Os veteranos deportados

Faltavam alguma semanas para partir para os Estados Unidos. Estávamos em Agosto de 2016. O plano era realizar uma série de reportagens sobre as eleições americanas, que se realizariam em Novembro de 2016. Havia dois temas obrigatórios: armas e imigração.

Em relação às armas, decidi viajar até ao Texas onde tinha sido recentemente aprovada uma legislação que permitia aos alunos com licença de porte levarem armas para as salas de aula. A reportagem saiu primeiro na revista especial da Sábado dedicada às eleições americanas e depois em vídeo, na CMTV e no site da Sábado. Chamámos-lhe “O culto das armas na América”

Sobre a imigração, o grande tema da campanha era, até então, a promessa de Donald Trump de construir um muro junto à fronteira  com o México. Decidi então viajar até à California onde, na fronteira que separa San Diego de Tijuana, esse muro já existe há muito. Faltava-me apenas um ângulo para a reportagem, que para além de ser publicado na mesma revista especial, também deu origem a uma grande reportagem em vídeo na CMTV e na Sábado.

Mas, durante a pesquisa sobre o que poderia encontrar, descobri que, espalhados por Tijuana, existem uma série de abrigos para os imigrantes que chegam à cidade depois de atravessarem vários países, com a esperança de conseguir atravessar a fronteira. O fenómeno mais recente era a chegada massiva de haitianos. Intrigado, pensei que talvez fosse boa ideia visitar um deles (como acabei por fazer). Mas enquanto procurava informações sobre esses abrigos, descobri um outro que me deixou ainda mais curioso: chama-se Deported Veterans Support House (Casa de Apoio aos Veteranos Deportados).

Aquilo intrigou-me. Nunca tinha ouvido falar em veteranos das Forças Armadas americanas que tivessem sido deportados. Para além disso, não fazia sentido: porque é que o governo dos Estados Unidos iria deportar alguém que estava disposto a dar a vida pelo país? Para ser militar americano deveria ser obrigatório ser-se cidadão? Certo? Depressa percebi que não.

Através de algumas reportagens já publicadas, descobri que o abrigo era gerido por um antigo veterano do exército e dos pára-quedistas  americanos, chamado Hector Barajas, que tinha sido deportado depois de ser condenado por posse de arma. E ele que ele não era o único: só em Tijuana haverá cerca de 60. Era uma história demasiado boa para a ignorar.

Enviei-lhe um email, disse-lhe que iria estar em San Diego e que gostava de o entrevistar e a outros veteranos. O Hector Barajas respondeu-me em poucas horas. Disse-me que estava disponível e que só precisava de saber o dia em que lá chegaríamos para mobilizar um grupo de outros veteranos para estarem presentes.

Na data marcada, eu e o Alexandre Azevedo atravessámos a fronteira para o México e apanhámos um taxi para o Bairro Otay Centenário onde o Hector nos aguardava. Quando chegámos, pelas 10h, ele tomava um pequeno almoço tipicamente mexicano enquanto atendia telefonemas, respondia a emails e actualizava as páginas do Bunker, como é conhecido o abrigo, nas redes sociais. Nós próprios acabámos por ir comer uns “huevos rancheros” num pequeno café das imediações.

Enquanto montávamos o material para as entrevistas em vídeo, os veteranos começaram a chegar. Primeiro, Jesus Castillho. Depois, Andrew de Léon. Em seguida, Daniel Torres. Seguiu-se o próprio Hector Barajas. Faltava apenas Mauricio Rodriguez, que estava disponível para falar, mas não tinha forma de se deslocar ao abrigo. Nada que Hector não resolvesse. Ligou ao sogro de Mauricio, que é taxista, que acabou por nos ir buscar e levar até um subúrbio pobre dos arredores de Tijuana onde um ensonado Maurício nos recebeu na pequena casa onde vive com a mulher e a filha.

Quando terminámos, eu e o Alexandre olhámos um para o outro, completamente esmagados pela carga emotiva da história destes homens. Pensámos todo o trabalho como uma grande reportagem multimédia, com texto, fotos e vídeo, para publicar por altura do lançamento do novo site da Sábado, que já sabíamos estar a ser preparado.

Os meses passaram e o resultado acabou por ser publicado apenas na semana passada. Chamámos-lhe “Os veteranos deportados para uma terra estranha” porque, apesar de terem nascido no México, nenhum deles tinha uma ligação ao país para onde acabaram por ser expulsos. Esperamos ter estado à altura da história destes homens. Os vídeos – que têm mesmo de ver – tiveram a edição exemplar do Tiago Dias. Se puderem leiam, vejam e, se gostarem, partilhem e comentem.

Por fim, não podíamos deixar de tirar uma fotografia para recordação: eu, Hector Barajas e Alexandre Azevedo à porta do Bunker.

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A América Dividida

Nos últimos meses este tem sido uma espécie de bebé nos bracos: planear, pensar, produzir e executar uma edição especial da Sábado dedicada inteiramente às eleições americanas.

Pelo meio tive o privilegio de passar três semanas em reportagem em quatro Estados norte-americanos (Califórnia, Texas, Mississipi e Virginia Ocidental) com o Alexandre Azevedo. São dele as fantásticas fotografias que fazem desta uma edição única, juntamente com um texto exclusivo do fotógrafo oficial e Obama, Pete de Souza, a estreia de Paulo Portas na análise da actualidade Internacional, entrevistas, perfis e grandes reportagens com apoiantes de Hillary e Trump. Fomos também ao muro que já separa o México dos EUA e entrámos no mundo da Cultura das armas na América.

Isto é só uma pequena amostra do que podem ler a partir deste sábado. Em breve contarei mais. Um trabalho de equipa com o João Carlos Silva e com o Gustavo Sampaio. E sim, esta Sábado sai a um sábado. Leiam e comentem. Ah, e bom sábado!

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“O meu nome não é importante. Sou Charlie “

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Domingo, 11 de Janeiro de 2015. São 14h25m. Milhares de franceses continuam a dirigir-se à Praça da República, em Paris. Todos os caminhos parecem ir lá dar. Os transportes públicos são gratuitos. Mas as estações de metro daí até à Praça da Nação foram encerradas por motivos de segurança. Os autocarros também viram o seu percurso interrompido num perímetro largo. Não há táxis. Os únicos veículos que circulam são os das autoridades e as muitas bicicletas que se vêem na capital francesa.

No alto da estátua da República, dezenas de pessoas empunham bandeiras de diversos países e cartazes com declarações de liberdade e homenagem ao Charlie Hebdo, o semanário satírico barbaramente atacado na passada quarta-feira pelos irmãos Said e Chérif Kouachi. Por toda a praça são entoados gritos de “je suis Charlie”, “liberté” e entoada a Marselhesa. Chegar junto à estátua é uma tarefa difícil. Mas é lá que, há cerca de uma hora e meia, Andreia e Joaquim seguram uma bandeira portuguesa.

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Os dois estão em França há cerca de seis anos. Ela é de Vila do Conde. Ele de Leça da Palmeira. Apesar de terem emprego em Portugal, decidiram emigrar porque arranjaram melhores oportunidades na capital francesa, ambos na área das limpezas. Nenhum conhecia o semanário dirigido por Charb antes dos atentados da semana passada. “Decidimos vir para nos manifestarmos contra o terrorismo e pela liberdade de expressão que há em França”, diz à SABADO Andreia, 27 anos. É ela quem segura na bandeira. Ele regista os momentos na máquina fotográfica que transporta a tiracolo. E é ele quem não poupa críticas ao que tem visto na televisão portuguesa. “O que tem passado é que eles estavam direccionados contra o Islão, o que é mentira. Eles criticavam toda a gente”, diz Joaquim, 37 anos.

Na zona oeste da Praça, a multidão começa a aglomerar-se junto ao início da Boulevard Voltaire – a enorme avenida de três quilómetros que termina na Praça da Nação. O percurso não podia ser mais adequado ao motivo da manifestação. Afinal foi Voltaire quem disse as palavras que podiam aplicar-se ao modo como os ilustradores do Charlie Hebdo viam o mundo: “Posso não concordar com o que tem a dizer, mas defenderei até à morte o seu direito a dizê-lo”.

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Meia hora antes do início da marcha, marcada para as 15h30 (menos uma hora em Portugal), é praticamente impossível alguém conseguir mover-se naquela zona. A solução é aguardar imóvel até que as primeiras filas avancem. Alguns edifícios em redor estão decorados com faixas com frases como “fiquemos unidos”, “liberdade” e o já viral “je suis Charlie”. A disciplina ordeira e o silêncio que por vezes se instala entre a imensa multidão impressionam. Tanto que por vezes ele é interrompido pelos gritos de três raparigas pequenas que no ultimo andar de um dos edifícios em redor gritam “Charlie, Charlie, Charlie”. Com o aproximar da hora, os manifestantes começam a gritar “queremos marchar”. Mas ninguém se atreve a dar o primeiro passo antes de o relógio marcar o minuto indicado.

A maioria tem uma mensagem. Seja num cartaz, num papel ou um simples lápis e caneta que empunham em sinal de liberdade. O percurso inicial é feito lentamente. Para percorrer cerca de 300 metros, aquela impressionante massa humana levou quase 40 minutos. No topo de alguns edifícios é possível ver policias armados a observar o que se passava ao nível da rua. Foi o caso do número 18. Quando a multidão os viu, começou a aplaudir e a gritar “merci, merci, merci”. Passou-se o mesmo mais à frente, no número 45-47. E de cada vez que o polícia acenava em sinal de agradecimento, mais aplausos se seguiam.

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Apesar dos apelos dos líderes da comunidade muçulmana francesa à participação no encontro, a verdade é que, se compareceram, os seus membros não estavam visíveis. A esmagadora maioria dos manifestantes era de origem europeia. Uma das excepções era Bouchra. Jurista, nascida em França, caminhava no centro da coluna com um cartaz que dizia num dos lados “Eu sou muçulmana, eu sou Charlie e todas as outras vítimas” e do outro “Não em meu nome”. Decidiu comparecer e afirmar-se como muçulmana porque é preciso “não ter medo”. “Mesmo que não concorde com o que eles faziam, aqui há liberdade de expressão. As pessoas que fizeram isto não são verdadeiros muçulmanos”, diz à SABADO sem interromper a marcha. Os atentados chocaram-na. “Ainda por cima foi no meu bairro, estava a trabalhar quando soube e fiquei sem saber o que pensar. Usar a religião para justificar uma coisa destas é inaceitável”, diz.

Ao fim de três horas e meia a Praça da Nação surge já envolta em escuridão. Alguns milhares de pessoas ainda se juntam no meio da rotunda, mas a maioria acaba por seguir o seu caminho. Na zona onde se concentraram as câmaras de televisão, todos aqueles que empunham uma bandeira tentam mostrar a solidariedade do seu pais. É lá também que está Urbano Brites. Português, de Fátima, emigrou para França há 19 anos. As frases em português já são intercaladas por expressões em francês. Também ele empunha uma bandeira nacional. “Trouxe-a para mostrar as minhas origens”, diz à SABADO. “Comprei um pau de vassoura no caminho e colei-a”, diz. Não se importa que a maioria das pessoas que o aborda seja queira fazer apenas uma pergunta: “de que país é essa bandeira?”

A ex-mulher de Urbano abriu há pouco tempo um restaurante em Montrouge, a zona onde Amedy Coulibaly matou uma mulher polícia, na passada quinta-feira. “Não sabia se o meu filho estava com ela ou não. Fiquei muito preocupado”, conta. Um pouco mais ao lado, um homem segura um cartaz com uma mensagem em que assume o que muitos não fazem: “compreendi que a nossa liberdade se deve à irreverência deles e agora também às suas vidas. Je suis Charlie.” Com um ar visivelmente abatido explica à SABADO : “Escolhi esta mensagem porque foi o que senti. Seguia-os à distância e percebi que eles lutavam por toda a gente. Por isso tenho também um desenho deles que diz mais à cultura francesa [de Jesus a ter relações com Deus e com o Espírito Santo]. Toda a gente tem o direito de se exprimir”. Quando a SABADO lhe perguntou o nome ia começar a responder mas depois mudou de ideias: “o meu nome não é importante. Sou Charlie.”

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“Devemos poder viver livres e tranquilos, não queremos ser protegidos.”

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Quando este domingo milhares de pessoas se juntarem na Place de la République, em Paris, para uma marcha em homenagem às vítimas dos atentados terroristas da última semana e pela liberdade de expressão, Samuel Njoh vai estar entre elas. No entanto, estará lá por outro motivo: “vou manifestar-me pela pena de morte”, diz à SABADO junto ao Hyper Casher, o supermercado atacado esta sexta-feira por Amedy Coulibaly onde morreram cinco pessoas – além do terrorista.

Para que não houvesse dúvidas sobre o que acabara de dizer, Samuel Njoh voltou a repetir: “vou manifestar-me pela pena de morte”. Alto, negro, o homem nascido nos Camarões não parece exactamente um apoiante da Frente Nacional de Marine Le Pen que, na sequência dos atentados ao jornal satírico Charlie Hebdo, defendeu um referendo à pena capital. “Não, sou republicano, e cristão praticante. Mas é altura de dizer às pessoas que é necessário justiça. É precisa a pena de morte”, diz. O argumento é simples: “olhe para as pessoas que foram assassinadas. Morreram por nada. Se o Coulibaly tivesse sido apanhado vivo era julgado, cumpria 20 ou 40 anos e depois voltava ao mesmo. Não, é necessário lançar o debate.” Nem a própria contradição entre os princípios cristãos, que diz praticar, e o que acabou de defender o demove. “Nos Camarões há cristãos e muçulmanos mas se eu matar um polícia vou a tribunal militar e levo a pena de morte”, garante.

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A ideia expressa por Samuel Njoh (e os aplausos que recebeu de quem o ouviu) parece mostrar que, após um primeiro momento de união total, a sociedade francesa começa a expressar as suas divisões. Bastou que o terceiro atacante tenha decidido invadir um supermercado apenas por um motivo: era um estabelecimento judeu. O que até aí era visto como um atentado à liberdade de expressão passou também a ser encarado como um crime de ódio. “É preciso dizer que quem fez isto é uma minoria. Mas o problema é que as minorias podem fazer muito mal. Esta matou 17 pessoas e feriu muitas outras”, diz à SABADO Samuel Elbase, residente nos arredores do Hyper Casher. “Nós, judeus, quando uma criança faz alguma coisa de mal, dizemos-lhe que a vamos denunciar. Fazemos isso para a proteger. O problema são os muçulmanos cúmplices que não fizeram nada. É preciso denunciar isto mesmo que se trate do nosso filho”, continua.

As vozes minoritárias que tentam explicar que este não foi um ataque a judeus nem a cristãos, que foi um ataque aos franceses e à própria liberdade, não conseguem fazer ver os seus pontos de vista. Pelo menos no dia seguinte aos ataques. Os ânimos estão revoltados. A polícia continua a isolar o estabelecimento que fica numa esquina de um bloco de apartamentos, entre uma rotunda e uma bomba de gasolina, nos limites de Paris.

Tal como aconteceu junto à redacção do Charlie Hebdo, a população começou a depositar flores, mensagens e velas junto às barreiras da polícia. Samuel Njoh foi lá colocar um ramo. Yoav, de 27 anos, também se deslocou ao local para prestar homenagem às vítimas. E como a maioria dos que aceitam dar uma opinião sobre os acontecimentos, não tem dúvidas sobre o que é preciso fazer para evitar novos atentados. “Cabe aos muçulmanos colocar as coisas no seu devido lugar e dizer que isto não é o Islão. É preciso educar as crianças na ideia de que somos todos iguais: judeus, cristãos e muçulmanos”, diz à SABADO. Com o dedo da mão direita espetado e a mão esquerda a segurar a trela do pequeno cão preto que passeia, diz: “devemos poder viver livres e tranquilos, não queremos ser protegidos.” Samuel Njoh concorda. “Assim não temos total liberdade. Eu vivo ao fim da rua. Ontem sai do trabalho e vi isto. Pensei na minha filha e fiquei doente. Também por isso vou manifestar-me”, diz.

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As crianças soldados dos Zetas

O tráfico de droga mundial é controlado pelos cartéis mexicanos. Os Zetas são talvez o mais conhecido – e violento. Composto por ex-comandos, o grupo tem seguido uma estratégia de terror com uma componente cada vez mais importante: o recrutamento de crianças. São a “Geração Z”.

Leitura para o fim-de-semana: a senhora da guerra afegã

Começou a combater contra os soviéticos. Lutou ao lado de Ahmar Shah Massoud. Agora enfrenta os Talibã. Os homens começaram a chamar-lhe “Comandante Pombo” – pela forma como se movia e a elegância com que matava os inimigos. A jornalista Jen Percy passou uma noite no seu acampamento – e conta a história na The New Republic.

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Foto: Lorenzo Tugnoli

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’d been living in Afghanistan three weeks when my guide, a young Afghan named Sharif Sahak, showed me a photograph of the country’s only known female warlord, Bibi Ayisha, nom de guerre: Commander Pigeon. It was late 2013, the Americans were preparing to leave, and Sharif had heard that the commander was training a new militia of female jihadists to fight the Taliban. In the photograph, she looked to be about 200 pounds and 60 years old. A large woman with black eyes made small by folds of skin. A beaked nose protruded from a wide flat face. She held her machine gun against her bosom like a bouquet of roses. A few girls dressed in bright loose tunics holding AK-47s stood at her side, with ammo wound like gold pythons about their necks. “Hot chicks with AKs,” Sharif remarked.

Everybody in Kabul knew about Commander Pigeon, but no one agreed on a narrative. The Afghans accused her of robbery and murder. A few suspected she worked with Taliban commander Mullah Dad-e Khuda, who escaped from Bagram prison in 2008, and a local warlord called the Green Imam. Together they supposedly controlled all the drug-trafficking routes in the north. One person told me, “She has many houses in Kabul but prefers to live in the mountains among the animals.” She didn’t have any of the usual warlord stories. No acid throwing or biting off chicken heads, or leaving prisoners in vats to die. She was not like Commander Zardad who kept a human dog on a chain to maul and sometimes eat people. She was a woman and she killed menwhile wearing a flowery dress.

According to locals, Commander Pigeon was born in the village of Gawi, and her father was named Haji Dawlat and he had seven wives, and his second wife had ten children, and of these children, Commander Pigeon was the most loved. She carried a gun at age 14, the same year she married Shad Muhammad, a businessman whose reputation was said to suffer because he allowed Commander Pigeon to wear pants. He died of a mysterious illness. Then, in 1979, the Soviets swarmed her mountain and murdered her son. She turned to jihad. She killed the commando, organized a militia of 150 men to fight the Soviets, and rode alongside Ahmad Shah Massoud, leader of the Northern Alliance. They called her Commander Pigeon because she moved and killed with the elegance of a bird.

When the Americans arrived in 2001, the northeast was a mess of insurgent groups governed by warlords like Commander Pigeon. The United Nations started a program called the Disbandment of Illegal Armed Groups (DIAG), and by 2006, DIAG disarmed about 60,000 militants. Then the government faced a second problem: unemployed combatants. The United Nations invested in more programs, including business courses for ex-combatants, focused on job skills. But most of the warriors, like Commander Pigeon, didn’t want to disarm. Once the Americans left, factional fighting would start up again. They needed their weapons. Commander Pigeon already regretted giving up her vintage World War II British .303 Lee-Enfield rifle.

This year, an Australian security consulting firm conducted a survey on inspirational Afghan women, and their research led them to Commander Pigeon. On her public Facebook page, one fan wrote: “She has proven to the world that women of Afghanistan are not victims; she’s more stronger then any women in the world today.” She certainly sounded very different from any of the Afghan women I had met or heard about. I’d been talking to women in shelters, victims of domestic violence, or kidnapped girls working as sex slaves for commanders. One of them, a teenage girl, said Commander Pigeon was a hero. After all, since 2001, Americans have invested in infrastructure allowing women to attend school or gain positions of power. But the month I arrived, Afghans shipped 30-year-old Setara to Turkey to get her lips and nose sewn back on after her husband cut them off with a kitchen knife. A pregnant schoolteacher named Malalai was hanged and her body dumped near a foreign base. No one could save Negar, the top female police officer in Helmand, after she was shot in the neck by men on motorbikes. And yet no one has managed to kill Commander Pigeon. For 34 years, she has commanded a group of armed fighters from her stronghold 250 miles north of Kabul in Baghlan Province, the same region where the British said Afghans sliced the stomachs of Russian soldiers and left them to die so that their organs might bake in the sun.

Sharif, a clean-shaven 28-year old, was friends with the newly appointed police chief of Baghlan Province, a man named General Amarakhail, and he said he could help arrange a visit.

“I think she’ll like you,” Sharif said.

ome Afghans believe cannibalistic females haunt the Hindu Kush. They are simian and boar-tusked and have long, floating hair. They eat corpses. Commander Pigeon lived on the other side of the Hindu Kush, over a pass called the Khotal-e Salang. According to the Afghan Analysts Network, Baghlan Province has between 2,500 and 3,000 Taliban, inhabiting an area about the size of Connecticut.

On a Sunday morning, Sharif and I, along with a driver and a photographer named Lorenzo, packed into a small Toyota Corolla with a prayer rug and headed north out of Kabul on Highway 1. We left just as the first winter snows were falling, and Sharif told us about the avalanches of 2010 that killed hundreds of people on the pass. “There are more ways to die in Afghanistan,” Sharif said, “than anywhere else in the world.” The Salang pass, at its highest, skims 12,723 feet. It’s a tight, twisting section of potholed road, clogged with Pakistani jingle trucks, scattered with memorials. A Soviet-built tunnel cuts almost two miles through the heart of the mountains.

Snow fell and the roads darkened to mud. The men put on chains and I put on a burka. Sharif said it looked strange. He explained: Don’t talk. Don’t smack gum. Don’t lean your elbow against the window like you keep doing. Cover your legs. Don’t get out of the car. Be a good girl. Most importantly, cover the hair. Hide your passport. We are a Tajik rock band and you are the singer going to sing for Commander Pigeon.

 

Leitura para o fim-de-semana: O eremita da floresta do Maine

Durante 27 anos, Christopher Knight viveu isolado do mundo. Numa floresta. De vez em quando saia de entre as árvores para roubar roupa, comida ou baterias para as lanternas. Nunca ninguém o viu. À medida que os objectos iam desaparecendo, tornou-se uma lenda para os moradores do Central Maine. Até que, um dia, a4 de Abril de 2013, foi apanhado. E disse as suas primeiras palavras em décadas. Uma reportagem excepcional, publicada na GQ.

Foto: Andy Molloy/ Kennebec Journal/ AP Photo

Foto: Andy Molloy/ Kennebec Journal/ AP Photo

The Strange & Curious Tale of the Last True Hermit

For nearly thirty years, a phantom haunted the woods of Central Maine. Unseen and unknown, he lived in secret, creeping into homes in the dead of night and surviving on what he could steal. To the spooked locals, he became a legend—or maybe a myth. They wondered how he could possibly be real. Until one day last year, the hermit came out of the forest
BY MICHAEL FINKEL
Thehermitsetoutofcampatmidnight,carryinghisbackpackandhisbagof break-in tools,andthreadedthroughtheforest, rock toroot to rock,everystepmemorized.Not abootprintleftbehind.Itwascoldandnearlymoonless, a finenight for araid,sohehikedaboutanhour tothePineTreesummercamp, afewdozencabinsspreadalongtheshorelineofNorthPond in centralMaine.Withanexperttwistof ascrewdriver,hepoppedopen adoorofthedininghallandslippedinside,scanningthepantryshelveswithhispenlight.Candy! Always good. Ten rolls of Smarties, stuffed in a pocket. Then, into his backpack, a bag of marshmallows, two tubs of ground coffee, some Humpty Dumpty potato chips. Burgers and bacon were in the locked freezer. On a previous raid at Pine Tree, he’d stolen a key to the walk-in, and now he used it to open the stainless-steel door. The key was attached to a plastic four-leaf-clover key chain, with one of the leaves partially broken off. A three-and-a-half-leaf clover.

He could’ve used a little more luck. Newly installed in the Pine Tree kitchen, hidden behind the ice machine, was a military-grade motion detector. The device remained silent in the kitchen but sounded an alarm in the home of Sergeant Terry Hughes, a game warden who’d become obsessed with catching the thief. Hughes lived a mile away. He raced to the camp in his pickup truck and sprinted to the rear of the dining hall. He peeked in a window.

And there he was. Probably. The person stealing food appeared entirely too clean, his face freshly shaved. He wore eyeglasses and a wool ski hat. Was this really the North Pond Hermit, a man who’d tormented the surrounding community for years—decades—yet the police still hadn’t learned his name?

Hughes used his cell phone, quietly, and asked the Maine State Police to alert trooper Diane Perkins-Vance, who had also been hunting the hermit. Before Perkins-Vance could get there, the burglar, his backpack full, started toward the exit. If the man stepped into the forest, Hughes understood, he might never be found again.

The burglar eased out of the dining hall, and Hughes used his left hand to blind the man with his flashlight; with his right he aimed his .357 square on his nose. “Get on the ground!” he bellowed.

The thief complied, no resistance, and lay facedown, candy spilling out of his pockets. It was one thirty in the morning on April 4, 2013. Perkins-Vance soon arrived, and the burglar was placed, handcuffed, in a plastic chair. The officers asked his name. He refused to answer. His skin was strangely pale; his glasses, with chunky plastic frames, were extremely outdated. But he wore a nice Columbia jacket, new Lands’ End blue jeans, and sturdy boots. The officers searched him, and no identification was located.

Hughes left the suspect alone with Perkins-Vance. She removed his handcuffs and gave him a bottle of water. And he started to speak. A little. When Perkins-Vance asked why he didn’t want to answer any questions, he said he was ashamed. He spoke haltingly, uncertainly; the connection between his mind and his mouth seemed to have atrophied from disuse. But over the next couple of hours, he gradually opened up.

His name, he revealed, was Christopher Thomas Knight. Born on December 7, 1965. He said he had no address, no vehicle, did not file a tax return, and did not receive mail. He said he lived in the woods.

“For how long?” wondered Perkins-Vance.

Knight thought for a bit, then asked when the Chernobyl nuclear-plant disaster occurred. He had long ago lost the habit of marking time in months or years; this was just a news event he happened to remember. The nuclear meltdown took place in 1986, the same year, Knight said, he went to live in the woods. He was 20 years old at the time, not long out of high school. He was now 47, a middle-aged man.

Knight stated that over all those years he slept only in a tent. He never lit a fire, for fear that smoke would give his camp away. He moved strictly at night. He said he didn’t know if his parents were alive or dead. He’d not made one phone call or driven in a car or spent any money. He had never in his life sent an e-mail or even seen the Internet.

He confessed that he’d committed approximately forty robberies a year while in the woods—a total of more than a thousand break-ins. But never when anyone was home. He said he stole only food and kitchenware and propane tanks and reading material and a few other items. Knight admitted that everything he possessed in the world, he’d stolen, including the clothes he was wearing, right down to his underwear. The only exception was his eyeglasses.

Perkins-Vance called dispatch and learned that Knight had no criminal record. He said he grew up in a nearby community, and his senior picture was soon located in the 1984 Lawrence High School yearbook. He was wearing the same eyeglasses.

For close to three decades, Knight said, he had not seen a doctor or taken any medicine. He mentioned that he had never once been sick. You had to have contact with other humans, he claimed, in order to get sick.

When, said Perkins-Vance, was the last time he’d had contact with another person?

Sometime in the 1990s, answered Knight, he passed a hiker while walking in the woods.

“What did you say?” asked Perkins-Vance.

“I said, ‘Hi,’ ” Knight replied. Other than that single syllable, he insisted, he had not spoken with or touched another human being, until this night, for twenty-seven years.”

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