Os combatentes portugueses do Estado Islâmico: um excerto

Esta tarde é apresentado, na Fnac do Centro Comercial Colombo, o meu novo livro, Os Combatentes Portugueses do Estado Islâmico. Para aguçar o apetite, fica aqui um excerto do capítulo Jihad 2.0, que se debruça sobre a investigação da Polícia Judiciária e sobre a recolha de informações do Serviço de Informações de Segurança. Este mesmo excerto foi usado para a pré-publicação do livro na Sábado, a 23 de Abril. Estão obviamente convidados a aparecer. A apresentação estará a cargo do presidente da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento, Vasco Rato.

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“Bastaram três parágrafos num documento com 413 páginas para revelar uma realidade que estava na ordem do dia em vários países europeus mas que até então tinha passado ao lado da sociedade portuguesa: havia cidadãos nacionais a combater na Síria. Fosse em forças apoiadas pela União Europeia ou em grupos rebeldes já então classificados como organizações terroristas. Divulgado a 28 de Março de 2014, o documento não mencionava um dado importante: essa realidade era já do conhecimento das autoridades portuguesas há mais de um ano e meio. A decisão de a divulgar teve por objectivo chamar a atenção da sociedade portuguesa para o fenómeno – e, em última instância, preveni-lo.

Os primeiros indícios de que haveria portugueses em palcos de “guerra santa” começaram a chegar à Polícia Judiciária e ao Serviço de Informações de Segurança através dos mecanismos de cooperação internacional na segunda metade de 2012. Na época foram uma surpresa. Mas não total. As várias polícias e serviços de informações dos Estados-membros da União Europeia há algum tempo que vinham assinalando a deslocação crescente de combatentes ocidentais, primeiro para o Iraque, depois para a Síria. Portugal era, até então, uma das excepções. A viagem ou a identificação de um ou mais cidadãos nacionais era uma questão de tempo. Que tinha chegado.

Na época, o fenómeno não suscitava grande preocupação. Era visto como uma repetição do que já tinha ocorrido no passado: primeiro no Afeganistão, depois na Bósnia e na Tchechénia, por fim, no Iraque. Havia mesmo quem o comparasse com o que aconteceu na guerra civil de Espanha. Para além disso, a rebelião armada contra Bashar al -Assad, que começara em 2011, era encarada com simpatia por parte do Ocidente. No ano seguinte, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido apoiaram a oposição síria com dinheiro e informações e, em Maio de 2013, a União Europeia levantou o embargo da venda de armas aos rebeldes, como forma de demonstrar um apoio total à instauração de um regime democrático. O problema, ainda pouco perceptível, é que já então havia grupos a actuar com um segundo objectivo: a instauração de um califado islâmico na região.

Foi um desses ainda pequenos grupos radicais que, a 19 Julho de 2012, se atravessou no caminho dos fotojornalistas John Cantlie e Jeroen Oerlemans: o britânico e o holandês tinham acabado de atravessar a fronteira turca, rumo a um campo que desconheciam ter sido tomado por rebeldes, quando foram capturados e feitos prisioneiros. Primeiro os jihadistas julgaram que eles eram espiões. Depois começaram a pensar pedir um resgate pela sua libertação.

No segundo dia de cativeiro, os repórteres tentaram fugir. Estavam descalços. Ainda assim, correram algemados entre as pedras e os arbustos – apenas para serem parados a tiro: Cantlie foi atingido no braço esquerdo; Oerlemans na anca. Recapturados, receberam cuidados médicos dos rebeldes. Mais concretamente, de um clínico do serviço nacional de saúde inglês. A partir daí foram vendados. Ouviam apenas o som de facas a serem afiadas, ameaças de decapitação e vozes que viriam a revelar -se importantes para as autoridades britânicas após a sua libertação, ao fim de uma semana, pelo Exército Livre Sírio. “Falavam-nos todo o dia no Corão e em como iriam instaurar a sharia na Síria. Acho que não eram da Al-Qaeda; pareciam demasiado amadores. Diziam: ‘Não somos a Al-Qaeda, mas a Al-Qaeda está ali em baixo’”, recordou o fotojornalista holandês ao The New York Times. Mais importante: “Eram todos jihadistas estrangeiros; acho que não havia um único sírio entre eles.” John Cantlie foi mais concreto, num artigo escrito para o The Sunday Times: “Ao todo eram uns 30, uma dúzia falava inglês e cerca de nove tinham sotaques londrinos. Dois deles estavam tão ocidentalizados [a expressão usada foi “anglicised”] que não falavam árabe.”

A presença de ingleses (ou de antigos residentes no Reino Unido) no conflito já então preocupava as autoridades britânicas. Polícias e serviços secretos começaram então a investigar. E ao reverem as listas de passageiros que tinham viajado recentemente de Londres para a Turquia repararam que entre eles estavam vários portugueses. Alguns tinham já regressado à Europa. Mas pelo menos um membro do grupo continuava na região: chamava-se Nero Patrício Saraiva.

“Vivia na zona entre a Turquia e a Síria. As informações que temos indicam que ele passava muito de um lado para o outro da fronteira. Por isso é bastante provável que estivesse entre o grupo que raptou os jornalistas britânicos”, conta uma fonte bem informada. Confrontado com uma fotografia de Nero Saraiva, Jeroen Oerlemans diz que o rosto não lhe é familiar: “Lamento mas não o reconheço.” Para as autoridades, esta negação explica-se de uma única forma: “Ou não o viu ou está com medo. Por outro lado não sabemos o que o John Cantlie teria dito se visse as fotografias.” Em Novembro desse ano, o fotojornalista britânico voltou à Síria, apenas para ser raptado. Ainda hoje continua refém do Estado Islâmico.

Na época, questionadas pelas congéneres britânicas, as autoridades portuguesas recolheram e passaram a pouca informação disponível sobre o grupo: tinham todos raízes nas ex-colónias portuguesas; viviam todos na Linha de Sintra; tinham todos emigrado para Londres, alguns há mais de uma década; apesar da diferença de idades entre eles tinham todos pontos de contacto em comum; e – isso era importante – nenhum se tinha convertido ao Islão em Portugal.

Aos poucos, a Polícia Judiciária (PJ) e o Serviço de Informações de Segurança (SIS) foram recebendo mais dados sobre o grupo. Suspeitas de que teriam feito parte de redes que usariam jovens ambiciosos ou carenciados para, através dos seus documentos de identificação verdadeiros, obterem apoios estatais como bolsas de estudo, subsídios de desemprego ou de inserção social. Exactamente como e quando se radicalizaram permanece um mistério, apesar de, aparentemente, terem frequentado e vivido em bairros londrinos conhecidos pela presença de extremistas como Leyton ou Waltham Forest.

A 9 de Janeiro de 2013, as autoridades britânicas deram um novo passo. No âmbito da investigação ao rapto de John Cantlie e Jeroen Oerlemans, a Metropolitan Police da Scotland Yard prendeu quatro homens. Um deles preparava-se para embarcar, no aeroporto de Gatwick, num voo com destino a Damasco, capital da Síria. Apesar de ter dupla nacionalidade, foi identificado como “um português” de 33 anos. Era um dos amigos de Nero Saraiva em Londres [tal como a SÁBADO revelou na última edição, tratava-se de Sadjo Turé, nascido na Guiné-Bissau mas criado na zona de Massamá].

O português acabou por ser libertado uma semana depois sem acusação. Mas permaneceu no radar das autoridades. Tal como os restantes membros do grupo da Linha de Sintra reunido em Londres, cujo percurso até então continuava a ser reconstituído: os irmãos Celso e Edgar Rodrigues da Costa, Fábio Poças e Sandro Monteiro. Foi assim que se descobriram indícios de que Nero Saraiva e os irmãos Celso e Edgar teriam viajado até à zona do Iémen e da Somália no início de 2012, onde terão recebido formação militar. Só depois partiram para a Síria. Nero ficou por lá. Os irmãos regressaram à Europa.

Celso viajou para Lisboa no fim de 2012. Após a detenção do sexto membro do grupo no aeroporto de Gatwick, Edgar também decidiu regressar a Portugal. Passaram grande parte de 2013 em casa dos pais, num 9º andar em Massamá, na Linha de Sintra, perto de uma escola e de uma igreja católica. Mantiveram-se discretos. Embora activos. Ao longo desses meses, as autoridades detectaram mais de 10 transferências de dinheiro via Western Union que tinham os irmãos como destinatários. Terão recebido várias dezenas de milhares de euros que tiveram depois destinos diferentes. Uma parte foi reencaminhada para países africanos e do Médio Oriente como Guiné -Bissau, Somália, Iémen e Turquia; outra foi entregue em mãos a cerca de seis jihadistas que pernoitaram na zona de Lisboa antes de embarcarem para a Síria. Três terão ficado em casa de conhecidos dos dois irmãos. Os restantes foram recebidos por amigos de Sandro Monteiro. Não era uma operação complexa. “Funcionava tudo na base da informalidade. Eles ligavam a alguém, diziam que um amigo de Londres vinha cá passar uns dias e perguntavam se ele podia ficar lá em casa”, conta uma fonte.

Em Agosto desse ano, Fábio Poças veio a Portugal visitar a família. Passou três dias em Mem Martins antes de regressar a Londres. Mais ou menos na mesma altura, Celso Rodrigues da Costa voltou a partir. Primeiro para a capital britânica, depois para a Turquia. Aí, Nero te-lo-á recebido e ajudado a atravessar a fronteira com a Síria. Fez o mesmo com Fábio Poças em Setembro. Edgar juntou-se-lhes no final do ano. E Sandro seguiu-o em Janeiro de 2014 – tal como o português que tinha sido detido em Gatwick. Viagens registadas pelas autoridades.

Durante todo este tempo, a PJ, o SIS e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras continuaram a receber informações sobre a chegada de outros grupos de portugueses ou luso -descendentes à Síria. Conhecidos serão 15 – sem contar com aqueles que já terão morrido –, incluindo as mulheres que adquiriram a nacionalidade através do casamento antes da viagem para a Síria.”

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Leitura para o feriado: Os estrangeiros que mandaram em Portugal

A Sara Capelo não é só a benjamim da secção de política da Sábado. É também uma das mais talentosas e versáteis jornalistas que conheço. Não sei como ela consegue mas, entre as mil e uma coisas que ela faz na revista todas as semanas, a tese de mestrado e as aulas da mandarim, conseguiu ainda escrever Os estrangeiros que mandaram em Portugal, um livro sobre os sete governantes internacionais que estiveram à frente dos destinos do nosso País antes da chegada da troika: Filipe I, Cardeal Alberto, Diogo de Silva y Mendoza, Margarida de Sabóia, Junot, Wellesley e Beresford.

Para além disso, é tão – mas tão – simpática que me deixou publicar aqui o excerto do capítulo sobre Wellesley. Leiam que vale a pena. E para quem quiser, ela vai estar hoje, sexta-feira, a dar autógrafos e pronta a falar sobre a história de Portugal na feira do livro de Lisboa, às 16h30, na editora Matéria Prima.

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“Wellesley

A preparação da defesa da capital continuava. O plano: deixar os franceses descer até perto de Lisboa, mas não conseguiriam passar dali. E estariam tão debilitados com a falta de víveres, que não teriam forças para lutar. Para enfraquecê-los a este ponto, [Wellesley] mandou que os portugueses esvaziassem as suas casas e queimassem as suas colheitas. Aqueles que se recusassem, seriam enforcados.

[…]

No dia 7, o padre Feliciano José Alves Ferreira realizou a última missa em Vale de Pinta. Foi um espectáculo de dor: o povo chorava, gritava, pedia a salvação a Deus. E, depois, o silêncio. A partir dessa tarde, os sinos das igrejas de Santarém praticamente deixaram de tocar. Durante cinco meses, escreveu o oficial inglês, John T. Jones, duas mil milhas do território português ficaram quase desabitadas (Rita 2010, 46; 49). Os frutos e cereais produzidos entre a Chamusca e Samora Correia foram enviados para a capital. Quase nada ficava para que os inimigos se abastecessem.

****

Quando chegaram perto de Torres Vedras, a visão das linhas deve ter espantado os franceses. Um mês ficaram ali, com o seu chefe supremo a admitir que aquela construção era intransponível. Pelo menos com o número de homens que tinha. Massena pediu reforços e mais artilharia. E depois deu ordens para que os seus homens recuassem até Santarém, onde os soldados esfomeados e, provavelmente, enraivecidos pela espera, cometeram crimes terríveis. Nas povoações tinham ficado os que não conseguiam andar para fugir ou não tinham transportes para carregar os seus bens e não os queriam abandonar. As casas foram queimadas. Os potes de barro lá deixados, partidos. Os bens mais preciosos roubados. E até as octogenárias que se encontravam acamadas eram estrupiadas.

Mesmo as raparigas e mulheres que se escondiam nos campos e comiam figos e bagas de uvas eram encurraladas pelos soldados que as violavam. Os padres eram encontrados escondidos com famílias em cavernas. Os homens que eram apanhados, eram obrigados a carregar alimentos até onde os soldados mandavam. Muitos iam nus e descalços para divertir a tropa. E se não conseguissem (ou mesmo que cumprissem a função tal como mandavam) eram açoitados:

– Jumento francês, dá-me o argent senão eu mato-te!

Manoel Paschoal foi morto com uma pistola por não lhes dar dinheiro. Ao leproso Francisco Coelho, que há anos causava comoção entre os seus vizinhos pelo seu aspecto, arrancaram as orelhas (ainda ele estava vivo!) por ser incapaz de carregar bens. Depois, cortaram-no em pedaços com uma espada. Os corpos ficavam ao ar-livre e logo eram devorados pelos cães. O ar estava infecto.

[…] Os soldados ingleses e portugueses também cometiam crimes: arrancavam e queimavam portas, janelas, móveis; roubavam o gado; tiravam os poucos bens que os coitados dos migrantes forçados tinham conseguido carregar com eles e só os devolviam a troco de dinheiro. Beresford mandou que estes militares-ladrões fossem julgados. Wellington confessou vergonha por estes comportamentos: “As tropas britânicas têm a este respeito, em muitas ocasiões, causado mais prejuízo do que o inimigo”.

Entretanto, os franceses desenvolviam um plano de ataque às tropas sediadas nas Linhas de Torres. Desde Outubro que trabalhavam na construção de uma ponte flutuante que lhes permitisse atravessar o Tejo, obter víveres na outra margem e atacar o flanco inimigo. Neste período de espera, eram cada vez menos os franceses. Muitos desertavam: 1.600 chegaram a fugir de uma vez, comandados por um general que os levou a roubar e cometer outros crimes na zona oeste. Estavam em roda livre estes franceses, que para evitar a fome, até cães comiam. Outros morriam com a febre tifóide, que se propagava sem amarras entre os organismos destes homens, enfraquecidos pela falta de comida e de condições de higiente e pelo frio. Eram as condições ideais para esta epidemia, que também atacou os portugueses. Os medicamentos escasseavam. O povo quedava-se de fome, frio e de tifo. Ao que estava destinado: se não a morrer às mãos do inimigo, a perecer por causa do aliado.”

Jorge Coelho, a entrada na maçonaria e a desilusão

Jorge Coelho é dos políticos mais influentes dos últimos 20 anos. Sim. É. Como em continua a ser. Ainda hoje tem uma capacidade de interferir em decisões das mais altas esferas do país que não está ao alcance de muitos. Por isso, o Fernando Esteves passou os últimos anos a investigar e a reconstruir a vida de um homem que para muitos continua a ser um mistério. Da infância à entrada na política, da passagem por Macau à doença que quase o matou, da maçonaria ao mundo dos negócios. Está lá tudo. O Todo-Poderoso é um livro incontornável para se conhecer não só o homem como também os bastidores de muitas decisões que influenciaram o país – incluindo a forma como José Sócrates chegou à liderança do PS. Digo isto com especial orgulho: para além de trabalhar com o Fernando há mais de 10 anos, ele é um dos meus amigos mais próximos. Talvez por isso me tenha permitido publicar aqui um dos capítulos da sua obra: sobre a entrada de Jorge Coelho na maçonaria. Leiam, avaliem e comprem. Vão ver que vale a pena.

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“Capítulo XIII

O MERGULHO NA MAÇONARIA

Sentado numa câmara exígua e sombria, Jorge Coelho reflectia. Olhava para as caveiras humanas desenhadas nas paredes gastas da sede do Grande Oriente Lusitano (GOL), em Lisboa, enquanto tentava encontrar as palavras certas para registar os seus últimos pensamentos na qualidade de membro da sociedade «profana». Tinha sido conduzido à sala com os olhos vendados, depois de ter sido obrigado a dar várias voltas pelo palácio maçónico. As curvas e contracurvas confundiram‑no ao ponto de não saber exactamente onde se encontrava. Era esse o objectivo. Se quisesse fugir, não sabia para que lado correr. Restava‑lhe continuar.

Tinha alguns minutos. Sistematizou ideias. Avançou para a folha em branco. Colou a ponta da caneta ao papel e fez o que tinha a fazer. O momento em que finalmente assinou o «testamento maçónico» simbolizou a sua morte profana. O mestre‑de‑cerimonias – uma espécie de mordomo numa loja maçónica, encarregado de fazer cumprir escrupulosamente o ritual – surgiu à porta. Pediu‑lhe o testamento. Precisava de o partilhar com os seus irmãos, no sentido de perceber se Jorge Coelho reunia condições para ser aceite na família maçónica. Seguiram‑se mais uns instantes de reclusão. Até que o mestre‑de‑cerimonias voltou ao seu encontro.

Minutos depois, novamente de venda negra a cobrir‑lhe os olhos, com a perna esquerda das calças arregaçada e uma parte do peito completamente exposta, Jorge Coelho conseguia apenas distinguir sons, vozes e instruções dadas pelo Venerável Mestre – que presidia à cerimónia – da loja a que estava prestes a aderir como aprendiz. O cenário era intimidatório.

Na derradeira prova antes de poder ser membro de pleno direito do GOL, fizeram‑no dar três voltas completas ao templo. Sempre acompanhado pelo mestre‑de‑cerimonias, superou o teste. Pelo caminho, teve de ouvir barulhos violentos de espadas contra o chão e de malhetes a martelar em madeiras. Sentiu o calor do fogo nas mãos e a temperatura fria da água no corpo. Já com os percursos feitos – sempre da esquerda para a direita da loja, que é como quem diz das trevas para a luz –, mas ainda de olhos vendados, foi conduzido ao altar. Estava na altura de ser finalmente iluminado pela figura do Venerável. Tiraram‑lhe a venda.

O cenário era impressionante: dezenas de homens ornamentados com aventais de cores e disposições variadas, alinhados como numa parada militar, olhavam para si. Estavam ansiosos por recebe‑lo. Identificou algumas figuras que lhe eram familiares: João Cravinho, que foi seu colega no Governo; José Miguel Boquinhas, ex‑secretario de Estado da Saúde e seu grande amigo, ou Maldonado Gonelha, ex‑ministro da Saúde. Depois disso ainda apareceria João Soares, ex‑presidente da Câmara Municipal de Lisboa. À sua frente, o Venerável Mestre – Luís Nunes de Almeida, ex‑presidente do Tribunal Constitucional, entretanto morto – levantou uma espada que atravessava o testamento maçónico que o neófito escrevera antes de entrar. Acto contínuo, pegou‑lhe fogo.

Ficaram todos a assistir à transformação dos pensamentos do aprendiz em cinzas. O socialista era oficialmente membro de pleno direito de uma das organizações mais discretas do mundo. Jorge Coelho foi um maçon tardio. Seduzido a entrar no GOL, a maior e mais tradicional obediência maçónica portuguesa, por Maldonado Gonelha, nunca foi um «irmão» exemplar. Apesar do entusiasmo inicial, a sua taxa de comparência nas reuniões da loja sempre foi muito baixa. «Não tinha muito tempo. Entrei porque tinha curiosidade. Os meus amigos que lá estavam diziam‑me maravilhas da instituição e comecei a desenvolver a vontade de participar, na perspectiva do aperfeiçoamento pessoal.»

Ao contrário do que acontece com muitos dos aderentes à maçonaria, naquela altura Jorge Coelho não precisava da organização para nada. Já tinha sido tudo o que queria na política. Mas o contrário não era verdade: alguns membros da organizaçãoprecisavam de si, nem que fosse para ostentar – e tirar disso proveito junto de outros, quer no plano político quer no campo empresarial – a alegada «influência» que o estatuto de «irmandade» com o dirigente socialista lhes proporcionava.

Em Fevereiro de 2005, José Sócrates venceu, como se esperava, as eleições legislativas, derrotando um Santana Lopes profundamente desgastado pela sucessão de escândalos que ditou a convocação de eleições antecipadas por Jorge Sampaio. Com a maioria absoluta que obteve Sócrates, poderia fazer literalmente o que quisesse. O seu estado de graça era total.

No processo de formação de Governo deu que falar a alegada «varridela» sofrida pela ala maçónica do partido, na qual se incluía Jorge Coelho. Novas figuras como Pedro Silva Pereira, Freitas do Amaral (convidado para ministro dos Negócios Estrangeiros) ou Mário Lino estavam distantes de quaisquer rituais relacionados com a utilização de aventais e outro tipo de parafernália pouco ortodoxa. À boca fechada, os pedreiros livres criticavam o processo.

Numa escuta telefónica do Caso Portucale (uma investigação ao alegado tráfico de influências, dentro do Governo PSD/CDS, para a aprovação de um projecto imobiliário do grupo Espírito Santo), o dirigente do CDS Abel Pinheiro (responsável pelas finanças do partido e proprietário do telefone sob escuta) e Rui Gomes da Silva (ex‑ministro do Governo cessante de Santana Lopes), concordavam que os maçons estavam sob fogo cerrado de José Sócrates, que supostamente se encontraria empenhado em afrontar os «irmãos» do GOL.

Para Abel Pinheiro e Rui Gomes da Silva, as nomeações para o Governo deveriam respeitar uma quota maçónica. E, garantiu Abel Pinheiro, as escolhas de Sócrates mereciam a censura de muitos, incluindo a de Jorge Coelho. A transcrição da escuta, realizada no dia 6 de Março de 2005 entre as 16h15 e as 16h36, é reveladora sobre dois fenómenos: a leviandade com que dois maçons falam entre si sobre assuntos do Estado e a tentação da utilização do nome de outros para insinuar uma influência e um acesso ao poder que é muitas vezes ilusório:

Rui Gomes da Silva: Tou!

Abel Pinheiro: Rui!

Rui Gomes da Silva: Abel, como está?

Abel Pinheiro: Você está a descansar, já?

Rui Gomes da Silva: Tou, tou, estou a descansar.

(…)

Abel Pinheiro: Eles [o PS] vão dar cabo disto tudo, não é? (…)

Quando o professor Freitas [do Amaral] é ministro dos Negócios

Estrangeiros, isto revela variadíssimas coisas.

Rui Gomes da Silva: É.

Abel Pinheiro: Revela que o PS comprou um ministro.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Comprou, como se compra… vá lá, o queijo limiano, isto é o queijo limiano elevado ao cubo, não é?

Rui Gomes da Silva: Exactamente. Isto é o queijo limiano.

Abel Pinheiro: Bom, eu acho que isto é mau porque ninguém tem coragem de dizer que o Freitas é um vigarista! Tem de se dizer com todas as letras: «É um vigarista!» (…) E segundo: um ministério, um ministério, que um sujeito aceita ser ministro e faz as declarações que fez ao Expresso.

Rui Gomes da Silva: Ah, da carta a dizer que isto…

Abel Pinheiro: Aceitei ser ministro depois de saber a lista dos outros.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Quer dizer, isto é uma vergonha para um primeiro‑ministro! Logo à cabeça.

Rui Gomes da Silva: É, é uma vergonha.

Abel Pinheiro: Quer dizer, um primeiro‑ministro que aceita um senhor ser ministro, diga «Diga cá os nomes a ver se me servem.» Ó meu caro amigo! Bom, isto é para pôr de lado, o senhor. Depois, quando você vê – disse‑me o Miguel Relvas que falou ontem… falou… falou‑me ontem, que tinha falado na sexta‑feira com o Jorge Coelho, que está em Paris a fazer tratamento.

Rui Gomes da Silva: O senhor está em que estado? Ai está pior, não é?

Abel Pinheiro: Ele foi fazer aquilo… não sei se está pior, mas tem… aquilo é recidivante, tem de fazer… pronto, coitado, tem de fazer o tratamento. E diz que o Coelho estava de cabeça perdida! Disse uma coisa logo. «Eles que não pensem que o Seguro vai ficar como líder parlamentar!»

Rui Gomes da Silva: Pois, porque ele… mas ouça lá! Ele fez isto como? Este Governo? Este Governo é uma vergonha, porque não (imperceptível) ninguém…

Abel Pinheiro: Mas ouça, eu acho o Governo, como disse o António José… como é que se chama? O gajo do Noticias do Porto?

Rui Gomes da Silva: António José Teixeira, sim.

Abel Pinheiro: Que não é do nosso lado, é do lado deles.

Rui Gomes da Silva: Sim.

Abel Pinheiro: Disse aquilo que é definitivo: «Isto não é um Governo do PS, é um Governo do Engenheiro Sócrates.»

Rui Gomes da Silva: É, sim.

(…)

Abel Pinheiro: Quer dizer, isto é um Governo em que quem tem na prática o poder é o preto [António Costa], não é?

Rui Gomes da Silva: É, é.

Abel Pinheiro: O resto são histórias.

Rui Gomes da Silva: Olhe uma coisa, e maçonaria, não entra ninguém, pois não? Ele…

Abel Pinheiro: Quem?

Rui Gomes da Silva: Os gajos da maçonaria [estão] todos fora.

(…)

Abel Pinheiro: Dizia o Nobre Guedes ontem lá no Conselho Nacional que este é o Governo mais anti‑clerical desde o 25 de Abril!

Rui Gomes da Silva: Eu acho… é o mais anti‑clerical e anti‑maconaria. O gajo mete os gajos da Igreja todos fora e da maçonaria todos fora.

(…)

Abel Pinheiro: [o] que o torna muito vulnerável, não é!

Rui Gomes da Silva: Claro, sim.

Sobre esta escuta, Jorge Coelho limita‑se a dizer que «o senhor Abel Pinheiro tem uma imaginação muito fértil. Nunca disse nada daquilo, como é óbvio!»

Na Camões, o socialista era a figura mais proeminente. Ao contrário do que seria expectável, não foi colocado numa das lojas mais importantes do GOL. Poderia ter escolhido estruturas tradicionalmente ligadas ao poder, como as lojas Convergência, Universalis, República ou outras. Nelas poderia privar com figuras como Rui Pereira, ex‑ministro da Administração Interna; Miguel Relvas, ex‑ministro do PSD; ou Armando Vara, ex‑presidente da Caixa Geral de Depósitos. Não escolheu. Mais do que esticar o seu poder, procurava a afirmação de uma certa espiritualidade laica. Que acabou por não encontrar nos corredores do velho palacete situado no Bairro Alto. «Foi uma desilusão.» Resultado: actualmente não pertence à maçonaria. Pediu o «atestado de quite» há cerca de dois anos. “