Pedro Tadeu arrisca-se a receber um SMS irritado de António Costa

Graças a este artigo de opinião, hoje, no Diário de Notícias. Certeiro.

“Sampaio da Nóvoa quer o apoio de António Costa?

A candidatura à Presidência da República de Sampaio da Nóvoa incomodou já tanta gente do centro-direita, autora de tantos e tão inflamados artigos ardentes em irritação, fúria e calúnia, espalhadas aos quatro ventos pela imprensa e pelas redes sociais, que certamente é analisada como um perigo real para a visão que estas pessoas têm do país, uma ameaça à sua ideologia ou, talvez, aos seus interesses pessoais. Por mim, ainda bem.

Vejo, porém, um problema. O líder socialista engendrou um plano bicudo para conquistar o poder: ao eleitorado de esquerda e à ala do PS, onde pontificam Soares ou Alegre, oferece a Presidência da República; ao centro-direita e às fileiras socialistas, doutrinadas por Assis ou Vitorino, entrega o governo…

António Costa está à beira de apoiar um candidato que diz: “Precisamos agora de reinventar uma visão estratégica para Portugal, que não se feche na Europa”.

Mas o mesmo Costa adota um programa económico para 10 anos onde se lê: “O cenário para Portugal que se apresenta neste documento tem como referência o elaborado pela Comissão Europeia que foi adotado como cenário central inicial.”

Costa ouve o seu hipotético candidato clamar: “Não me resignarei perante a destruição do Estado social, nem perante situações insuportáveis de pobreza, de desemprego e de exclusão, nem perante a precarização do trabalho.”

O mesmo líder do PS ouve a equipa de economistas que contratou para definirem o futuro proporem, opacamente, “complementar a atual legislação de cessação de contratos de trabalho com um novo regime conciliatório e voluntário em que as empresas podem iniciar um procedimento conciliatório, em condições equiparadas às do despedimento coletivo”. Se substituirmos “conciliatório e voluntário” por “de despedimento individual” descobrimos o significado real desta hipocrisia lamentável e perigosa.

Sampaio da Nóvoa sentir-se-á confortável em receber o apoio de um partido que defende para o país uma perigosa fragilização do financiamento da Segurança Social e admite, até, reduzir pensões? Achará bem “um imposto negativo aplicável a todos os que durante o ano declarem um rendimento do trabalho à Segurança Social inferior à linha de pobreza” que, na prática, é uma forma de pôr o Estado a subsidiar as empresas que pagam abaixo do salário mínimo?

Poderá a generosidade grandiloquente de Sampaio da Nóvoa conviver pacificamente com a rendição de António Costa ao mais deprimente economês eurocrata ? Se sim, se esta esquizofrenia política for mesmo a proposta eleitoral socialista, a direita devia era estar a mandar já foguetes pois a festa é, seguramente, dela.”

PORTUGAL XX CONGRESSO NACIONAL PS

O “Gandhi de Lisboa”

A escolha de António Costa como o próximo candidato do PS a primeiro-ministro chegou à Índia, onde o ainda presidente da Câmara Municipal de Lisboa tem origens. O correspondente do Hindustan Times em Londres, Prasun Sonwalkar, colocou online uma notícia a dar conta da vitória sobre António José Seguro e a traçar um breve perfil do socialista. Surpresa: Costa é apresentado como o… “Gandhi de Lisboa” devido ao seu estilo de vida espartano.

images

Indian-origin Costa is Portugal’s next PM candidate

A new name is likely to be added to the list of Indian-origin people who hold or have held top political positions in various countries: Antonio Costa, of Goa origin, who on Sunday won the primary elections as the prime ministerial candidate of the opposition Socialist Party in Portugal.

Costa has been a popular mayor of Lisbon since 2007, and is known as the ‘Gandhi of Lisbon’ due to his spartan lifestyle. He has transformed deprived parts of the capital and enjoys much goodwill due to his ideas and affable eagerness to hear out anyone who stops him on the streets. He is now in his third term as mayor.

Costa defeated his oldest rival, Antonio Jose Seguro, in the primaries, and will now succeed the latter as the secretary-general of PS (Partido Socialista), which makes him the party’s prime ministerial candidate.

Portugal, which is one of European countries facing severe economic hardships and austerity measures since 2009, is scheduled to hold its next general elections in October 2015. Costa has caught the public imagination with his ideas for economic change and his slogan, ‘Mobilizar Portugal’ (Mobilize Portugal).

Born in Lisbon in 1961, Antonio Luis dos Santos da Costa is the son of prominent novelist Orlando da Costa, who wrote essays on Rabindranath Tagore. His father was born in Mozambique, but spent most of his youth in Goa, then under Portuguese rule.

Antonio Costa’s grand-father, Luis Afonso Maria da Costa, who was born and brought up in Goa, was a descendant of prominent Hindu families who converted to Christianity during the centuries of Portuguese rule in Goa.

Costa became member of the Portuguese parliament in 1991, and held several offices, including secretary of state (1995-1997), minister for parliamentary affairs (1997-1999), and justice minister (1999-2002). He was a member of the European parliament from June 2004 to March 2005.

Known to many as ‘Babush’ (the Konkani word for boy), Antonio Costa comes across as an easy-going person, someone who doesn’t take himself seriously, believing in the Portuguese-Goan concept of ‘susegad’.

As Lisbon mayor, Costa moved his office to the Mouraria neighbourhood, which was earlier known for drug trafficking and prostitution. Today, it is a busy construction hub. His new position on the national stage has the support of former president Jorge Sampio.

Portugal was the first western country to colonise parts of India in the early sixteenth century, and the last to leave, on 19 December 1961 – See more at: http://www.hindustantimes.com/world-news/indian-origin-costa-is-portugal-s-next-pm-candidate/article1-1269787.aspx#sthash.tRRKFC7H.dpuf

Nos bastidores da campanha socialista

Durante quase 10 anos o Gonçalo Bordalo Pinheiro foi director adjunto da Sábado. Depois de deixar a revista, não fez questão de se manter entre aqueles que pensam que um jornalista, depois de chegar a director, não volta a ser jornalista. Pelo contrário. Durante quase um mês acompanhou para o Observador a campanha do PS. Teve um acesso privilegiado a Francisco Assis, quando comparado com os restantes repórteres. A condição foi só uma: só publicar no final da campanha. O resultado é um texto fantástico, cheio de detalhes sobre a forma como a campanha se desenrolou e que permite perceber o caos interno do partido – e também o fraco resultado eleitoral. Só um apontamento: devia ter sido publicado há mais tempo. De qualquer forma, estão de parabéns. O Gonçalo e o Observador.

cropped-bastidores-europeias-francisco-assis123

“A vitória que fez implodir o PS

por Gonçalo Bordalo Pinheiro

Eram 10h da manhã. O dia 19 de maio era importante para a campanha do PS. Francisco Assis estava sentado ao sol na esplanada de uma estação de serviço perto da Figueira da Foz, com as pernas esticadas em cima de uma cadeira de plástico. O diretor de caravana tinha ligado para o seu carro há cerca de meia hora a mandá-lo fazer uma “paragem técnica”. O barco que iria descarregar o peixe na lota estava atrasado e ninguém queria fazer esperar o cabeça de lista do PS às eleições europeias – pelo menos, esperar em público, à frente das câmaras de televisão.

Enquanto Assis, a sua mulher, o motorista e os dois assessores bebiam vários cafés ao sol, o Audi A6 de António José Seguro parava na lota da Figueira da Foz. Lá dentro levava uma impressora portátil para imprimir documentos de última hora, fruta, barras energéticas e um frasco de álcool gel para o líder do PS poder desinfetar as mãos depois das arruadas.

Era o primeiro dia do secretário-geral do PS a 100% na campanha. No sábado, o Expresso tinha noticiado que as sondagens internas da Aliança Portugal indicavam que a distância entre as duas forças políticas estava a encurtar. A notícia não era nova para os socialistas. Na sexta-feira à noite, o presidente de uma concelhia já tinha telefonado para um elemento da coligação e recebido as novidades antecipadamente: o partido estava há quatro dias consecutivos a cair nas projeções e o PSD a subir.

Pior: o Governo de José Sócrates estava a ser o centro do debate eleitoral – Paulo Rangel não desistia de puxar o tema. Pior ainda: Marinho e Pinto estava a crescer nas intenções de voto – todos esses eleitores deveriam vir da área do PS. Era o momento de apostar tudo e recentrar a campanha nos últimos anos do Governo PSD/CDS e não em José Sócrates. Não podia haver mais falhas. Mas houve.

A MÁQUINA DO PARTIDO

António José Seguro saiu do carro vestido com umas calças beges claras, uns sapatos de camurça cor de camelo, um blazer azul escuro e uma camisa justa, impecavelmente engomada. Olhou à sua volta, sorriu mas não viu Francisco Assis. A direção de campanha tinha avisado Assis para esperar, mas não conseguira telefonar a Seguro para fazer o mesmo – nem ele nem o motorista haviam atendido o telefone.

Agora Seguro estava ali na lota, com a sua maquilhadora, com a sua assistente pessoal, com a sua assessora que lhe atualiza o perfil no Facebook, com o seu fotógrafo, com o seu chefe de gabinete, com a sua assessora de imprensa e com um reforço de militantes da JS – mas sem o seu candidato ao Parlamento Europeu. Em poucos minutos teve de decidir se esperava que Assis chegasse ou se avançava sem ele. Avançou. E errou.

A equipa de reportagem da SIC começou a filmar os telefonemas dos responsáveis da campanha a mandarem o carro de Francisco Assis avançar “rapidamente”. Depois, os jornalistas perceberam que Assis tinha chegado à porta errada da lota e voltado para trás, que Seguro tinha parado a visita a meio quando viu que toda a gente já sabia do desencontro e especialmente que o candidato do PS tinha chegado 27 minutos depois do líder do partido por causa de um erro de comunicação.

Quando saiu da lota em passo apressado para fugir da chuva, Seguro estava furioso. A SIC haveria de fazer uma notícia sobre a confusão e isso abalava a imagem de competência do partido. Para mais, começara a chover e a visita programada à feira de Soure teria de ser cancelada. O dia estava a ser uma desgraça.

Seguro mandou parar o carro num bar, que abriu as portas propositadamente para o receber, enquanto a caravana avançava para preparar o almoço na sede da banda filarmónica local. O que se passou a seguir foi várias vezes comentado na campanha:

Os motoristas ficaram à porta e o líder do PS chamou o seu chefe de gabinete. À frente de vários assessores, começou aos gritos com Miguel Ginestal por causa do caos da organização da campanha. O tom dos berros foi de tal forma elevado que os presentes ficaram incomodados com a cena.”

O artigo completo está aqui.

O Pedro bom e o Passos Coelho mau

Reconheço. É uma falha inacreditável. Ainda não tinha visto o vídeo do tempo de antena do Partido Socialista divulgado a 1 de Abril. Depois do artigo de ontem do João Miguel Tavares, no Público, não resisti e fui à procura. Sim, é um tempo de antena. Mas fora as considerações políticas, a selecção das imagens e de declarações podia ser um exercício jornalístico. Dos bons. Como tempo de antena é brilhante. Mas, como diz o João Miguel Tavares, podia ter sido feito pelo PSD sobre o governo Sócrates. Ou pelo PS sobre o executivo Barroso/Santana. Ou pelo PSD sobre o governo Guterres. E poderá ser feito pelo PSD um ano depois de António José Seguro (se lá chegar) se tornar primeiro-ministro. E é triste que assim seja. Ainda assim, é excelente.

José Medeiros Ferreira (1942-2014)

Foto: Tiago Miranda

Foto: Tiago Miranda

Morreu um dos intelectuais mais reconhecidos da política portuguesa. Há dois anos, deu uma excelente entrevista ao José Pedro Castanheira e ao Martim Silva, no Expresso. Está aqui.

António Guterres missionário na Mocidade Portuguesa

Ontem foi lançada a biografia de António Guterres. A obra foi escrita pelo meu amigo Adelino Cunha. Além de jornalista, ele é historiador e professor universitário. E uma das melhores “cabeças políticas” que conheço. Nos últimos dias tenho visto vários artigos mais ou menos destrutivos sobre o livro. Que tem erros. Omissões. Falhas. Claro que tem. Só quem já tentou escrever um livro é que o pode compreender. Não há obras perfeitas. Livros sem falhas. Às vezes são simples gralhas. Outras são erros graves que escaparam ao mais meticuloso processo de confirmação. Porque é assim: os livros são o resultado do trabalho de pessoas. Por definição, falíveis.

Aqui prefiro centrar-me nos méritos deste livro. Desde logo na ideia: ao fim de todo este tempo ainda ninguém se tinha debruçado desta forma sobre a vida de António Guterres. O Adelino tem depois o mérito de trazer para a praça pública uma história que há muito corria nas redacções e nos partidos políticos: a famosa frase do “é fazer as contas”, que se colou à pele de António Guterres, foi proferida num contexto muito especial – e dramático. O estado de saúde da sua mulher piorara e o ex-primeiro-ministro tinha acabado de receber a notícia. Este é o caso paradigmático de que o lado pessoal que Guterres tanto se esforçou por manter influencia o político. Há ainda muitas outras histórias aqui contadas. Como a de que António Guterres teria escolhido José Sócrates para lhe suceder em 2001, caso não tivessem havido eleições. Ou esta, da passagem do ex-primeiro-ministro pela Mocidade Portuguesa, que o Adelino amavelmente permitiu que aqui publicasse.

guterres

“Missionário na Mocidade Portuguesa

Guterres aproxima-se da entrada principal do Palácio da Independência guiado pelo hábito dos pés. O jovem finalista do IST (1970) entra no imponente edifício da Praça dos Restaurantes e informa sem chama interior que tem uma audiência marcada com o padre António Alves de Campos. A Igreja anda a farejar estudantes universitários com potencial de persuasão para prescrever a cartilha do Estado Novo aos jovens ligeiramente mais novos.
Indicam‑lhe um gabinete onde o Assistente Nacional da Mocidade Portuguesa o espera para uma conversa plena de expectativas. “Guterres foi-me indicado por ser um rapaz muito bem formado, com profundos valores religiosos e de trato fácil com os outros jovens”, recorda António Alves de Campos.
A obra voluntarista desenvolvida por Guterres nos seus tempos livres rende frutos na colheita primaveril de Caetano e o regime tenta deitar a mão ao jovem missionário. António Alves de Campos, nomeado directamente pelo cardeal Cerejeira, deixa‑se emocionar pelo desfiar da conversa com o jovem e convida‑o para ajudar na catequização dos jovens lusitanos abençoados por um regime inspirado por Nossa Senhora de Fátima e temperado pela nostalgia do fado.

“Ele já tinha dado provas do seu empenhamento como bom cristão e, acima de tudo, como bom católico, no apostolado da juventude e numa área tão sensível como a assistência nos bairros degradados através do CASU”.

Esse “notável trabalho” é destacado pelo Assistente Nacional da JUC. “O padre Alves de Campos solicitou-me informações sobre jovens que fossem capazes de ajudar nos cursos de formação moral. Não hesitei em indicar Guterres”. Ponces de Carvalho destaca ainda o “brilhantismo intelectual” e o “imenso mérito” nos trabalhos de apoio social. Acrescenta um dado curricular que não é despiciendo: “Não se metia nas coisas da política e a Mocidade não gostava dessas pessoas que estavam conotadas com os partidos”.
A meio da conversa, “muito agradável”, surge um elo emocional que suscita ainda mais a admiração de António Alves de Campos. Guterres recordava em palavras soltas as suas raízes beirãs em Donas e confessava a admiração pelo pároco Alfredo Fernandes de Brito. É a divina providência que se manifesta no instante. Este padre, falecido quando desempenhava funções de vigário episcopal em Setúbal, era natural de Vila Cova à Coelheira e estudara no seminário no Fundão na mesma altura do próprio António Alves de Campos, natural de Torrosêlo, concelho de Seia. Duas aldeias separadas por escassos quilómetros. Mais do que naturais da mesma região, os ex-seminaristas do Fundão eram amigos.

“Guterres disse-me nessa conversa que o padre Alfredo Brito era uma pessoa que muita estimava e com quem tinha convivido muito perto na sua aldeia”. O destino juntava-os em toda a sua magnificência. “Ganhei imediatamente uma estima acrescida por ele”, confessa Alves de Campos.
O Portugal salazarista continuava assim nas boas graças de Deus. “Com todos estes pormenores fiquei completamente convencido de todas as suas qualidades para monitor do curso anual de formação moral e religiosa”.
Guterres mostra-se agora mais pragmático: “Fui convidado para essa iniciativa, mas antes de aceitar perguntei a opinião de um padre amigo. Disse-me: ‘A palavra de Deus deve florir em todo o lado’. Aceitei e fiz o meu ‘número’, mas não fiquei ‘freguês’. Não voltei a participar em mais nenhuma coisa da Assistência Nacional”, adverte em tom bíblico.

As iniciativas pastorais decorriam no âmbito dos gabinetes de formação moral. Segundo um documento interno da Mocidade Portuguesa ‑ Assistência Nacional para a Formação Moral, estas estruturas constituía “uma máquina de mentalização e de acção em condições de atingirem a maior parte da juventude no âmbito escolar” no continente e no ultramar.
Os cursos de base realizavam-se até às férias do Carnaval, os cursos distritais durante as férias da Páscoa e os de âmbito nacional em pleno Verão. A ascensão pelos vários graus dependia, obviamente, da prestação catequista dos iniciáticos.
“Jovens de variados ramos de ensino, incluindo mesmo seminaristas e dos mais diversos meios sociais, passam pelos cursos, afirmando‑se como germens de genuínas novas comunidades juvenis, que, pela tónica dos mesmos cursos e pelo clima de autêntica comunhão juvenil e participação activa na definição da sua dinâmica, bem se poderão considerar comunidades a equacionar em quatro dimensões: comunidade que crê e canta, comunidade que estuda e pensa, comunidade que trabalha e serve, comunidade que cria e vive na amizade”.

Alves de Campos acrescenta: “Estávamos a formar homens, mas, acima de tudo, estávamos a formar homens cristãos, homens católicos de acordo com a doutrina da Igreja. Queríamos que fossem uma elite social”.

Os cursos iniciaram‑se em 1967, em Sagres, com trinta e quatro participantes. No ano seguinte foram reunidos cinquenta e sete jovens no Sameiro. Em 1969, o rebanho já chegava aos sessenta e dois formandos.
O curso 1970 realizou‑se em Ponta Delgada e a missão foi sabiamente delegada em Guterres, na altura com 21 anos. A delegação parte para a aventura açoriana a bordo do Carvalho Araújo, um navio hidrográfico construído em 1930 nos estaleiros italianos de Monfalcone. “Aqueles dias longe de casa eram uma oportunidade única de divertimento para muitos de nós”, recorda Pedro Mourão, participante desse curso.
A Mocidade Portuguesa esperava a continuidade do vigorante sucesso dos anteriores cursos. “Jovens que se colocam inteiramente ao serviço dos outros jovens numa doação que, por vezes, surpreende e outras vezes ultrapassa todas as expectativas”, segundo a orientação dos ideólogos da Igreja.
Os jovens assistem às palestras e são avaliados pelos conteúdos dos cadernos que usam para tirar notas e para acrescentar opiniões pessoais. Têm de entregá-los para posterior avaliação. Pedro Mourão atreveu-se a fazer uma referência no seu caderno ao escândalo Ballet Rose. Os padres que avaliam os alunos registam o desafio e classificam-no em primeiro lugar do curso. “Devem ter interpretado como um acto de irreverência e de alguma coragem, ainda que inconsciente, por parte de um jovem”, explica Mourão.

Guterres cumpre a sua parte como monitor. “Revelou um dinamismo fora do vulgar. Entregou-se aos jovens de alma e coração e deu uma enorme colaboração a transmitir uma mensagem espiritual e também política”, recorda Alves de Campos. Pedro Mourão regista alguma sintonia. “Os padres eram uns ‘trutas’ e debaixo da capa da ditadura conseguiam patrocinar algumas acções críticas”.
A Assistência Nacional funcionava como um importante departamento oficial do Estado Novo e gozava de alguma autonomia dentro da estrutura da Mocidade Portuguesa. Esta organização pretendia formar os jovens portugueses segundo os valores do catolicismo tradicional e impregnava os valores patrióticos através do seu carácter para-militar. Os jovens aprendiam a retórica do regime e declamavam mecanicamente invocações inflamadas sobre o heroísmo imperial português.
A Assistência tinha como “finalidade expressa” garantir a “formação moral e espiritual dos jovens, quando empenhados e livremente inscritos nas suas actividades” dentro da Mocidade. Esta organização foi criada em Maio de 1936 e agregava uma direcção de serviços de formação moral, mais tarde transformada em Assistência Nacional.
O primeiro responsável foi o cónego Francisco Maria da
Silva, nos anos 50, futuro arcebispo de Braga.
O Ministério da Educação Nacional definia os gabinetes de formação moral como “uma máquina de mentalização e de acção” preparada para “atingir a maior parte da juventude no âmbito escolar. O trabalho desenvolvido ao longo dos anos levaria à apresentação de uma proposta junto do governo para criar uma estrutura totalmente nova, edificada a partir dos chamados círculos de formação juvenil. O sucesso prescrito pela evangelização parecia evidente.

Um documento de Alves Campos sobre o papel da Assistência refere que o governo teria já aprovado as bases de uma nova associação nacional de juventude, autónoma da Mocidade Portuguesa, designada por Movimento Nacional de Formação Juvenil (MONAFE). O MONAFE teria como base o trabalho desenvolvido pelos alunos e monitores que, como António Guterres, participaram nos cursos iniciais. Esta nova organização juvenil do Estado acabou por ser condenada devido à queda do Estado Novo.
Tratava ‑se de um projecto para criar uma organização de “reconhecida utilidade pública” orientada para os problemas em geral da juventude do nosso país, com relevância particular para a sua formação moral orientação e integração social”. O mesmo documento acrescenta que “nas actuais circunstâncias sociais e políticas, uma tal iniciativa mantém idêntica actualidade, se é que não maior e
mais premente necessidade”.
Os mentores destas organizações do Estado Novo pretendiam absorver os jovens que tivessem frequentado com sucesso os cursos de formação juvenil, previamente seleccionados pelos centros existentes em todas as escolas públicas e em muitas particulares. Exigia-se aos distintos universitários finalistas capacidade de liderança para pastorear os valores católicos por um rebanho de jovens recrutados entre os melhores alunos do ensino secundário de Portugal e do Ultramar. Jovens promissores escolhidos pelos assistentes entre os melhores participantes a nível local, distrital e nacional.

Apesar do empenho substantivo, Guterres criou vários incidentes durante o curso em que desempenhou funções de liderança enquanto monitor. Pretendia “marcar posições políticas ainda que de acordo com a doutrina social da Igreja”, absolve o antigo dirigente António Alves Campos. Não esconde a sensibilidade que o problema suscitou na altura em que exercia o cargo de “representante directo da hierarquia da Igreja na Mocidade Portuguesa”.
Revolta contra o visconde
O anfiteatro engalanado da Universidade dos Açores começa por encher ‑se de estudantes aprumados em trajes domingueiros. Chegam depois as éminences grises da pedagogia local e os tradicionais representantes do dinheiro, da política e da religião. É o típico dia solene em que se reivindica direito à glorificação.
O escritor açoriano Vitorino Nemésio tinha sido convidado como orador principal para abrir os trabalhos do IV Curso Nacional da Assistência Nacional da Mocidade Portuguesa, seguindo ‑se a intervenção de um plenipotenciário da região, o visconde do Botelho.
Trata ‑se de José Gago da Câmara de Medeiros, um armador que enriquecera com negócios na marinha mercante e na construção naval e que o historiador José Freire Antunes identifica como um “franco‑atirador” dos corredores diplomáticos. Usufruía de “multifacetados contactos internacionais”. Representou o governo em comissões da NATO, foi procurador à Câmara Corporativa e ainda conselheiro oficioso de Marcelo Caetano.

No final das palestras, Guterres, monitor do curso, deixa que os alunos terminem as suas perguntas pacíficas aos dois oradores e inicia por sua conta e risco um raid sobre o visconde. Bombardeia o ilustre açoreano com perguntas incómodas com a determinação de quem se tinha preparado para uma batalha. Guterres sentia‑se um homem da doutrina social da Igreja e convivia mal com a fama de José Gago da Câmara de Medeiros, titulado como um avarento e explorador.
“Aquilo acabou por ser ostensivo demais. Não podia ser feito publicamente”, lamenta Alves de Campos, mas já sem esconder uma certa simpatia pela determinação revelada diante toda a elite regional que assistia à referencial cerimónia do Estado Novo em plena universidade.
Pedro Mourão destaca a “camaradagem” que Guterres conseguia estabelecer com os mais novos. “Era brilhante na oratória e cativava os mais jovens quebrando as barreiras da distância. Guterres gostava da proximidade e, apesar de ser monitor, nós víamo-lo como um dos nossos. Não se envolvia directamente nas nossas brincadeiras, mas também não tentava controlá‑las”, sintetiza. A intervenção crítica contra o visconde demonstrou coragem. “Era um provocador que sabia criticar sem extravasar”. Os laços entre os jovens ficam mais fortes.
Perante a estupefacção de Alves de Campos, Guterres tomara‑se de coragem para enfrentar o homem a quem algum povo açoriano não poupava críticas surdas. “Ele reagiu com um profundo incómodo por saber que as pessoas acusavam o visconde de ser um explorador. Eu queria isentar os cursos de mensagem política, mas ele não resistiu. Foi mais forte do ele”, recorda o padre.

Os protestos não ficaram por aqui. O Assistente Nacional solicitou depois autorização para celebrar uma missa na capela particular da sua quinta. O visconde não só aceitou de imediato ser o anfitrião dessa cerimónia religiosa como decidiu convidar todos os alunos do curso para um reconfortante repasto depois do cerimonial religioso. Alves de Campos comunicou a Guterres o roteiro das actividades espirituais e pediu-lhe que informasse todos os outros jovens de que haveria uma missa para a qual estavam todos convidados. “Eles não eram obrigados. Podiam participar ou não, mas eu esperava que fossem”, recorda o religioso. Aquele dia tinha reservado mais uma desagradável surpresa. Guterres iria aproveitar o facto de ser “um líder natural que impunha facilmente a sua mensagem” para forçar mais um incidente com José Gago da Câmara de Medeiros.
Devidamente paramentado, Alves de Campos manda um acólito espreitar a capela para saber se podia iniciar a celebração. No entanto, à hora combinada não está um único jovem dentro da capela. O padre fica estarrecido com a desobediência organizada. Guterres tinha mobilizado o grupo como sinal de protesto.
“Fiquei espantadíssimo com aquilo!”.
O Assistente percebeu a tentativa de insurreição e, incomodado com o constrangimento que o caso já estava a provocar nas relações com o anfitrião, mandou chamar o inconfesso contestatário.
“Confrontei‑o com a capela vazia e Guterres respondeu que ninguém era obrigado a assistir. Os rapazitos lá acabaram por ir e fingimos todos não ter percebido a intenção dele. Guterres era um rapaz muito determinado e inconformado com as injustiças. Tinha uma visão correcta da doutrina social da Igreja e fez bem o casamento entre o ideal cristão e católico e a política. Teve coragem para fazer aquilo porque sempre acreditou nas causas sociais”.

Estes cursos da Mocidade mudavam anualmente de monitores e mesmo os sentidos elogios à forma como Guterres encarnava a doutrina social da Igreja foram insuficientes para justificar futuras participações suas nas actividades docentes. “É natural que tenham tentado ‘apanhar’ um jovem crente brilhante e levá‑lo para a militância católica, mas dificilmente ele iria fazer carreira porque nunca se comprometeu com a estrutura da Mocidade Portuguesa”, afirma Pedro Mourão. “Guterres era um progressista com uma linguagem ousada e a conflitualidade era inevitável”, acrescenta.
Alves de Campos justifica que a estrutura do seu gabinete era constituída por padres de carreira que exerciam funções de assistentes religiosos e aos leigos estavam destinadas apenas funções administrativas. “Acabou por ser uma colaboração eventual, mas muito do meu agrado”. Guterres guarda desta colaboração a ideia de que, de facto, conseguiu dar um sinal, mas um “sinal de ruptura”.
O episódio fica encerrado com o necessário ritual post mortem. “O curso não era uma coisa inocente, eles não gostaram do que eu disse, e eu não gostei daquilo. Nunca mais me convidaram. Foi uma participação inofensiva e sem consequências”, garante Guterres.”

1424446_10201066003555464_1746032051_n

Boas notícias para o governo

António Costa vai candidatar-se à liderança do Partido Socialista e também à Câmara Municipal de Lisboa. A notícia está a ser avançada pelo Expresso. Resta saber como o autarca vai justificar a mudança de opinião. Em Junho de 2011 dizia: “Não é possível acumular a liderança do PS e a presidência da Câmara Municipal de Lisboa. O PS precisa de um secretário-geral a tempo inteiro e o município de Lisboa de um presidente com dedicação exclusiva”.

costa260113