O pontapé do Zeca Mendonça e o duplo critério jornalístico

Lisboa. 26 de Setembro de 2012. Pedro Passos Coelho marcou presença numa homenagem a Adriano Moreira organizada pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. A chegada do primeiro-ministro foi tranquila. Até que um aluno resolveu assobiar e insultá-lo. Reacção imediata: o chefe da segurança de Passos Coelho agarrou-o e encaminhou-o para um local onde ele pudesse ser identificado. Quando percebeu que estava a ser filmado por um repórter de imagem da TVI, o agente virou-se, e desviou-lhe a câmara enquanto dizia “não me filmas a cara”.

Nesse dia e nos seguintes, a notícia da “agressão” do agente foi divulgada por quase todos os órgãos de comunicação e motivou reacções por parte de partidos políticos. A reacção mais contundente foi a do Sindicato de Jornalistas (SJ) que, através do seu presidente, Alfredo Maia, considerou que o agente da PSP agiu de forma “consciente, deliberada, completamente ilegítima e violando a lei, nomeadamente o Art.º 19.° do Estatuto do Jornalista”. Mais, o SJ apresentou queixas à ERC, à Inspecção Geral da Administração Interna, à Direcção Nacional da PSP e até enviou uma carta ao primeiro-ministro. A ERC considerou que a tentativa de impedir a recolha de imagens foi “ilegítima“, a IGAI abriu um processo e o MP arquivou-o.

Um ano e meio depois, uma nova agressão. À chegada de Miguel Relvas à reunião do Conselho Nacional do PSD, num hotel de Lisboa, o fotojornalista da Global Imagens (DN/JN/O Jogo), Paulo Spranger, tentava captar imagens do ex-ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, quando foi surpreendido por um pontapé desferido pelo assessor de imprensa social-democrata, Zeca Mendonça. Não houve insulto. Provocação. Um fotojornalista tentava tirar uma fotografia do momento. As imagens foram captadas pela CMTV.

No próprio dia e nos seguintes, houve algumas pequenas notícias nos jornais diários. Só a CMTV, que tinha as imagens, deu destaque ao caso. O Sindicato dos Jornalistas também tomou uma posição. Mas ao contrário do que aconteceu com o chefe de segurança de Passos Coelho não apresentou queixa à ERC, ao MP, à PSP, nem sequer enviou uma carta ao presidente do partido que, por acaso é também primeiro-ministro. Não. O SJ emitiu um comunicado onde “não pode deixar de repudiar tal acto, o qual, mesmo irreflectido, é indesculpável em quem exerce funções com as responsabilidades do referido assessor e não pode servir de exemplo para outras eventuais ocorrências igualmente irreflectidas”.

Falei, como quase todos os jornalistas, com o Zeca Mendonça algumas vezes. Sempre foi muito educado e eficiente. Pelos testemunhos de inúmeros jornalistas que com ele convivem há 17 anos, é um “cavalheiro”. Mas isso não desculpa a atitude que teve. Pelo contrário: responsabiliza-o ainda mais. Como decano dos assessores de imprensa partidários ele tem a capacidade e a obrigação de se saber comportar e de, se for caso disso, repreender algum repórter que ultrapasse as marcas. Por isso faz-me alguma confusão ver muitos jornalistas que respeito desvalorizarem o que se passou ou desculparem-no com um mau dia. Sim, o Zeca Mendonça pediu desculpas e isso só lhe fica bem. Mas se um de nós amanhã decidir dar um pontapé ao presidente do PSD, que por acaso também é primeiro ministro, será que basta pedir desculpa?

Miguel Relvas estava eufórico no regresso à política activa…

…como se pode ver pela sua expressão no Conselho Nacional do PSD. A fotografia é do Enric Vives Rubio, do Público. Mas não é a única (aqui e aqui)

Foto: Enric Vives Rubio

Foto: Enric Vives Rubio

É isto que vai ficar para a história do XXXV congresso do PSD

A intervenção “emocional” de Marcelo Rebelo de Sousa. Que, como se sabe, não dá ponto sem nó.

A tese de Fernando Moreira de Sá sobre…

…a importância da comunicação política digital na ascensão ao poder de Pedro Passos Coelho está aqui, no Aventar.

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