Os portugueses que fazem rir a América

No final de Junho estive em trabalho nos Estados Unidos. Na passagem por Provincetown, para assistir ao festival português, tive uma boa surpresa: no final da tradicional parada, o cônsul de Portugal em New Bedford, Pedro Carneiro, falou-me num grupo de humoristas luso-descendentes que estão a fazer sucesso nos EUA e no Canadá e que estavam prestes a actuar: “Chamam-se The Portuguese Kids e acho que são muito bons. Fazem humor com os estereótipos dos imigrantes portugueses. Ainda não os vi, gostava de ir assistir.” Fui com ele.

Quando chegámos, o espectáculo já tinha começado. As gargalhadas ouviam-se à distância. Numa tenda completamente lotada, o grupo apresentava uma versão reduzida dos seus espectáculos. E tinham realmente piada. No final, estiveram a vender merchandising, a dar autógrafos e a tirar fotografias. Achei logo que tinha de fazer uma história sobre eles.

Feitas as apresentações, havia uma coisa importante a tratar: o jantar. Derrick DeMelo, Brian Martins, Daniel Martins e Alberto Sardinha (Jason Casimiro não estava), foram simpáticos os suficiente para aceitarem falar comigo enquanto comiam umas ostras e bebiam umas imperiais. Nessa refeição fiquei a conhecer parte da sua história, onde se inspiravam e, mais importante, que se preparavam para vir a Portugal filmar o vídeo da sua primeira música original. Ficou logo combinado que os acompanharia em Lisboa. Foi o que aconteceu: o resultado foi publicado na Sábado, na semana passada. As fotos, são da Raquel Wise.

Sociedade

– Acho que é ele.

– Não acredito.

– É sim, é ele. Tenho a certeza.

Em plena loja do Sport Lisboa e Benfica, no Estádio da Luz, Chassity e Emma Pacheco vêem uma cara que lhes parece familiar. Aproximam-se para ter a certeza. Passam a poucos centímetros de um grupo de rapazes mas só param mais à frente. Depois viram-se outra vez para trás.

– Olha, estão todos.

– Pois estão.

– Ai meu Deus.

Nesta altura não aguentam mais. Correm em direcção à mãe e dizem-lhe discretamente: “estão ali os The Portuguese Kids”. A mãe, Sónia Pacheco, volta-se para trás. Enquanto as raparigas quase se escondem atrás dela, solta um espontâneo: “hi guys” [olá rapazes]. Eles respondem de volta. Estão habituados a serem abordados na rua. Perguntam como elas estão e de onde são. As explicações ficam para Sónia Pacheco: “Vivemos em Toronto. Mas estamos cá de férias. Que coincidência enorme. As raparigas adoram-vos. Estão sempre a ver as vossas coisas na internet, mas nunca conseguiram assistir a um espectáculo ao vivo. E agora encontram-vos em Lisboa.”

Eles sorriem. As raparigas não dizem uma palavra. Mas Brian Martins adivinha-lhes a vontade: “Querem tirar uma fotografia?” Claro que querem. Noah, o irmão mais novo, também. O grupo junta-se à frente de uma prateleira com camisolas do Benfica e sorriem. Tiram um retrato e despedem-se.

O grupo de cinco rapazes – Derrick DeMelo, Jason Casimiro, Brian Martins, Alberto Sardinha e Daniel Martins – estava há pouco mais de 24h em Lisboa. Salvo raras excepções, tinham passado despercebidos até então. No Estados Unidos, onde vivem, ou no Canadá isso seria difícil. Desde que, há quatro anos, formaram os The Portuguese Kids e começaram a fazer comédia com o retrato do dia a dia dos emigrantes que se tornaram num dos maiores fenómenos de popularidade da comunidade lusa na América do Norte (cerca de 350 mil nascidos em Portugal e 1.8 milhões de luso-descendentes).

THE PORTUGUESE KIDS, LX.

Derrick DeMelo

Qual o local mais estranho onde já foram reconhecidos?

[Resposta em uníssono] Num strip club.

Derrick DeMelo: “Tínhamos ido fazer um espectáculo a Toronto e à noite fomos a um strip club. Estávamos lá sentados quando uma stripper se aproximou e perguntou: “hey, vocês não são os Portuguese Kids?”

Alberto – “Al” – Sardinha: “Ficámos sem palavras. Num strip club? Uau!”

Brian Martins: “Afinal era uma stripper portuguesa. Que passou a noite a fazer-nos sinais e a dizer adeus.”

Derrick DeMelo: “Dizem que em Portugal as strippers são todas brasileiras. No Canadá também há portuguesas.”

As vossas mulheres não vão ficar chateadas por contarem isto?

Derrick DeMelo: “Não, nós dissemos-lhes o que aconteceu”.

Os cinco rapazes nasceram em Fall River, uma cidade do estado do Massachusetts, em 1978. Cresceram juntos, num bairro cuja vida se centrava à volta da paróquia de Santo António de Pádua. Os pais tinham chegado aos Estados Unidos no início da década, a maioria originária dos Açores. Só os progenitores de Daniel Martins saíram de Viseu. Sempre foram dos mais divertidos da comunidade. “As pessoas achavam-nos piada”, diz Jason Casimiro.

Na faculdade produziram um espectáculo de comédia. Mas no final dos cursos, cada um arranjou um emprego numa área diferente. Derrick tornou-se bancário. Alberto, professor. Jason, técnico de informática. Brian, assistente de enfermagem. Daniel, dono de uma loja e gestor de um stand automóvel. Ainda assim, não desistiram de uma carreira como humoristas.

Brian Martins

Brian Martins

Inscreveram-se na escola de comédia e improviso do Improv Asylum, um teatro de Boston, onde se distinguiram dos restantes alunos. Em 2004 formaram um grupo chamado Out of the Gutter que apresentou espectáculos na região de New England. “Aos poucos fomos introduzindo coisas sobre as famílias portuguesas na América e as pessoas gostaram. A determinada altura começaram a vir ter connosco ao intervalo e a perguntar: ‘vocês vão fazer aquilo dos portugueses?’”, recorda Derrick DeMelo. Perceberam que a maioria ia ver os espectáculos por causa disso. Ou seja, descobriram um nicho de mercado. Algo que os distinguia de todos os grupos de comédia. Nasceram os The Portuguese Kids.
O conceito dos espectáculos é simples: em grupos de dois ou três, interpretam sketches com, no máximo, sete minutos, que retratam situações específicas, a maioria baseada nas suas experiências de filhos de emigrantes. Misturam palavras em português – que todos falam – com o inglês. Recorrem a poucos adereços: umas perucas, uns vestidos de mulher, chapéus masculinos e cadeiras basta para contar uma história.

Exemplos:

Brian Martins: “temos um sketch sobre um rapaz que teve um acidente e que, quando chega a casa, o pai está mais preocupado com o carro do que com ele. Isso aconteceu-me. Aos 19 anos um alce atravessou-se na estrada e eu não tive tempo de parar. Quando cheguei a casa o meu pai só perguntava: “estavas a mexer no rádio?”. E eu dizia: “eu estou bem, não te preocupes”. Ele respondia: “tu foste feito de graça, o carro custou-me cinco mil dólares.”

Derrick DeMelo: “os nossos pais eram muito pobres quando foram para os Estados Unidos. Trabalharam em fábricas, amealharam tudo o que conseguiram e quiseram preservar as coisas. Na parte de baixo das casas instalavam a sala de estar e a cozinha. No andar de cima tinham os quartos e ainda a sala e cozinha das visitas. Nunca ninguém lá entrava. Os meus pais mobilaram a sala e devem ter-se sentado umas 20 pessoas em 25 anos naqueles sofás. Nós não podíamos lá entrar.”

Albert Sardinha

Albert Sardinha

Albert Sardinha: “Punham também plásticos por cima das carpetes para podermos usar os sapatos. O sketch que faz mais sucesso é o do funeral, em que as mulheres choram e se atiram para cima do caixão e quando chegam cá fora dizem as piores coisas do morto, que não gostavam dele, que andava na droga, etc. E isso tudo é engraçado”.

O grupo começou a ganhar notoriedade aos poucos. Actuaram em restaurantes, associações e centros culturais. “Basicamente onde nos quisessem”, diz Derrick DeMelo. A fama começou a espalhar-se, também graças às redes sociais Facebook, My Space, Instagram e ao site de partilha de vídeos YouTube. A grande explosão deu-se no início de 2012 quando fizeram uma versão satírica da música “Sexy and I know it”, transformada em “Portuguese and I know it”. O tema foi um sucesso imediato e ultrapassou o milhão de visualizações.

Rapidamente o grupo começou a actuar fora da região de New England. E tiveram de se tornar profissionais. O primeiro a dedicar-se ao projecto a tempo inteiro foi Derrick DeMelo. Os outros seguiram-no pouco depois. Hoje, apenas Daniel Martins mantém outro emprego, por opção. Criaram a empresa Something Productions e montaram escritório em Fall River. Neste momento têm a agenda cheia até Março de 2015, com espectáculos marcados de sexta-feira a domingo. Em média têm entre 400 a 500 pessoas a assistir a cada show. Mas já actuaram perante 1200 pessoas. A cada três meses têm material novo. “Voltamos aos mesmos sítios e as pessoas querem ver coisas novas”, diz Brian Martins.

Este ano já atravessaram os Estados Unidos cinco vezes para actuar na Califórnia. São presença regular no Canadá e nas Ilhas Bermudas, onde o português é a segunda língua mais falada. E têm pedidos para actuar na África do Sul e na Austrália. “Vamos ver se vai ser possível”, diz Derrick DeMelo. Fazem cerca de 10 mil dólares por semana – e duplicam esse valor em merchandising (DVD, CD, t-shirts, etc).

Daniel Martins

Daniel Martins

Vieram a Portugal gravar o vídeo da sua primeira canção original, Portuguese Love to Party, em Lisboa, Porto e São Miguel. As localizações não foram escolhidas ao acaso: são mencionadas no tema, que é dedicado aos emigrantes que regressam a Portugal para passar férias. Esperam que se torne um hit de Verão, que estará disponível – como as outras canções e áudios dos sketches –para download no iTunes. Na capital, onde foram acompanhados pela SÁBADO, filmaram no Bairro Alto, Praça do Comércio, Alfama, Belém e Castelo de São Jorge.

À excepção de Daniel Martins, os restantes Portuguese Kids nunca tinham estado em Lisboa. As referências que tinham foram-lhes transmitidas por familiares ou vistas na televisão. À passagem pelo Chiado, o nome de Fernando Pessoa não foi imediatamente familiar. Ao contrário de “A Brasileira”. “O Anthony Bourdain esteve aqui. É dos sítios mais antigos de Lisboa. Temos de lá entrar”, diz Derrick DeMelo.

Sempre que podem, os cinco prestam atenção ao que se passa online. Qualquer paragem num café ou restaurante com wifi é serve para cada um agarrar no respectivo telemóvel.

Derrick DeMelo: “Passamos tanto tempo juntos que às tantas já nem conversamos muito. Na maior parte das vezes estou a actualizar o Facebook. O Brian trata do Twitter. E fazemos todos um bocado o Instagram”.

A viagem a Portugal é acompanhada por milhares de fãs. Em cerca de 20 minutos, cada fotografia colocada no Facebook recebe quase dois mil gostos. E muitos comentários.

Jason Casimiro

Jason Casimiro

Brian Martins: “Onde é o Parlamento? Alguém acabou de nos convidar para lá ir”.

[Era Maria João Ávila, deputada do PSD eleita pelo círculo de fora da Europa.]

Brian Martins: “É tudo o que precisamos de saber.”

[Estavam demasiado ocupados. Disseram que não tinham tempo para lá ir. Mas já a conheceram.]

Derrick DeMelo: “Encontrámos-nos em Nova Jersey. Ela quis tirar uma fotografia connosco. Sou amigo dela no Facebook e está sempre a colocar fotos com alguém conhecido.”

Tentam não tomar posições políticas. “Sabemos que temos fãs dos dois lados, democratas e republicanos. Claro que temos as nossas opiniões e posições, mas somos nós individualmente. Como grupo só os queremos fazer rir”, diz Derrick DeMelo. “Ainda para mais com as redes sociais, as pessoas não têm filtro. Agarram-se ao teclado e perdem a cabeça. Dizem tudo”, completa Daniel Martins.

Foi o que aconteceu durante o campeonato do mundo de futebol, com o jogo entre Portugal e os Estados Unidos. “Dissemos apenas que esperávamos que as duas equipas estivessem bem. Ainda assim começou uma guerra no nosso mural de Facebook”, conta Daniel Martins. “Se não apoiássemos Portugal não éramos portugueses. Se quiséssemos que Portugal ganhasse, éramos anti-americanos. É complicado”, continua.

Ao contrário do que aconteceu com a deputada social-democrata, aceitaram o convite-surpresa para visitar a sede da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento, onde o membro do conselho executivo, Michael Baum, os convidou para colaborar com a instituição na promoção de um programa destinado a trazer estudantes norte-americanos para Lisboa durante um semestre. Horas depois, embarcaram para São Miguel onde visitaram familiares e as terras dos pais. Daí seguiram para um dia de filmagens no Porto. E nos primeiros dias de Agosto estarão de volta às actuações, na festa do Santíssimo Sacramento, em New Bedford, uma das maiores festas da costa leste dos Estados Unidos.

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Antes, sentados numa mesa de um restaurante no Cais do Sodré, continuam a recordar as maiores experiências:

Brian Martins: “Já tive raparigas a mostrar-me as mamas e um homem a perguntar-me se não queria ter sexo com a mulher dele. Uma loucura”.

Derrick DeMelo: “Mas o Al é que é o solteiro, ele é que pode contar”

Al Sardinha: “Vá lá…”

Derrick DeMelo: “Uma vez, no Canadá, ele estava a vender o merchandising no final do espectáculo quando apareceu uma mulher. Nós já a tínhamos visto em palco, era aquela que mais aplaudia e cuja voz se ouvia sempre. Pediu para tirar uma fotografia com ele e depois puxou-o para um corredor e começou aos beijos logo ali. Às tantas ela perguntou-lhe: ‘tens namorada’. Ele disse: ‘não, e tu?’. Ela responde: ‘sou casada. Estou a ter uma noite com as amigas’. E estava toda a gente a vê-los porque o corredor dava para uma sala onde estavam 400 pessoas. Ele encolheu-se e as amigas puxaram-na dali para fora.”

Al Sardinha: “Uma loucura.”

Ainda assim, as situações que mais os marcaram são completamente diferentes. “Vem muita gente ter connosco dizer que os fizemos lembrar dos pais e dos avós que já morreram. Mas foi quando um homem se aproximou de nós e nos disse que o filho quer aprender português por nossa causa, que percebemos que estamos a marcar a diferença. E isso já aconteceu várias vezes”, conta Derrick DeMelo.

Raquel Wise em acção

Raquel Wise em acção

Leitura para o fim-de-semana: o purgatório de Lance Armstrong

Quando Lance Armstrong admitiu o consumo de substâncias dopantes, o mundo caiu-lhe em cima. Foi afastado da fundação que criou para promover a luta contra o cancro, perdeu contratos publicitários, chamaram-lhe todos os nomes. O que aconteceu desde então? A reportagem é da revista Esquire.

Foto: Joe Pugliese

Foto: Joe Pugliese

LANCE ARMSTRONG IN PURGATORY: THE AFTER-LIFE

After a great fall, what do we remember? We remember the cheating, and the lies. We remember the cult of personality that we eagerly embraced, and then felt betrayed by. But what of the man who fell? What about the work he didn’t cheat at? What about the 16 years Lance Armstrong spent building a global cancer advocacy? Did it matter? Does it still? Does it matter that Livestrong, the foundation that kicked him out, now wants him back? Do we care what happens to the great work a man has done, after a great fall?

By John H. Richardson

Here in purgatory, the mansion is smaller, but the wine cellar, paneled in rich mahogany and stocked with thousands of bottles, is truly magnificent. The TV will go over on that wall. The lighting system is still being installed but it will be all muted and indirect, like an art gallery.

Upstairs, he leads a tour of his art collection. The work is edgy and full of dark action: a photograph of a dancing couple with giant thorns emerging from their backs, a photorealistic painting of a woman jumping through a window, an empty desert landscape charged with eerie stillness. “That’s by Ed Ruscha,” he says. “He’s a friend.” There’s a giant wooden map of Texas on the wall. If you look close, he says, you see that every single line was burned into the wood with a pyrographic iron. “I like art that makes me go, How did he do that?” he says. “Stuff that is technically amazing.”

Later, he says, he’ll dig out a really beautiful piece made completely out of cockroach wings.

On the desk of his little office nook sits a sculpted arm made out of laminated skateboards that, in a perfect touch, ends in a fist with an upraised middle finger.

The fall from an ordinary perch is a universal story. Few of us get through life without one taste of failure and disgrace. But the fall from a very great height is a different order of experience altogether, because it happens to a different kind of person—the kind who was driven to climb that high in the first place. Should it come as a surprise that such a person—this man right here—makes a lousy penitent?

Depression? Self-loathing? Emotional paralysis? Lance Armstrong will not indulge, thank you. A year and a half after the scandal that ended his career, after being stripped of all his trophies and confessing the ugly truth to his children and losing in a single day an estimated $150 million, these are the circumstances to which he has been reduced.

A glass of wine, perhaps? Or is it time yet to mix up some of his special margaritas—Lanceritas he calls them—with the ice crushed just so? He loves his Lanceritas, and he loves his crushed ice.

Despite his preference for solitary sports, Armstrong also loves a full house. Little children are everywhere, their toys littering the floor of every room. In the kitchen, a coven of beautiful women is preparing dinner. One is his loving girlfriend, a Modigliani blond named Anna Hansen. Her equally beautiful friend teases Armstrong with easy intimacy, bringing a glass of freshly opened wine out to the outdoor sofas by the pool. “Here’s your wine, HRH,” she says. “We call him HRH for ‘His Royal Highness.’ ”

While the food cooks, Armstrong lounges—on this Sunday afternoon in Austin, the sun is bright and the temperature cool—watching a toddler in a Supergirl outfit wrestle his youngest son to the grass. Life is good, he insists. He has five happy children. He’s learned who his real friends are. And he is learning to not fight all the time. Really. A fringe benefit of crushing defeat is learning to accept things.

Except for that leaf scooper jutting up over his wall. The neighbor always leaves it sticking up there. Look at that goddamn ugly thing, man, ruining an otherwise perfect setting. It is most definitely not perfect. Not perfect at all. You can see this incongruity just working on Armstrong, in his eyes, the set of his jaw.

“A couple more glasses of wine and you’ll climb over there,” a friend teases.

Halfway through dinner, Armstrong begins slurring his words. Just a little, barely noticeable. He detaches and focuses on his meal while his friends carry the conversation, chatting about Austin traffic and how the media only quotes the bad things. Some of Armstrong’s kids drift through, a little one sitting in his lap and begging for a sleepover. He masks affection with a pretense of crankiness, or maybe he is actually a little cranky. Either way, tonight every second of his forty-two years shows. Even here, in the afterlife, he manages to make relaxation look remarkably intense.

It bears reminding that before Armstrong became a reviled figure, this same intensity made him Herculean, to none more so than people all over the world with cancer. To those people, he remains a hero, and it is that work, he says, that has given his life the most meaning, even though the global cancer charity he built and seeded with almost $8 million from his own bank account told him not long ago it wanted nothing further to do with him and literally erased his name from memory, changing its name from the Lance Armstrong Foundation to the Livestrong Foundation.

But trail him for a few days and watch how giddy and hopeful the sick and the dying become in his presence, forgetting for a moment their nausea and pain and mortal fears. Amid all the controversy and disgrace, you admit, you forgot just how important Lance Armstrong was and still is to cancer patients everywhere.

“Yeah, you and about seven billion other people,” Armstrong says.

Last spring, he even got kicked out of a local swim meet. This was six months after the USADA—the United States Anti-Doping Agency—issued the lifetime ban against him competing in any sport “under the Olympic umbrella,” which includes pretty much anything anywhere. (The cyclists who testified against him, most of whom were just as guilty, got six months.) But he figured a little Austin swim race would be okay. It’s Austin, for chrissakes, his refuge, and the organizer said it was fine, he could swim—but then one guy had a problem and the calls went from Austin to Florida to Switzerland and finally the answer came back: No, Lance Armstrong can’t even compete in a local swim meet. “Anything I try to do, any sport, even archery and volleyball, I can’t do it,” he says.

He’s sorry, he swears, for the lies and the bullying and the lawsuits against journalists. “It was indefensible,” he says. “Pure hubris.” But he’s not going to be a hypocrite, either. The doping charges were bullshit. “Nobody has stepped forward and said, ‘I really won those races,’ ” he says. “They didn’t award those jerseys to somebody else. I won those races.”

This we can stipulate: Lance Armstrong cheated death, and then he kept on cheating. And he was no run-of-the-mill cheat. Sublimely American in his ambition, he became the best cheater, greatest cheater of all time, turning a European bicycle race into a gaudy, ruthless, and unprecedented demonstration of American corporate prowess and athletic hegemony. He doped and bullied other bikers to dope and sued or harassed people for telling the truth about him, which is hard to forgive. But he wasn’t the evil genius who invented evil. At twenty-three days and twenty-two hundred miles, the Tour is so hard that cyclists have always sought some kind of performance enhancement. In the 1920s, they took cocaine and alcohol, and in the 1940s, amphetamines. In 1962, fourteen of them dropped out because of morphine sickness. Between 1987 and 1992, use of the blood-oxygen booster called EPO may have killed as many as twenty-three riders. But even that didn’t stop them. In his testimony to the antidoping agency, testimony that helped ruin Armstrong, a former teammate named Frankie Andreu told investigators that when they first met on the European circuit in 1992, both of them quickly realized that “it was going to be difficult to have professional success as a cyclist without using EPO.” This was, in fact, the “general consensus” of the entire team, Andreu added.

And that’s how things stayed. The year before Armstrong won his first Tour, seven entire teams left the race after an assistant for the Festina team was caught with massive quantities of EPO, testosterone, and human growth hormone. The year after he left, the first-place winner got disqualified because of a bad test. The handful of idealists who refused to take anything at all, men like Darren Baker and Scott Mercier, quickly learned they couldn’t compete and dropped out. Everyone in cycling was aware of this history, and everyone knew the charges against Armstrong—the first book-length exposé came out way back in 2004. Nike even made them the subject of one of its most famous ads, a montage of swooping bicycle attacks matched to Armstrong’s confident narration:

Everybody wants to know what I’m on. What am I on? I’m on my bike busting my ass six hours a day.

He was a spectacular product, a very winning brand, and as long as he kept protesting his innocence and a shred of doubt persisted, anyone remotely associated with him continued to profit. Trek Bicycle doubled its sales, Nike washed away the memories of its sweatshop scandals, his teammates shared the profits from his victories, and his foundation pulled in hundreds of millions in charitable donations. The rest of us profited in more subtle ways. In the dark days that followed the 9/11 terrorist attacks, Armstrong was a living American myth, the troubled and cocky natural who fought testicular cancer and came back to win the hardest sports event in the world seven times in a row. Seven times in a row! It was a resurrection, a modern miracle. He appeared on Wheaties boxes, starred in those iconic Nike ads, presented a bike to Bill Clinton at the White House, hung out with Bono and Sean Penn, dated Sheryl Crow and Kate Hudson, and wrote a best-selling memoir calledIt’s Not About the Bike that inspired cancer patients like nothing had ever inspired them before. He replaced the phrase “cancer victim” with “cancer survivor” and made it so hip to wear a yellow Livestrong bracelet, ninety million of them sold at a dollar apiece. John Kerry wore one on the campaign trail. John McCain talked about cancer at a Livestrong event. There was serious talk about a campaign for governor of Texas.

Armstrong believed in this story as much as anybody. He came out of a shabby little Dallas suburb like a snarling dog, son of a scrappy teenage mother who still hasn’t forgiven the dirty looks of her classmates and a stepfather who cheated frequently and beat him with a fraternity paddle. “As bad as he says his childhood was,” one old friend says, “it was worse. And the lesson he took from that was that people will fuck you, and you have to fight for everything you get.” In sports, he transformed that lesson into a warrior’s code. “Did you ever hear about how when you stab somebody, it’s really personal?” one coach told him. “Well, a bike race is that kind of personal. Don’t kid yourself. It’s a knife fight.”

Armstrong treated the doping charges like a knife fight too, playing the cancer card shamelessly—in one Nike ad, racing along narrow roads in his iconic yellow helmet, he sneered at his detractors:

The critics say I’m arrogant. A doper. Washed up. A fraud. That I couldn’t let it go. They can say whatever they want—I’m not back on my bike for them.

Cut to a cancer ward, where the camera panned over the chemo-ravaged patients to teach those silly critics a lesson in what’s really important.

And he got away with it. Despite all the rumors and accusations, Armstrong retired in 2005 with a clean record. His fatal mistake was trying to make a comeback four years later—and that is where his story goes into a deeper level of myth. As in a prophetic tale, he remembers one particular night of grim foreboding in Fort Davis, Texas, when he sensed his comeback was going to bring down the furies. He and Anna were at a café. “Every part of my being said, I gotta fucking stop this right now—I can’t do this. And Anna, bless her heart, was saying, ‘What are you talking about? What’s the problem?’ ” But he couldn’t stop. The sponsors were chomping at the bit for a comeback. The foundation and the fans were excited. Fate was beckoning him, and he couldn’t turn away. “I would do anything to be sitting back in that small café with Anna, and make a decision to just call it off.”

Then it all vanished in an instant. Cornered for transgressions that surprised absolutely no one inside the sport, Armstrong suffered one of the most astonishing and brutal reversals of fortune in American history, a level of punishment so extreme it raises the question of what was really being punished.

A year and a half later, Armstrong is still trying to figure out the answer.”

O artigo completo está aqui.

O fim das guerras não significa o fim da barbárie

No final da guerra no Kosovo, o jornalista Michael Montgomery viajou para os Balcãs para investigar o misterioso desaparecimento de sérvios. Foi parar a uma rede de tráfico de órgãos que envolvia o exército de libertação do Kosovo e agora recordou o que descobriu para a série da ViceCorrespondent Confidential. 

Os campos de concentração do século XXI

Escravatura dos tempos modernos

Adoro camarões. Se não forem assim tão caros, tanto melhor. Mas nada justifica que algumas pessoas estejam a ser tratadas como escravas para que nós possamos ter marisco mais barato nas prateleiras dos supermercados. E é isso que está a acontecer na Tailândia, como revela uma investigação do The Guardian. Vejam este vídeo. E na próxima vez que pegarem num camarão, não vão olhar para ele da mesma maneira.

Leitura para o feriado: “A vítima perfeita”

Foi há 19 anos. Alcindo Monteiro, um português de origem cabo-verdiana, foi espancado até à morte por um grupo de skinheads, na Rua Garret, em Lisboa, depois de uma série de confrontos que começaram no Bairro Alto. Esta semana, o Observador publicou uma excelente reportagem escrita pelo Fábio Monteiro que reconstitui detalhadamente os acontecimentos dessa noite e que serve para refrescar a memória a muitos de nós que vamos mesmo ao ponto de escrever de forma errada o nome da vítima.

O tema é sensível, sobretudo depois da polémica causada pela publicação recente da reportagem sobre a relação de Mário Machado com uma militante socialista. É por isso mesmo que, apesar dos muitos méritos desta reportagem, me parece que ela tem uma falha: não explica qual o papel de Mário Machado nos confrontos, nem diz se ele participou nas agressões que levaram à morte de Alcindo Monteiro. Diz apenas que ele foi preso no Cais do Sodré com a namorada, que hoje está arrependido e se prepara para fundar um novo partido. Não inclui sequer a pena a que foi condenado [dois anos e seis meses]. E isso é grave, apesar de a leitura valer muito a pena.

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A vítima perfeita

Entre 1995 e 1997, o nome Alcindo Monteiro fez manchete inúmeras vezes dos jornais portugueses. Passados 19 anos, foi só isso que restou: um nome, muitas vezes escrito de formaerrada. Uma memória a dissipar-se e silêncio. Quem foi a pessoa no epicentro de uma mudança tão importante na realidade portuguesa?

I

Pirilampos brancos e vermelhos, apressados. Lisboa, madrugada do dia 11 de Junho de 1995. Domingo. As ambulâncias pareciam andar num carrossel e não paravam de chegar desde a uma e meia da manhã ao hospital de São José. Andavam em círculo, entre as ruas do Bairro Alto e o Martim Moniz. A cada cinco ou dez minutos voltavam com novos pacientes. Apareciam a cambalear, ajudados pelos enfermeiros ou acompanhantes, em macas ensanguentadas, com hematomas em forma de punho ou cilíndricos. As faces de alguns estavam desfiguradas, os narizes partidos. Num caso notavam-se mesmo falhas no cabelo, aparentemente arrancado à força, e a nuca amolgada – como uma bola de futebol furada que fica com a forma do pé quando pontapeada. Contavam-se 10 indivíduos agredidos, todos negros.

Pouco antes das três da manhã, a polícia trouxe um décimo-primeiro também para receber cuidados. Um homem branco. No hospital de S. José, na zona do Martim Moniz, ninguém sabia ao certo o que estava a acontecer, mas também não se estranhava porque vinha do sítio do costume: o Bairro Alto. Uma noite de confusão, era só mais uma noite. O código das ruas ditava que, em caso de zaragata, se entrasse em tudo o que fossem portas abertas, fechando-as atrás de si. Em último caso ir a correr para o Cais do Sodré. A maioria das vezes eram escaramuças ligeiras, embebidas pelo álcool, que não chegavam a ser noticiadas.

Naquela noite foi diferente. À primeira vista, os feridos tinham estado envolvidos em cenas de pancadaria. Nalguns conseguia mesmo distinguir-se, a olho nu, marcas de soqueiras e objectos redondos, no corpo. Um dos registos clínicos era especialmente dramático em comparação com os outros.

Lia-se no relatório médico: “Hemorragias sub-pleurais e sub-endocirdicas; edema pulmonar; graves lesões traumáticas crânio-vasculo-encefálicas; lesão no tronco cerebral; edema cerebral muito marcado; fractura da calote craniana.” Dias mais tarde, Jorge Sampaio, presidente da Câmara Municipal de Lisboa na época, lançaria a pergunta: “Como é que é possível que a 500 metros do Governo Civil nada aconteça durante estas duas horas?”

O paciente Alcindo Monteiro, português nascido em Cabo Verde, tinha 27 anos e foi encontrado sem sentidos na rua Garrett, em frente à montra da loja da Gianni Versace. O corpo do homem era tão franzino que dava para imaginá-lo a levar uma lambada e a rodopiar sobre si próprio. Nos bolsos, Alcindo tinha uma carteira cinzenta. Lá dentro, estava um bilhete de identidade português, algum dinheiro e uma agenda de contactos amarrotada. Na primeira página da agenda estavam escritos os dados pessoais.

Era 1h16min da madrugada quando, na linha de emergência pública nacional – o número 115 – começaram a chover denúncias, mais uma vez, da barafunda no Bairro Alto, principalmente nas ruas da Rosa, Atalaia e Diário de Notícias.

Nessa noite, a maioria das forças de segurança estava concentrada entre o Rossio e a Avenida 24 de Julho. Os cachecóis verdes e brancos e as bandeiras leoninas levantavam-se bem alto, pelos adeptos sportinguistas. Afinal, passados 18 anos desde a última conquista da Taça de Portugal, acabaram por vencer, num jogo em que o avançado Iordanov fora o herói.

A televisão pública, que tinha transmitido a partida de futebol durante a tarde, filmava agora o banho da vitória de alguns dos membros da claque Juve Leo, mergulhados no fontanário, alheios ao que se passava a poucos quarteirões de distância. Já todos os feridos estavam no Hospital de S. José quando a polícia reagiu, às 2h30 da manhã, e capturou nove indivíduos – sete rapazes e duas raparigas –, diante do nº32 da Rua D.Luís I, uma rua paralela à avenida 24 de Julho, não muito longe do Cais do Sodré.

Identificar os agressores foi fácil. O modo como se vestiam e a aparência física denunciou-os: as calças de ganga curtas e dobradas no fundo, para mostrarem as botas de biqueira de aço – na maioria da marca britânica Doc Martens e Sendra -, as t-shirts e calças com padrão camuflado, blusões negros, e o cabelo rapado – um suposto sinal de limpeza.

Dos nove detidos, dois eram militares no activo: Mário Machado, 2º Cabo da Polícia Aérea da Força Aérea Portuguesa; Nuno Monteiro, soldado do exército português. Outro era natural de uma ex-colónia portuguesa, Moçambique: Nuno Cláudio Cerejeira, escriturário no Aeroporto de Lisboa; um outro da Venezuela: Nelson Silva, empregado de balcão. Os restantes: Nuno Themudo, vigilante nocturno; Jaime Hélder, mecânico de frio; Alexandre Cordeiro, estudante. No grupo estavam também duas raparigas, namoradas de Nuno Monteiro e Mário Machado, ilibadas de todas as acusações passados seis meses.

Manuel Dias Loureiro, na altura Ministro da Administração Interna e responsável pelas forças de segurança, afirmou dias antes do 10 de Junho, que tinha “este tipo de grupos sob controlo.” Até ao mês de Novembro de 1995, foram detidos mais 10 indivíduos. José Lameiras, empregado num minimercado; Hugo Silva, repositor de estoques; João Martins, estudante; Ricardo Abreu, desenhador gráfico; José Paiva, vigilante; Jorge Martins, estudante; Tiago Palma, estudante; Jorge Santos, ajudante de motorista; Nelson Pereira, electricista; João Homem, montador de peças.

Às 8 da manhã do dia 11 de Junho de 1995, todas as rádios nacionais falavam, ainda sem grandes certezas, do que tinha acontecido no Bairro Alto e esperavam que não se tratasse de um novo 28 de Outubro de 1989, data em que um grupo de skinheads esfaqueou José Carvalho, dirigente do Partido Social Revolucionário (PSR). Alcindo Monteiro estava em coma.”

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