Rosa, Joana, André, Catarina. Todas eram Cândida Ventura

Estávamos sentados no café Slávia, junto ao teatro nacional de Praga. Cândida Ventura abriu a mala e tirou um cigarro de mentol. Era o primeiro da manhã. Lá fora o rio Voltava atravessava a cidade, tranquilo. Ela olhou em volta, deu umas baforadas e disse-me: “Alguma vez pensei, quando estava no ‘hotel de Caxias’, que ia durar até hoje?”

Era Abril de 2010. Cândida tinha então 91 anos. Fumava, bebia um copinho para activar a circulação, lia o Le Monde na internet e trocava emails com os amigos espalhados pelo mundo. Tinha, sobretudo, uma memória prodigiosa de um tempo que já não existe. Uma época em que funcionários clandestinos do Partido Comunista Português (PCP) viviam sem documentos, passavam fome e estavam sujeitos à prisão, tortura e isolamento. Um tempo em que percorriam o país de bicicleta, durante a noite, movimentavam-se para encontros clandestinos entre sinais e senhas conspirativas destinadas a iludir as autoridades do Estado Novo.

A Cândida viveu isso tudo. Olhando para ela era difícil acreditar como é que aquela mulher pequenina, com uns grandes e penetrantes olhos verdes podia ter enfrentado as dificuldades da clandestinidade durante tanto tempo. Foram 17 anos. Ininterruptos. Quase duas décadas em que, por saír quase sempre durante a noite, ficou para o resto da vida com uma grande dificuldade em tolerar a luz do sol e a obrigavam a andar sempre com os seus grandes óculos escuros. Isto para não falar no tempo passado no “hotel de Caxias”, onde esteve às portas da morte na sequência de diversas hemorragias provocadas por um aborto.

Falei com ela pela primeira vez há uns 12 anos. Estava então em O Independente quando o Vítor Cunha me deu o telemóvel dela com uma indicação: “ligas-lhe que ela quer por-nos em contacto com um amigo francês”. O amigo era Pierre Rigoulot, um investigador que se dedica a estudar regimes comunistas, que tinha então estado em Cuba e que tinha uma reportagem para publicar.

Desde então que nos mantivemos em contacto. Ela passou a telefonar-me para comentar notícias publicadas em França ou os mais recentes desenvolvimentos da política internacional. Vivia então em Portimão, sozinha, numa torre enorme. E à medida que conhecia cada vez mais da sua história, tinha de a conhecer pessoalmente. Acho que foi isso que ela gostou em mim: tinha paciência e vontade de a escutar. Durante muitas horas ouvi-a contar em como conheceu Álvaro Cunhal, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Fernando Piteira Santos, José Gregório, Mário Dionísio, Maria Lamas, o médico Pulido Valente, Manuel Campos Lima, António Sérgio, José Hermano Saraiva, Mário Soares, Dias Lourenço, Manuel Alegre, Vitorino Magalhães Godinho, Guilherme da Costa Carvalho, Dubcek e muitos, muitos outros. Registei a forma como se envolveu na política na universidade, como participou nos famosos Passeios do Tejo, como, já funcionária do PCP, se  movimentava de noite e como escolhia casas clandestinas. Fixei os pseudónimos que usou: Joana, Rosa, André, Catarina. Ouvi-a falar das perseguições que lhe moveram, das reuniões do Comité Central, no qual foi a primeira mulher a entrar após a reorganização do PCP no início da década de 1940 e dos dias passados na prisão onde, apesar das dificuldades, nunca falou com a PIDE. 

Um dia, já depois de vários encontros, disse-me: “Vou a Praga. Quer vir comigo?” Claro. Foi assim que fomos parar à capital a República Checa e ao café Slávia e percorremos todos os locais marcantes da Primavera de Praga, bem como os sítios onde ela viveu e trabalhou na década que passou no exílio. Esse ano de 1968 é talvez um dos mais controversos na sua vida. Ela garantiu-me vezes sem conta (tal como tinha escrito no livro O Socialismo que eu vivi) que esteve sempre de alma e coração com os checos contra a invasão soviética e que se manteve no posto de representante do PC junto do PCUS para poder ajudar a mudar o sistema por dentro. Os portugueses que viviam em Praga na época dizem que isso é falso e acusam-na de ter estado sempre ao lado do partido contra a revolução. Mas o seu papel não está aqui em causa.

O que me importa é a mulher que conheci. É por isso que não resisto a partilhar um dos episódios mais insólitos e reveladores que passei com ela. Estávamos no terminal de embarque do aeroporto de Lisboa, 30 minutos antes de entrar no avião rumo a Praga, quando ela decidiu perguntar a uma funcionária da limpeza onde podia fumar. A mulher disse-lhe que não podia. Mas a Cândida não desistiu: “Então e se eu for à casa-de-banho?”, replicou. Apanhada desprevenida pela figura aparentemente frágil, a mulher riu-se e disse-lhe em voz baixa: “Só se for na divisão dos deficientes”. A Cândida sorriu de volta, agradeceu e dirigiu-se aos lavabos de onde voltou minutos depois, com um ar satisfeito. De certeza que nem deixou cair cinzas no chão: além do maço de tabaco, trazia sempre na mala um pequeno cinzeiro portátil com uma folha de canábis na tampa.

Nos últimos tempos falámos pouco. A saúde dela foi piorando depois de uma queda que a levou à mesa de operações. Na última vez que lhe telefonei, há uns meses, tenho a certeza que não me reconheceu apesar de termos combinado ir almoçar ao Clube Naval quando eu fosse a Portimão. Não chegou a acontecer. Hoje recebi a notícia de que a Cândida tinha morrido. Estas breves palavras não lhe fazem justiça. Esfumam-se num cigarro. Aquele com que a Cândida as estaria a ler.

Até sempre.

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Cândida Ventura, ao centro, durante os Passeios no Tejo

 

Coincidências: o governo caiu no dia em que Cunhal nasceu

A data vai ficar na história. Esta terça-feira, 10 de Novembro, a maioria de esquerda na Assembleia da República derrubou o governo de coligação PSD/CDS-PP. Por ironia do destino, a moção de rejeição do Partido Socialista foi aprovada no dia em que Álvaro Cunhal, líder histórico comunista, faria 102 anos. Uma excelente ocasião para recordar um artigo e uma entrevista que guardo com especial carinho e orgulho.

Uma resistente no Parlamento

Conheci a Domicília Costa há uns quatro anos. Estava a trabalhar num projecto que está há demasiado tempo na gaveta e depois de ler uma reportagem do Público achei que ela me podia ajudar. Telefonei-lhe. Sem me conhecer de lado nenhum, aceitou logo falar comigo. Encontrámo-nos ao fim da tarde num café do Campo Pequeno. A Domicília estava à minha espera, acho que a beber um carioca de limão. Recebeu-me com um sorriso. Quis então saber exactamente o que estava a fazer e depois começou a contar a sua história. Aquele que devia ter sido um encontro de uns 20 minutos foi-se prolongando por quase uma hora. É que quando começa a contar a sua história, a Domicília, como ela própria diz, “nunca mais se cala”. Teríamos continuado por mais tempo não fosse ela ter de apanhar o autocarro.

A semana passada voltei a vê-la nos jornais. Tinha sido eleita deputada pelo Bloco de Esquerda e dizia, com toda a sinceridade do mundo, que não estava à espera de ser eleita. Era apresentada como doméstica (um termo que adquiriu uma carga negativa) e reformada (algo que não é). Alguns acrescentavam que teria gerido casas clandestinas do PCP, como se isso fosse a coisa mais banal do mundo. Não é.

A Domicília Costa tem todo um passado de luta na clandestinidade numa época em que poucos ousaram fazê-lo. Primeiro assistia em silêncio à actividade dos seus pais, funcionários do PCP. Tinha de fingir que ia à escola quando não o podia fazer, para os vizinhos não desconfiarem. Aos 9 anos começou a dobrar folhetos que o pai fazia na tipografia clandestina. Aos 11 já trabalhava a sério na produção de jornais, panfletos e manifestos. Aos 20 saiu de casa para criar uma nova morada clandestina com um homem que não conhecia. Ajudou muita gente até se exilar em França.

Voltou a Portugal em 1975. Agora, 40 anos depois, vai estrear-se na Assembleia da República. Talvez seja a única com uma experiência semelhante. Não vai só enriquecer o Parlamento. Vai também dar-lhe dignidade – e a memória, que faltou à nossa comunicação social. A entrevista sobre a sua vida na clandestinidade pode ser lida esta semana, na Sábado.

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O subsídio “tóxico”

Não sei se o PCP recebeu dinheiro do BES. Não sei se o BES deu dinheiro ao PCP. Não sei se o PCP tem conta no Novo Banco. Mas sei que as reacções à notícia de hoje no Público são manifestamente exageradas.

Factos: a documentação interna do BES diz que foi feito um donativo ao Partido; a ter acontecido esse donativo será ilegal; o PCP diz que não solicitou nem recebeu nenhum patrocínio do BES. Agora caberá à Entidade das Contas e Financiamentos Políticos analisar a questão e decidir se houve ou não ilegalidade.

O Público cita documentos do Departamento de Municípios e Institucionais do BES, de Março deste ano. Também hoje, a Sábado cita um documento da Comissão Executiva do BES, mas de 2 de Abril de 2014. Tem o número 1513 e diz o seguinte:

“O Dr. Amilcar Morais Pires apresentou ainda uma proposta do Departamento de Municípios e Institucionais com vista ao patrocínio à Festa do Avante, a decorrer entre 5 e 7 de Setembro, consubstanciado na concessão de um donativo de 11.000€ e na instalação de um conjunto de
equipamentos bancários no local, v.g. ATM’s, TPA’s, cofres nocturnos, transporte e tratamento de valores e máquina de contar notas e moedas. A Comissão Executiva aprovou esta proposta, prevista em termos orçamentais.”

O que aconteceu depois disto? Há-de saber-se. Sabe-se sempre.

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A fuga

A 3 de Janeiro de 1960, 10 funcionários do Partido Comunista Português fugiram da Fortaleza de Peniche. A fuga tornou-se um dos episódios mais ímpares da história do PCP. Pela vitória sobre a ditadura salazarista. Pelo regresso à liberdade de importantes quadros clandestinos. E, sobretudo, pelo fim do cativeiro do futuro secretário-geral do partido, Álvaro Cunhal, que tinha passado os últimos 11 anos atrás das grades.

Apesar da sua importância, na época a fuga passou despercebida à esmagadora maioria da população e só foi conhecida nos círculos políticos, policiais e do próprio PCP clandestino. No entanto, hoje, é importante que o feito desdes homens continue a ser recordado. Porque foi também graças à luta deles – independentemente de simpatias ou antipatias ideológicas – que vivemos numa sociedade democrática. Para memória futura, ficam aqui os nomes dos elementos do grupo: Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Jaime Serra, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Guilherme Carvalho, José Carlos, Francisco Martins Rodrigues.

A vida privada de Álvaro Cunhal

Ontem à noite a TVI emitiu uma grande reportagem sobre Álvaro Cunhal. Chama-se “Álvaro, Eugénia e Ana – os 100 anos de Cunhal”. O trabalho de Judite de Sousa foi apresentado como uma reportagem cheia de factos desconhecidos e surpreendentes sobre a vida privada do antigo líder comunista, com fotografias e documentos inéditos e testemunhos originais (incluindo a primeira entrevista à secretária de Cunhal, Olga Constança). Mais do que isso: Judite de Sousa prometeu revelar a verdade sobre a relação de Álvaro Cunhal com a filha porque, disse ao DN, “tudo o que está escrito sobre essa relação não corresponde à verdade. A reportagem mostra que ele foi um pai muito presente na vida da filha.”

Vi a reportagem com curiosidade. O assunto é-me querido. E é por isso que não posso deixar passar em claro as afirmações de alguém com especiais responsabilidades, como é Judite de Sousa, de que o lado humano de Álvaro Cunhal nunca tinha sido abordado ou que, se o foi, o tinha sido de forma incorrecta. A verdade é que já foram escritos milhares de artigos e inúmeros livros sobre o líder histórico do PCP – entre os quais um, do investigador e ex-jornalista Adelino Cunha, cujo título era, precisamente, Álvaro Cunhal, retrato pessoal e intimo. Para além disso, Eugénia Cunhal já deu dezenas de entrevistas sobre o irmão. Domingos Abrantes também. Olga Constança diz pouco mais para além de que, como todos os comunistas, tratava Cunhal por Álvaro.

No entanto, o verdadeiro motivo que me leva a escrever este post, é outro. No início de Junho de 2010, publiquei na Sábado um artigo sobre a vida em família de Álvaro Cunhal – que fez a capa da dessa edição – cujo centro era exactamente a relação do líder comunista com a filha. Será difícil à Judite de Sousa classificar esse trabalho de falso porque ele era constituído, em boa parte, por uma entrevista a Ana Cunhal, a primeira que ela alguma vez deu. Está lá tudo: a infância na ex-URSS, o divórcio dos seus pais, as férias com o líder comunista na Europa de Leste, o regresso a Portugal, os passeios pela praia das maçãs, a visitas dos netos…

Também será difícil à directora de informação da TVI alegar desconhecimento. Além de ter mostrado duas imagens publicadas na Sábado a própria Judite de Sousa foi uma das fontes contactadas para este artigo. Motivo: poucos o sabem, mas o seu pai foi funcionário do Partido e isso permitiu-lhe ser, provavelmente, a única jornalista a entrar na casa onde Cunhal passou os últimos anos de vida, nos Olivais. A reportagem emitida ontem não é má. Mas não traz grande novidade sobre Álvaro Cunhal. No entanto, para o caso de não estares mesmo recordada, fica aqui o texto, Judite.