O terror no meio de nós VI

Em resumo: há muito que as autoridades alertam para o risco de atentados na Europa; o auto-proclamado Estado Islâmico (EI) tem inserido nas suas mensagens de propaganda sucessivas ameaças aos países europeus; o conflito com este grupo terrorista já dura há 13 anos; a guerra na Síria tornou-se o maior palco de mobilização de combatentes terroristas estrangeiros desde o fim da II Guerra Mundial; e um número inédito de cidadãos nacionais ou luso-descendentes juntaram-se a uma organização jihadista que tem por fim último a destruição da sociedade ocidental. A pergunta seguinte é: há um risco de atentados em Portugal? A resposta genérica é: “há, como em todos os outros países europeus”. Mas se a questão for mais específica, por exemplo, vão acontecer ataques terroristas em Portugal? A resposta honesta será: “talvez sim, talvez não. Ninguém sabe”.

No fundo, é tudo uma questão de probabilidades. Portugal está inserido no espaço europeu, faz parte da NATO, ocupa um território que integrou o longínquo Al Andalus e participa na coligação internacional que combate o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. É por isso natural que o nosso país esteja entre os alvos potenciais do terrorismo jihadista. É também natural que aqui e ali surjam referências a Portugal nos meios de propaganda oficiais do grupo terrorista (sem contar com afirmações esporádicas dos combatentes portugueses). E não é de agora, ao contrário do que tem sido escrito e dito nos últimos dias.

A primeira vez que tal aconteceu terá sido em Outubro do ano passado, no 11º número da revista Dabiq, num artigo de 10 páginas que comparava a luta de Maomé, em Medina, contra uma aliança entre judeus e tribos árabes à actual situação em que o EI enfrenta uma coligação internacional. De acordo com a crença islâmica, nessa batalha de Al-Ahzab os muçulmanos resistiram a um cerco entre Janeiro e Fevereiro do ano 627 e, apesar de estarem em minoria, saíram vitoriosos. O mesmo, escreveram, acontecerá agora. Em seguida, a revista enumerou os países e organizações empenhados na luta contra o EI – lista onde estava Portugal.

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Um mês depois, em Novembro de 2015, houve uma nova referência a Portugal, agora num vídeo de propaganda. Divulgado em contas do grupo terrorista no Twitter e no Telegram, alguns dias após os atentados terroristas de Paris, o vídeo foi produzido pelo Al Hayat Media Center – o departamento de comunicação destinado maioritariamente ao público ocidental – tinha a duração de quatro minutos e o título de “No Respite” (Sem tréguas, numa tradução livre).

Apesar de recorrer apenas a animações gráficas e a fotografias – em vez de imagens reais – o vídeo desafia os membros da coligação internacional a lançarem tudo o que tiverem contra o grupo terrorista. É aí que a bandeira portuguesa surge entre as dos 60 países que formam a coligação internacional que enfrenta o EI.

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A 29 de Janeiro, o EI colocou na internet um novo vídeo em que cinco prisioneiros são acusados no meio de ruínas no norte do Iraque. O único terrorista que fala para a câmara exprime-se em francês e ameaça sobretudo a França – mas também o Al Andalus, Portugal e Espanha. A referência ao nosso país, entre ameaças de novos atentados que farão esquecer o 11 de Setembro e os ataques de Paris e promessas de reconquista da Península Ibérica, é exactamente esta: “tenham paciência por Alá, vocês não são espanhóis nem portugueses, são muçulmanos do Al Andalus”. Apesar de não o confirmarem oficialmente, as autoridades portuguesas acreditam que existe uma forte probabilidade de o homem que surge encapuçado a falar para a câmara é o luso-descendente com passaporte português, Steve Duarte. No entanto, não há certezas. Há probabilidades.

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Na passada terça-feira, dia 29 de Março, o jornal norte-americano The Washington Times publicou uma notícia em que afirma que o Estado Islâmico, através do departamento de média Al Wafa, terá feito uma ameaça directa aos Estados Unidos e também a Portugal e à Hungria. A publicação cita um relatório do Middle East Media Research Institute (MEMRI), que se dedica a monitorar as comunicações jihadistas, que especifica que o comunicado do grupo garante que “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. A notícia do The Washington Times foi depois reproduzida na imprensa portuguesa – e húngara – e levou as autoridades a afirmarem que “tinham conhecimento” do caso e que o “estavam a acompanhar” .

Contudo, depois de aceder ao relatório original do MEMRI, pude confirmar que a ameaça não era tão certa. O instituto cita uma série de artigos, em árabe, colocados no Twitter por vários autores que pertencem à citada Al Wafa, que não é um departamento de média do Estado Islâmico mas sim um grupo de apoiantes da organização terrorista. É por isso que o título do relatório especifica: “Apoiantes do ISIS depois dos ataques de Bruxelas: América é a próxima; Londres vai tornar-se uma província do ISIS; a Europa enfrenta um futuro negro”. Talvez isso explique porque mais nenhum país do mundo – além de Portugal e da Hungria – tenha replicado a história. Ou seja, a ameaça não tinha credibilidade. São “vozes” anónimas na internet.

A conta de Twitter onde os textos foram publicados (@alwafa014794755) já não está activa. A maioria dos artigos ameaçava países como os Estados Unidos e o Reino Unido na sequência dos atentados de Bruxelas. Um deles tinha realmente como título a frase “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. No entanto, o texto assinado por um Al-Qurtubi Al-Qurashi, entre elogios aos jihadistas que atacaram Bruxelas, não faz qualquer referência a Portugal. Para os analistas do MEMRI o significado do título é apenas simbólico – o que não impediu o alarmismo generalizado da semana passada.

Apesar de todas estas referências, como dizia, é tudo uma questão de probabilidades. Se o risco de atentados em Portugal existe – é por isso que a ameaça terrorista é alvo de especial atenção por parte das autoridades, como se pode ler no Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2015 – a probabilidade de tal acontecer é incomparavelmente menor do que em outros países europeus, como a França, a Bélgica, o Reino Unido ou a Alemanha.

Em primeiro lugar por uma questão de mediatismo: um ataque em Portugal teria menos impacto do que um atentado numa grande capital europeia. Em segundo, por uma questão de apoio: eventuais células terroristas terão uma maior base de suporte em países onde existe uma grande comunidade islâmica, radicalizada, do que em Portugal, onde a população muçulmana é relativamente pequena e, sobretudo, moderada. Não é por acaso que todos os portugueses que se deslocaram para a Síria se radicalizaram no estrangeiro. Em terceiro, pelos próprios números de combatentes estrangeiros que cada país tem na Síria: a probabilidade de um atentado é maior em países com centenas ou milhares de voluntários jihadistas do que em Estados onde esse numero não ultrapassa as duas dezenas. Para contrariar esta última fragilidade, o Estado Islâmico estará a preparar unidades capazes de realizar ataques em qualquer Estado da Europa. A lógica é simples: será mais difícil às autoridades, por exemplo, portuguesas, detectarem jihadistas cipriotas do que os próprios cidadãos nacionais que estão perfeitamente identificados. Mas isso não muda a questão essencial: é tudo uma questão de probabilidades. E em Portugal, apesar do natural e saudável mediatismo da questão, ela é, até ver, reduzida – mas não pode ser descartada.

Esse é o grande problema do terrorismo: pode acontecer a qualquer altura, em qualquer lugar. As autoridades têm um papel fundamental na redução dos riscos – das probabilidades – mas esse papel cabe-nos também a nós, cidadãos. Tentar compreender um fenómeno que, aparentemente não é compreensível, é apenas o primeiro passo. Os restantes passam por estarmos conscientes de que esta é uma realidade com a qual teremos de viver, provavelmente, durante muito tempo e por tentarmos reduzir os factores de risco que levam alguém a decidir aderir a uma organização terrorista.

Ao longo dos últimos dois anos, falei com muitas pessoas que conheceram os portugueses que se juntaram ao Estado Islâmico ou a grupos como a Jabhat Al Nusra. A maioria, para não dizer todas, reagiu com surpresa ao saber onde estavam aquelas pessoas com quem tinham privado de perto. “Nunca imaginei” foi talvez a expressão mais usada. “Era um tipo tão porreiro” foi outra. Nós não pensamos neles desta forma mas, geralmente, os terroristas  não são indivíduos estranhos, são pessoas como nós. Podem ser os nossos vizinhos, amigos de infância, companheiros de equipa, colegas de escola e universidade, familiares ou apenas conhecidos de uma noite de copos que, por qualquer razão, enveredaram por aquele caminho. E isso é verdadeiramente assustador.

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ilustração é do Vasco Gargalo

O terror no meio de nós V

Costumamos dizer que há um português em cada canto do planeta. Por isso, quando o fenómeno dos combatentes terroristas estrangeiros deslocados na Síria e no Iraque começou a ganhar proporções nunca antes vistas, a questão não era se haveria entre eles algum português, mas quando eles apareceriam.

A situação nem sequer era inédita. No final da década de 1980, Paulo Almeida Santos tinha deixado a vida em Lisboa para viajar para o Afeganistão onde acabou por conhecer Osama Bin Laden e por se juntar à Al Qaeda. Ao serviço da organização combateu, viajou pelo mundo graças ao passaporte português e tornou-se no autor do primeiro atentado da Al Qaeda fora do Afeganistão: a tentativa de assassinato do antigo rei afegão Zahir Shah, exilado em Itália desde 1973. Disfarçado de jornalista, Paulo Santos conseguiu aproximar-se do monarca, mas uma cigarreira de prata impediu-o de o esfaquear no coração. Foi preso e condenado a 15 anos de prisão.

Mais de 20 anos depois, a primeira indicação pública de que que havia portugueses a seguir-lhe as pisadas foi dada a 28 de Março de 2014, com a divulgação do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo ao ano anterior. Era um pequeno parágrafo que podia passar despercebido entre as 413 páginas do documento. Dizia o seguinte:

“Suscitou idêntica atenção o movimento de cidadãos nacionais para palcos de jihad, em particular com destino a regiões onde a Al-Qaeda (AQ) e a liadas procuraram reforçar a sua posição, com destaque para a Síria, ou em direcção a regiões sob a in uência da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) e de grupos terroristas de carácter regional, como o Mali.”

No entanto, o documento não dizia que este fenómeno já era conhecido pelas autoridades há cerca de ano e meio. Os primeiros indícios de que haveria portugueses em palcos de «guerra santa» começaram a chegar à Polícia Judiciária e ao Serviço de Informações de Segurança através dos mecanismos de cooperação internacional na segunda metade de 2012. Concretamente: do Reino Unido. As autoridades britânicas investigavam o rapto do fotojornalista John Cantlie, na Síria, no Verão desse ano, quando depararam com a presença na zona de conflito de um conjunto de portugueses que há alguns anos viviam em Londres. Havia suspeitas de que alguns deles poderiam estar envolvidos no sequestro. Depois de ser libertado, Cantlie haveria de contar às autoridades que a maioria dos seus raptores eram estrangeiros, falavam inglês com sotaque londrino e vários nem sequer falavam árabe.

Nessa época, um dos portugueses chamou a atenção das autoridades: Nero Patricio Saraiva. Chegado à Síria a 14 de Abril de 2012 pela cidade de Atme, tinha passado pela Tanzânia e pelo Sudão. Apresentou-se como “engenheiro civil/projector de estradas”, revelou ter um nível elevado de conhecimento da lei islâmica, ofereceu-se para combatente e foi colocado em funções administrativas num campo militar sob o nome de Abu Yakoub Al Andalusi. Tinha um bom cartão de visita: fora recomendado por Firas al Absi, um dentista nascido na Arábia Saudita que lutou no Afeganistão, onde conheceu Abu Musab al Zarqawi, o fundador da Al Qaeda no Iraque. Com o início da revolução síria, fundou um grupo chamado Majlis Shura Dawlat al-Islam (Conselho Consultivo do Estado Islâmico). Para além de ter sido o primeiro a usar a designação de “Estado Islâmico” na Síria, o grupo ganhou notoriedade ao participar na conquista de Bab al-Hawa, um posto de fronteira entre a Turquia e a Siria, a 19 de Julho de 2012 – o local onde John Cantlie foi raptado meses depois. Nero Saraiva será o português com uma posição mais importante no actual Estado Islâmico.

Entre os nomes trazidos pelas autoridades britânicas às congéneres portuguesas estavam os dos irmãos Celso e Edgar Rodrigues da Costa. O primeiro ficaria célebre mundialmente   a 4 de Abril de 2014, alguns dias após a divulgação do RASI, ao aparecer num vídeo a apelar à emigração para a Síria, identificado com o nome de Abu Issa Al Andalusi. Foi o primeiro português a aparecer num vídeo daquele que, meses depois, viria a tornar-se no Estado Islâmico. Celso voltaria a surgir num novo filme colocado na internet em Novembro de 2015, na véspera dos atentados de Paris, agora acompanhado pelo irmão, Edgar. Desta lista fazia ainda parte Sadjo Turé, um português de origem guineense, que tinha emigrado para Londres para estudar engenharia no inicio da década de 2000. No início de 2013, Sadjo viria mesmo a ser detido em Gatwick antes de embarcar num voo que teria com destino final Damasco por suspeitas de envolvimento no rapto de John Cantlie. Acabaria libertado uma semana mais tarde por falta de provas e um ano depois juntou-se aos amigos na Síria – onde viria a morrer.

Edgar, Celso e Sadjo tinham em comum o facto de terem frequentado a mesma escola em Massamá e de terem feito parte de uma banda de hip-hop que teve o ponto alto no início da década de 1990, os Greguz du Shabba. Acabaram por se reunir em Londres, anos mais tarde. Ao grupo juntou-se Sandro Monteiro, também ele originário da linha de Sintra e amigo de Sadjo Turé. Sandro terá morrido em Kobane em Outubro de 2014.

Apesar de muitas vezes ser incluido no chamado grupo da linha de Sintra, Nero Saraiva só conheceu os outros portugueses em Londres. Chegado a Portugal, vindo de Angola com a mãe, cresceu na zona de Coimbra e Aveiro e mudou-se para Londres aos 17 anos. Foi aí que se converteu. Na mesma situação estará Fábio Poças. Apesar de ter crescido na zona de Massamá, só se tornou amigo de Celso, Edgar, Sadjo e Sandro depois de se mudar para Londres para estudar no início de 2013. Converteu-se ao Islão para casar com uma rapariga originária do Bangladesh e quando ela o deixou acabou por se aproximar do grupo que tinha conhecido no ginásio de Muay Tai. Em Outubro de 2013 chegou à Síria onde, durante bastante tempo, foi dos portugueses mais activos nas redes sociais com o nome de AbduRahman Al Andalus.

Durante todo o ano de 2013, a PJ e o SIS continuaram a receber informações de outros cidadãos portugueses que se tinham deslocado para a Síria em níveis nunca vistos. O primeiro a chamar a atenção foi Joni Miguel Parente, filho de um casal de emigrantes de Tondela que, no início do Verão de 2013, chegou à Síria e, em Maio do ano seguinte, se tornaria no primeiro bombista suicida nacional com o nome de Abu Usama al‐Firansi. De acordo com o Site Intelligence Group, fez parte de uma série de ataques levada a cabo por bombistas suicidas numa operação intitulada «Invasão por Vingança pelo Povo de al‐Anbar».

Depois foi Joana, a filha de um casal de emigrantes no Luxemburgo, que viajara com o marido, também ele nascido no grão‐ducado embora com ascendência kosovar. O homem tinha o nome de guerra de Abu Huthaifa e a sua morte foi anunciada em Dezembro desse ano pelo grupo Jaish-e-Mohammed (O Exército de Maomé). Já viúva, Joana regressou ao Luxemburgo com a filha, onde estarão integrados e sem contacto com o Estado Islâmico.

No Verão de 2013, foi a vez de Mickaël dos Santos e de Micael Batista viajarem de Paris rumo à Síria. Juntaram‐se primeiro à Jabhat al-Nusra e mais tarde ao Estado Islâmico. Mickäel dos Santos chamou rapidamente a atenção das forças de segurança europeias pelas muitas imagens violentas – algumas com cabeças humanas – colocadas nas redes sociais. Batista acabaria por morrer em Janeiro de 2015, em Kobane.

No início de 2014, foram seguidos por Dylan Omar, filho de Catarina, uma luso‐descendente de 43 anos, nascida em Trappes, nos arredores de Paris. No Verão desse ano, ela viajou até à Síria para o con‐ vencer a regressar a casa. Não conseguiu e ainda hoje permanece entre a Síria e Turquia. Uma outra luso‐descendente, Melanie, voltou também à região do Val‐du‐Marne, nos arredores de Paris depois de um período na Síria.

Em Agosto de 2014, Ângela Barreto, uma filha de um casal de imigrantes na Holanda saiu de casa da mãe, viajou para a Turquia e atravessou a fronteira com a Síria para se casar com Fábio Poças, aliás, AbduRahman Al Andalus. Ela mudou de nome para Umm AbduRahman e já terá tido uma filha do jihadista.

Em Setembro de 2014, foi a vez de Steve Duarte, um rapper filho de emigrantes portugueses no Luxemburgo partir para o Médio Oriente. Ainda na Europa, fazia já propaganda aos grupos jihadistas na Internet e dedicava‐se à produção de vídeos com imagens em 3D. Após a declaração do Califado islâmico, decidiu viajar para a Síria, onde assumiu um lugar no departamento de comunicação do Estado Islâmico com o nome de Abu Muhadjir al Andalous. Filmou, editou e realizou alguns dos vídeos divulgados na Internet e é, para as autoridades portuguesas, um dos mais importantes operacionais nessa área. Há suspeitas de que será ele o jihadista que ameaça Portugal e Espanha num vídeo divulgado recentemente.

Em Outubro do mesmo ano, Luis Carlos Almeida, um português de origens cabo-verdianas emigrado em França partiu para a Siria com toda a família. Assumiu o nome de Abu Naila Al Portugali e terá morrido em Junho de 2015. Antes de ser abatido terá feito parte da política islâmica e foi filmado, de cara tapada, numa decapitação pública.

A todos estes, as autoridades acrescentam as mulheres com quem se casaram e com quem viajaram que adquiriram a nacionalidade portuguesa. Ao todo, serão entre 15 e 20 os cidadãos nacionais num palco de conflito que é considerado uma verdadeira escola de terrorismo internacional. Estão identificados e sobre grande parte já recaem mandados de captura internacionais. No último mês, especulou-se sobre se existiria algum nome desconhecido nos ficheiros do Estado Islâmico que foram divulgados por órgãos de comunicação social alemães e britânicos. No entanto, essa possibilidade não se confirmou. Todos os nomes constantes dos ficheiros já eram conhecidos – o que não significa que não tenham informações relevantes.

Apesar de ter uma dimensão inédita em Portugal, o número de voluntários portugueses ou luso-descendentes que se alistaram nas fileiras do EI é insignificante quando comparadas com outros países Europeus de uma dimensão semelhante. Na Bélgica, por exemplo, serão cerca de 540. O que não significa que a ameaça não exista. Ou que o fenómeno não nos deve preocupar.

(Continua)

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Os ficheiros secretos do Estado Islâmico

É mais um capítulo da saga dos jihadistas portugueses. Depois de as cadeias de rádio e televisão públicas alemãs NDR, WDR e o jornal Sueddeutsche Zeitung terem revelado, a 7 de Março, a existência de milhares de fichas com dados pessoais de voluntários estrangeiros do Estado Islâmico, em Portugal, todos, polícias, serviços secretos e jornalistas, quiseram saber se haveria portugueses nas listas. Uma parte estava acessível na internet, no site sírio Zaman Al Wasl, que a partir dessa data começou a colocar os documentos online – mas rasurados de informação relevante: nomes, contactos, datas, etc.

O editor do site sírio estava disponível para os partilhar nessas condições. Mas para averiguar da veracidade dos documentos – verificar se os nomes e contactos de familiares, que não estão disponíveis publicamente, estavam correctos – era preciso acedê-los na íntegra. Foi isso que os colegas jornalistas alemães, que viram os ficheiros pela primeira vez em Janeiro e os obtiveram, sem pagar, entre Fevereiro e Março, aceitaram fazer: partilhar comigo quaisquer referências que fossem encontradas a Portugal, num trabalho em parceria.

O resultado está hoje na Sábado. Para já, foram encontrados cinco nomes: Nero, Sadjo, Sandro, Micael e Fábio – este último é mencionado como o recrutador de um combatente marroquino. Outros poderão aparecer, apesar de a convicção das autoridades portuguesas ser a de que não haverá surpresas. Ou seja, todos os jihadistas lusos estão identificados e será pouco provável que apareça um novo nome, ao contrário do que já aconteceu, por exemplo, em França. Mas há milhares de ficheiros para analisar, em árabe, cuja tradução é muitas vezes dificultada pelas diferentes grafias usadas para uma mesma palavra. E que apesar de não serem 22 mil, como chegou a ser notíciado, são alguns milhares. Um trabalho para continuar nos próximos tempos.

Por uma questão ética, optámos por rasurar os nomes e os contactos telefónicos dos familiares mencionados nos ficheiros que publicamos. Ninguém deve ser exposto apenas porque um filho ou um sobrinho decidiu aderir a uma organização terrorista. Pelo contrário.

Mundo

Para quem quiser saber mais sobre o Estado Islâmico

Hoje em dia há cada vez mais – e melhores – livros sobre o auto-proclamado Estado Islâmico. Ainda assim, não me levem a mal por puxar a brasa à minha sardinha. Este foi publicado em Maio. E apesar de o título ser Os combatentes portugueses do Estado Islâmico, lá podem encontrar toda a história do mais terrível grupo terrorista mundial, como se organiza, como funciona, como se financia, como comunica e como propaga a sua ideologia. Ficarão também a conhecer os seus líderes, para além dos protagonistas nacionais e luso-descendentes e a história sobre como as autoridades portuguesas foram informadas da sua presença na Síria.  Agora que o Natal se aproxima, nada melhor do que fazer uma sugestão para um presente a um amigo ou um familiar. E para abrir o apetite, deixo aqui um capítulo.

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As origens

Desde que saltou para as primeiras páginas dos jornais e para a abertura dos telejornais, o Estado Islâmico tem sido apresentado como um grupo dependente da Al Qaeda ou com origens na Al Qaeda do Iraque (AQI). Não sendo totalmente falsa, essa definição também não é inteiramente correcta. É apenas uma simplificação que ignora alguns detalhes – e esses podem fazer toda a diferença.

As origens do grupo remontam ao final do século XX quando, em 1999, Abu Musab al-Zarqawi (nome de guerra de Ahmad Fadl al-Nazal al-Khalayleh) foi libertado da prisão al-Sawwaqa, na Jordânia. Então com 33 anos, al-Zarqawi era já um veterano da guerra no Afeganistão, para onde tinha viajado em 1989. Nessa época, apesar de ter recebido treino militar, não se tornou logo guerrilheiro: foi repórter de uma pequena revista jihadista chamada Al-Bosnian al Marsous[1]. Mais importante: foi no Afeganistão que conheceu aquele que se tornaria no seu mentor ideológico: o também jordano Abu Muhammad al-Maqdisi (nome de guerra de Issam Muhammad Tahir al-Barqawi).

Al-Maqdisi era já um reputado clérigo salafista[2], um movimento originário do Egipto que, no século XX, evoluiu para uma escola de pensamento único baseada numa interpretação literal do Corão. No início da década de 1980 tinha publicado o livro O Credo de Abrão, obra que se tornou na mais importante fonte de ensinamentos dos movimentos Salafistas mundiais[3].

Em 1992, al-Maqdisi e al-Zarqawi voltaram à Jordânia onde criaram o grupo Bayat al-Iman (Fidelidade ao Iman), cujo principal objectivo era derrubar o regime e instaurar um governo islâmico. No ano seguinte, foram ambos presos e Zarqawi condenado a 15 nos de cadeia por posse de armas e por pertencer à organização clandestina[4]. Na prisão, al-Zarqawi tornou-se rapidamente um líder incontestado. No pátio era ele quem decidia quem cozinhava, quem lavava a roupa e até que programas de televisão podiam ser vistos. Passava o tempo a trabalhar o corpo, a ler o Corão e a angariar novos recrutas. Quando foi libertado, em Maio de 1999, graças a uma amnistia concedida pelo recém entronizado Rei Abdullah II, era tratado pelos outros reclusos por “emir” ou “principe”[5].

Novamente livre, viajou primeiro para o Paquistão e depois para o Afeganistão, onde conheceu Osama Bin Laden, em Kandahar. Os dois não se deram especialmente bem[6]. Ainda assim, al-Zarqawi obteve um empréstimo da Al Qaeda e autorização para criar um campo de treino em Herat, junto à fronteira com o Irão. Aí, estabeleceu o seu próprio grupo jihadista. Chamou-lhe inicialmente Jund al Sham (o Exército do Levante)[7]. Meses depois, alterou o nome para Jamaat al-Tawid wa al-Jihad (Organização para o Monoteísmo e Jihad), ou apenas Tawid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad)

O grupo tornou-se uma atracção imediata para militantes jordanos[8]. Começou com poucas dezenas de recrutas. Mas ao fim de dois anos, já reunia cerca de 3000 pessoas. Nesse período – entre 2000 e 2001 – Osama Bin Laden chamou al-Zarqawi a Kandahar cinco vezes para o convencer a prestar bayat, um juramento de fidelidade. Em todas elas, al-Zarqawi recusou[9].

Quando os Estados Unidos começaram a bombardear o Afeganistão, a 7 de Outubro de 2001, como retaliação pelos atentados do 11 de Setembro, al-Zarqawi lutou ao lado da Al Qaeda e dos Taliban pela primeira vez. No entanto, foi ferido no peito quando o tecto de um edifício desabou sobre ele durante um ataque aéreo. No final de 2001, atravessou a fronteira com o Irão, juntamente com cerca de 300 guerrilheiros. Nos 14 meses seguintes, viajou entre o Irão, o Iraque, a Síria e os campos de refugiados do sul do Líbano[10]. Nesse período, expandiu a sua rede: criou bases, campos de treino e recrutou novos membros.

Ele próprio terá ficado surpreendido quando, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretario de Estado norte-americano, Collin Powell, no famoso discurso onde denunciava a alegada existência de armas de destruição massiva no Iraque, o indicou como o elo de ligação entre a Al Qaeda e o regime de Saddam Hussein. Perante o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, ao tentar justificar a necessidade da invasão do Iraque, Colin Powell afirmou[11]:

O Iraque alberga uma rede terrorista mortal liderada por Abu Musab al-Zarqawi, um associado e colaborador de Osama Bin Laden e dos seus tenentes da Al Qaeda. [] Quando a nossa coligação depôs os Taliban, a rede Zarqawi ajudou a estabelecer um outro campo de treino de veneno e explosivos. E este campo fica no nordeste do Iraque. [] As actividades de Zarqawi não estão confinadas a este pequeno canto no nordeste do Iraque. Ele viajou para Bagdade em Maio de 2002 para tratamento médico, ficando na capital do Iraque durante dois meses, enquanto recuperava para lutar mais um dia. Durante a estadia, cerca de duas dúzias de extremistas convergiram para Bagdade e estabeleceram aíuma base de operações. Esses associados da Al Qaeda, sediados em Bagdade, coordenam agora o movimento de pessoas, dinheiro e abastecimentos para e através do Iraque para esta rede e estão a operar livremente na capital hámais de oito meses. [] Pedimos a um serviço de segurança amigo para abordar Bagdade sobre a extradição de Zarqawi e para fornecer informação sobre ele e os seus associados mais próximos. Este serviço contactou os oficiais iraquianos duas vezes e nós passámos detalhes que deviam ter tornado fácil encontrar Zarqawi. A rede continua em Bagdade. Zarqawi continua em liberdade.[] Não nos surpreende que o Iraque esteja a dar abrigo a Zarqawi e aos seus subordinados. Este entendimento assenta em décadas de experiência com respeito aos laços entre o Iraque e a Al Qaeda.   

Colin Powell estava errado. Não só não havia armas de destruição maciça no Iraque, como al-Zarqawi não estava formalmente ligado à Al Qaeda. Nessa altura, nem estaria sequer no Iraque, mas sim no Irão. O que não significa que o jordano não fosse perigoso.

Com a invasão anunciada a aproximar-se, al-Zarqawi estabeleceu uma pequena base em Biyara, na província curda de Sulaymaniya. O local foi um dos primeiros alvos da campanha aérea de Março de 2003. Graças à projecção internacional que lhe foi dada por Colin Powell, era um alvo a abater – apesar de ainda não ter realizado algo que fizesse jus à reputação. Mas isso estava prestes a mudar.

Em Agosto de 2003, a Tawid wa al-Jihad realizou uma série de ataques que transformariam al-Zarqawi num dos terroristas mais procurados do mundo. O primeiro no dia 7: um carro bomba explodiu junto à embaixada da Jordânia em Bagdade. Morreram 17 pessoas. O segundo a 19: um veículo suicida entrou na Zona Verde da capital iraquiana e explodiu junto à sede da Organização das Nações Unidas. Morreram 22 pessoas, incluindo o representante especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello. O terceiro a 29: um carro bomba explodiu nas imediações da mesquita do Iman Ali, em Najaf, um dos locais sagrados dos xiitas. Morreram 95 pessoas, naquele que na época foi o atentado mais mortífero da guerra, incluindo o líder do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, Ayatollah Muhammad Baqr al-Hakim[12]. O bombista suicida que levou a cabo o ataque chamava-se Yassin Jarad. Era um dos sogros de al-Zarqawi.

Os três ataques atingiram os principais alvos do líder da Tawid wa al-Jihad: os jordanos, a comunidade internacional e os xiitas. O objectivo também era claro: enfraquecer as forças internacionais e fomentar um conflito sectário para, através do caos, estabelecer-se como um defensor da comunidade sunita e apressar o estabelecimento de um Estado Islâmico.

No entanto, al-Zarqawi terá percebido que não o conseguiria fazer sozinho. E resolveu arranjar aliados. Em Janeiro de 2004, os militares norte-americanos capturaram um correio que transportava uma carta de 17 páginas dirigida aos líderes da Al Qaeda. Na missiva, o jordano faz um retrato da situação no terreno, identifica aqueles que considera os grandes inimigos – americanos, xiitas, curdos e forças de segurança -, pede apoio e traça um plano de actuação que passa por um ataque constante à população xiita. A carta termina com uma interrogação: “E vocês?”[13]

Vocês, irmãos graciosos, são os líderes, guias e figuras simbólicas da jihad e da batalha. Não nos vemos como dignos para vos desafiar, e nunca lutámos para alcançar a glória para nós próprios. Tudo o que desejamos ésermos a lança, a vanguarda e a ponte que a nação [islâmica] vai atravessar para a vitória que estáprometida e para o amanhãa que aspiramos. Esta éa nossa visão e explicámo-la. Este éo nosso caminho e nós tornámo-lo claro. Se concordarem connosco, se o adoptarem como programa e estrada e se estão convencidos da ideia de combater as seitas apóstatas, vamos ser os vossos soldados mais prontos, trabalhando sobre a vossa bandeira, cumprindo as vossas ordens e, de facto, jurando-vos fidelidade publicamente e nos média, vexando os infiéis e alegrando aqueles que pregam a unicidade de Deus. Nesse dia, os crentes vão rejubilar na vitória de Deus. Se as coisas vos parecem de outra forma, somos irmãos, e o desacordo não vai estragar a [nossa] amizade. [Esta é] uma causa [na qual] estamos a cooperar para o bem e apoio da jihad. Esperando a vossa resposta, que Deus vos preserve como as chaves para o bem e reservas do Islão e do seu povo.

 Ou seja, após cinco anos de resistência, al-Zarqawi mostrava-se disponível para jurar fidelidade a Bin Laden e à Al Qaeda. Foi o que aconteceu, mas só após oito meses de negociações. A 17 de Outubro de 2004, uma mensagem colocada num fórum islamita anunciava o juramento de lealdade de al-Zarqawi[14].

Numerosas mensagens foram trocadas entre Abu Musab(Deus o proteja) e a irmandade da Al Qaeda ao longo dos últimos oito meses, estabelecendo um diálogo entre eles. [] Os nossos generosos irmãos da Al-Qaeda perceberam a estratégia da organização Tawhid wal-Jihad no Iraque, a terra dos dois rios e dos Califas. [] [Para que se saiba]al-Tawhid wal-Jihad os seus líderes e os seus soldados juram fidelidade ao mujahedine, Sheikh Osama Bin Laden.

Foi uma aliança pragmática. Al-Zarqawi ganhava projecção ao associar-se à Al Qaeda e Bin Laden precisava de uma presença no Iraque, então o principal palco de guerra no Médio Oriente. Nessa altura, al-Zarqawi proclamou-se o “Emir das Operações da Al Qaeda na Terra da Mesopotâmia” e mudou o nome da organização para Tanzim Qaidat al-Jihad fi Bilad al-Rafidayin: Al Qaeda na Terra dos Dois Rios, Al Qaeda da Mesopotâmia ou o mais comum Al Qaeda no Iraque (AQI)[15].

Para além dos diversos atentados, al-Zarqawi tornou-se também conhecido pelo rapto e decapitação de reféns ocidentais – cujos vídeos eram depois partilhados na internet. Criou um estilo próprio: as vítimas eram vestidas em fatos cor-de-laranja, uma referência aos detidos na prisão de Guantánamo, em Cuba, e obrigadas a ajoelharem-se em frente a um grupo de homens vestidos de negro e voltados para uma câmara. Após uma breve declaração, os reféns eram executados. O primeiro foi o empresário norte-americano, Nicholas Berg, em Maio de 2004. [16] Outros se seguiram, como Eugene Armstrong e Jack Hensley. Decapitados pelo próprio al-Zarqawi.

A brutalidade dos seus métodos não se reflectia apenas nos prisioneiros ocidentais. Os ataques à população xiita, fosse em locais públicos ou templos religiosos, não pararam. E isso dificultou a já de si tensa relação que mantinha com a liderança da Al Qaeda.

Numa carta enviada a al-Zarqawi, no Verão de 2005, o braço direito e sucessor designado de Osama Bin Laden, o egípcio Ayman al-Zawahiri queixou-se dos métodos brutais aplicados pelo ramo iraquiano da Al Qaeda e do impacto negativo que os massacres e as decapitações estavam a ter na opinião pública mundial. Para al-Zawahiri, a Al Qaeda não devia cometer o erro dos Talibã, que alienaram a população, e ficar sem uma base de apoio para o estabelecimento de um futuro califado. A certa altura, o egípcio diz mesmo que podem “matar os reféns com uma bala”[17] – uma referência óbvia às imagens gráficas colocadas a circular na internet e que valeram a al-Zarqawi o cognome de “Xeique dos matadores.”

Ambos os grupos tinham o mesmo objectivo: estabelecer um Califado Islâmico. Apenas divergiam na forma de o alcançar. O jordano acreditava que a sociedade estava corrompida e necessitava de uma limpeza através da violência. Preferia também começar a purificação pelos regimes muçulmanos corruptos e obter resultados mais rapidamente. Já a Al Qaeda insistia em levar a guerra para o Ocidente e evitar, sempre que possível, acções que pudessem danificar a imagem do projecto jihadista. Era uma postura mais paciente, de longo prazo, que apostava no desgaste do inimigo[18].

Apesar das divergências entre a liderança da Al Qaeda e a sua filial iraquiana, a projecção atingida pela AQI começou a atrair outros grupos iraquianos que lutavam contra a ocupação dos Estados Unidos. Em Janeiro de 2006, a organização liderada por al-Zarqawi anunciou a fusão com cinco outras entidades: a Jaysh al-Taifa al-Mansura, a Saraya Ansar al-Tawhid, a Saraya al-Jihad al-Islami, a Saraya al-Ghuraba e a Kataib al-Ahwal. Juntos, formaram o  Majlis Shura al Mujahidin (Conselho Shura Mujahideen), uma coligação que tinha por objectivo coordenar melhor a resistência iraquiana[19].

Al-Zarqawi foi excluído do grupo de líderes com assento no conselho[20]. Apesar de ter tentado recuperar protagonismo, não teve tempo para o conseguir: a 7 de Junho desse ano, dois aviões F-16 da Força Aérea norte-americana bombardearam uma casa onde estava ele reunido com outros responsáveis da resistência iraquiana, na cidade de Baqubah, a norte de Bagdade[21]. A sua morte foi confirmada no local. Tinha 39 anos.

Na época, os Estados Unidos ofereciam uma recompensa de 25 milhões de dólares pela sua captura. Era o mesmo valor atribuído a Osama Bin Laden. Um sinal da sua importância. Por isso, esperava-se que a sua morte enfraquecesse a AQI. Na realidade, aconteceu exactamente o oposto. A organização, que já era financeiramente autónoma[22], reforçou-se. Em cinco dias, nomeou como novo líder Abu Ayyub al-Masri (nome de guerra de Abu Hamza al-Muhadhir). E, quatro meses mais tarde, o Conselho Shura Mujahideen anunciou a formação de um novo grupo: al-Dawla al-Islamiya fi Iraq, o Estado Islâmico do Iraque (ISI, em inglês). Tinha como líder, Abu Omar al-Baghdadi (nome de guerra de Hamid Dawud Muhammad Khalil al-Zawi).

Dois factos ocorridos nesta transição marcaram o futuro da relação da Al Qaeda central com a AQI – apesar de, na época, não se ter compreendido o seu significado mais profundo. O primeiro foi o juramento de fidelidade de Abu Ayyub al-Masri, sucessor de al-Zarqawi, ao líder do ISI, Abu Omar al-Baghdadi, a 10 de Novembro de 2006. O segundo foi a falta de uma declaração formal de fidelidade do ISI à Al Qaeda. São dois detalhes importantes. Os bayats são feitos entre líderes, não entre organizações. Ou seja, se um líder morrer ou for afastado, a nova liderança tem de prestar um novo juramento de fidelidade para se manter na órbita do grupo, no caso da Al Qaeda, ou então escolher afastar-se e tornar-se independente[23].

Nos anos seguintes, a Al Qaeda continuava determinada a ter o ISI como subordinado. Mas a verdade é que Abu Omar al-Baghdadi nunca jurou fidelidade a Osama Bin Laden. A criação do ISI tinha um objectivo: transformar grupos rebeldes num actor político-militar capaz de administrar território. Para isso, o ISI anunciou o controlo de uma área no oeste iraquiano, criou um governo, descreveu processos judiciais e exigiu às tribos que aceitassem a sua autoridade. Formalmente, a AQI deixou de existir e os seus combatentes tornaram-se soldados de um estado governado com base na religião[24]. No entanto, as comunidades que o grupo tentou governar acabaram por se opor à implementação da sua ideologia absolutista.

Mais do que uma divisão religiosa, estas comunidades obedecem a um sectarismo tribal. “O Iraque tem 176 tribos, várias têm xiitas e sunitas e para muitas delas não existem fronteiras”, explica o coronel do exército Nuno Pereira da Silva[25] que, entre 2009 e 2010, coordenou a equipa de aconselhamento e assessoria junto do Centro Nacional de Operações Conjuntas do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki, no âmbito da NATO. “Para eles em primeiro lugar está a família, depois a tribo, em seguida a religião e só no fim o Estado. Um exemplo: o gabinete de al-Maliki era composto apenas por elementos da sua família e a sua segurança era assegurada por membros da tribo, o mais próximos possíveis da família”, diz. “Além disso, há tribos com 10 milhões de pessoas que atravessam fronteiras. Cada chefe de tribo tem o seu partido político, as suas forças armadas e de segurança e os seus tribunais. Se um rapaz e uma rapariga de tribos diferentes fizerem qualquer coisa imprópria, os líderes negoceiam um casamento porque senão vão haver retaliações inter-tribais”, continua.

Quando o exército iraquiano foi desmantelado na sequência da invasão norte-americana, os militares que não foram integrados nas novas forças armadas regressaram à região de origem da sua tribo. “A maioria era sunita e foi para a zona norte, junto à fronteira com a Síria e atravessavam de um lado para o outro. Em 2010 todos os dias esses militares treinados faziam ataques para defender a sua população. Nessa época estavam identificados 34 ‘príncipes’ da AQI – indivíduos que degolaram 12 pessoas”, lembra o militar. Haveria então dezenas de atentados por dia.

Quando os militares norte-americanos compreenderam esta realidade, tentaram aproximar-se das tribos que tinham alienado e forneceram-lhes armas, treino e dinheiro para enfrentar os membros do ISI, num movimento que ficou conhecido Sahwa ou “Despertar”. Os chamados conselhos Sahwa reuniam militares norte-americanos e os líderes tribais sunitas, que tinham perdido privilégios com a deposição de Saddam Hussein, para discutir estratégias e coordenar esforços. Eles permitiram ainda integração de milhares de sunitas nas forças de segurança iraquianas e mais tarde em instituições estatais locais e nacionais[26]. O sucesso da iniciativa foi tão grande que, na Primavera de 2009, havia 100 mil sunitas a lutar contra o ISI.

A organização estava sob enorme pressão. As estimativas indicam que, ao todo, o ISI teria então 15.000 elementos. No início de 2008, 2400 tinham morrido em combate e 8.800 cumpriam pena de prisão. Muitos outros fugiram do país. A violência estava a diminuir de tal forma que o prémio oferecido pelos Estados Unidos em troca do líder da AQI, nomeado ministro da guerra do ISI, Abu Ayyub al-Masri, diminuiu de 4,7 milhões de euros para apenas 94.000 euros[27].

A 18 de Abril de 2010, os Estados Unidos pareciam ter desferido o golpe final sobre o grupo: Abu Ayyub al-Masri e Abu Omar al-Baghdadi foram mortos por um ataque aéreo. Em Julho desse ano, o principal comandante norte-americano no Iraque, General Ray Odierno, deu uma conferência de imprensa em Washington onde apresentou um discurso triunfal[28]: 34 dos 42 líderes da organização tinham sido mortos ou capturados, a organização tinha “perdido contacto” com a liderança central da Al Qaeda, no Paquistão, e teria problemas em criar novas bases. “Acho que eles estão em dificuldades e penso que vai ser difícil continuarem a recrutar”, afirmou. “Capturámos vários líderes que tratavam das finanças, planeamento e recrutamento – alguns advogados que trabalhavam de forma a levar prisioneiros que eram libertados para a Al Qaeda. Fomos capazes de entrar nesta rede”, disse.

O responsável deixou mesmo no ar a insinuação de que os novos líderes do grupo podiam não existir: “nem temos a certeza de que há pessoas por detrás dos nomes”. Havia. O principal era o do novo líder do ISI, Ibrahim bin Awwad al-Badri al Samarrai. Nome de guerra: Abu Bakr al-Baghdadi.

[1] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi, Mary Anne Weaver, The Atlantic, 1 de Julho de 2006, http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2006/07/the-short-violent-life-of-abu-musab-al-zarqawi/304983/, consultado em Dezembro de 2014

[2] The Islamic State. Richard Barrett, The Soufan Group, Novembro 2014, p.11,  http://soufangroup.com/the-islamic-state/

[3] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[4] Profiling the Islamic State, Charles Lister, Brookings Doha Center, Novembro 2014, p.6, http://www.brookings.edu/~/media/Research/Files/Reports/2014/11/profiling%20islamic%20state%20lister/en_web_lister.pdf

[5] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[6] Idem

[7] The Islamic State. Richard Barrett… p.11

[8] Al-Zarqawi’s Biography, Craig Whitlock, Washington Post, 8 de Junho de 2006, http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/06/08/AR2006060800299.html, consultado em Dezembro de 2014

[9] The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi…

[10] Al-Zarqawi’s Biography, Craig Whitlock…

[11] U.S. Secretary of State Colin Powell Addresses the U.N. Security Council, 5 de Fevereiro de 2003, http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/news/releases/2003/02/20030205-1.html, consultado em Novembro de 2014

[12] Profiling the Islamic State, Charles Lister… p.7

[13] Carta de al-Zarqawi, US Department of State, Archive http://2001-2009.state.gov/p/nea/rls/31694.htm consultado em Novembro de 2014

[14] Zarqawi’s Pledge of Allegiance to Al-Qaeda: From Mu’asker Al-Battar, Terrorism Monitor, volume 2, issue 24, The Jamestown Foundation, http://www.jamestown.org/single/?tx_ttnews%5Btt_news%5D=27305#.VOtdJSusVqU

[15] The Islamic State. Richard Barrett… p.11.

[16] Before Killing James Foley, ISIS Demanded Ransom From U.S., Rukmini Callimachi, 20 Agosto 2014, The New York Times, http://www.nytimes.com/2014/08/21/world/middleeast/isis-pressed-for-ransom-before-killing-james-foley.html?_r=0, consultado em Dezembro de 2014

[17] Office of the Director of National Intelligence, Letter from al-Zawahiri to al-Zarqawi, 11 Outubro 2005, http://fas.org/irp/news/2005/10/dni101105.html, consultado em Dezembro de 2014

[18] Profiling the Islamic State, Charles Lister… p.8

[19] Idem

[20] Al Qaeda in Iraq, M. J. Kirdar, CSIS – Center For Strategic & International Studies, Junho 2011, p.5 http://csis.org/files/publication/110614_Kirdar_AlQaedaIraq_Web.pdf consultado em Janeiro de 2015

[21] Insurgent Leader Al-Zarqawi Killed in Iraq, Ellen Knickmeyer e Jonathan Finer, The Washington Post, 8 de Junho de 2006, http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/06/08/AR2006060800114.html, consultado em Dezembro de 2014.

[22] An Economic Analysis of the Financial Records of al-Qa’ida in Iraq… p.14

[23] The Islamic State vs. al Qaeda, Who’s winning the war to become the jihadi superpower?, J.M. Berger, Foreign Policy, 2 de Setembro de 2014, http://foreignpolicy.com/2014/09/02/the-islamic-state-vs-al-qaeda/, consultado em Novembro de 2014

[24] Redefining the Islamic State, The Fall and Rise of Al Qaeda in Iraq, Brian Fishman, New America Foundation, Agosto de 2011, p.9, http://security.newamerica.net/sites/newamerica.net/files/policydocs/Fishman_Al_Qaeda_In_Iraq.pdf

[25] Entrevista realizada a 25 de Fevereiro de 2015

[26] The Status and Future of the Awakening Movements in Iraq, Michael Knights, Carnegie Endowment for International Peace, 2 de Junho de 2009, http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/the-status-and-future-of-the-awakening-movements

[27] Al Qaeda in Iraq, M. J. Kirdar… p.5

[28] Qaeda Leaders in Iraq Neutralized, U.S. Says, Thom Shanker, The New York Times, 4 de Junho de 2010, http://www.nytimes.com/2010/06/05/world/middleeast/05military.html, consultado em Novembro de 2014

É propaganda? É! É importante? Claro! Deve ser divulgado? Sem dúvida!

Era sexta-feira 13. Preparava-me para sair para um encontro quando um link colocado numa conta do auto-proclamado Estado Islâmico (EI) no Twitter me chamou a atenção. Dava conta da presença, pela primeira vez, de jihadistas suecos num vídeo de propaganda do EI. Mas um dos frames partilhados mostrava dois combatentes negros. As suas feições eram-me familiares. Seria aquele o primeiro vídeo com os dois irmãos de Massamá de cara descoberta?

Passei os 20 minutos seguintes à procura de um link que funcionasse. O vídeo tinha sido colocado online na noite de quinta-feira mas estava a ser sucessivamente removido pelo You Tube e pelos outros sítes de partilhas de vídeo existentes na internet. Quando consegui fazer o download, não tive dúvidas de que tinha nas mãos um documento importante.

Depois de confirmar a identidade de Celso e Edgar, dois dos cerca de 15 portugueses que se juntaram ao EI, foi preciso decidir o que fazer. Publicar? Não publicar? Afinal, trata-se de um vídeo de propaganda do EI, ainda que não mostre qualquer execução ou tortura. É um dos muitos vídeos colocados diariamente online que pretendem mostrar o dia-a-dia na Síria e no Iraque. No caso tratava-se do dia de Eid al-Adha (a festa de sacrifício), que assinala a disponibilidade de Abrão em seguir as ordens de Deus e sacrificar o seu filho Ismael. Depois dos três minutos em que surgem os dois portugueses, seguem-se 14 minutos de sacrificio de cordeiros e da distribuição da sua carne pelos pobres. Ou seja, nada que interessasse os leitores ou as autoridades.

Já no que diz respeito aos minutos iniciais do vídeo, não é assim. Pela primeira vez, os dois irmãos criados em Massamá surgem num vídeo do EI de cara destapada. Ou seja, aquelas imagens são uma prova concreta da sua presença na Síria. Estão armados. Fazem a apologia da jihad. Para as autoridades, que têm a correr um processo por terrorismo no Departamento Central de Investigação e Acção Penal, é o elemento que faltava para provar sem sombra de dúvida a sua presença num palco de conflito. Porque se até agora nada os impedia de regressar à Europa e dizer que tinham estado na Síria mas longe de combate, em acções humanitárias, que caberia às autoridades provar o contrário. A prova está aqui. É por isso que tinha de ser divulgado.

Celso e Edgar_o

O Estado Islâmico em debate na Feira do Livro de Lisboa

O J.M.Berger é um dos mais reputados especialistas internacionais em terrorismo e extremismo islâmico e co-autor do livro Estado Islâmico, Estado de Terror. No dia 5 de Junho ele vai estar na Feira do Livro de Lisboa para um debate sobre o tema, que será moderado pelo José Anes, e no qual tentarei dar o meu modesto contributo. Apareçam.

Convite Estado Islâmico

O vídeo do “regresso a casa”

O meu regresso à SIC Notícias, como contei aqui, agora em vídeo.