Charlie um ano depois

Foi há um ano. Uma manifestação histórica pela liberdade de expressão e contra o terrorismo.

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O medo

Tinha acabado de escrever este texto e estava à conversa com um camarada brasileiro num café nas imediações do Bataclan quando, de repente, comecei a ver pela janela gente a correr. Ao mesmo tempo, o meu telefone tocou. Um amigo com família em Paris ligava-me de Lisboa a avisar que havia tiroteio na capital francesa. Por instinto, levantei-me e fui até à porta ver o que se passava. Havia gritos. O proprietário do estabelecimento, que não consegue esconder o cansaço e o stress provocado pelos acontecimentos dos últimos dias, pareceu ter um pico de adrenalina e saltou detrás do balcão para lançar ordens aos clientes: “depressa, para a cave”.

Nessa altura, já uma funcionária tinha destrancado a porta verde que dá acesso a um armazém para onde, um a um, aqueles que estavam no interior do estabelecimento começaram a dirigir-se. Também ela tremia. Voltei atrás, fechei o computador e preparei-me para o pior. Então era aquilo, a sensação de que algo terrível estaria prestes a acontecer. O medo.

O dono do café não parava. Ora saía para tentar perceber o que estava a acontecer, ora trancava a porta da rua, ora a abria para deixar entrar mais algumas pessoas que corriam rua abaixo em busca de um local onde se proteger. Minutos antes, um falso alarme tinha lançado o pânico na Place de la Republique, a algumas centenas de metros de distância.

A questão é que ninguém sabia que tinha sido um falso alarme. Aliás, ninguém sabia nada. Apenas que havia gente a correr em pânico e polícias que gritavam: “dispersem, dispersem”. Homens e mulheres choravam. Alguns agarrados. Outros enquanto caminhavam sozinhos sem direcção definida. Alguns repórteres de imagem arriscaram sair até à esquina mais próxima e tentar registar o que se passava em segurança. As possibilidades eram muitas. Na mente de cada um estava a hipótese de algo voltar a acontecer. Enquanto espreitava pelas janelas, escondido atrás de um pilar, recordo-me de pensar que aquela porta de vidro que o dono do café insistia em trancar e destrancar não serviria de muito perante um terrorista armado com uma Kalashnikov – e  que a cave que se queria um local seguro seria apenas um beco sem saída. Avaliei a resistência dos vidros que protegem a esplanada. Quebrar-se-iam facilmente com uma cadeira caso fosse necessário? Ou era melhor sair dali o quanto antes na direcção oposta?

Não houve tempo para decidir. Apesar de ter parecido uma eternidade, o pânico durou poucos minutos. Mas foram os suficientes para perceber que, em Paris, os nervos continuam à flor da pele perante a possibilidade de um novo atentado. A notícia de que tudo não tinha passado de um falso alarme chegou através do Twitter que tem sido a melhor forma de obter informação sobre o que se passa em Paris. O telefone voltou a tocar. Estava tudo bem. O dono do café abriu as portas e saiu para a rua para fumar um cigarro. Um cliente ainda lhe disse que nestas alturas devia poder fumar lá dentro. Mas nem isso lhe arrancou um sorriso. E assim que toda a gente saiu da cave anunciou: “Por hoje chega. Vou fechar”.

De Beirute a Paris

Ali tem 40 anos. É dono de vários restaurantes libaneses em Paris. Um deles fica a cerca de 100 metros do Bataclan, a sala de espectáculos que esta sexta-feira, 13 de Novembro, foi alvo de um atentado terrorista que matou mais de 80 pessoas que assistiam a um espectáculo da banda Eagles of Death Metal. Nos últimos dois dias uma boa parte dos seus clientes têm sido jornalistas. A cada um diz que tem informações importantes. Mas que cobra 150 euros por cada resposta.

A cada olhar incrédulo responde com um grande sorriso, enquanto prepara mais um falafel ou serve um chá verde (deve ser o único nas redondezas que não vende café). Não estava no restaurante na noite dos ataques. Mas assim que ouviram os primeiros tiros, os seus funcionários fecharam a porta. Só puderam sair às 5h da madrugada.

Também ele está chocado com o que aconteceu. Mas encara-o de uma forma diferente da maioria dos franceses. “Isto foi terrível, mas se me perguntar se tenho medo, respondo que não. Isto não é a guerra, é um acontecimento fora do normal em Paris. Guerra é o que vivi toda a minha vida no Líbano, onde cresci habituado a ver corpos nas ruas e a ouvir tiros e explosões.”

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Nem de propósito. Na véspera dos ataques em França, Beirute foi alvo de um enorme ataque do auto-proclamado Estado Islâmico. Ao todo, 43 pessoas morreram e 239 ficaram feridas quando dois bombistas suicidas se fizeram explodir com cerca de cinco minutos de diferença, a pouco mais de 150 metros um do outro, num mercado ao ar livre. Um bombista que sobreviveu e foi capturado pela polícia disse às autoridades que o grupo tinha entrado no país a partir da Síria dois dias antes.

De volta a França, uma enorme onda de solidariedade varreu as redes sociais com milhões de pessoas a cobrirem as suas fotografias no Facebook com as cores da bandeira francesa. Edifícios icónicos em todo o mundo foram iluminados de azul, branco e encarnado. Mas quantos usaram o vermelho, verde e branco da bandeira libanesa? Ou o encarnado e branco da bandeira turca, quando o EI realizou um atentado pouco antes das eleições do mês passado? Ou o vermelho, negro, branco e verde da bandeira iraquiana praticamente todos os dias dos últimos anos? Ou as cores de todos os outros locais afectados pelo terror indiscriminado ao longo da última década?

Sim, devemos ser solidários quando um atentado terrorista acontece num país que nos é próximo. Sim, devemos ser Charlie. Sim, devemos ser Paris. Mas também devemos ser Beirute, Ancara, Kobane ou Bagdade. Porquê? Ali tem a resposta: “Podia ser o meu filho ali dentro, isso é que é assustador. Isto não é uma questão de religião, de muçulmanos, cristãos ou judeus. É um problema político”.

A reivindicação dos atentados pelo Estado Islâmico

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Paris não é uma cidade em guerra

A 11 de Janeiro milhões de pessoas concentraram-se na Praça da República, em Paris, numa manifestação em nome da liberdade de expressão e contra a violência, na sequência dos atentados ao semanário satírico Charlie Hebdo e ao Hiper Casher. Dez meses depois, o mesmo sentimento de repulsa ocupa o pensamento daqueles que rumaram ao mesmo local para prestar homenagem às vítimas daquele que já é considerado o maior atentado terrorista da história da França. Aí, bem na base da estátua, alguém escreveu num graffiti gigante: “Não matarás”.

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A mensagem é para aqueles – bem como para os seus “inspiradores” – que, esta sexta-feira, 13 de Novembro, lançaram o pânico na capital francesa e causaram mais de 128 mortos e centenas de feridos. O centro da carnificina foi ali perto, no Teatro do Bataclan, entre a Boulevard Voltaire e a Boulevard Richard Lenoir, onde cerca de 1500 pessoas assistiam a um concerto dos Eagles of Death Metal.

Um dia depois do massacre, as ruas em redor continuam bloqueadas ao trânsito. Em alguns locais espalham-se ramos de flores e mensagens como “Os franceses combatem os ladrões de vidas. Saibam-no terroristas.”

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Jornalistas e populares são mantidos a uma distância de segurança. Na verdade, a maioria são repórteres que partiram de todo o mundo assim que as notícias da dimensão do ataque se espalharam a toda a velocidade. Os outros são anónimos que ali se deslocaram para prestar a sua homenagem em silêncio. Alguns, como Phillipe, cujo amigo ficou ferido durante os ataques e está internado, mas estável. Outras, como Reem e Arline, duas amigas que vivem na zona e que foram deixar uma rosa branca e não conseguem esconder a perturbação. Ou ainda como Donate e o marido que estão de férias em Paris e que não quiseram deixar de passar pelo local da tragédia, fotografá-lo, ver com os próprios olhos as imagens do terror.

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Entre eles o sentimento é unânime. “A França não pode ter medo. Isso é o que os terroristas querem.” Talvez por isso, para além das zonas em redor dos atentados, a vida em Paris parece continuar normalmente. Apesar da atmosfera pesada, de cinemas, grandes lojas e serviços públicos que estão fechados, os cafés e os restaurantes continuam abertos a funcionar. Paris não é uma cidade em guerra. De todo. Apesar de ser nisso que alguns a querem tornar.

“O meu nome não é importante. Sou Charlie “

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Domingo, 11 de Janeiro de 2015. São 14h25m. Milhares de franceses continuam a dirigir-se à Praça da República, em Paris. Todos os caminhos parecem ir lá dar. Os transportes públicos são gratuitos. Mas as estações de metro daí até à Praça da Nação foram encerradas por motivos de segurança. Os autocarros também viram o seu percurso interrompido num perímetro largo. Não há táxis. Os únicos veículos que circulam são os das autoridades e as muitas bicicletas que se vêem na capital francesa.

No alto da estátua da República, dezenas de pessoas empunham bandeiras de diversos países e cartazes com declarações de liberdade e homenagem ao Charlie Hebdo, o semanário satírico barbaramente atacado na passada quarta-feira pelos irmãos Said e Chérif Kouachi. Por toda a praça são entoados gritos de “je suis Charlie”, “liberté” e entoada a Marselhesa. Chegar junto à estátua é uma tarefa difícil. Mas é lá que, há cerca de uma hora e meia, Andreia e Joaquim seguram uma bandeira portuguesa.

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Os dois estão em França há cerca de seis anos. Ela é de Vila do Conde. Ele de Leça da Palmeira. Apesar de terem emprego em Portugal, decidiram emigrar porque arranjaram melhores oportunidades na capital francesa, ambos na área das limpezas. Nenhum conhecia o semanário dirigido por Charb antes dos atentados da semana passada. “Decidimos vir para nos manifestarmos contra o terrorismo e pela liberdade de expressão que há em França”, diz à SABADO Andreia, 27 anos. É ela quem segura na bandeira. Ele regista os momentos na máquina fotográfica que transporta a tiracolo. E é ele quem não poupa críticas ao que tem visto na televisão portuguesa. “O que tem passado é que eles estavam direccionados contra o Islão, o que é mentira. Eles criticavam toda a gente”, diz Joaquim, 37 anos.

Na zona oeste da Praça, a multidão começa a aglomerar-se junto ao início da Boulevard Voltaire – a enorme avenida de três quilómetros que termina na Praça da Nação. O percurso não podia ser mais adequado ao motivo da manifestação. Afinal foi Voltaire quem disse as palavras que podiam aplicar-se ao modo como os ilustradores do Charlie Hebdo viam o mundo: “Posso não concordar com o que tem a dizer, mas defenderei até à morte o seu direito a dizê-lo”.

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Meia hora antes do início da marcha, marcada para as 15h30 (menos uma hora em Portugal), é praticamente impossível alguém conseguir mover-se naquela zona. A solução é aguardar imóvel até que as primeiras filas avancem. Alguns edifícios em redor estão decorados com faixas com frases como “fiquemos unidos”, “liberdade” e o já viral “je suis Charlie”. A disciplina ordeira e o silêncio que por vezes se instala entre a imensa multidão impressionam. Tanto que por vezes ele é interrompido pelos gritos de três raparigas pequenas que no ultimo andar de um dos edifícios em redor gritam “Charlie, Charlie, Charlie”. Com o aproximar da hora, os manifestantes começam a gritar “queremos marchar”. Mas ninguém se atreve a dar o primeiro passo antes de o relógio marcar o minuto indicado.

A maioria tem uma mensagem. Seja num cartaz, num papel ou um simples lápis e caneta que empunham em sinal de liberdade. O percurso inicial é feito lentamente. Para percorrer cerca de 300 metros, aquela impressionante massa humana levou quase 40 minutos. No topo de alguns edifícios é possível ver policias armados a observar o que se passava ao nível da rua. Foi o caso do número 18. Quando a multidão os viu, começou a aplaudir e a gritar “merci, merci, merci”. Passou-se o mesmo mais à frente, no número 45-47. E de cada vez que o polícia acenava em sinal de agradecimento, mais aplausos se seguiam.

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Apesar dos apelos dos líderes da comunidade muçulmana francesa à participação no encontro, a verdade é que, se compareceram, os seus membros não estavam visíveis. A esmagadora maioria dos manifestantes era de origem europeia. Uma das excepções era Bouchra. Jurista, nascida em França, caminhava no centro da coluna com um cartaz que dizia num dos lados “Eu sou muçulmana, eu sou Charlie e todas as outras vítimas” e do outro “Não em meu nome”. Decidiu comparecer e afirmar-se como muçulmana porque é preciso “não ter medo”. “Mesmo que não concorde com o que eles faziam, aqui há liberdade de expressão. As pessoas que fizeram isto não são verdadeiros muçulmanos”, diz à SABADO sem interromper a marcha. Os atentados chocaram-na. “Ainda por cima foi no meu bairro, estava a trabalhar quando soube e fiquei sem saber o que pensar. Usar a religião para justificar uma coisa destas é inaceitável”, diz.

Ao fim de três horas e meia a Praça da Nação surge já envolta em escuridão. Alguns milhares de pessoas ainda se juntam no meio da rotunda, mas a maioria acaba por seguir o seu caminho. Na zona onde se concentraram as câmaras de televisão, todos aqueles que empunham uma bandeira tentam mostrar a solidariedade do seu pais. É lá também que está Urbano Brites. Português, de Fátima, emigrou para França há 19 anos. As frases em português já são intercaladas por expressões em francês. Também ele empunha uma bandeira nacional. “Trouxe-a para mostrar as minhas origens”, diz à SABADO. “Comprei um pau de vassoura no caminho e colei-a”, diz. Não se importa que a maioria das pessoas que o aborda seja queira fazer apenas uma pergunta: “de que país é essa bandeira?”

A ex-mulher de Urbano abriu há pouco tempo um restaurante em Montrouge, a zona onde Amedy Coulibaly matou uma mulher polícia, na passada quinta-feira. “Não sabia se o meu filho estava com ela ou não. Fiquei muito preocupado”, conta. Um pouco mais ao lado, um homem segura um cartaz com uma mensagem em que assume o que muitos não fazem: “compreendi que a nossa liberdade se deve à irreverência deles e agora também às suas vidas. Je suis Charlie.” Com um ar visivelmente abatido explica à SABADO : “Escolhi esta mensagem porque foi o que senti. Seguia-os à distância e percebi que eles lutavam por toda a gente. Por isso tenho também um desenho deles que diz mais à cultura francesa [de Jesus a ter relações com Deus e com o Espírito Santo]. Toda a gente tem o direito de se exprimir”. Quando a SABADO lhe perguntou o nome ia começar a responder mas depois mudou de ideias: “o meu nome não é importante. Sou Charlie.”

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Sem desculpas para faltar

Manifestação pela liberdade e pela República: hoje, todos os transportes públicos em Paris são grátis.

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“Devemos poder viver livres e tranquilos, não queremos ser protegidos.”

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Quando este domingo milhares de pessoas se juntarem na Place de la République, em Paris, para uma marcha em homenagem às vítimas dos atentados terroristas da última semana e pela liberdade de expressão, Samuel Njoh vai estar entre elas. No entanto, estará lá por outro motivo: “vou manifestar-me pela pena de morte”, diz à SABADO junto ao Hyper Casher, o supermercado atacado esta sexta-feira por Amedy Coulibaly onde morreram cinco pessoas – além do terrorista.

Para que não houvesse dúvidas sobre o que acabara de dizer, Samuel Njoh voltou a repetir: “vou manifestar-me pela pena de morte”. Alto, negro, o homem nascido nos Camarões não parece exactamente um apoiante da Frente Nacional de Marine Le Pen que, na sequência dos atentados ao jornal satírico Charlie Hebdo, defendeu um referendo à pena capital. “Não, sou republicano, e cristão praticante. Mas é altura de dizer às pessoas que é necessário justiça. É precisa a pena de morte”, diz. O argumento é simples: “olhe para as pessoas que foram assassinadas. Morreram por nada. Se o Coulibaly tivesse sido apanhado vivo era julgado, cumpria 20 ou 40 anos e depois voltava ao mesmo. Não, é necessário lançar o debate.” Nem a própria contradição entre os princípios cristãos, que diz praticar, e o que acabou de defender o demove. “Nos Camarões há cristãos e muçulmanos mas se eu matar um polícia vou a tribunal militar e levo a pena de morte”, garante.

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A ideia expressa por Samuel Njoh (e os aplausos que recebeu de quem o ouviu) parece mostrar que, após um primeiro momento de união total, a sociedade francesa começa a expressar as suas divisões. Bastou que o terceiro atacante tenha decidido invadir um supermercado apenas por um motivo: era um estabelecimento judeu. O que até aí era visto como um atentado à liberdade de expressão passou também a ser encarado como um crime de ódio. “É preciso dizer que quem fez isto é uma minoria. Mas o problema é que as minorias podem fazer muito mal. Esta matou 17 pessoas e feriu muitas outras”, diz à SABADO Samuel Elbase, residente nos arredores do Hyper Casher. “Nós, judeus, quando uma criança faz alguma coisa de mal, dizemos-lhe que a vamos denunciar. Fazemos isso para a proteger. O problema são os muçulmanos cúmplices que não fizeram nada. É preciso denunciar isto mesmo que se trate do nosso filho”, continua.

As vozes minoritárias que tentam explicar que este não foi um ataque a judeus nem a cristãos, que foi um ataque aos franceses e à própria liberdade, não conseguem fazer ver os seus pontos de vista. Pelo menos no dia seguinte aos ataques. Os ânimos estão revoltados. A polícia continua a isolar o estabelecimento que fica numa esquina de um bloco de apartamentos, entre uma rotunda e uma bomba de gasolina, nos limites de Paris.

Tal como aconteceu junto à redacção do Charlie Hebdo, a população começou a depositar flores, mensagens e velas junto às barreiras da polícia. Samuel Njoh foi lá colocar um ramo. Yoav, de 27 anos, também se deslocou ao local para prestar homenagem às vítimas. E como a maioria dos que aceitam dar uma opinião sobre os acontecimentos, não tem dúvidas sobre o que é preciso fazer para evitar novos atentados. “Cabe aos muçulmanos colocar as coisas no seu devido lugar e dizer que isto não é o Islão. É preciso educar as crianças na ideia de que somos todos iguais: judeus, cristãos e muçulmanos”, diz à SABADO. Com o dedo da mão direita espetado e a mão esquerda a segurar a trela do pequeno cão preto que passeia, diz: “devemos poder viver livres e tranquilos, não queremos ser protegidos.” Samuel Njoh concorda. “Assim não temos total liberdade. Eu vivo ao fim da rua. Ontem sai do trabalho e vi isto. Pensei na minha filha e fiquei doente. Também por isso vou manifestar-me”, diz.

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Paris transformada em zona de guerra.

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Passavam poucos minutos das 19h quando os jornalistas que aguardavam por notícias sobre o que se passava junto no supermercado junto à Porte de Vincennes, em Paris, tiveram um dos primeiros relatos dos acontecimentos por uma testemunha ocular. Alexi, um jovem de 21 anos, tinha acabado de atravessar o cordão policial que desde o início da tarde vedava os acessos de populares e jornalistas à zona onde Amedy Coulibaly tinha feito mais de 10 reféns.
Aparentemente calmo, o jovem, que vive mesmo em frente ao supermercado começou a responder a todas as perguntas sobre o que tinha visto. “Estava à janela quando vi dois carros a parar na parte de trás do edifício. Depois vi policias a chegar. Fiquei intrigado. Mas depois começaram os tiros. Houve troca de tiros e os policias dirigiram-se para o supermercado”, começou por contar. “Os reforços chegaram, havia muitos policias à civil, que se posicionaram em. Arroz por baixo de mim. Pensei que aquilo ia durar umas horas”.

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Tinha razão. Pouco depois, as autoridades disseram-lhe que não podia sair de casa. Ficou a acompanhar tudo pela janela – enquanto na televisão passavam imagens a uma distância de segurança do aparato policial montado na Av. de Vincennes. Parecia uma zona de guerra. Uma barreira policial tinha sido montada. Agentes fortemente armados guardavam todas as passagens, enquanto dezenas de ambulâncias, carros de polícia e outros veículos de emergência ocupavam o local. Os repórteres eram mantidos à distancia. Por precaução e para impedir a divulgação de imagens potencialmente chocantes. Dezenas de anónimos registavam o que se passava através de fotografias e vídeos tirados com os telemóveis e tablets.
Os relatos até então chegaram de testemunhas que tinham conseguido sair da zona. Como Marilyne Baranes. “Tinha ido almoçar com os meus filhos quando ouvi tiros e depois o pânico das pessoas”, recorda à SABADO. “Depois apareceram os helicópteros e polícia proibiu as pessoas de sair dos locais onde estavam e pediu para se afastarem das janelas”, conta. Aquela é uma zona movimentada. “Todas as sextas-feiras as lojas estão cheias”, diz. Marilyne não conseguiu ver os filhos, de 24 e 21 anos. Quando falou com a SABADO eles ainda não tinham saído do local onde se encontravam quando o ataque começou.
Por volta das 17h as autoridades entraram em acção. “Começou com o que me pareceram três ou quatro petardos, ou morteiros, depois a polícia de intervenção foi em direcção ao supermercado, os reféns saíram e os tiros começaram. Foi tudo muito rápido. Sei que a polícia atirou mas nada mais”, recordou Alexis. “Pelo menos um polícia foi evacuado ferido porque dois colegas o tiraram do chão. Não sei se houve mais”, continua.
Já em segurança junto aos amigos, Alexis desdobrou-se em entrevistas. Depois ficou por ali, a aguardar por autorização para regressar a casa. Diz que não teve medo, nem se sentiu inseguro: “Estava em casa, por trás da minha janela”. No entanto, tem um sentimento semelhante ao de todos os franceses: “estou ainda em choque. É difícil interiorizar o que se passou.

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Do choque ao medo das consequências

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Maimouna Diallo tinha acabado de acordar. Era quarta-feita, 7 de Janeiro. Como em todos os outros dias, ligou a televisão para ver as notícias e saber o que se passava no mundo. “A primeira coisa que me perguntei foi: porque é que estas pessoas fizeram isto?”, recorda à SÁBADO, à porta da grande mesquita de Paris, localizada no quinto bairro da capital francesa. Depois percebeu: os autores do atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo diziam estar a agir para vingar as ofensas dos caricaturistas ao profeta Maomé. “Não compreendo como alguém pode fazer uma coisa destas”, diz. “Muito menos um muçulmano.”
Aos 19 anos, tem opiniões bem vincadas. Sabe exactamente o que responder às perguntas que os jornalistas lhe fizeram nessa manhã. Tinha acabado de dar uma entrevista para um jornal norueguês quando foi abordada pela SABADO. Após as apresentações esboçou um longo sorriso e disse num português com sotaque francês: “aí és português. A minha mãe é portuguesa.”
A mãe, Diamilatou Diallo, chegou a Portugal em 1998, oriunda da Guiné Conacry. Ficou 13 anos. Obteve a nacionalidade antes de partir para França. Maimouna nunca viveu em Portugal. Estudou no Senegal e está em Paris para completar os estudos. Mas as visitas a Lisboa e a Armação de Pêra, no Algarve, permitem-lhe compreender e falar um pouco de português.
Esta sexta-feira, deslocou-se à mesquita para uma das cinco orações diárias. Não chegou a tempo da oração do meio-dia para ouvir o Íman local condenar os atentados e afirmar que “o Islão não é isto”. Mas não precisa. “Um bom muçulmano não faria isto. Os muçulmanos não praticam a violência. É-nos interdito. A nossa vida é rezar, trabalhar e cuidar da família. Não nos é permitido matar inocentes. Só se formos atacados, em legítima defesa”, explica.

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Dois dias após o massacre, ainda não consegue compreender o que leva alguém a fazer algo do género. Apesar de não gostar do que os responsáveis do Charlie Hebdo faziam com o jornal. “O Charlie desrespeitava a comunidade muçulmana. Eles tocavam no sagrado. O profeta é sagrado para nós. Tem de haver respeito na liberdade de expressão”, diz. “Podemos ter opiniões sobre as pessoas, mas não devemos ser ofensivos. Não se ataca assim de forma gratuita as crenças sagradas”, continua. Contudo, frisa, nada justifica o que aconteceu: “estamos tão chocados como vocês”.
Agora teme as consequências. Sabe que toda a sociedade é afectada. “O problema é que as pessoas começam a olhar para os muçulmanos como terroristas. Há uma islamofobia instalada”, diz. Ela sabe do que fala. No dia-a-dia cobre o cabelo com o hijab. Veste-se de acordo com as suas crenças. “As pessoas olham para mim na rua. Mas o que é que eu posso fazer? É a minha religião”.

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“Não temos medo. Somos livres”

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Nicolas Appert morreu em 1841. Deixou como legado uma invenção que perdura até hoje: a conserva alimentar. E foi na rua com o seu nome, no 11o bairro de Paris, que a direcção do Charlie Hebdo decidiu instalar o jornal satírico a 1 de Julho de 2014. À porta do número 10 nada indica a sua presença: desde o atentado sofrido em Novembro de 2011 que a localização do semanário era mantida em segredo. Quase clandestino. Até agora.
Dois dias após o atentado que vitimou 12 pessoas, a rua Nicolas Appert continua vedada pela polícia. Os seus acessos foram ocupados por jornalistas. Muitos turistas fazem questão de passar pelo local. E o início e rua, foi transformado numa espécie de santuário improvisado por todos aqueles que querem prestar homenagem às vítimas do terrorismo. Há quem deixe flores, acenda uma vela ou coloque um desenho junto ao edifício.

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Para além da frase “Je suis Charlie”, as paredes do número um da rua Nicolas Appert, encheram-se de mensagens de solidariedade. Raquel, de Portugal, escreveu: “os meus pensamentos estão contigo”. Casey, dos Estados Unidos, preferiu um tom diferente: “Nunca desistir e nunca baixar os braços”. Isabel, da Noruega, quis que os parisienses soubessem que “não estão sozinhos”. Mas foi Patricia, de Espanha, quem escreveu a mensagem que talvez mais agradasse a Charb, o director da publicação: “Não temos medo, somos livres”.

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Sem palavras

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