As palavras do Papa Francisco sobre o capitalismo e não só

O Papa Francisco publicou a sua primeira Exortação Apostólica. Chamou-lhe Evangelii Gaudium. Será uma espécie de programa do seu papado. Entre muitas outras coisas, faz uma análise dos desafios que se apresentam à humanidade. São oito importantes pontos (em 288) onde ataca o capitalismo selvagem que se apoderou do mundo. É uma leitura interessante que tem causado algum debate. Estes são os pontos em causa.

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1. Alguns desafios do mundo atual

52. A humanidade vive, neste momento, uma viragem histórica, que podemos constatar nos progressos que se verificam em vários campos. São louváveis os sucessos que contribuem para o bem-estar das pessoas, por exemplo, no âmbito da saúde, da educação e da comunicação. Todavia não podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequências. Aumentam algumas doenças. O medo e o desespero apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos chamados países ricos. A alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. Esta mudança de época foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se verificam no progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida. Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas de um poder muitas vezes anónimo.

Não a uma economia da exclusão

53. Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que

passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspetivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas de uma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras».

54. Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não comprámos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma.

Não à nova idolatria do dinheiro

55. Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e sobre as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32,1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que acomete as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência de uma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo.

56. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respetivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a devorar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa perante aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.

Não a um dinheiro que governa em vez de servir

57. Por detrás desta atitude, escondem-se a rejeição da ética e a recusa de Deus. Para a ética, olha-se habitualmente com um certo desprezo sarcástico; é considerada contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e degradação da pessoa. Em última instância, a ética leva a Deus que espera uma resposta comprometida que está fora das categorias do mercado. Para estas, se absolutizadas, Deus é incontrolável, não manipulável e até mesmo perigoso, na medida em que chama o ser humano à sua plena realização e à independência de qualquer tipo de escravidão. A ética – uma ética não ideologizada – permite criar um equilíbrio e uma ordem social mais humana. Neste sentido, animo os peritos financeiros e os governantes dos vários países a considerarem as palavras dum sábio da antiguidade: «Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos.»55

58. Uma reforma financeira que tivesse em conta a ética exigiria uma vigorosa mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos, a quem exorto a enfrentarem este desafio com determinação e clarividência, sem esquecer naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve servir, e não governar! O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê- los. Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano.

Não à desigualdade social que gera violência

59. Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários

povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada ação tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor. Estamos longe do chamado «fim da história», já que as condições dum desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão adequadamente implantadas e realizadas.

60. Os mecanismos da economia atual promovem uma exacerbação do consumo, mas sabe-se que o consumismo desenfreado, aliado à desigualdade social, é duplamente daninho para o tecido social. Assim, mais cedo ou mais tarde, a desigualdade social gera uma violência que as corridas armamentistas não resolvem nem poderão resolver jamais. Servem apenas para tentar enganar aqueles que reclamam maior segurança, como se hoje não se soubesse que as armas e a repressão violenta, mais do que dar solução, criam novos e piores conflitos. Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem encontrar a solução numa «educação» que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos veem crescer este cancro social que é a corrupção profundamente

radicada em muitos países – nos seus Governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos governantes.

A exortação apostólica completa está aqui.

Wikileaks: o que os diplomatas americanos diziam de Bertoglio, aliás, de Francisco I

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Telegramas da embaixada americana em Buenos Aires mostram a influência do novo papa na política argentina e sua ligação com a oposição. Uma notícia da Agência Pública, da qual O Informador é um dos parceiros.

Por Marcus V F Lacerda

Despachos oriundos da embaixada de Buenos Aires, vazados pelo Wikileaks, revelam que o novo papa da Igreja Católica, o argentino Jorge Bergoglio, era um nome bastante citado pela oposição argentina em conversas com diplomatas americanos.

Embora não haja nenhuma conversa direta entre o líder religioso e os diplomatas dos Estados Unidos, os oito cables que citam o cardeal no período de 2006 a 2010 mostram que a oposição do país vizinho, assim como os americanos, via nele um agente político poderoso contra os Kirchner.

O atual papa Francisco I é citado em um documento do final de outubro de 2006 que trata do revés político sofrido pelo aliado de Néstor Kirchner, então presidente, na província de Missiones, no nordeste do país. Carlos Rovira, tentara um plebiscito para alterar a constituição da província e tornar possível sua própria reeleição por indefinidas vezes. Mas foi batido pela oposição liderada pelo bispo emérito de Puerto Iguazú, Monsignor Piña.

“O Cardeal Jorge Mario Bergoglio, líder da Arquidiocese Católica de Buenos Aires, ofereceu seu apoio pessoal aos esforços de Piña, mas também desencorajou qualquer envolvimento oficial da Igreja em política”, relata o documento. O engajamento de outros religiosos na política é descrito neste mesmo telegrama. “A lista de candidatos da oposição era constituída principalmente de líderes religiosos, incluindo ministros católicos e protestantes, que eram amplamente vistos como líderes morais livres de qualquer bagagem política”, apontaram os diplomatas.

E se Bergoglio descartava o envolvimento “oficial” da Igreja, outros documentos revelam  que ele não se mantinha longe da política. Em um documento de maio de 2007, a relação entre a Igreja Católica e o governo Néstor Kirchner é descrita como “tensa”: “Bergoglio recentemente falou de sua preocupação com a concentração de poder de Kirchner e o enfraquecimento das instituições democráticas na Argentina”. Além disso, reportam os documentos, Bergoglio agia fortemente nos bastidores, provocando a irritação dos partidários de Kirchner. “O prefeito de Buenos Aires, Jorge Telerman, e sua parceira de coalizão e candidata a presidência, Elisa Carrio, supostamente encontraram-se com Bergoglio em abril, e a inclusão do líder muçulmano Omar Abud na lista de candidatos ao legislativo de Telerman foi supostamente ideia de Bergoglio”, reportaram os diplomatas. O religioso também era muito próximo de Gabriela Michetti, então ex-vice prefeita de Buenos Aires e atualmente deputada federal da oposição, segundo outro telegrama, de 26 de janeiro de 2010.

A relação desgastada entre a Casa Rosada e a Arquidiocese de Buenos Aires chegou ao rompimento entre as duas instituições. Os laços institucionais entre a presidência argentina e o cardeal só seriam retomados por Cristina Kirchner em 2008, quando ela se encontrou com Bergoglio, segundo telegrama de abril daquele ano. Dias depois, os americanos especulam sobre a possibilidade do Cardeal negar-se a celebrar a missa de 25 de maio – data nacional na Argentina – em decorrência da mudança das festividades de Buenos Aires para Salta.

UM LÍDER MANCHADO PELA RELAÇÃO COM A DITADURA

Outro telegrama que cita Bergoglio, de outubro de 2007, narra a condenação de Christian Von Wernich, padre e ex-capelão da polícia de Buenos Aires durante a ditadura na Argentina. Wernich foi considerado cúmplice em sete assassinatos, 31 casos de tortura e 42 sequestros.

Após o veredito, a arquidiocese de Buenos Aires publicou uma nota em que convocava o sacerdote a se arrepender e pedir perdão em público. “A Arquidiocese disse que a Igreja Católica Argentina estava transtornada pela dor causada pela participação de um dos seus padres nestes crimes graves”, relata o despacho.

Para os americanos, este evento acabaria impactando na imagem de Bergoglio. “Entretando, numa época em que alguns observadores consideram o primaz católico romano Cardeal Bergoglio ser um líder da oposição à administração Kirchner por conta de seus comentários sobre questões sociais”, comenta o documento, “o caso Von Wernich pode ter o efeito, alguns acreditam, de minar a autoridade moral ou capacidade da Igreja (e, por conseguinte, do Cardeal Bergoglio) de comentar questões politicais, sociais ou econômicas”.

O principe da Igreja que vivia num apartamento e andava de autocarro

O perfil de Jorge Mario Bergoglio, aliás, Francisco I, para ler aqui.

Jorge Mario Bergoglio

Os alfaiates do Papa

Assim que Bento XVI anunciou a intenção de resignar, os alfaiates da loja Ditta Annibale Gammarelli começaram a trabalhar. Desde o século XVIII que esta alfaiataria localizada junto ao Panteão, em Roma, veste o mais alto representante da igreja católica. Por esta altura já têm prontos os ornamentos papais em três tamanhos: pequeno, médio e grande. Ser-lhe-ão levados assim que sair fumo branco da chaminé do Vaticano. E será já com essas vestes que o novo Papa vai saudar a multidão que o espera na Praça de São Pedro. Uma bela história que foge às especulações e aos lugares comuns que sempre se escrevem nestas alturas de eleição do futuro Papa. Para ler no The New York Times.

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©Alberto Pizzoli/Agence France-Presse — Getty Images

Começou a eleição menos democrática do mundo

Hoje começa o conclave que vai eleger o novo Papa. Os procedimentos de escolha são um reflexo da própria Igreja: permanecem imutáveis ao longo dos séculos. Esta infografia explica todos os detalhes do evento que está a concentrar as atenções mundiais.

Os números, o processo e os cardeais “papáveis”

Qualquer um dos 115 cardeais presentes no conclave que vai eleger o novo Papa tem, em teoria, hipótese de ser escolhido. No entanto, há 12 que, à partida, reúnem maiores possibilidades. E entre eles há dois que falam português… do Brasil.

Um católico solteiro pode ser eleito Papa. Já aconteceu? Não. E vai acontecer? Também não

Ontem, Bento XVI despediu-se dos cardeais numa cerimónia privada que será, provavelmente, o seu último acto como o Papa. À tarde deixou o Vaticano de helicóptero rumo a Castel Gandolfo, onde passará os seus dias em retiro. Agora começa a fase seguinte: escolher um novo Sumo Pontífice. Este vídeo brilhante responde a todas as dúvidas que possam ter sobre a eleição do sucessor de Bento XVI.

Porque é que Bento XVI fez muito bem em resignar

A decisão de Bento XVI apanhou o mundo de surpresa – apesar dos sinais que o próprio foi dando no último ano, desde que regressou ao Vaticano após a viagem ao México. Cansaço, saúde debilitada, incapacidade de responder aos inúmeros compromissos, foram os motivos apontados. Mas, no fundo, a opção de abdicar revela uma extrema lucidez por parte do Papa.

Aprender com os erros do passado é uma característica essencial de todos os líderes. E com esta decisão, Bento XVI prova que o fez. A certa altura, quando a sua doença já era visível, João Paulo II também quis abdicar por razões de saúde. Na altura foi convencido a ficar. Durante anos, enquanto muitos cristãos viam no sofrimento do então Papa um exemplo dos sacrificios que todos deveriam estar dispostos a suportar, muitos outros viam simplesmente um homem velho sem capacidade para gerir aquela que continua a ser a maior organização do mundo. Foi uma imagem ingrata, a do Papa mais importante do último século, figura importante na queda da União Soviética, ser obrigado a falar em público quando mal conseguia balbuciar algumas palavras. Bento XVI não quis cometer o mesmo erro.

Mais: mostra que compreende o mundo em que vive. O último papa a abdicar, Gregório XII, fê-lo em 1415. Para além de o mundo conhecido ser muito mais pequeno, as notícias demoravam espalhar-se. Em Portugal, a morte de um Papa ou a eleição de outro, podia demorar semanas ou meses até ser conhecida. As notícias viajavam de barco, em caravanas, de boca em boca. Os camponeses podiam ficar anos sem saber de alguma novidade. A esmagadora maioria nunca viu uma imagem do Papa. E as grandes novidades religiosas eram transmitidas… na missa.

O primeiro Papa a ter conta no Twitter e a utilizar um iPad, percebeu que neste mundo globalizado em que as notícias se espalham ao segundo, a Igreja Católica não pode dar ao luxo de ter um líder fraco. Veja-se o exemplo desta semana: segundos depois de a agência Ansa ter dado a notícia da abdicação, a história abria todos os telejornais e estava em destaque nos sites noticiosos de todo o mundo. As televisões enviaram equipas de reportagem para o Vaticano que por lá continuarão até que saia fumo branco da chaminé da capela sistina. É este o mundo em que Bento XVI vive. Em que o seu cansaço, a sua saúde seriam escrutinados. Com esta decisão, Bento XVI ficou na história. Pela decisão, e por ter a plena consciência das suas capacidades e fraquezas.

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O “Click” jornalístico

Não. Infelizmente para muitos de vocês, não estou a escrever sobre a saga de livros eróticos de Milo Manara. Pelo contrário. Assunto menos sexual não há. Trata-se da resignação do Papa Bento XVI. E de jornalismo. Confusos? Então o melhor é explicar o título.

O “Click” jornalístico é aquele momento em que os repórteres percebem estar perante uma informação única. Exclusiva. Em alguns casos – poucos – de importância global. Na maior parte dos casos, é fruto de um trabalho árduo, de pesquisa, conversa com fontes, consulta de documentos, etc. Mas outras vezes – mais raras – surge quando menos se espera. Quando estamos numa entrevista, num trabalho rotineiro, ou a ouvir alguém falar nos mesmos assuntos vezes sem conta. E, de repente, esse mesmo alguém diz algo que nos faz parar, levantar a cabeça e pensar: “será que ouvi bem?” Ao mesmo tempo, há um arrepio que nos percorre a espinha. O coração bate mais depressa. As pupilas dilatam. E um brilho forma-se no olhar – como se estivéssemos descoberto ouro. Tudo em segundos.

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Foi o que aconteceu à jornalista da agência italiana Ansa, Giovanna Chirri. Na passada segunda-feira, a repórter estava na sala de imprensa do Vaticano com mais quatro colegas a assistir pela televisão a mais uma das cerimónias religiosas que diariamente se realizam no Vaticano quando, subitamente, o Papa Bento XVI mudou de assunto. “A certa altura o Papa parou de falar sobre o consistório. A Chirri compreendeu que ele estava a dizer que estava cansado, que a pressão era muito grande, e que ia parar”, disse à AFP o responsável de informação da Ansa, Luigi Contu.

Interrupção para uma informação de contexto: Bento XVI estava a falar em latim. O que ele disse podia ter passado despercebido – como aconteceu inicialmente aos outros repórteres que o ouviam. Excepto à jornalista da Ansa. Sim, Giovanna Chirri fala uma língua morta. E, provavelmente, pela primeira vez na vida, isso foi-lhe muito útil.

Quando acabou de ouvir Bento XVI, a vaticanista (os correspondentes no Vaticano são assim chamados) sentiu uma fraqueza nas pernas. Ela própria admitiu-o mais tarde no Twitter. No final da cerimónia a jornalista tentou confirmar a informação com o porta-voz do Vaticano Federico Lombardi. Sem sucesso. A decisão de avançar ou não com a notícia motivou uma discussão com o seu editor. Giovanna Chirri insistia que o seu conhecimento de latim era bom e que deviam divulgar a informação. Foi quando Federico Lombardi lhe ligou de volta e confirmou a renúncia. Eram 11h46 quando esta notícia entrou em linha:

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Segundos depois, a notícia era divulgada em todo o mundo. Os outros repórteres ainda estavam a tentar confirmar a informação. Entretanto, Giovanna Chirri chorava. “Dei a notícia e depois chorei. Como pessoa, lamento imenso. Admiro Ratzinger. Respeito-o”, disse depois. Quando os colegas lhe deram os parabéns, a jornalista usou o Twitter para responder: “O latim de Bento XVI é muito fácil de compreender”. Foi o tal “Click”.

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A declaração de renúncia

Queridíssimos irmãos,

Convoquei-vos para este Consistório, não apenas por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja.

Depois de examinar reiteradamente a minha consciência perante Deus, cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério de Pedro (petrino). Sou consciente de que este ministério, pela sua natureza espiritual, deve ser levado a cabo não apenas por obras e palavras mas também, em menor grau, através do sofrimento e da oração.

No mundo actual, sujeito a rápidas transformações e sacudido por questões de grande relevância para a vida da Fé, para governar a barca de S. Pedro e anunciar o Evangelho é necessário também vigor, tanto do corpo como do espírito. Vigor que, nos últimos meses, diminuiu em mim de forma que tenho de reconhecer a minha capacidade para exercer de boa forma o ministério que me foi encomendado.

Por isso, sendo consciente da seriedade deste acto, e em plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, sucessor de S. Pedro, que me foi confiado pelos cardeais no dia 19 de Abril de 2005. De forma que, a partir do dia 28 de Fevereiro de 2013, às 20h (19h em Lisboa), a sede de Roma, a sede de S. Pedro vai ficar vaga e deverá ser convocada, através daqueles que têm competências, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.

Queridíssimos irmãos, dou-vos as graças de coração por todo o amor e trabalho com que trouxeram até mim o peso do meu ministério e peço perdão por todos os meus defeitos.

Agora, confiamos a Igreja ao cuidado do Sumo Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo e suplicamos a Maria, sua Santa Mãe, que assista com a sua materna bondade aos padres cardeais ao eleger o novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, também no futuro, quero servir com todo o meu coração à Santa Igreja de Deus com uma vida dedicada à oração.

Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013”

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A obrigação de resignar

“Se um Papa perceber que já não está fisicamente, psicologicamente ou espiritualmente capaz de lidar com os deveres do seu gabinete, então ele tem o direito e, em certas circunstâncias, a obrigação de resignar”

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A renúncia de Bento XVI não devia ser uma surpresa para os mais atentos ao que se passa no Vaticano (que não é o meu caso, fui só ler umas coisas sobre o assunto). Quando liderava a Congregação da Doutrina e da Fé, o então cardeal Joseph Ratzinger quis retirar-se duas vezes por razões de saúde. No entanto, foi impedido por João Paulo II.

Os problemas de saúde – uma hemorragia que lhe afectou a visão, desmaios, etc – não o impediram de se tornar, aos 78 anos, o mais velho papa em 300 anos. No pontificado sofreu várias quedas que assustaram quem as presenciou. Depois disso começou a usar uma plataforma móvel para se deslocar e uma bengala para se apoiar.

Agora, aos 85 anos, anuncia a retirada para evitar o espectáculo degradante em que se tornaram os últimos dias de João Paulo II. É uma posição coerente com o que disse numa entrevista ao jornalista alemão Peter Seewald e que resultou no livro «Luz do Mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos», de onde foi retirada a frase que está no início deste post.

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