O problema de ter memória: a lenda dos milagres de Jesus

Nos últimos tempos, as palavras que mais temos ouvido dos jogadores que chegam ao Benfica é “quero aprender com o mister Jesus” ou “quero crescer com Jesus”. Foi o que disse Bebé, o mais recente reforço benfiquista, depois de quatro anos emprestado pelo Manchester United, onde se celebrizou pelos cruzamentos para a bancada. Mas não é isso que interessa. O que é verdadeiramente importante é que foi criada à volta de Jorge Jesus uma aura milagrosa de formador e potenciador de talentos futebolísticos. Chamo-lhe o síndrome Coentrão. Diz a lenda que, de fracasso em potência, o Fábio de Caxinas transformou-se no melhor lateral esquerdo português. Graças a Jesus. É o que diz a lenda. Mas a lenda não resiste à memória. Nem aos factos.

Em 2009/2010, Jorge Jesus não queria Fábio Coentrão no plantel. O destino era um novo empréstimo. À sua frente, para o treinador, estavam César Peixoto, Jorge Ribeiro e até David Luiz. Terá sido Luís Filipe Vieira a obrigar o técnico a ficar com a jovem promessa portuguesa. O seu destino: o banco ou a bancada. Até que, numa determinada fase da época, os dois laterais e o central estavam lesionados. E Jesus foi obrigado a colocar Coentrão em campo. Correu bem. E Jesus – como sempre acontece quando as coisas correm bem – reclamou os louros. Nascia a lenda da aura milagrosa de potenciador de talentos.

O problema é que, mais uma vez, a lenda não resiste a um exercício de memória. Eu ainda me lembro quando Jesus disse que ia fazer de Yannick Djaló um grande jogador. Alguém sabe onde ele joga hoje? Mas depois de me lembrar do ex-marido de Luciana Abreu resolvi fazer um exercício de memória. E encontrei um camião de talento que Jesus contratou mas não foi capaz de transformar em jogadores de futebol. Preparados? Respirem fundo:

Éder Luís, Keirrison, Roberto, Jara, Élvis (quem?), Carole, José Fernandez (quem?), Leo Kanu (quem?), Derlis Gonzalez (quem?), Bruno César, Wass (quem?), Rodrigo Mora, Melgarejo, Nuno Coelho, Roderick, Mika, Capdevilla, Júlio César, César Peixoto, Shaffer, Airton (quem?), Filipe Menezes, Weldon (quem?), Kardec, Fábio Faria, Yannick Djaló, Urreta, Olá John, Luisinho, Sidnei, Émerson, Luís Martins, Lisandro Lopez, Steven Vitória, Stefan Mitrovic (quem?), Bruno Cortez, Victor Nilsson-Lindelof (quem?), Filip Djuricic, Luís Fariña, Diego Lopes, Michel (quem?) e Funes Mori.

Pronto, confesso. Não me lembrava de todos. A internet é uma coisa maravilhosa. Muitos nem chegaram a vestir o manto vermelho. Simplesmente desapareceram. Ou andam por aí. São 42. E posso ter-me esquecido de algum. Acredito que os contratados deste ano – César, Loris Benito, Djavan, Talisca, Luís Filipe, Eliseu, Victor Andrade, Derley e Bebé – também querem “crescer” com Jesus. Vamos ver onde estarão no fim do ano. Se se juntam ao camião de talento ou se se tornam a excepção.

Foto: Lindsey Parnavy/EPA

Foto: Lindsey Parnavy/EPA

 

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Carta a um amigo

Através do embaixador Francisco Seixas da Costa

“Pois é, meu caro, não estamos de acordo. E nem o facto de ambos termos andado de cravo ao peito na sexta-feira passada, sob o sol dessa bela festa que foi a comemoração dos 40 anos de abril, nos coloca necessariamente lado-a-lado, acabado que foi esse dia 25.
Percebo a tua revolta, entendo que já não possas mais ver “essa gente”, concordo em que eles foram bem mais longe do que a decência democrática deveria permitir, que já deveria ter havido, há muito, eleições legislativas para retificar a legitimidade política que já se pressentiu que perderam. Estou contigo em considerar que este governo foi uma das mais nefastas ocorrências da nossa vida desde o 25 de abril, por todas as razões que ambos bem sabemos e que o povo português continua a pagar na pele. Concedo, com facilidade, que quem tem competência constitucional  para tal, já há muito deveria ter tomado a decisão de “pôr fim a isto”, de uma vez por todas.
Mas, vais-me desculpar, “eles” – e quem os sustenta por “lá” – estão no poder porque o povo português assim o quis. E a isso chama-se democracia. Eu sei que vais arguir que isso é “democracia formal”, mas esse é também sinónimo de democracia. Mas “eles” também “lá” estão porque tu e os teus amigos – o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda, assim, com todas as letras, para que fique bem sublinhado o que vocês procuram fazer esquecer – votaram, bem ao lado da direita, para derrubar o governo socialista. É verdade, meu caro, tu e Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, estiveram de mão dada com Passos Coelho e com Paulo Portas para afastar José Sócrates. Não gostavam dele? Claro que estavam no pleníssimo direito democrático de derrubar o seu governo. Mas agora, desculpa lá!, gostam mais “destes”? É que convém que o povo português nunca esqueça o que se passou em 2011: foi o voto da “esquerda da esquerda”, de que tu fazes parte, quem abriu as portas a esta direita que está no poder. Foi o voto dessa “esquerda da esquerda”, ávida pela possibilidade de vir a ter uns deputados mais em S. Bento (não se sabe bem para que efeito útil), que estendeu uma passadeira vermelha (ironicamente, “vermelha”) a quem se propunha ir (e foi!) “além da troika”. Estão satisfeitos?
Nas últimas semanas, vi-te entusiasmado a ecoar algumas proclamações ameaçadoras de derrube da ordem constitucional, da necessidade de um “outro caminho”, para “pôr com dono” este governo, que tem trazido a divisão e a maior incomodidade de sempre à política portuguesa em democracia. Vi-te ao lado dos que pensam que “eles” têm de sair, “a bem ou a mal”. Nestas comemorações de abril, por entre cravos, vozes iradas e corações quentes, vislumbrei-te em aplausos aos apelos à revolta, a um “novo 25 de abril”.
Tem juízo, pá! Esta ordem constitucional, com todos os muitos defeitos que tem (e que ela própria tem forma de corrigir), foi aquela que resultou da luta pela qual eu e muitos outros arriscámos a nossa liberdade no dia 25 de abril de 1974. Por causa dela, há agora um papelinhos brancos, nos quais podes colocar uma cruz no sítio certo (ia dizer “no sítio seguro”, mas temi outras interpretações), que deves dobrar em quatro e meter numa caixa, nuns determinados dias. O primeiro é dentro de cerca de um mês, o segundo, infelizmente, deve ter de esperar mais uns tempos. Queres um conselho: vota bem! Vota em quem tenha uma possibilidade real de mudar a vida aos portugueses, não em quantos apenas servirão para aumentar os decibéis do protesto, mas não irão ter o menor papel na decisão dos caminhos do futuro. És livre, claro, de votar em quem quer fazer sair Portugal do euro e até da União Europeia, o que somaria mais empobrecimento àquele que os portugueses já têm – e que só defendem esta insensatez pela confortável certeza de que nunca ascenderão ao poder para a poder executar.

Até lá, podes e deves, se assim o entenderes, continuar ir para a rua clamar o teu desagrado, ser solidário com quem sofre as políticas oficiais, fazer as greves que bem entenderes, expressar-te livremente como quiseres, em tudo quanto for sítio possível. Mas hoje a Revolução, meu caro, já não está na ponta de uma G3, está no boletim de voto. Ou, como se dizia em 1975, “o voto é a arma do povo”. O resto é nostalgia serôdia e falta de espírito democrático. Sei que não deverás ter gostado muito de ler esta carta, mas escrevi-a no usufruto das minhas “mais amplas liberdades”, para utilizar uma expressão que talvez seja cara à tua memória de abril.

Recebe um abraço, apesar de tudo, solidário. E viva o 25 de abril, sempre!”
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A batalha, parte dois: José Sócrates vs José Rodrigues dos Santos

Se dúvidas houvesse de que José Sócrates não concordou com a mudança de estilo do seu programa de comentário político ontem à noite elas ficaram desfeitas. Na segunda vez em que partilhou o ecrã com José Rodrigues dos Santos, o ex-primeiro-ministro mostrou ao que vinha: passou toda a emissão ao ataque e a tentar irritar o jornalista da RTP com referências constantes aos “seus arquivos”. (Enquadramento: há 15 dias, José Rodrigues dos Santos disse que tinha estado a “organizar os arquivos” e que foi por isso que encontrou as divergências de opinião de Sócrates relativamente à austeridade).

Para além disso, José Sócrates não pareceu tão bem preparado como prometeu. Ou melhor: José Rodrigues dos Santos pareceu ainda melhor preparado do que ele. Munido de documentos oficiais que citou incessantemente, foi, afinal, o pivot da RTP quem conseguiu irritar o ex-líder do PS. Sócrates começou por dizer: “este programa chama-se a minha opinião, se me permite, gostaria de dar a minha opinião. Já ouvimos o seu ponto de vista”. Mas piorou. Novamente confrontado com uma “opinião” diferente da sua, Sócrates partiu para o insulto: “Eu compreendo o seu ponto de vista. Você acha que se deve comportar no sentido de colocar-se no papel do ‘advogado do diabo’… estou a citá-lo bem? Só que até o advogado do diabo pode ser inteligente e pode perceber que não basta papaguearmos tudo aquilo que nos dizem para fazer uma entrevista”. Colocado numa situação muito difícil – em directo – Rodrigues dos Santos disse apenas: “Muito bem. Fica registado o seu insulto ao qual não vou responder”.

Como já disse aqui, acho que o formato assim não faz sentido. Uma entrevista semanal a José Sócrates sobre o seu passado como governante não tem grande futuro – para além do interesse inicial. Agora ou a RTP quer acabar com o programa ou deixa de o identificar como um espaço de opinião. Que deixou de ser há 15 dias. Como ainda não foi colocada no YouTube, a entrevista está aqui.

José-Socrates

As ligações perigosas na comunicação social

O ex-jornalista da SIC, Waldemar Abreu, escreve hoje no i sobre a relação entre jornalistas e banqueiros – e o estado da comunicação social em geral. É um texto que vale a pena ler e sobre o qual importa reflectir.

Banca e jornalismo

Por Waldemar Abreu

Um banqueiro declarou, recentemente, “pouco ortodoxo” o negócio de aquisição, pelo banco a que preside, de parte do capital de um importante grupo de comunicação social. O negócio não é “pouco ortodoxo”. É anómalo e assaz insólito. A Constituição garante que “o Estado assegura a liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social perante o poder político e o poder económico”. Ora, poder económico maior que o da banca não se conhece.

Este não é um caso isolado. Outro banco é o real proprietário de um jornal económico e de uma televisão por cabo da mesma área.

É dos livros. Aos banqueiros não lhes basta condicionarem a actuação dos media por via da publicidade ou das dívidas. Se puderem, controlam as linhas editoriais.

Quando não o conseguem directamente, recorrem à via política, onde têm colocadas muitas peças a todos os níveis e muito notoriamente no governo. Começa a ser moda jornalistas da área económica, onde se praticam grandes fretes e até se plantam notícias falsas, saltarem para a direcção de órgãos de comunicação social com grande penetração na sociedade.

O problema não está no facto de os media começarem a ser orientados, na vertente editorial, por jornalistas da área económica, onde existem bons profissionais. A questão é os lugares de topo serem ocupados, maioritariamente, por jornalistas com ligações perigosas a agências de comunicação que representam interesses poderosíssimos, incluindo políticos. Jornalistas, agências de comunicação e políticos – um triângulo absurdo que perverte o jornalismo.

Assim como assim, a generalidade dos órgãos de comunicação social é, hoje, dirigida por jornalistas que nunca se distinguiram em coisa alguma. Ninguém lhes conhece uma única reportagem. À excepção da RTP e pouco mais, num passado não muito remoto só chegavam à direcção editorial jornalistas com créditos firmados, provas dadas anos a fio na reportagem, género nobre credor de respeito. Eram tempos em que a informação estava vedada às administrações. Nem estas se atreviam a interferir, nem as direcções o admitiam.

Agora, ascende à direcção quem se mostra mais disponível para – sem tugir nem mugir – cumprir as ordens do patrão. Quanto mais baixo descem mais subserviência demonstram e, por essa via, mais se alapam aos lugares. Mesmo que isso signifique atirar borda fora os que pensam pela sua cabeça, batalham pela ética e não se ajoelham perante a inépcia. Os melhores, quase sempre.

Em finais de Março, mais de uma dúzia de jornalistas de um canal generalista estava de baixa médica, boa parte das quais por razões psiquiátricas. Em condições normais, a outra parte dos jornalistas dispensaria a baixa. O problema é não reconhecerem mérito às chefias, estarem desconfortáveis na profissão. Grandes repórteres são colocadosad eternum a fazer o trabalho de estagiários ou na prateleira. Entraram no árduo jogo da resistência e arriscam-se a ganhar um passaporte para o desconhecido. Se cederem, alguém há-de ser recompensado…

O mais grave é as pessoas terem desaparecido das páginas dos jornais e dos alinhamentos dos noticiários. Além de números, só se trata de bola, criminalidade e trivialidades. Nas televisões, impressiona o investimento de meios humanos e materiais em doses industriais de faits divers. As pessoas deixaram mesmo de existir.

Quando os banqueiros apregoam que temos de fazer sacrifícios, os seus vassalos coniventes estão atentos. Quanto menos dinheiro para as pessoas, mais sobra para a banca. Não falta quem, com responsabilidades editoriais, nos venha logo dizer que o estado social tem de levar mais umas machadadas. São os mesmos que logo se aprestam a dar sugestões ao governo, designadamente para cortar mais naqueles que se “aproveitaram” da regra dos 10 melhores dos últimos 15 anos para a formulação do cálculo das reformas. Um mimo…

A banca está nas lonas. Mas os banqueiros estão cada vez mais ricos. Dormem bem acompanhados.

Jornalista

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3261 caracteres que valem o preço de um jornal

Este fim-de-semana o Pedro Santos Guerreiro escreve um texto de antologia, no Expresso, que um reflexo do Estado do país. São 3261 caracteres que valem bem o preço do jornal.

“Vende-se, bom preço

Pedro Santos Guerreiro

Vendem-se direitos humanos e língua portuguesa, base de licitação de 133,5 milhões de euros, depositados no Banif. Quem dá? Pás!, vendido à Guiné-Equatorial.

Vende-se inocência para pequenos e grandes devedores fiscais. Bom negócio, oferta de juros e coimas. Quem quer? Arrematado: encaixe de 1,3 mil milhões de euros, desconto de 500 milhões. Siga para bingo.

Promoção especial para passageiros frequentes para a Suíça: vende-se regularização de dinheiro não declarado no estrangeiro. Lavagem automática por 7,5% do valor declarado. Quantos são? Fechado: por 200 milhões de euros branqueamos 2,7 mil milhões. Técnica Jorge Jesus: limpinho, limpinho. Vendem-se monopólios. Inclui rendas excessivas. Aeroportos? Arrematado, três mil milhões, para os franceses da Vinci. Eletricidade? Aqueles senhores ali a Oriente, 2,7 mil milhões. Águas, ninguém quer? Uma televisãozinha?…

Vende-se salvo-conduto para entrar e circular livremente no espaço europeu. “Vistos de ouro”. Custa 500 mil euros. Vem com casa incluída, muito cachet, videoporteiro, vista mar.

Vendem-se Mirós. 84 quadros e uma escultura. Oportunidade única, antigo dono faliu. 36 milhões de euros e não se fala mais nisso. Saem do país pela porta do cavalo, garantimos sigilo total. Vendem-se comemorações dos 40 anos do 25 de abril. Inclui patrocínio da Assembleia da República. Bem negociado pode incluir naming de bancadas… parlamentares.

Vende-se justiça. Tribunais na hora. Só para grandes investidores, dá-se preferência a estrangeiros. Vendem-se impostos baixos para empresas, inclui benefícios fiscais para grandes empresas. Só para VIP. Custo: 70 milhões de euros no primeiro ano, 220 milhões nos seguintes.

Vendem-se hotéis de cinco estrelas falidos a fundos de restruturação. Preço: um euro. Inclui dívidas a bancos, que podem ou não ser pagas. Vende-se reforma da administração local, inclui alquimia secreta que transforma 308 municípios em 308 municípios. Preço: fusão das freguesias. Chave na mão.

Vende-se jogo de tabuleiro. Com as peças do programa cautelar, jogam os financeiros; com as peças da saída limpa, jogam os políticos. Possibilidade de incluir vitória eleitoral. Contraindicação: o uso irrefletido pode afetar o financiamento do Estado.

Vende-se Constituição da República, oferece-se Tribunal Constitucional. Vendem-se contratos swap, contratos de PPP, contratos de securitização de dívidas. Custo: rasgar contratos com pensionistas.

Vendem-se dívidas da Madeira. Paz com Angola. Subida da idade de reforma. Vendem-se referendos. Espiral recessiva com prazo de validade ultrapassado. Vendem-se cortes nas gorduras no Estado, fundações, institutos e empresas públicas (aviso: a gerência não se responsabiliza pela sua efetiva existência). Vende-se quinquilharia, preço da chuva: guiões de reforma do Estado, reforma da Administração Pública, acordos no arco de governação, refundações e redefinição das funções do Estado.

Vende-se austeridade. Custo: uma geração. Pagamento em recibos verdes. Vende-se ilusão de ultrapassagem da crise. Custo: 130% de dívida pública. Vendem-se anéis como se não fossem dedos, corpo como se não fosse a alma, palavras como se não fosse a palavra. Compra-se: submarinos, estradas vazias, bancos falidos e dívida pública cara. Sem devolução. Paz? Pás!

Os vampiros académicos

É uma visão regular. Em Setembro, no início do ano académico, algumas zonas de Lisboa – e presumo que de muitas outras cidades do país – enchem-se de miúdos que, acabados de entrar na universidade, são apanhados por um bando de alunos mais velhos vestidos de preto. Confesso que nunca percebi a utilidade nem a origem do traje. Eles parecem empregados de mesa com uma capa por cima. Uma espécie de vampiros sem dentes nem um castelo assustador. Elas parecem, bom, para elas tenho uma novidade: se querem arranjar um namorado não é vestidas dessa maneira que o vão conseguir. A não ser que eles tenham algum género de deficiência ocular. Ou gostem de homens. 

Ainda assim, o traje é o menor dos males. Nessas alturas, os “veteranos” passam os dias a divertir-se à custa dos caloiros, miúdos mais novos, com um ar que oscila entre o assustado e o divertido. Isso é outra coisa que me ultrapassa: como é que alguém pode ter um ar satisfeito enquanto lhe gritam que é uma besta e lhe ordenam que rasteje ou se atire para uma fonte? Só consigo chegar a uma de duas conclusões: ou o jovem sorridente tem um complexo masoquista ou então uma necessidade de aceitação que o leva sujeitar-se a tudo para se sentir inserido num novo meio. Aos primeiros só posso dizer para gozarem o que puderem. Para os segundos tenho outra novidade: miúdos, não é assim que vão aprender o que é a vida nem ser respeitados.

Quando entrei para a faculdade não achei piada nenhuma à ideia de ser pintado por um bando de desconhecidos que se achavam superiores só por serem mais velhos. Além de que ter de apanhar o autocarro e o comboio naquela figura não me agradava nada. Mas ao longo dos quatro anos que lá passei percebi uma coisa: de ano para ano as praxes pioravam. Das pinturas e jogos passou-se aos castigos, às provas forçadas, ao pagar cervejas aos mais velhos, às humilhações públicas e, em alguns casos, à violência física. As vítimas, tal como nas escolas primárias e secundárias eram, sobretudo, os mais fracos. Aqueles que tinham um ar assustado. E a comparação com o ensino preparatório e secundário não é inocente. As praxes podem ser uma espécie de bulling – mas com um nome aceitável socialmente, pelo menos para os que a praticam.

Parece que, aos poucos, as praxes deixaram de ser feitas apenas nos recintos e imediações das universidades. Parece que os alunos se organizam em comissões que têm direito a regulamento, relatórios e encontros regulares de fim de semana. Confesso que continuo a não perceber o interesse de alguém em fazer parte de grupos do género. E não me venham falar do espírito académico. Isso não existe. Para além de um local de conhecimento e educação, a universidade é um local por onde passamos como tantos outros. Miúdos, vou dar-vos outra novidade: tal como aconteceu com os amigos de infância ou do secundário, ao fim de alguns anos, vocês só vão continuar a manter contacto com uma mão cheia de pessoas da vossa faculdade. Aquelas que se tornaram mais próximas. E serão poucas. As outras vão de certeza encontrar por aí ocasionalmente ou no Facebook e recordar os velhos tempos. Alguns vão lembrar-se do “Luís” e como costumavam gozar com ele. Outros vão recordar o “António”, o atrasado mental vos fazia a vida negra e que acabou preso porque batia na mulher. Agora espírito académico? Esqueçam.

Ao contrário do que já ouvi alguns alunos dizer, a praxe não vos abre os olhos para a vida. Não vos dá disciplina. Não vos ensina a obedecer às hierarquias. Isso aprende-se em casa. Ou na tropa. Como nem o serviço militar é obrigatório, vocês podem dispensar a praxe. O pior que vos pode acontecer: Não sei. O melhor: não serem humilhados, tratados como umas bestas ou, em último caso, morrer numa brincadeira estúpida.

Ainda não se sabe exactamente o que aconteceu no Meco na madrugada do passado dia 15 de Dezembro. Sabe-se apenas que seis alunos vestidos de preto foram levados por uma onda. Até agora tudo leva a crer que o grupo passou o fim-de-semana a receber ordens de um denominado dux que tinha como símbolo do seu poder uma colher de pau gigante. Se foram à praia beber umas cervejas ou fazer outra coisa qualquer só ele poderá dizer. Foi o único sobrevivente. Acredito que o trauma ou a culpa o tenham impedido de falar até agora. Mas chegou a altura: as famílias dos que morreram merecem saber o que aconteceu. E nós – que temos filhos que um dia irão para a faculdade – exigimos ter a certeza que nenhum deles correrá um risco semelhante por causa de uma coisa chamada praxe.

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“O combate pelas palavras”

Às vezes, Pacheco Pereira é um chato. Mas na maior parte delas, tem razão. Como ontem, no Público. Infelizmente.

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“2014 será um ano de completo, devastador, cruel, sem tréguas, combate pelas palavras. Dizendo palavras digo também ideias e fragmentos de ideias, mensagens virais e manipulações circulantes, explicações e mistificações, estatísticas, estatísticas torturadas, soundbites e frases assassinas.

Propaganda e razão vão estar de lados opostos, manipulação e vontade de verdade (concessão aos que a palavra verdade de per si ofende) vão-se defrontar, como sempre, de forma imperfeita e desigual. Do lado do poder todos os recursos serão utilizados, “comunicação política”, agências de comunicação, assessores,briefings e ministros da propaganda, marketing e “eventos” (tenho a certeza que Portas já pensa num “evento” grandioso e patriótico para festejar a “saída” da troika, por singular coincidência a dias das eleições europeias…).

Esse combate irá travar-se numa parte decisiva na comunicação social, em primeiro lugar na televisão, depois nas “redes sociais” e nos blogues e por fim na imprensa escrita. Alguns jornalistas ficam muito irritados quando afirmo (e vou repetir) que um dos problemas dos dias de hoje na vida pública em Portugal é a facilidade com que a comunicação social absorve a linguagem do poder e a reproduz como sendo sua, assim legitimando-a porque lhe dá um sujeito neutro, tornando-a uma verdade universal. Este processo não é simples, não se trata de estar “a favor” ou “contra” o Governo, nem sequer de actuar em função de preferências ou hostilidade partidárias, porque se fosse assim seria mais fácil identificar o que se passa.

Há um papel importante para os gostos e os ódios pessoais, mas isso faz parte do meio jornalístico desde sempre. O hábito é ajustar contas em função das simpatias ou antipatias pessoais entre jornalistas, políticos e outras personagens do espaço público, muito mais eficaz como explicação do que as simpatias partidárias. A promiscuidade entre jornalistas e “fontes”, a troca de favores e cumplicidades, as amizades e os amores, as vinganças e elogios interessados passam-se de modo subterrâneo, mas explicam muito da atitude de jornalistas face aos detentores do poder político, actual ou passado. Ora pouca gente cultiva mais a sua relação com os jornalistas do que os grupos dirigentes das “jotas” dos partidos, seja do PS ou do PSD, cuja proximidade social, cultural, de mentalidade e modo de vida, é quase total, e cuja partilha geracional de vocabulário (escasso), fragmentos de ideias, mitos e (in)experiências é igualmente comum.

Muitas vezes estas empatias têm a ver com o bem escasso da “influência” e os conflitos pela capacidade de a ter, outras vezes é inveja por ganhos e recursos. O problema é que, sendo esta uma explicação importante para muito do que se publica e se diz, ainda por cima em meios muito pequenos, que comunicam entre si, e onde está sempre alguém no lugar pretendido por outrem, ela é invisível para a comunidade dos consumidores dos media, que desconhecem muitos dos meandros que estão atrás dos bastidores. Explicava muita coisa, como se percebeu quando do “caso Relvas”, mas é na maioria dos casos impossível de usar.

Há cada vez mais jornalistas e jornalistas-comentadores mais próximos do poder, partilhando do mesmo pensamento de fundo associado ao “ajustamento”, embora possam discordar e algumas vezes serem até agressivos na crítica a aspectos de detalhe da governação. O problema é que a concordância de fundo é muito mais importante do que a discordância no detalhe e o núcleo central de legitimação do poder permanece intocável.

A mentalidade adversarial da comunicação social, já em si mesmo uma fragilidade, deu lugar a uma enorme complacência com o poder. Uma das razões desta proximidade de fundo tem a ver com o papel cada vez mais destacado da imprensa económica em tempos em que a “crise” é dominantemente explicada apenas pelas suas variantes económicas. O predomínio da economia levou a um avolumar do “economês”, uma variante degradada quer da economia, quer da política. E esse “economês” favorece os argumentos de “divisão” que têm tido muito sucesso no discurso público, fragilizando, no conflito social, umas partes contra as outras. Este discurso da divisão é uma novidade desta crise e uma das principais vantagens da linguagem do poder.

Colocar novos contra velhos, empregados contra desempregados, trabalhadores privados contra funcionários públicos, reformados da Segurança Social contra pensionistas da CGA, sindicalizados contra “trabalhadores”, grevistas contra a “população”, e muitas outras variantes das mesmas dicotomias, tem tido um papel central no discurso governamental, que encontra na “equidade” um dos mais fortes elementos de legitimação. Se se parar para pensar, fora dos quadros das “evidências” interessadas, verifica-se até que ponto uma espécie de neomalthusianismo grosseiro reduz todas estas dicotomias a inevitabilidades a projecções sobre o “futuro” muito simplistas e reducionistas e que recusam muitos outros factores que deviam entrar na avaliação dessa coisa mais que improvável que é o “futuro”. À substituição da política em democracia, com o seu complexo processo de expectativas e avaliações, traduzidas pelo voto, ameaçando, como dizem os “ajustadores”, pela “politiquice”, ou seja, as eleições, a “sustentabilidade” das soluções perfeitas de 15 ou 20 anos de “austeridade”, soma-se a completa falta de pensamento sobre o modo como as sociedades funcionam, que o “economês”, que é má economia, não compreende.

A redução das análises correntes a este “economês”, sem política democrática, nem sociedade, revela-se num fenómeno recente que é a proliferação de livros de jornalistas com as receitas para salvar o país, quase todos sucessos editoriais. Eles mostram a interiorização profunda, em muitos casos prosélita, noutros mais moderada, da linguagem, explicações, legitimações, amigos e adversários, proto-história e factos seleccionados, do discurso do poder sobre a crise. A isso acrescentam propostas em muitos casos inviáveis em democracia e num Estado de direito, e cuja eficácia, mesmo nos seus termos, está por demonstrar.

Esses livros favorecem a ideia de que o “vale-tudo” que está por detrás da continuada sucessão de legislação inconstitucional do Governo poderia ser a solução ideal “para Portugal”, que infelizmente é “proibida” ou pela “resistência corporativa” dos interesses ou por entidades como o Tribunal Constitucional, ou mesmo pela “ignorância” e impreparação da opinião pública. Escreve-se como se não houvesse interesses legítimos que o Estado de direito acautela, ou práticas brutais de transferência de rendimentos e recursos, que tem sempre quem ganha e quem perde, cujos efeitos na conflitualidade social tornam por si próprio insustentável a sua manutenção. São de um modo geral muito complacentes com os de “cima” e muito críticos dos de “baixo”, e dão pouca importância aos efeitos de exclusão e diferenciação social que as suas políticas propõem, mas, acima de tudo, ignoram sistematicamente que elas falham no essencial, ou seja, que são ineficazes para os objectivos pretendidos.

A solução é, em vez de mudar as políticas, acrescentar-lhes mais tempo e é por isso que o coro da “austeridade” para décadas é cada vez maior e será ruidoso depois da troika mandar aterrando cá, para mandar a partir de Bruxelas. Aliás, será um interessante exercício ver o que nos diziam em 2011, sobre os resultados que já se deveriam ver em 2012, e o milagre de uma economia pujante “libertada do Estado”, já em 2013, e que agora é de novo prometida em 2014. Se diminuíssemos a dívida e défice em função das “intenções proclamadas” para o ano seguinte, já estávamos a cumprir o Pacto Orçamental.

Alguns jornalistas sabem que é assim, que a linguagem do poder se estabeleceu de forma acrítica na comunicação social, e aqui e ali tentam funcionar a contracorrente. Mas as redacções estão muito degradadas, com meios muito escassos, o trabalho precário, barato ou quase gratuito, pouco qualificado, prolifera e o emprego está sempre em risco, pelo que a prudência exige muita contenção. Por outro lado, o papel crescente da “comunicação” profissionalizada, a que Governo e empresa, recorrem cada vez mais, exerce uma pressão considerável no produto final da comunicação social, em particular na informação económica. A isto se junta o proselitismo na Rede, nos blogues e no Facebook, nos comentários anónimos, às claras ou em operações “negras” de assessores militantes e amigos dos partidos do Governo, à procura de um lugar ao sol, ao exemplo do que um destes operacionais revelou recentemente numa entrevista à Visão.

Por isso, neste combate pelas palavras de 2014, o Governo parte em vantagem, não porque tenha razão, mas porque tem mais meios e, pior ainda, conta com a força que num país pequeno, fragilizado, com uma classe média empobrecida, com uma opinião pública débil, tem o discurso que vem do lado do poder. Já acontecia com Sócrates, acontece com Passos Coelho.”