O dia das mentiras é quando um político quiser

Eu já tive ocasião de dizer que o PSD, e eu próprio, não vamos mexer naquilo que são as taxas de IVA que estão previstas, nomeadamente no acordo que foi estabelecido com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional. Nós vamos ter de recolher mais dinheiro dos impostos alargando a base, que não aumentando ou agravando as taxas do imposto”, Passos Coelho, 30 de Maio 2011.

“Eu nunca ouvi falar disso no PSD. Eu já ouvi o primeiro-ministro dizer, infelizmente, que o PSD quer acabar com muitas coisas e também com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e isso é um disparate”, Passos Coelho, 1 de Abril 2011

“Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer“, Paulo Portas, 2 de julho de 2013

“Só a partir de duas ou mais pensões acumuladas com um valor superior a 2 mil euros sofrerá alguma forma redução”, Paulo Portas, 13 de Outubro de 2013.

“Tão pouco pertenci à administração, conselho fiscal, fui ou sou sócio ou acionista da Sociedade Lusa de Negócios”, Rui Machete, Novembro de 2008

“Tal como já foi explicitado pela própria na Comissão Parlamentar de Inquérito à Celebração de Contratos de Gestão de Risco Financeiro por Empresas do Setor Público, as funções de Maria Luis Albuquerque no IGCP eram de análise de pedidos das empresas públicas sobre empréstimos e não sobre “swaps'””, comunicado de Maria Luís Albuquerque, 17 de Setembro de 2013.

O Governo não dá orientações, nem recebeu qualquer tipo de informação, sobre negócios que têm em conta as perspectivas estratégicas da TVI”, José Sócrates, 24 de Junho de 2009

“Não. Era só o que faltava! Numa altura em que país enfrenta uma crise destas, acha que proporia aumentar os impostos? Se pudesse, até desceria mais os impostos, para que as empresas pudessem ter melhores condições. Baixámos o que pudemos”, José Sócrates, 10 de maio de 2009

“Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa”, Cavaco de Silva, 9 de Março de 2006 e 9 de Março de 2011.

“O primeiro-ministro não é candidato e o Governo português apoia a candidatura de António Vitorino à presidência da Comissão Europeia”, gabinete do primeiro-ministro Durão Barroso, 16 de Junho de 2004

Durão Barroso garante que viu provas das armas de destruição maciça iraquianas, Junho de 2003

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O que faz o governo quando não gosta das notícias? Mente e ataca o mensageiro

Pedro Passos Coelho estava a caminho de Moçambique.

Maria Luís Albuquerque tinha ido para Washington.

O secretário de Estado da Administração Pública, José Leite Martins, convocou os jornalistas para uma reunião informal sobre a Contribuição Extraordinária de Solidariedade e combinou que as informações por ele prestadas seriam atribuídas a uma “fonte oficial” do ministério das Finanças com uma condição: tinham embargo até à meia-noite de quarta-feira.

As informações fizeram as manchetes dos jornais do dia seguinte.

O governo não gostou do efeito. E voltou a atacar o mensageiro: os jornalistas.

Em Maputo, Passos Coelho, que não sabia da reunião, classificou as notícias de “especulações”. Mentiu. E desautorizou um secretário de Estado.

Poiares Maduro, ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional e suposto coordenador da comunicação governamental também não sabia do encontro. Mentiram-lhe.

Em Lisboa, Luís Marques Guedes, ministro da presidência, acusou os jornalistas de terem transformado uma conversa em off em notícia. Mentiu. E desautorizou um secretário de Estado.

Paulo Portas, vice-primeiro-ministro, disse no Parlamento que o briefing com os jornalistas foi um erro que não devia ter acontecido. E “matou” um secretário de Estado.

Até agora, José Leite Martins, ex-chefe de gabinete de Durão Barroso, antigo Inspector-Geral de Finanças, secretário de Estado da Administração Pública desautorizado por Passos Coelho e Marques Guedes e assassinado por Paulo Portas, continua a ser governante.

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O momento “sai o Paulo entra o Paulo” do ano

A demissão irrevogável de Paulo Portas e o seu posterior recuo para ocupar o cargo de primeiro-ministro deram origem a um dos mais épicos momentos de humor da rádio portuguesa. O culpado: Vasco Palmeirim, acompanhado de Nuno Markl e Pedro Ribeiro.

O momento “não abandono o meu país e tu também não” do ano

No dia 2 de Julho de 2013, Paulo Portas apresentou a Pedro Passos Coelho a demissão do cargo de ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. Classificou-a de irrevogável. Depois, emitiu o seguinte comunicado:

1. Apresentei hoje de manhã a minha demissão do Governo ao Primeiro-Ministro.
2. Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.
3. São conhecidas as diferenças políticas que tive com o Ministro das Finanças. A sua decisão pessoal de sair permitia abrir um ciclo político e económico diferente. A escolha feita pelo Primeiro-Ministro teria, por isso, de ser especialmente cuidadosa e consensual.
4. O Primeiro-Ministro entendeu seguir o caminho da mera continuidade no Ministério das Finanças. Respeito mas discordo.
5. Expressei, atempadamente, este ponto de vista ao Primeiro-Ministro que, ainda assim, confirmou a sua escolha. Em consequência, e tendo em atenção a importância decisiva do Ministério das Finanças, ficar no Governo seria um acto de dissimulação. Não é politicamente sustentável, nem é pessoalmente exigível.
6. Ao longo destes dois anos protegi até ao limite das minhas forças o valor da estabilidade. Porém, a forma como, reiteradamente, as decisões são tomadas no Governo torna, efetivamente, dispensável o meu contributo.
7. Agradeço a todos os meus colaboradores no Ministério dos Negócios Estrangeiros a sua ajuda inestimável que não esquecerei. Agradeço aos meus colegas de Governo, sem distinção partidária, toda a amizade e cooperação.

A resposta de Pedro Passos Coelho foi surpreendente: não aceitou a demissão de Paulo Portas, promoveu-o a vice-primeiro-ministro, manteve Maria Luís Albuquerque e prendeu o líder do CDS ao seu próprio destino. Irrevogável? Nada disso.

Cazaquistão: as oportunidades de negócio que se querem agarrar

Há pouco mais de um mês publiquei este post sobre o Cazaquistão. Parecia um bocado deslocado. O que é que isso interessa, afinal? Interessa muito. Por isto. Amanhã nas bancas.

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Portugal-Angola: a “parceria estratégica” ainda não existe

“Só com Portugal, infelizmente as coisas não estão bem. Têm surgido incompreensões ao nível da cúpula e o clima político actual, reinante nessa relação, não aconselha à construção da parceria estratégica anunciada” 

Vamos lá ter calma. Nem isto é uma declaração de guerra por parte do presidente angolano, nem Angola vai começar a retirar o dinheiro investido em Portugal. Para mais porque a “parceria estratégica” entre os dois países não existe. Estava para ser criada, provavelmente, na cimeira bilateral que estava agendada para Fevereiro de 2014. E em que é que isso se traduziria? Em contactos privilegiados ao mais alto nível entre os responsáveis dos dois países. No fundo, é uma espécie de estatuto atribuído por Angola a Estados amigos. Actualmente, esta lista inclui quatro países: Estados Unidos, China, Brasil e África do Sul. Portugal seria o próximo Estado a entrar na lista – o que ainda pode acontecer porque muita coisa muda em quatro meses.

Claro que a mensagem de José Eduardo dos Santos não deve ser desvalorizada. O teor é forte. E, como tudo o que ele diz, é sobretudo para consumo interno. Para um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, esta “é uma mensagem directa ao governo, ao PS e aos tribunais. Basicamente está a dizer ‘deixem-se de brincadeiras’”. É também o culminar de um sucessivo rebaixamento da classe política portuguesa – de que Rui Machete foi o último exemplo.

Durante anos, José Eduardo dos Santos manteve uma óptima relação com uma geração de líderes políticos portugueses. A admiração em relação a Cavaco Silva mantém-se até aos dias de hoje. Tal como por Durão Barroso (por todas as razões). Se com José Sócrates o sentimento já não era o mesmo – tolerava-o – por Passos Coelho o respeito é ainda menor. Paulo Portas é um caso mais difícil. As manchetes de O Independente e as acusações que, durante anos, fez ao presidente angolano como líder do CDS, tornaram-no persona non grata em Luanda. Mas a sua acção hábil como ministro dos Negócios Estrangeiros fizeram-no ganhar alguns pontos. Só que esses pontos foram obtidos à custa de pedidos de desculpa e elogios exagerados. E como diz a sabedoria popular, quem tanto se rebaixa, acaba a ser pisado.

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A “herança envenenada” de Paulo Portas a Rui Machete

Há um ano, o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, decidiu cancelar a presença na 67ª Assembleia Geral das Nações Unidas. O pretexto foi a situação de crise interna no país. Ao fazê-lo deixou a cargo do embaixador português a representação do país quer na própria AG, quer nos encontros bilaterais e multilaterais que a ocasião proporciona e que são preparados durante meses pelas equipas diplomáticas. Na altura, foi um embaraço mais ou menos resolvido pela perícia diplomática de José Filipe Morais Cabral. Mas teve um custo: este ano a diplomacia portuguesa teve uma dificuldade acrescida em conseguir encontros relevantes para as prioridades da política externa portuguesa.

Ao contrário do que aconteceu em 2012, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, lidera a comitiva que, entre 24 e 28 de Setembro vai estar em Nova Iorque. E provavelmente por causa da decisão de Portas, na comunicação que enviou à imprensa sobre a agenda da viagem, o gabinete do ministro não pôde destacar mais do que o encontro “com o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon” e as reuniões com os “ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia e o almoço de trabalho dos ministros da CPLP, entre outros eventos de alto nível e encontros bilaterais”.

Ora, Ban Ki-moon reúne-se com toda a gente; os ministros da União Europeia encontram-se regularmente (se comparecerem nas reuniões marcadas, o que nem sempre acontece) e os ministros da CPLP tem várias ocasiões para almoçar. Os restantes “encontros bilaterais” resumem-se aos ministros do Uruguai, Argélia, Senegal, Turquia, Indonésia, Ucrânia, Tunísia, Andorra, Cabo Verde, Brasil, Mauritânia, Cazaquistão, Emirados Árabes Unidos, Moçambique, Marrocos, Rússia e o secretário-geral da Liga Árabe.

Para além dos membros da CPLP, serão verdadeiramente importantes para a diplomacia nacional Marrocos, Argélia, Rússia e agora o el dorado do Cazaquistão. É pouco. E não foi por falta de tentativas. Pelo contrário. Nisto, Rui Machete e a equipa do Palácio das Necessidades não têm culpa. Mas Paulo Portas tem. Talvez devesse ser ele a reunir-se com o representante de Andorra. 

Foto: Reuters