O país onde ninguém se lembra de nada

Ricardo Salgado esqueceu-se de declarar ao fisco os 14 milhões recebidos do construtor José Guilherme. Recorreu ao Regime Excepcional de Regularização Tributária, pagou os impostos em atraso e o assunto morreu aí. Zeinal Bava, antigo presidente executivo da PT e da Oi, não tem memória de quem aprovou a aplicação de 500 milhões de euros da Espírito Santo Internacional. Pedro Passos Coelho não se recorda se recebeu ou não pagamentos da Tecnoforma enquanto exerceu as funções de deputado em regime de exclusividade. José Sócrates não sabe quanto dinheiro recebeu do amigo Carlos Santos Silva. Mas diz que admite penhorar a casa para lhe pagar. Rui Nobre Gonçalves, antigo secretário de Estado do Ambiente quando José Sócrates era ministro, esqueceu-se de quem esteve presente numa reunião sobre o Freeport. O agente de Luís Figo não se lembra de quem tratou do pequeno almoço do ex-futebolista com José Sócrates. Na Comissão de Inquérito ao negócio PT/TVI o presidente da PT, Henrique Granadeiro, disse não se lembrar quem sugeriu Rui Pedro Soares para administrador da empresa. O antigo presidente da Tranquilidade, Pedro Brito e Cunha, esqueceu-se dos motivos invocados por Ricardo Salgado para pedir um investimento de 150 milhões no GES. Os ex-directores do Citigroup, um deles foi brevemente secretário de estado, não se recordam de tentar vender swaps ao governo socialista. Vítor Constâncio, então governador do Banco de Portugal, não se lembra de ter sido chamado por Durão Barroso para falar do caso BPN. Cavaco Silva não se recorda de ter preenchido uma ficha na PIDE para aceder a documentos da NATO. Armando vara não se lembra de enviar um SMS a José Sócrates para o avisar do afastamento de Manuela Moura Guedes da TVI. Agora, Passos Coelho esqueceu-se de pagar a Segurança Social porque não foi notificado nem sabia que tinha de o fazer.

As empresas de suplementos para a memória têm aqui um nicho de mercado – ainda por cima com poder de compra.

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José Diogo Quintela vs Miguel Sousa Tavares

No domingo, José Diogo Quintela dedicou a sua crónica no Público a Miguel Sousa Tavares. Basicamente, o humorista nota que ao longo dos últimos oito anos o jornalista e comentador nunca escreveu uma linha sobre o presidente do BES, Ricardo Salgado. E que, pelo contrário, atacou praticamente todos os outros banqueiros bem como os responsáveis do banco de Portugal. No final, Quintela deixa o que julga ser o motivo deste silêncio: o casamento da filha de Miguel Sousa Tavares com o filho de Ricardo Salgado.

65375_10151515944979588_738013265_nHoje, Miguel Sousa Tavares esboçou uma espécie de reacção, quando foi contactado por um jornalista da Sábado:

Leu a crónica que José Diogo Quintela escreveu sobre si?
Sim, mandaram-se isso.

E o que é que tem a dizer?
Apenas isto: ele é um falhado, um medíocre, que se quer promover às minhas custas.

Mas sobre a insinuação de que…
… É só isso que tenho a reagir: é um falhado, um medíocre, que se quer promover às minhas custas, mas não lhe vou fazer isso.

Quintela diz…

… estou-me nas tintas. Ele que que fale do sócio dele da panificação, o Dias Loureiro.”

Está bom, isto.