradas de Nuno Monteiro e Mário Machado, ilibadas de todas as acusações passados seis meses.

Manuel Dias Loureiro, na altura Ministro da Administração Interna e responsável pelas forças de segurança, afirmou dias antes do 10 de Junho, que tinha “este tipo de grupos sob controlo.” Até ao mês de Novembro de 1995, foram detidos mais 10 indivíduos. José Lameiras, empregado num minimercado; Hugo Silva, repositor de estoques; João Martins, estudante; Ricardo Abreu, desenhador gráfico; José Paiva, vigilante; Jorge Martins, estudante; Tiago Palma, estudante; Jorge Santos, ajudante de motorista; Nelson Pereira, electricista; João Homem, montador de peças.

Às 8 da manhã do dia 11 de Junho de 1995, todas as rádios nacionais falavam, ainda sem grandes certezas, do que tinha acontecido no Bairro Alto e esperavam que não se tratasse de um novo 28 de Outubro de 1989, data em que um grupo de skinheads esfaqueou José Carvalho, dirigente do Partido Social Revolucionário (PSR). Alcindo Monteiro estava em coma.”

O artigo completo está aqui.

Nos bastidores da campanha socialista

Durante quase 10 anos o Gonçalo Bordalo Pinheiro foi director adjunto da Sábado. Depois de deixar a revista, não fez questão de se manter entre aqueles que pensam que um jornalista, depois de chegar a director, não volta a ser jornalista. Pelo contrário. Durante quase um mês acompanhou para o Observador a campanha do PS. Teve um acesso privilegiado a Francisco Assis, quando comparado com os restantes repórteres. A condição foi só uma: só publicar no final da campanha. O resultado é um texto fantástico, cheio de detalhes sobre a forma como a campanha se desenrolou e que permite perceber o caos interno do partido – e também o fraco resultado eleitoral. Só um apontamento: devia ter sido publicado há mais tempo. De qualquer forma, estão de parabéns. O Gonçalo e o Observador.

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“A vitória que fez implodir o PS

por Gonçalo Bordalo Pinheiro

Eram 10h da manhã. O dia 19 de maio era importante para a campanha do PS. Francisco Assis estava sentado ao sol na esplanada de uma estação de serviço perto da Figueira da Foz, com as pernas esticadas em cima de uma cadeira de plástico. O diretor de caravana tinha ligado para o seu carro há cerca de meia hora a mandá-lo fazer uma “paragem técnica”. O barco que iria descarregar o peixe na lota estava atrasado e ninguém queria fazer esperar o cabeça de lista do PS às eleições europeias – pelo menos, esperar em público, à frente das câmaras de televisão.

Enquanto Assis, a sua mulher, o motorista e os dois assessores bebiam vários cafés ao sol, o Audi A6 de António José Seguro parava na lota da Figueira da Foz. Lá dentro levava uma impressora portátil para imprimir documentos de última hora, fruta, barras energéticas e um frasco de álcool gel para o líder do PS poder desinfetar as mãos depois das arruadas.

Era o primeiro dia do secretário-geral do PS a 100% na campanha. No sábado, o Expresso tinha noticiado que as sondagens internas da Aliança Portugal indicavam que a distância entre as duas forças políticas estava a encurtar. A notícia não era nova para os socialistas. Na sexta-feira à noite, o presidente de uma concelhia já tinha telefonado para um elemento da coligação e recebido as novidades antecipadamente: o partido estava há quatro dias consecutivos a cair nas projeções e o PSD a subir.

Pior: o Governo de José Sócrates estava a ser o centro do debate eleitoral – Paulo Rangel não desistia de puxar o tema. Pior ainda: Marinho e Pinto estava a crescer nas intenções de voto – todos esses eleitores deveriam vir da área do PS. Era o momento de apostar tudo e recentrar a campanha nos últimos anos do Governo PSD/CDS e não em José Sócrates. Não podia haver mais falhas. Mas houve.

A MÁQUINA DO PARTIDO

António José Seguro saiu do carro vestido com umas calças beges claras, uns sapatos de camurça cor de camelo, um blazer azul escuro e uma camisa justa, impecavelmente engomada. Olhou à sua volta, sorriu mas não viu Francisco Assis. A direção de campanha tinha avisado Assis para esperar, mas não conseguira telefonar a Seguro para fazer o mesmo – nem ele nem o motorista haviam atendido o telefone.

Agora Seguro estava ali na lota, com a sua maquilhadora, com a sua assistente pessoal, com a sua assessora que lhe atualiza o perfil no Facebook, com o seu fotógrafo, com o seu chefe de gabinete, com a sua assessora de imprensa e com um reforço de militantes da JS – mas sem o seu candidato ao Parlamento Europeu. Em poucos minutos teve de decidir se esperava que Assis chegasse ou se avançava sem ele. Avançou. E errou.

A equipa de reportagem da SIC começou a filmar os telefonemas dos responsáveis da campanha a mandarem o carro de Francisco Assis avançar “rapidamente”. Depois, os jornalistas perceberam que Assis tinha chegado à porta errada da lota e voltado para trás, que Seguro tinha parado a visita a meio quando viu que toda a gente já sabia do desencontro e especialmente que o candidato do PS tinha chegado 27 minutos depois do líder do partido por causa de um erro de comunicação.

Quando saiu da lota em passo apressado para fugir da chuva, Seguro estava furioso. A SIC haveria de fazer uma notícia sobre a confusão e isso abalava a imagem de competência do partido. Para mais, começara a chover e a visita programada à feira de Soure teria de ser cancelada. O dia estava a ser uma desgraça.

Seguro mandou parar o carro num bar, que abriu as portas propositadamente para o receber, enquanto a caravana avançava para preparar o almoço na sede da banda filarmónica local. O que se passou a seguir foi várias vezes comentado na campanha:

Os motoristas ficaram à porta e o líder do PS chamou o seu chefe de gabinete. À frente de vários assessores, começou aos gritos com Miguel Ginestal por causa do caos da organização da campanha. O tom dos berros foi de tal forma elevado que os presentes ficaram incomodados com a cena.”

O artigo completo está aqui.

Boas notícias para a imprensa

Eis que o mercado volta a movimentar-se. Foi hoje anunciado que o David Dinis vai ser o director executivo do Observador, o novo jornal digital que irá ser lançado no primeiro semestre deste ano por um grupo de investidores liderado por António Carrapatoso e Alexandre Relvas, que inclui ainda o dono da Eurocash, Luís Amaral, JoãoTalon e António Pinto Leite. O projecto terá ainda como publisher o ex-director do Público, José Manuel Fernandes e o historiador Rui Ramos como coordenador do conselho editorial.

Foi também lançado o futuro endereço de internet do jornal onde, entre algumas declarações de princípios, os responsáveis pelo Observador deixam uma mensagem que me parece importante no contexto dos actuais grupos de comunicação social: “O Observador é independente, fruto de um novo grupo de comunicação que é 100% português e tem visão global.” Parece-me muito bem. Boa sorte. 

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