O jornalismo bem vivo

Se há dias em que deitamos as mãos à cabeça com algumas coisas que são feitas na comunicação social portuguesa, há outros em que encontramos trabalhos que emocionam. É o caso da grande reportagem Quem é o filho que António deixou na guerrada Catarina Gomes, para o Público e a SIC. Porque não há nada melhor do que uma boa história.

Uma boa entrevista, onde faltam dois temas fundamentais

No domingo, Rui Machete deu ao Público a primeira entrevista desde que tomou posse como ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, há sete meses. O grande tema das duas horas de conversa com a directora Bárbara Reis e o jornalista Nuno Ribeiro foi a mais que provável adesão da Guiné Equatorial à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). E foi essa a melhor parte da entrevista. Rui Machete foi confrontado com uma série de argumentos e soube defender-se bem. Agarrou-se a um facto concreto e dali não saiu: há um compromisso formalizado em 2010 e que diz que o país entra na organização se cumprir determinados requisitos. Fala também da relação com Angola – não diz muito – e um pouco do caso da expulsão de António Capucho do PSD. No entanto, ao longo das cinco páginas faltam dois temas fundamentais numa entrevista ao ministro dos Negócios Estrangeiros: não há uma palavra – sejam perguntas ou respostas – sobre a situação na Ucrânia nem sobre o facto de Rui Machete ter mentido ao Parlamento na Comissão de Inquérito ao BPN.

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As dúvidas sobre Passos Coelho são cada vez menos

Do José António Cerejo, hoje no Público. Ao contrário do que aconteceu ontem, não está disponível online.

“Documentos ligam acção de Passos, Relvas e da Tecnoforma

 

Memorandos da Ordem dos Arquitectos mostram que os dois políticos tentaram “vender” projecto da empresa inspirado no dos aeródromos municipais

Passos Coelho e Miguel Relvas tentaram, em 2003 e 2004, que a Ordem dos Arquitectos se associasse à Tecnoforma para desenvolver um programa de formação profissional proposto por aquela empresa, e financiado pelo programa Foral, com o nome Autarquia Segura, a pretexto de “normativas europeias”. O objectivo era formar técnicos das câmaras municipais que pudessem executar planos de emergência para os edifícios de todas as câmaras do país. Isto à imagem do projecto em que a empresa de que Passos era consultor e foi depois administrador estava então envolvida para os aeródromos municipais da região centro.

O PÚBLICO revelou em Outubro que Passos Coelho, em representação da Tecnoforma, actuou em simultâneo com Miguel Relvas, à época secretário de Estado da Administração Local, com vista a angariar contratos para aquela empresa de formação profissional. Os dados então disponíveis apontavam claramente nesse sentido.

Dois memorandos então redigidos por uma dirigente da Ordem dos Arquitectos (OA) a que o PÚBLICO teve agora acesso confirmam a relação directa entre as iniciativas de um e de outro. O projecto que ambos propuseram à Ordem, então presidida por Helena Roseta, não só visava o mesmo objectivo, como tinha o mesmo nome: Autarquia Segura.

No início de Dezembro de 2003, Relvas convidou Helena Roseta para uma reunião. O que resultou desse encontro foi resumido nove anos depois, no início deste Verão, pela antiga presidente da OA. Em declarações à SIC, Roseta afirmou que Relvas lhe propusera a realização de cursos de formação para arquitectos das autarquias, garantindo que havia fundos europeus disponíveis para o efeito no programa Foral (formação para as autarquias locais), por ele tutelado. A condição, denunciou a arquitecta, foi a de que a OA contratasse a execução do projecto à “empresa de Passos Coelho”.

Documentos internos da OA e declarações de Relvas e Passos credibilizaram, entretanto, as afirmações da antiga presidente da Ordem, evidenciando que os dois tinham agido em simultâneo e com a mesma finalidade, conforme o PÚBLICO noticiou no dia 14 de Outubro.

Os dois memorandos redigidos em 2004 por Leonor Cintra Gomes, então membro do conselho directivo nacional (CDN) da OA, e que agora foram conhecidos, ajudam a perceber como as coisas se passaram.

O primeiro, relativo a uma reunião realizada em 21 de Janeiro de 2004, em que, a pedido de Helena Roseta, aquela dirigente da Ordem recebeu Passos Coelho e o então director-geral da Tecnoforma, Luís Brito, mostra desde logo um dado novo: Passos comparecia em representação da Tecnoforma, mas também da empresa LDN, uma firma de consultoria de um ex-deputado do PSD e ex-vice-presidente da JSD, Luís David Nobre, que tinha igualmente relações profissionais com a Tecnoforma.

De acordo com o documento, a proposta trazida por Passos Coelho prendia-se com um projecto da Tecnoforma denominado Autarquia Segura. A ideia era formar arquitectos das câmaras para que todas as autarquias pudessem dispor, até 2007, de “planos de emergência para todos os edifícios públicos face a normativas europeias”, não especificadas.

A iniciativa – explicaram os representantes da Tecnoforma – surgiu na sequência de um outro projecto da empresa, igualmente financiado pelos fundos europeus do Foral, que estava então a dar os primeiros passos para formar técnicos de aeródromos e heliportos municipais. Também nesse caso a justificação do investimento público nas acções propostas pela Tecnoforma – 1,2 milhões de euros aprovados para formar centenas de trabalhadores destinados a sete pistas de aviação da região centro que empregavam apenas dez pessoas – foi a de que os regulamentos internacionais obrigavam todos os aeródromos e heliportos a ter planos de emergência até 2005.

Para dar corpo à parceria entre a empresa e a OA, Passos Coelho propôs a celebração de um protocolo em que a Tecnoforma ficava como “entidade formadora” e a Ordem como “promotora” das candidaturas – podendo associar-se a entidades como a Ordem dos Engenheiros ou ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Leonor Cintra Gomes anotou no seu memorando que, face a uma referência que fez às escassas disponibilidades financeiras da OA, lhe foi respondido que “as acções inseridas no programa Foral não trariam custos, porque todas as despesas ficavam cobertas”. O valor destinado aos formadores seria de 37,5 euros por hora, havendo também um valor/hora por formando de 4,99 euros para “outras despesas”, como a promoção dos cursos, a organização, os manuais e a logística. A título de exemplo, os representantes da Tecnoforma explicaram que numa acção de formação de 20 horas para dez arquitectos, haveria 998 euros para “outras despesas” e 750 euros para os formadores, sendo a empresa a pagar-lhes.

Passos Coelho e Luís Brito explicaram que as candidaturas deveriam ser apresentadas em Março/Abril, para os cursos começarem em Junho. Em reacção a esta proposta, a arquitecta informou que a iria analisar com a direcção da Ordem e com os responsáveis pela área da formação nas secções regionais. O assunto arrastou-se depois nas secções norte e sul, que acabaram por não se pronunciar, não tendo o CDN chegado a dar qualquer resposta formal à Tecnoforma. De acordo com antigos dirigentes da Ordem, isso ter-se-á devido não só ao desinteresse das secções regionais, mas também ao facto, relatado por Helena Roseta, de Miguel Relvas ter condicionado a colaboração com a OA à contratação da Tecnoforma.

Nos termos do segundo memorando elaborado por Leonor Cintra Gomes acerca deste processo, já no final de 2004, a Secretaria de Estado tutelada por Relvas tinha proposto (como consta de uma acta da primeira reunião do CDN posterior ao encontro entre Relvas e Roseta, em Dezembro de 2003) a celebração de um protocolo entre ela e a OA.

O documento enviado à Ordem, lê-se no memorando, contemplava precisamente o apoio a dar por esta organização a “uma acção a integrar no programa Foral, denominada Autarquia Segura – Prevenção e segurança de edifícios, equipamentos e infra-estrururas municipais”. O objectivo dessa acção consistia em “dar formação para a elaboração de planos de segurança e planos de emergência em interacção com organismos de protecção civil e bombeiros”.

Em princípio, segundo a proposta da Secretaria de Estado de Relvas, as acções contariam com oito a 12 participantes e abrangeriam todos os municípios do país, totalizando 1100 horas cada, em cerca de 31 semanas.

Nas suas observações, redigidas provavelmente para memória futura numa fase em que, ao que tudo indica, a Ordem já teria perdido interesse na proposta de protocolo devido à condição posta por Relvas, a arquitecta nota que “a cooperação da OA no programa Autarquia Segura carece de clarificação”. E conclui: “O programa Autarquia Segura não se enquadra nas acções de formação propostas no Encontro de Arquitectos da Administração Pública” realizado em Abril desse ano.”

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As dúvidas (que não podem existir) sobre Passos Coelho e Cavaco Silva

Pedro Passos Coelho e Cavaco Silva ficaram a saber esta regra: um bom jornalista não deixa cair uma história. Pelo contrário. Continua a investigá-la à procura de pontas soltas e a tentar esclarecer todas as dúvidas. Foi o que fez, mais uma vez, o José António Cerejo, no Público, imune aos tempos conturbados no jornal.

Sobre o primeiro-ministro e o caso Tecnoforma:

“Pedro Passos Coelho foi o principal impulsionador, em 1996, de uma organização não governamental (ONG) concebida para obter financiamentos destinados a projectos de cooperação que interessassem à empresa Tecnoforma. O primeiro-ministro escusou-se a comentar esta intenção atribuída à organização por vários antigos responsáveis pela Tecnoforma, que pediram para não ser identificados, mas assegurou ao PÚBLICO que sempre encarou “com seriedade” a iniciativa da criação da ONG pelos donos da empresa.

A organização, denominada Centro Português para a Cooperação (CPPC), funcionava em Almada, na sede daquela empresa de formação profissional, da qual Passos Coelho se tornou consultor em 2002 e administrador em 2006. Entre os seus membros figuravam Marques Mendes, Ângelo Correia, Vasco Rato, Júlio Castro Caldas e outras destacadas figuras do PSD.”

Sobre Cavaco Silva e o processo de aquisição da casa da Coelha:

“O Supremo Tribunal Administrativo recusou avaliar novamente uma divergência entre as Finanças e um jornalista do PÚBLICO que reivindicava o direito de consultar o processo de avaliação da casa de Cavaco Silva no Algarve, na aldeia da Coelha, validando assim uma decisão do Tribunal Central Administrativo do Sul, que não autorizou a consulta por considerar que os dados estavam abrangidos pelo sigilo fiscal.

O jornalista José António Cerejo estava a realizar uma investigação sobre a forma como o actual Presidente da República adquiriu a casa da Coelha, em 1998, quando ela se encontrava em fase adiantada de construção, dando em troca a sua antiga vivenda Mariani, situada em Montechoro. Em análise estavam ainda os impostos que Cavaco Silva deveria pagar pela transacção com a Constralmada, uma empresa que tinha como sócio Fernando Fantasia, seu amigo de infância, que mais tarde se tornou administrador de empresas ligadas ao BPN.

Inicialmente não foi pago nada a título de sisa (actual IMT), já que as partes atribuíram às duas propriedades o mesmo valor, de 135 mil euros (27 mil contos). Contudo, as Finanças abriram de imediato um processo de avaliação da propriedade da Coelha – como mandava o Código da Sisa – o que acabou por obrigar Cavaco, após uma segunda avaliação, a desembolsar 8133 euros. Isto porque a casa da Coelha foi avaliada em mais 81.330 euros do que aquela que havia sido dada em troca, segundo informou no ano passado a própria Presidência da República, que agora optou por não fazer comentários.

Mas esta segunda avaliação, feita pelas Finanças de Albufeira, deixou várias dúvidas por esclarecer, já que teve como pressuposto que na propriedade de 1891 metros quadrados estava construída uma moradia com uma área bruta de construção de 318 m2, quando, afinal, estava lá uma outra com quase o dobro da área bruta: 620 m2. A primeira obra tinha sido licenciada em 1994, antes de dois lotes contíguos terem sido juntos, e acabou por nunca ir por diante. Em Outubro de 1996, foi pedido um novo licenciamento de uma única moradia a erguer no espaço conjunto dos lotes 18 e 19, que não tinha qualquer semelhança com o projecto anterior.

O que não se sabe e o jornalista queria esclarecer é se a segunda avaliação, que fixou a sisa a pagar, foi feita depois de Cavaco ter reclamado da primeira, de valor superior, fundamentando a reclamação com a entrega de um projecto que não correspondia à moradia construída – mas a uma de muito menor valor, aquela que não existe, mas serviu de base à avaliação.”

As dúvidas continuam a existir – e é bom que sejam esclarecidas

@Mário Cruz/Lusa

@Mário Cruz/Lusa

 

O jornal de papel

Da Maria do Céu Mota, do Aventar:

Neste tempo em que até o jornalismo entrou em crise, com greves e despedimentos colectivos como no PÚBLICO, há que fazer a sua justíssima defesa.
Precisamos do bom jornalismo que nos traz as diárias notícias da austeridade e afins, mas também das outras sobre um mundo que «pula e avança» apesar de tudo, do não obstante, do contudo.
Procuramos e necessitamos da verdade, como do pão para a boca e do café pela manhã antes de começar o dia (seja ele como for)! E da verdade não apenas da realidade, mas também a dos sonhos de cada um. Não serão eles mais reais? Os sonhos são o futuro – deviam contar mais. E o país tem que os ter e se não os tem, que os tenhamos nós, individualmente. Sonhos pequeninos, não faz mal, mas que todos juntos constroem algo grande. ( Já estou a divagar. É o que dá fumar um post…)
Faço hoje o meu post com um texto do geógrafo João Seixas (PÚBLICO, 28/10) defensor dos jornais e que subscrevo totalmente:
“Madrugador, o jornal é peça-chave de uma boa manhã. (…) ingrediente tão indispensável a um bom pequeno-almoço como o pão e o café. Depois o jornal é companheiro ao longo do dia. Quando é bom (…) é parte central das nossas cabeças (…) de seres humanos. Peça-chave na formação da nossa cidadania. No papel como no ecrã. (…) A cidadania alimenta-se de ideias, de direitos, de política. Da conjugação do real com o sonho.”
Assim seja, como espera Seixas,  que um dia o jornal seja uma parte importante do lucro das cidades. Eu não sei se as cidades tiveram alguma vez, se têm ou terão lucro com os jornais, mas tenho a certeza que os cidadãos, esses, seriam mais pobres sem eles.
Finalmente,  eu prefiro o jornal de papel. Ao domingo, ao pequeno-almoço mais demorado, ele conjuga bem com o pão fresco com manteiga, café com leite, e caneta… ou marcador, para sublinhar coisas bem escritas como esta Opinião do geógrafo que eu não conhecia até hoje!

A resposta de Cerejo

No dia seguinte ao anúncio do despedimento colectivo de 48 trabalhadores no Público, 36 jornalistas, o José António Cerejo – um dos que foram convidados a rescindir contrato – publica um novo trabalho exemplar sobre as relações entre a Tecnoforma, empresa a que Passos Coelho estava ligado e o então secretário de Estado Miguel Relvas.

O comunicado da direcção editorial do jornal da Sonae indica claramente que o futuro do Público vai passar pelo digital. Não se sabe se nos actuais moldes, se o título fundado por Vicente Jorge Silva vai transformar-se num jornal online, se estará planeado um modelo misto. O que parece óbvio é que o Público está a morrer: basta olhar para o que se passa nos Estados Unidos, o país mais avançado na área digital, para perceber que não existe um modelo de negócio que garanta a sustentabilidade de um órgão de comunicação social na internet. Todos, mas todos, garantem a maior parte das suas receitas através das edições em papel e no investimento em trabalhos como aquele que faz a manchete de hoje.

Se o Público morrer, como aconteceu a outros, não é só um jornal que fecha. E todos vamos ficar mais pobres: leitores, cidadãos, o país e a própria democracia.

 

São 36 jornalistas, 25% da redacção. Será possível manter um jornal diário assim ou é mesmo esse o objectivo?

Fórum de Jornalistas

O jornal “Público” vai avançar com um processo de despedimento colectivo, com o objectivo de dispensar 48 trabalhadores, entre os quais 36 jornalistas. A administração do jornal espera poupar 3,5 milhões de euros por ano.

A decisão foi anunciada esta manhã aos editores pela direcção liderada por Bárbara Reis. Em comunicado, a Sonaecom explica que a operação faz parte de um plano de reestruturação do “Público”.

Este plano consistirá no reforço e adequação de competências, onde se inclui a maior orientação para as crescentes exigências do mundo digital, e na redução da estrutura de custos em cerca de 3,5 milhões de euros por ano, com a diminuição de custos de funcionamento e previsível saída de 48 colaboradores.

No mesmo comunicado, a Sonaecom refere que esta reestruturação é a consequência de uma “mudança estrutural profunda, à escala mundial, que se tem traduzido numa forte tendência de queda de receitas” para…

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O Público

Numa semana em que o Público foi notícia pelos piores motivos – o anunciado processo de “rescisões amigáveis”– é interessante verificar que o jornal presenteou os leitores com alguns dos melhores trabalhos publicados nos últimos tempos na imprensa escrita portuguesa.

Enviada para cobrir as eleições na Venezuela, a Ana Cristina Pereira tem feito de longe o mais completo trabalho sobre o assunto: Lorena Tabares não pode votar mas quer ser a primeira dama de Capriles; Albertina votará no Presidente Hugo Chávez por amor; e O estado da revolução bolivariana em dia de eleições na Venezuela são apenas alguns exemplos de reportagens muito bem escritas e que deram uma ideia clara dos dois lados da campanha.

Por outro lado, ontem, o José António Cerejo, publicou um dos melhores trabalhos de investigação dos últimos tempos. Com dados concretos, declarações em on dos intervenientes, enquadramento, o caso Tecnoforma prova que o veterano jornalista do Público – curiosamente um dos repórteres dados como “dispensáveis” – não olha a cores partidárias na hora de fazer o seu trabalho. Depois de investigar as polémicas de José Sócrates no caso Cova da Beira, Freeport e licenciatura, agora é a vez das ligações entre Miguel Relvas e Pedro Passos Coelho. Vale a pena recordar um texto que Cerejo publicou há dois anos e que diz muito sobre a sua postura. Houvesse mais assim. Os jornalistas do público estão de parabéns.