As generalizações e o dedo espetado de José Rodrigues dos Santos

Ele é um repórter experiente. É o mais antigo pivot de telejornal do País. Goza de um estatuto ímpar na RTP. É um escritor de sucesso. Tem opiniões fortes. E não hesita em dá-las. Até aqui tudo bem. O problema é quando José Rodrigues dos Santos deixa as convicções pessoais interferir com o seu trabalho. Ou quando decide fazer uma das coisas mais perigosas e injustas que um jornalista pode fazer: as generalizações. E ao serviço da RTP.

No passado SÁBADO, José Rodrigues dos Santos fez uma peça de quatro minutos para o telejornal carregada de generalizações, todas elas negativas para a população grega. O repórter da RTP diz vezes sem conta que “os gregos” cobriram as piscinas para fugirem ao fisco, “os gregos” inventam mil estratagemas para não pagar impostos. Sim, alguns farão, mas [todos] “os gregos”?

A certa altura, diz na peça: “Muitos dos gregos que passam a pé diante da cada do ex-ministro da defesa, são paralíticos… ou melhor subornaram um médico para obter uma certidão fraudulenta de deficiência que lhes permite receber mais um subsidiozinho”. Tem a certeza? Muitos? Falou com alguns? Com um? Quem lhe disse que aquelas pessoas que passam diante da casa fez algo do género? Aparentemente, ninguém. É uma conclusão. Ou uma convicção. Ou uma generalização.

No entanto, mais grave do que o que a peça transmite, foi o tom adoptado pelo experiente repórter da RTP no directo que se seguiu. Com ar indignado, de dedo espetado para condenar as atitudes “dos gregos”, José Rodrigues dos Santos adoptou uma postura mais própria de um líder populista ou de um reformado indignado que opina sobre o que se passa no mundo à mesa do café do que de um jornalista com obrigações de isenção. Por várias vezes diz que “os gregos” defendem que a Europa é que tem de lhes resolver os problemas (mais uma generalização). E pior: a certa altura diz que falou com “elementos próximos do governo grego” que dizem que a inflação está controlada. No entanto, não hesita em dizer que isso “não é verdade”. No entanto, não duvida da palavra de “um grego” que lhe disse que a sogra distribuiu envelopes no hospital para o marido ser atendido. Ou seja, assume um lado.

José Rodrigues dos Santos é um repórter experiente. Tem um estatuto ímpar. Exactamente por isso, não deve esquecer os deveres de jornalista. Nem assumir lados – o que não implica omitir as situações que descreve nas suas peças. Pelo contrário. Deve dá-las. Mas sem generalizar. Nem espetar o dedo.

A batalha, parte dois: José Sócrates vs José Rodrigues dos Santos

Se dúvidas houvesse de que José Sócrates não concordou com a mudança de estilo do seu programa de comentário político ontem à noite elas ficaram desfeitas. Na segunda vez em que partilhou o ecrã com José Rodrigues dos Santos, o ex-primeiro-ministro mostrou ao que vinha: passou toda a emissão ao ataque e a tentar irritar o jornalista da RTP com referências constantes aos “seus arquivos”. (Enquadramento: há 15 dias, José Rodrigues dos Santos disse que tinha estado a “organizar os arquivos” e que foi por isso que encontrou as divergências de opinião de Sócrates relativamente à austeridade).

Para além disso, José Sócrates não pareceu tão bem preparado como prometeu. Ou melhor: José Rodrigues dos Santos pareceu ainda melhor preparado do que ele. Munido de documentos oficiais que citou incessantemente, foi, afinal, o pivot da RTP quem conseguiu irritar o ex-líder do PS. Sócrates começou por dizer: “este programa chama-se a minha opinião, se me permite, gostaria de dar a minha opinião. Já ouvimos o seu ponto de vista”. Mas piorou. Novamente confrontado com uma “opinião” diferente da sua, Sócrates partiu para o insulto: “Eu compreendo o seu ponto de vista. Você acha que se deve comportar no sentido de colocar-se no papel do ‘advogado do diabo’… estou a citá-lo bem? Só que até o advogado do diabo pode ser inteligente e pode perceber que não basta papaguearmos tudo aquilo que nos dizem para fazer uma entrevista”. Colocado numa situação muito difícil – em directo – Rodrigues dos Santos disse apenas: “Muito bem. Fica registado o seu insulto ao qual não vou responder”.

Como já disse aqui, acho que o formato assim não faz sentido. Uma entrevista semanal a José Sócrates sobre o seu passado como governante não tem grande futuro – para além do interesse inicial. Agora ou a RTP quer acabar com o programa ou deixa de o identificar como um espaço de opinião. Que deixou de ser há 15 dias. Como ainda não foi colocada no YouTube, a entrevista está aqui.

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O comentário/entrevista de José Sócrates também está no YouTube

No canal da RTP

A cilada de José Rodrigues dos Santos a José Sócrates

É isto. Pelo Daniel Oliveira, no Expresso online.

“A cilada da RTP a Sócrates

Daniel Oliveira

Não tenho qualquer problema com espaços de comentário televisivo de pessoas que tenham tido responsabilidades governativas. Tenho dúvidas da sua utilidade informativa, mas parece indiscutível que têm saída. Entre os comentadores políticos temos quatro ex-líderes do PSD, um ex-líder do PS, um ex-líder do BE, dois ex-primeiros-ministros e muitos ex-ministros. Por uma qualquer razão que me escapa, apenas um levantou grande celeuma, com petições e protestos. Mas adiante.

O modelo usado na maioria dos espaços ocupados por estes comentadores é o mesmo: um jornalista lança os temas, eles comentam. Não é uma entrevista, que seria absurdo, já que teria de se repetir todas as semanas e a coisa acabaria por se esgotar. Também não é um modelo de confronto. Marcelo comentou anos na RTP, tendo até, durante algum tempo, uma excelente jornalista (Flor Pedroso) a chamar-lhe a atenção para alguma contradição no seu comentário, sem que nunca se tivesse chegado ao ponto dum enfrentamento ou duma entrevista. O que é natural: ou bem que se tem um comentador que comenta e o registo é amistoso, ou bem que se tem um entrevistado que se entrevista e o registo é um pouco mais distanciado, ou bem que se tem um opositor com que se debate, para o qual se chama um debatente qualificado, e o registo é mais crispado. Até se pode arriscar, mudar as coisas e ter comentadores que são tratados com agressividade. Em todos os casos, mandam as regras que quem ali vai saiba o que o espera. Se não se montam armadilhas a entrevistados, por maioria de razão não se faz tal coisa a um comentador da estação. E os telespetadores também é suposto saberem o que é aquilo a que estão a assistir.

No último domingo assistimos a um dos momentos mais bizarros do jornalismo nacional. A jornalista que costuma acompanhar o espaço de comentário de José Sócrates foi substituída por José Rodrigues dos Santos (e, alternado, João Adelino Faria). Pelo menos de quinzenalmente, um espaço de comentário passou a ser um espaço de entrevista agressiva. Mudança para qual o entrevistado evidentemente não tinha sido prevenido. As coisas não foram tomando esse caminho. Foram planeadas. Era evidente que o “entrevistador” se tinha preparado, estando munido de material do “seu arquivo”, disse este autor de tantos trabalhos jornalísticos sobre a política nacional (ironia), que não lhe caiu na mesa à última da hora. E que não deu ao comentador transformado em entrevistado a mesma possibilidade de preparação. É que (sei o que digo) a preparação para fazer um comentário é diferente da preparação para uma entrevista.

Nunca, em anos e anos de comentário político de Marcelo Rebelo de Sousa ou qualquer outro ex-dirigente partidário transformado em comentador, tal aconteceu. Muito mais grave: nunca o atual primeiro-ministro foi entrevistado com tanta agressividade na RTP. Muito menos foi confrontado, de forma tão sistemática, com as inúmeras contradições entre o que disse no passado e o que diz agora. Mais estranho ainda: nunca o anterior primeiro-ministro, o mesmíssimo José Sócrates, foi entrevistado com esta agressividade na RTP quando exercia funções. O que só pode querer dizer que a RTP tem mais respeito pelos primeiros-ministros em funções do que pelas pessoas que convida para ter espaços de comentário na estação. Mesmo quando a pessoa é a mesma.

Não me custa nada ver um jornalista a confrontar José Sócrates com as suas incoerências. Com o que disse no passado e diz no presente, que muitas vezes é diferente. Pelo contrário, acho muitíssimo justo que isso seja feito. Se lamento alguma coisa, é não ver o mesmo exercício experimentado com outros ex-políticos comentadores. E preferia que fosse feito por jornalistas com mais preparação política do que o cidadão comum, para não passarem pelo desnecessário enxovalho que passou Rodrigues dos Santos. Até porque algumas dúvidas eram pertinentes. Só faltava o jornalista conseguir perceber o que estava a perguntar. Sócrates quis regressar para se bater pelo seu legado político, não vejo mal nenhum que seja confrontado com ele. O que me parece um pouco estranho é que a RTP o convide para fazer comentário político – quando era necessário ensombrar Seguro com a anterior liderança – e, sem aviso nem razão aparente, esse espaço passe a ser, quando essa função deixa de ser útil ao governo, de julgamento político do comentador.

Sabendo alguma coisa de jornais e televisões, não tenho qualquer dúvida que José Rodrigues dos Santos não agiu espontaneamente nem sequer por decisão individual. Tratou-se, vamos chamar as coisas pelos nomes, de uma encomenda. Basta ver Rodrigues dos Santos com Morais Sarmento para saber que não se trata de um “estilo”. Mas ainda que se tratasse, esse estilo tem um problema: o debate agressivo exige muita preparação política. E, quando de um dos lados está um jornalista, exige uma enorme habilidade para que este não passe a ser visto pelos telespetadores como uma das partes. No fim, depois de várias semanas a que Sócrates, com bastante experiência de debate, resistirá facilmente, será Rodrigues dos Santos que ficará a perder na sua própria imagem de isenção. Foi ele que subiu a parada. Parece-me que não percebeu bem em que jogo perigoso se meteu.

Estou-me nas tintas para a facilidade ou dificuldade que aquele momento teve para Sócrates. Estou-me ainda mais nas tintas para os amores e ódios que o homem provoca em tanta gente. Confesso que esta relação passional com os políticos me deixa sempre indiferente. Interessam-me, isso sim, os jogos políticos que se fazem na televisão pública nacional. Tenho as minhas teorias. O objetivo do convite feito a Sócrates para ter um espaço de comentário era fragilizar Seguro o suficiente para que a sua liderança nunca se impusesse no PS. Era garantir, através da sombra do ex-primeiro-ministro, um líder fraco na oposição. Não era dar a Sócrates a oportunidade de ser o ator político com mais influência na base eleitoral socialista, capaz de dificultar futuros entendimentos do PS com o PSD.

O papel de Sócrates está cumprido. Depois de lhe facilitar a vida, agora trata-se de a dificultar. Há que o empurrar para fora da RTP. Apenas se esquecem de uma coisa: se há político que não é fácil empurrar é este. Esse é, aliás, um dos segredos da sua popularidade e da sua impopularidade. E não me parece que Rodrigues dos Santos chegue para tal empreitada. Mesmo quando o tenta através de uma inaceitável cilada, oferecendo-se a si próprio a vantagem de não ter previamente dado ao entrevistado a relevante informação de que iria estar numa entrevista.

Nota: José Rodrigues dos Santos respondeu à polémica que ali aconteceu. Diz que Sócrates sabia de tudo porque lhe disse num almoço. Porque não estive no almoço, não sei nem tenho como saber o que em rigor foi dito e tenho pouco paciência para o diz que disse. Fico-me por o que ouvi na RTP: Sócrates disse “não vinha preparado para isto” e José Rodrigues dos Santos não o desmentiu, “olhos nos olhos”. É toda a informação rigorsa que tenho. Em todo o seu esclarecimento, Rodrigues dos Santos fala permanentemente numa “entrevista”. Desconhecia que a RTP tinha uma entrevista semanal com José Sócrates, outra com Morais Sarmento e no passado teve anos de entrevistas semanais com Marcelo Rebelo de Sousa. Seria bom, então, que o espaço “Opinião de José Sócrates” (assim se chama) mudasse de nome, para não levar ao engano os telespetadores. Para facilitar, vou dar uma ajuda: isto que aqui estou a escrever não é uma entrevista. E para os jornalistas a distinção clara do que é opinião e do que é outro género costumava ser importante. Rodrigues dos Santos não gosta de espaços de opinião com a participação de jornalistas? É um bom debate e dele só poderia resultar a sua não participação naquele espaço. Mas entrevistas semanais à mesma pessoa é coisa que nunca se viu em lado algum. E “entrevistas confrontacionais” semanais, com a mesma pessoa, são uma impossibilidade prática. Como deveria saber Rodrigues dos Santos se estivesse de boa-fé em todo este episódio.”

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O estilo de José Rodrigues dos Santos com Morais Sarmento

“É uma questão de estilo do jornalista. Quando o José Rodrigues dos Santos fizer o programa de comentário de Morais Sarmento, acredito que será igual. Embora também saibamos que é diferente falar com um ex-primeiro-ministro como José Sócrates ou com alguém que foi ministro, como Morais Sarmento. Os graus de responsabilidade são diferentes”

O comentário à postura de José Rodrigues dos Santos perante José Sócrates é de José Manuel Portugal, director de informação da RTP e foi feito ontem, ao Expresso online (o sublinhado é meu). Mas tem uma incorrecção: José Rodrigues dos Santos já faz o programa de comentário de Nuno Morais Sarmento, à quinta-feira, quando apresenta o Telejornal. E, embora seja realmente diferente falar com José Sócrates – um ex-primeiro-ministro que governou seis anos e assinou o memorando com a troika – ou com o ex-ministro do PSD, o estilo não é igual. Como se pode ver aqui, aqui ou aqui.

Sendo Nuno Morais Sarmento um político, ex-ministro e militante do PSD, será interessante perceber o que fez José Rodrigues dos Santos aplicar a noção que tem de qual deve ser o papel de um jornalista perante um político apenas quando se confrontou com José Sócrates. Que, volto a dizer, foi um brilhante momento de jornalismo.

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As justificações de José Rodrigues dos Santos sobre a batalha com José Sócrates

Ontem, o espaço de comentário de José Sócrates, foi transformado numa entrevista à actuação do ex-primeiro-ministro. Ainda não a viram? Então vão aqui, espreitem e depois voltem. Vale a pena.

Agora, que já sabem do que estou a falar, ficam também a saber que na sequência da sua postura confontativa, José Rodrigues dos Santos foi insultado por alegados fiéis de José Sócrates na página que mantém no Facebook para promover os seus livros. Por isso, o jornalista da RTP publicou um longo comunicado sobre o assunto, em que, para além de exibir os galões do seu passado na BBC, explica o seu entendimento sobre qual deve ser o papel de um jornalista numa conversa com um político. É isto que diz Rodrigues dos Santos:

1. A isenção de um jornalista não é obrigatória. Depende da linha editorial do jornal. Não faz sentido esperar que um jornalista do «Avante!», por exemplo, seja isento. A linha editorial do «Avante!» é claramente comunista e um jornalista que não a queira respeitar tem a opção de se ir embora. Há muitos casos que se podem encontrar de linhas editoriais que implicam alinhamentos (partidários, desportivos, ideológicos, etc).

2. No caso da RTP, a linha editorial é de isenção. Isto acontece porque se trata de um meio público, pago por todos os contribuintes, pelo que deve reflectir as diferentes correntes de opinião. Os jornalistas esforçam-se por escrever as notícias com neutralidade e, nos debates, os moderadores esforçam-se por permanecer neutrais.

3. Nas entrevistas, no entanto, as regras podem mudar. Há dois tipos de entrevista: a confrontacional (normalmente a entrevista política) e a não confrontacional. Em ambos os casos a isenção pode perder-se, não porque o entrevistador seja pouco profissional, mas justamente porque é profissional. Por exemplo, numa entrevista não confrontacional com a vítima de uma violação é normal que o entrevistador se choque com o que aconteceu à sua entrevistada. Estranho seria que ele permanecesse indiferente ao sofrimento. Não se trata um violador e uma mulher violada da mesma maneira, não se trata um genocida e uma pessoa que perdeu a família inteira da mesma maneira – a regra da isenção não se aplica necessariamente.

4. As entrevistas políticas são, por natureza, confrontacionais (estranho seria que não fossem e que jornalista e político tivessem uma relação de cumplicidade). Uma vez que o agente político que está a falar não tem ninguém de outra força política que lhe faça o contraditório (como aconteceria num debate), essa função é assumida pelo entrevistador. O entrevistador faz o contraditório, assume o papel de advogado do diabo. Portanto, o jornalista suspende por momentos a sua isenção para questionar o entrevistado. Isto é uma prática absolutamente normal. O entrevistador não o faz para “atacar” o entrevistado, mas simplesmente para fazer o contraditório. Acontece até frequentemente fazer perguntas com as quais não concorda, mas sabe que o seu papel é fazer de “oposição” ao entrevistado.

5. Dizem os manuais de formação da BBC, e é assim que entendo o meu trabalho, que o entrevistador não é nem pode ser uma figura passiva que está ali para oferecer um tempo de antena ao político. O entrevistador não é o “ponto” do teatro cuja função é dar deixas ao actor. Ele tem de fazer perguntas variadas, incluindo perguntas incómodas para o entrevistado. Não deve combinar perguntas com os políticos, mas deve informá-lo dos temas. No acto da entrevista o entrevistado “puxa” pela sua faceta positiva e o entrevistador confronta-o com a sua faceta potencialmente negativa. Espera-se assim que o espectador veja as duas facetas.

6. Uma vez apresentado o princípio geral, vejamos o caso de José Sócrates. É falso que José Sócrates desconhecesse esta minha linha de pensamento. Almoçámos e expliquei-lhe o meu raciocínio. Avisei-o de que, se encontrasse contradições ou aparentes contradições entre o que diz agora e o que disse e fez no passado, as colocaria frente a frente e olhos nos olhos, sem tergiversações nem subterfúgios, como mandam as regras da minha profissão. Far-me-ão a justiça de reconhecer que fiz o que disse que ia fazer.

7. Como todas as figuras polémicas, José Sócrates é amado por uns e odiado por outros. É normal com as figuras públicas, passa-se com ele e passa-se comigo e com toda a gente que aparece em público. Mas o que se está a passar com ele é que muita gente fala mal nas costas e ninguém pelos vistos se atreve a colocar-lhe as questões frontalmente. Fui educado fora de Portugal e há coisas que me escapam sobre o país, mas dizem-me que é um traço normal da cultura portuguesa: falar mal pelas costas e calar quando se está diante da pessoa. Acho isso, devo dizer, lamentável. Quando alguém é muito atacado, devemos colocar-lhe frontalmente as questões para que ele tenha o direito de as esclarecer e assim defender-se. Foi o que foi feito na conversa com José Sócrates. As questões que muita gente coloca pelas costas foram-lhe apresentadas directamente e ele defendeu-se e esclareceu-as. Se o fez bem ou mal, cabe ao juízo dos espectadores.

8. O caso de José Sócrates tem alguns contornos especiais e raros. Ele foi Primeiro-Ministro durante seis anos e acabou o mandato com o país sob a tutela da troika. Quando era chefe do Governo, começou a aplicar medidas de austeridade. No PEC I foram muito suaves (cortes em deduções fiscais e outras coisas), mas foram-se agravando no PEC II (aumento de impostos) e no chamado PEC III, que na verdade era o Orçamento de 2011 (corte de salários no sector público, introdução da Contribuição Especial de Solidariedade aos pensionistas, aumento de impostos, cortes nas deduções, etc). Defendendo estas medidas, afirmou em público que “a austeridade é o único caminho”. Agora, nas suas declarações públicas, ele mostra-se contra a austeridade. Estamos aqui, pois, perante uma contradição – ou aparente contradição. Não tem um jornalista o dever de o colocar perante essa (aparente ou não) contradição, dando-lhe assim oportunidade para esclarecer as coisas?

9. Na entrevista não é para mim necessariamente relevante se ele tinha razão quando aplicou a austeridade ou se tem razão agora que critica a austeridade. O que é relevante é que há uma aparente contradição e cabe ao jornalista confrontá-lo com ela. Foi o que foi feito e ele prestou os seus esclarecimentos. Se foi convincente ou não, cabe a cada espectador ajuizar, não a mim. Limitei-me a apresentar-lhe directamente os problemas e a dar-lhe a oportunidade de os esclarecer. O meu trabalho ficou completo.

10. Como disse no ponto 8, o caso de José Sócrates é raro. Não é muito normal termos entrevistados com as circunstâncias dele. O tipo de conversa que era necessário para esclarecer as coisas não nasce do facto de ele ser do PS, mas das suas circunstâncias únicas. Se o entrevistado fosse, por exemplo, Ferro Rodrigues ou Maria de Belém ou Francisco Assis ou qualquer outra figura do partido, o perfil da conversa teria de ser diferente porque nenhum deles teve funções de Primeiro-Ministro durante tanto tempo e imediatamente antes da chegada da troika nem entrou num discurso tão aparentemente contraditório como José Sócrates. São as suas circunstâncias específicas que exigem uma abordagem específica. Se o Primeiro-Ministro que governou nos seis anos antes da chegada da troika fosse do PSD, CDS, PCP, BE, MRPP ou o que quer que seja, e fizesse declarações tão aparentemente contraditórias com o que disse e fez quando governava, não tenham dúvidas de que as minhas perguntas seriam exactamente as mesmas.

11. No final, temos de nos perguntar: José Sócrates esclareceu bem a sua posição? Essa resposta cabe a cada um e aí não meto eu o dedo. Limitei-me a dar-lhe a oportunidade de tudo esclarecer.

12. E aquele espaço?, perguntarão alguns. É entrevista? É comentário? Boa pergunta. A minha resposta está no ponto 5.

Um abraço a todos.

José Rodrigues dos Santos

Ou seja, José Rodrigues dos Santos entende que aquele espaço que foi apresentado como de “comentário” por parte de José Sócrates não é de opinião. É uma entrevista. Pura e dura. O que levanta algumas questões. Para além de estar a passar um atestado de incompetência a todos os camaradas de profissão que partilham – ou já partilharam – espaços de comentários com políticos (Cristina Esteves, Judite de Sousa, Rodrigo Guedes de Carvalho, Clara de Sousa, Maria da Flor Pedroso, Ana Lourenço, etc), José Rodrigues dos Santos parece ter inventado um novo género jornalístico: a entrevista fixa. 

Normalmente, a importância de uma entrevista mede-se por um conjunto de factores incluindo a sua exclusividade (quanto mais rara, melhor), a relevância do entrevistado e do conteúdo e o momento em que é dada. Sendo aquele um espaço semanal, José Sócrates passará a ser o único político mundial com uma entrevista marcada para o horário nobre de todos os domingos.

Tenho imensas dúvidas de que políticos profissionais mereçam ter um espaço de opinião nos principais telejornais. Já o disse. A sua posição não é isenta e, na maioria das vezes, estão ali a servir um interesse: o deles próprios. No entanto, foi sempre assim que ele foi apresentado: como o espaço de “comentário” de José Sócrates. O entendimento de que  a presença de um jornalista o torna, obrigatoriamente, numa entrevista parece-me, no mínimo, peculiar. Para além disso, será interessante perceber o que acontecerá quando, salvaguardadas as respectivas diferenças, o jornalista da RTP moderar o espaço de comentário de Nuno Morais Sarmento? Será tão agressivo? 

Por fim, saiu uma informação útil do comunicado: José Sócrates não foi totalmente apanhado de surpresa: o jornalista e o ex-primeiro ministro almoçaram e José Rodrigues dos Santos avisou-o de que seria mais interventivo e que lhe apontaria as contradições. Talvez não tenha dito o quanto o faria. 

P.S. – Não estou aqui a defender José Sócrates. Há muito que o ex-primeiro-ministro devia ter sido confrontado com as suas contradições narrativas. E, para que conste, José Rodrigues dos Santos fê-lo muito bem.

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A batalha: José Sócrates vs José Rodrigues dos Santos

Ontem, José Sócrates foi surpreendido por José Rodrigues dos Santos no espaço semanal de comentário na RTP. Quando o ex-primeiro-ministro se preparava para o habitual passeio opinativo, o jornalista surgiu munido com os seus “arquivos”. Uma por uma, foi contrapondo as afirmações de José Sócrates com declarações passadas sobre consensos, negociações, austeridade, dívida, cortes de salários, etc. Não sei o formato mais confrontativo foi combinado. Não pareceu. Nesse caso, apesar de dar um belo momento televisivo e suscitar todo um novo interesse sobre o espaço de comentário, não foi uma decisão honesta. Foi uma armadilha. Desde então, a emissão – ou a batalha televisiva – tem sido partilhada no You Tube e sucessivamente retirada pela RTP dos diversos links devido aos direitos de autor. No entanto, pode ser vista no site da própria RTP. Aqui: Telejornal.

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As verdades, as meias verdades e as faltas à verdade de Passos Coelho

Ontem, na RTP, Pedro Passos Coelho, respondeu aos portugueses de forma aparentemente sincera. E em grande parte, verdadeira. Mas também não disse a verdade toda. Mais: também ele faltou à verdade em algumas ocasiões (para usar uma expressão muito em voga na política portuguesa). O fact check foi feito pelo Jornal de Negócios na edição online. Isto é jornalismo sério e especializado.

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Paulo Portas: “Não me rendo ao dr. Cavaco e estou-me nas tintas para as benesses que ele me pode dar”

A memória é uma coisa tramada. No início da década de 1990 a RTP tinha um programa chamado B.I. Numa das emissões, o entrevistado foi o então director de O Independente, Paulo Portas. Para além do tom de voz, há uma série de frases memoráveis que assumem todo um outro significado quando analisadas à luz dos mais recentes acontecimentos. Sobre política, jornalismo, políticos e muito Cavaco Silva. Destaco algumas:

“Os partidos são uma maçada”

“Os quadros dos partidos normalmente são muito medíocres. Não têm mais nada que fazer na vida e fazem aquilo para subir na vida.”

“Para o CDS daqui a pouco já não se vai de certeza.”

“Não tenho nenhumas ambições políticas.

Gosto muito de política mas nunca farei política.”

“O dr. Cavaco Silva é, em primeiro lugar, o puro produto do fenómeno carismático em Portugal e em segundo lugar da total inexistência de correntes de opinião política em Portugal. O dr. Cavaco Silva é tudo e o contrário de tudo.”

“Os políticos tem um código hipócrita.”

“A direita política é um cemitério. Há-de se descobrir um dia um líder que não seja parecido com todos os chefes de direita que houve em Portugal e que não seja igual ao dr. Cavaco.”

“Não me rendo ao dr. Cavaco. Não penso como ele, não sou como ele, nem quero ser como ele, nem pensar como ele. E estou-me nas tintas para as benesses que ele me pode dar. Não me rendo.”

O melhor é ver:

José Sócrates, o Vale e Azevedo da política portuguesa

Ponto prévio: a contratação de José Sócrates pela RTP é a
jogada televisiva do ano. É quase como se o Benfica contratasse o
Messi. Acredito que, neste momento, os responsáveis dos outros
canais estejam a espumar de raiva por um de dois motivos: por não
se terem lembrado disso antes ou por não terem convencido convencer
o animal feroz a deixar a sua toca em Paris por uns meros 25
minutos semanais. Se a entrevista que ficou prometida e os
primeiros comentários corresponderem à onda mediática que se gerou
após a
manchete de hoje do Diário de Notícias
, José Sócrates
arrisca-se a bater todos os recordes de audiência de um comentador
televisivo. Agora a questão central. O regresso de José Sócrates ao
comentário político nacional é o reflexo de uma particularidade bem
portuguesa: a de termos ex-líderes partidários ou antigos
primeiros-ministros a comentar a actualidade nacional regularmente,
como senadores a quem não pode ser imputada a responsabilidade pelo
Estado a que o país chegou. Isso não existe em mais nenhum país do
mundo civilizado. Em Espanha José Maria Aznar e José Luiz Zapatero
deixaram a presidência do governo espanhol e afastaram-se da
política. No Reino Unido, Tony Blair e Gordon Brown saíram do
executivo e só voltaram à ribalta mediática quando a isso foram
obrigados. Na Alemanha, Gerhard Schroder, depois de perder as
eleições para Angela Merkel, dedicou-se aos negócios. Em França,
Nicolas Sarkozy deverá andar atrás da carreira musical de Carla
Bruni. Este talvez regresse à política. Mas nenhum se serviu do seu
passado para ocupar o espaço mediático dos sucessores – e,
provavelmente, vingarem-se de tudo aquilo que sobre eles foi dito.
José Sócrates na RTP deverá ser um óptimo comentador: dará
audiências, impacto mediático, as suas opiniões serão reproduzidas
nos online dessa noite e nos jornais do dia seguinte e,
provavelmente, fará mossa em António José Seguro e Pedro Passos
Coelho. Mas tem um problema: não deixará de ser José Sócrates.
Continuará a ser o principal responsável pelo descalabro político e
económico dos últimos anos; o principal responsável pelo aumento
descarado dos salários na função pública na véspera das eleições; o
principal responsável pela negociação de um memorando de
entendimento que, desde essa altura, é apontado como irrealista e
impossível de cumprir; o principal responsável pelo arrastamento de
uma situação financeira caótica contra a opinião do seu próprio
ministro das Finanças; o principal responsável pelos maiores
ataques à comunicação social no período pré-Relvas; o único
primeiro-ministro sucessivamente envolvido em processos judiciais
obscuros e o expoente máximo do carreirismo político à sobra das
juventudes partidárias e com um currículo académico e profissional
nulo. Em suma, voltando à comparação futebolística do início deste
post, ter José Sócrates a comentar a actualidade política nacional
seria como ter Vale e Azevedo a comentar o dia-a-dia do Benfica e
do futebol português. E isso é ofensivo para os portugueses. Especialmente nesta altura. Jose-Socrates-007

Quando a RTP não era do Estado. Reportagem no i do Filipe Paiva Cardoso

paivacardoso.com

RTP

[Ver artigo em página: [Parte 1] [Parte 2] [Parte 3] [Parte 4]

“Continua a atrair uma multidão desejosa de ver com os seus próprios olhos uma das maiores maravilhas do nosso tempo. Programas dos mais variados assuntos, culturais, desportivos e folclóricos, nos ecrãs mágicos dos aparelhos colocados por toda a Feira.” Menos de um ano depois da criação da R.T.P., a 15 de Dezembro de 1955, a “sociedade anónima com intervenção do Estado” tinha 15 televisões espalhadas pela Feira Popular para as primeiras emissões experimentais de televisão em Portugal.

A entrada custava um escudo e o desafio era “que ninguém deixe de ver esta novidade no maior recinto de diversões da capital”. Em troca a promessa era uma “noite de grande animação” com a “Rancha Flores da Nossa Terra, de Mira”. Era assim que a recém-formada R.T.P. enfrentava a sua maior dificuldade: o desconhecimento do que era…

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O comunicado da Newshold

Por ser uma tomada de posição importante quando se prepara a privatização da RTP, fica aqui, na íntegra, o comunicado emitido ontem pela Newshold:

“Na sequência da publicação de um vasto número de notícias, opiniões e comentários em diversos meios de comunicação social portugueses, nos quais a NEWSHOLD é visada em termos menos rigorosos e, nalguns casos, difamatórios, decidiu o Conselho de Administração da NEWSHOLD divulgar o presente comunicado, a fim de esclarecer definitivamente algumas situações, o que se faz nos termos subsequentes:

1. A NEWSHOLD é detentora do semanário SOL, há cerca de quatro anos, jornal este que tem sido continuamente elogiado por vários comentadores, nos locais onde se publica – Portugal, Angola e Moçambique – pelo seu jornalismo sério, rigoroso e independente. A estrutura accionista da NEWSHOLD é praticamente a mesma desde a sua fundação e tal nunca foi motivo de qualquer polémica.

2. Porém, ao longo dos últimos dias, a NEWSHOLD tem sido apontada em diversos órgãos de comunicação social como um grupo supostamente ‘misterioso’, de interesses alegadamente ‘obscuros’ e (ao que parece, não menos importante para certa imprensa e para alguns comentadores em Portugal) ‘angolano’. Nada mais falso.

3. Em primeiro lugar, se outras razões não houvesse, a simples circunstância de a NEWSHOLD ser detentora de uma participação social qualificada na COFINA – que, como se sabe, é uma sociedade cotada em Bolsa – tem como consequência necessária, imposta por força quer do Código dos Valores Mobiliários, quer dos diversos regulamentos da CMVM, nomeadamente o nº5/2008, a obrigação de que todos, sublinhe-se, todos os accionistas da NEWSHOLD estejam devidamente identificados, sendo público o acesso à sua identificação completa e rigorosa.

Ora,

4. Perante este facto, não é aceitável que uma parte substancial dos órgãos de comunicação social, jornalistas e comentadores em Portugal continue a caracterizar a NEWSHOLD como uma empresa ‘misteriosa’, sobre a qual pouco ou nada se sabe. A atitude profissional dos jornalistas e comentadores que insistem em falar da NEWSHOLD e dos seus accionistas desta forma deve ser corrigida, sendo apenas resultado de preguiça na busca de informação. Se a identificação completa dos accionistas da empresa foi entregue na CMVM, os meios de comunicação têm o dever de saber exactamente quem são os accionistas da NEWSHOLD.

5. Feito este primeiro esclarecimento, convém também desmontar uma segunda falsidade, decorrente da anterior, construída de forma mais ou menos sofisticada a partir da ocultação de uma parte relevante da verdade. Trata-se da imputação de que o capital da NEWSHOLD é proveniente de Angola e detido por angolanos. O presente esclarecimento não visa, nem pretende, pronunciar-se sobre os objectivos ou a mundividência dos que, à falta de melhor acusação, imputam a um grupo económico ou a um conjunto de empresários o facto de serem ‘angolanos’ ou de qualquer outra nacionalidade. Esses actos ficarão com quem os pratica.

No entanto,

6. Convém esclarecer que todos os accionistas da NEWSHOLD, não obstante terem nacionalidade angolana, são também cidadãos de nacionalidade portuguesa, possuindo dupla nacionalidade. Aliás, um deles até foi 62 vezes internacional português e 7 vezes campeão nacional sénior em diversas modalidades desportivas. À luz da Constituição da República Portuguesa, e da lei, este accionista da NEWSHOLD, como todos os outros, não será mais português do que os outros cidadãos, mas também não o é menos.

7. Estes cidadãos que, sendo orgulhosamente angolanos são também portugueses, são acusados da ‘ignomínia’ de terem obtido, fruto do seu trabalho e dos seus negócios, proveitos financeiros em Angola, que agora servem de suporte à sua actividade empresarial em Portugal. O que nenhum dos jornalistas ou comentadores que têm atentado contra a honorabilidade da NEWSHOLD e dos seus accionistas pode explicar é em que medida esses proveitos obtidos em Angola (que têm suportado a actividade da NEWSHOLD em Portugal) são diferentes dos proveitos obtidos igualmente em Angola que hoje suportam e financiam a actividade em Portugal de tantas empresas portuguesas de construção civil, de prestação de serviços, de exportação de bens e mercadorias, de seguros e da banca, cuja liquidez é actualmente assegurada essencialmente pela actividade que estas empresas desenvolvem em território angolano. Em que é que o capital da NEWSHOLD com origem em Angola é diferente do capital com origem em Angola que hoje permite em Portugal a sobrevivência de muitas empresas de tantas áreas e que está a auxiliar a recapitalização da banca?

Feitos os esclarecimentos,

8. A NEWSHOLD não ignora que há razões de fundo para a tentativa de liquidação da empresa e da honra dos seus accionistas, que se verifica em parte da comunicação social portuguesa. Um dos accionistas que, ao contrário do que é reiteradamente referido na imprensa, não é, nem nunca foi, Presidente da NEWSHOLD, sentiu bem recentemente na pele os resultados dessa tentativa, ao ser continuamente condenado nos media, apesar de sempre ilibado nos tribunais.

9. Não ignora a NEWSHOLD, designadamente, o incómodo que causa em certos sectores a emergência de um grupo de comunicação social que, sendo orgulhosamente angolano e português, é também, e sobretudo, absolutamente independente de diversos factores que têm condicionado – e condicionam cada vez mais – toda a envolvência do espaço mediático português.

10. INDEPENDÊNCIA, é esta a palavra-chave que tanto incómodo tem causado, o que ajuda a explicar os recentes acontecimentos:

i. A NEWSHOLD sabe que incomoda porque, ao contrário de muitos, é independente de tiques colonialistas, mas também de complexos coloniais. Não enferma, nem os seus accionistas, de saudosismo nem de subserviência. Não vive do preconceito colonial e não se verga ao complexo do colonizado.

ii. A NEWSHOLD está ciente de que incomoda porque, ao contrário de alguns, é independente da banca e da finança, possuindo liquidez financeira e capital mais do que suficientes para não se deixar governar a partir de interesses exógenos.

iii. Por fim, e porque absolutamente fundamental, a NEWSHOLD não tem dúvidas de que, ao contrário de muitos, o facto de não ter compromissos nem dívidas para com quaisquer ideologias, regimes ou financiadores externos lhe permite reunir condições únicas para ser completamente independente, com plenas condições para se concentrar única e exclusivamente na qualidade, no rigor e na liberdade de trabalho dos seus profissionais e dos títulos que detém, prosseguindo o objectivo único de servir o público e de ser referência no mercado da comunicação social em Portugal e em todo o mundo lusófono.

11. INDEPENDÊNCIA, é esta a palavra-chave que, pelos vistos, tantos receios causa, sobretudo a quem quer, pode e consegue controlar, ou a quem (porventura) já está controlado.

12.Sabemos perfeitamente que a dependência convém a muitos.

Concretizando,

13. A NEWSHOLD não ignora que, na origem da recente onda de notícias e opiniões difamatórias que têm sido publicadas, está a eventual privatização da RTP e a compreensível apreensão que a incerteza quanto ao destino da operadora pública de televisão em Portugal está a criar nos principais players do mercado da comunicação social portuguesa, os quais, muito naturalmente, sentem as suas posições ameaçadas pela perspectiva do alargamento da concorrência do mercado audiovisual.

14. A agitação dos últimos dias ocorre apesar de, até ao momento, a NEWSHOLD ter mantido sempre uma prudente e radical reserva quanto à sua disponibilidade para participar activamente em qualquer solução a adoptar perante a eventual privatização da RTP. Em face da incerteza quanto ao destino reservado pelo Governo português para a estação de televisão pública – aparentemente, com várias opções em cima da mesa, desde a privatização total até à privatização de uma participação minoritária, passando pela concessão – a NEWSHOLD optou, até à presente data, por manter a sua posição reservada para o momento em que haja um modelo de negócio aprovado. O resultado está à vista de todos: nem assim a NEWSHOLD escapou ao nervosismo do mercado nem à fúria persecutória de alguns dos seus actores.

15. É, pois, chegado o momento de a NEWSHOLD afirmar, para que não restem quaisquer dúvidas, que, na hipótese de a solução a definir pelo Governo português para a privatização ou concessão da RTP se revelar um negócio interessante para as partes, a NEWSHOLD tem disponibilidade e meios para, isoladamente ou em parceria, apresentar uma candidatura séria com vista a assegurar e garantir a implementação de um projecto verdadeiramente sólido e independente para a RTP, investindo em força no mercado audiovisual português, em cuja viabilidade acredita convicta e fundamentadamente, sentindo mesmo ser quem está nas melhores condições para manter vivo o projecto da RTP em todo o mundo lusófono.

16. Esta posição está definida e decidida pelos accionistas e assumida pelo Conselho de Administração da NEWSHOLD, e não será alterada por quaisquer afirmações de cariz xenófobo, nem tão pouco por processos de intenção ou teorias da conspiração que possam vir a ser formuladas com o objectivo de denegrir esta empresa ou a sua estrutura accionista.

Lisboa, aos 13 de Dezembro de 2012

O CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA NEWSHOLD

Sílvio Alves Madaleno (PCA)
Mário Ramires (CEO)”

De acordo com o Expresso, o accionista “62 vezes internacional português e 7 vezes campeão nacional sénior em diversas modalidades desportivas” será o cantor e ex-embaixador de Angola em Portugal, Rui Mingas. Antigo atleta de alta competição do Benfica, Rui Mingas é dirigente do Movimento Popular de Libertação de Angola.

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Nuno Santos defende-se em conferência de imprensa

Nuno Santos deu hoje uma conferência de imprensa onde pediu à  Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, que se pronuncie sobre a protecção dada a cidadãos que prestam declarações em comissões parlamentares. O apelo fez parte de uma declaração lida pelo ex-director de informação da RTP, colocada mais tarde no Facebook, e que, pela importância desta questão, é aqui reproduzida na íntegra:

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“Caiu a máscara ao Presidente da RTP.

Hoje é já possível afirmar que a conclusão daquele que é conhecido como o caso “Brutosgate” corresponde, afinal, ao meu despedimento.

E esse despedimento, que se segue à minha demissão por razões políticas, estava preparado, de acordo com todas as informações que recolhi, antes da minha ida à Comissão Parlamentar para a Ética, a Cidadania e a Comunicação da Assembleia da República.No momento em que acaba de ser promovido o meu silenciamento, através de uma suspensão que me impede de frequentar as instalações da RTP e, consequentemente, de trabalhar, convoquei este encontro para explicar à opinião pública algumas questões que se me afiguram essenciais para o entendimento do que verdadeiramente está em causa.

O conselho de administração da RTP entende que passagens das declarações que prestei no Parlamento consubstanciam a prática de grave infracção disciplinar. … O que devem os cidadãos dizer quando chamados a prestar depoimento perante aquele Órgão de Soberania? A verdade ou o que é “politicamente correcto” com vista à manutenção, a qualquer custo, do seu posto de trabalho?Daqui lanço um apelo à Senhora Presidente da Assembleia da República para que se pronuncie, não sobre mim ou sobre este caso em concreto, mas sobre a protecção de que devem gozar cidadãos chamados a depor nas Comissões Parlamentares. Aquilo que cada um de nós diz, nessa condição de cidadãos, perante as Comissões não pode ser condicionado, à partida, com medo das represálias que possamos sofrer por alguém poder ver nessas declarações delito de opinião, algo que há mais de trinta e oito anos está banido da ordem jurídico-constitucional portuguesa.

O conselho de administração da RTP entendeu que a circunstância de ter referido que fui sujeito a um julgamento sumário, consubstancia a prática de grave infracção disciplinar. Poderá, então, o conselho de administração, explicar como se qualifica uma situação em que, antes de qualquer inquérito, me imputou oralmente e por escrito ter autorizado que a PSP visionasse “brutos” na RTP?

E como classificar um “inquérito” – entre aspas – onde o meu testemunho era irrelevante porque os “factos estavam apurados”. Será exagero classifica-lo como julgamento sumário?! E ao fazê-lo com frontalidade deve um trabalhador ser punido pela sua entidade empregadora, por sinal uma empresa pública?!

O conselho de administração da RTP entendeu também, descontextualizando-a, que a explicitação que fiz das razões que conduziram ao meu pedido de demissão do (muito específico e legalmente preservado cargo) de director de informação da RTP seria uma prática de grave infracção disciplinar e de violação do dever de respeito.

Nunca faltei ao respeito ao presidente do conselho de administração da RTP. Disse a verdade, disse o que penso. Fui contundente, mas não sou conhecido por usar meias palavras nem por ser pessoa de meias tintas. Medi cada expressão usada no Parlamento e não alteraria uma única.

Basta, de resto, analisar todo este caso para perceber que a única pessoa desrespeitada fui eu, desde logo por ter sido dado como o exclusivo culpado de uma situação que não criei. Assisti a seguir a um “inquérito” alegadamente para apuramento dos factos, “inquérito” no qual a minha contribuição era, na óptica do conselho de administração da RTP, reconhecidamente desnecessária e mesmo irrelevante.

Acresce a tudo isto o comentário jocoso, feito no estrangeiro – em Angola concretamente, sobre aquilo que o Dr. da Ponte designou como a minha “autoflagelação”.

Todas as minhas tomadas de posição têm-se pautado por uma abordagem ponderada e rigorosa de questões muito sérias que têm a ver com direitos, liberdades e garantias (individuais e coletivas), e nunca – sublinho nunca – pelo recurso à chacota fácil e desdenhosa.

O conselho de administração da RTP entendeu que consubstanciam a prática de grave infracção disciplinar algumas declarações que prestei sobre a ordem de serviço 14, a qual obriga a que a aquisição de conteúdos seja autorizada com setenta e duas horas de antecedência.

A Ordem de Serviço é explícita e as suas consequências perfeitamente conhecidas, sendo a principal o condicionamento ilegítimo das decisões editoriais. Ou seja, o conselho de administração quer, por via administrativa, conhecer passos fundamentais do processo editorial e reservar para si a palavra final.

O conselho de administração repescou, ainda, a questão dos “brutos” que já dera por encerrada por saber que não tinha nem podia ter ressonância disciplinar.

É cristalino que o conselho de administração da RTP não tem competência disciplinar em matéria deontológica dos jornalistas, devendo qualquer intervenção nesta área ser vista como abusiva – por violadora – de uma instância própria de uma classe profissional. O alcance da intervenção da administração da RTP nesta área era e foi meramente a de liquidar de forma sumária a minha imagem profissional na praça pública.

Agora, com o argumento absurdo de que neguei a prática dos factos (virtuais) relacionados com uma (pretensa) autorização por mim (supostamente) dada para que elementos da PSP visionassem imagens não editadas da manifestação e que, por consequência, devo ser responsabilizado por esses (supostos) actos, o conselho de administração da RTP vem dar o dito por não dito e, simultaneamente, incorrer no patético de recuperar uma matéria onde não pode intervir e relativamente à qual já recuara.

O conselho de administração da RTP suspendeu-me de toda a minha actividade profissional de jornalista e impediu-me de trabalhar, prejudicando-me gravemente quer em termos profissionais, que em termos pessoais.

E porquê? Porque – segundo referiu – as funções de direcção que eu exercia e a minha posição hierárquica elevada potenciam o meu, e passo a citar, “ascendente natural” sobre os meus “anteriores subordinados” e essa circunstância poderia prejudicar o andamento das diligências preparatórias da nota de culpa.

Não ter condições para trabalhar como director de informação, como aliás o presidente do conselho de administração reconheceu nas suas declarações prestadas na Assembleia da República, não implica que não se possa usufruir do direito a ver distribuídas outras tarefas.

O meu percurso de 13 anos ao serviço da Rádio e da Televisão Públicas, mais de metade com funções de Alta Direcção, mereciam outro cuidado. Será difícil pedir isso a gestores que vêm de áreas estranhas aos media mas, se alguém não está preparado para esta tarefa, deveria ter pensado antes.

Guardei para o fim aquilo que está no cerne deste despedimento anunciado pelo conselho de administração da RTP, concretamente as alusões que fiz perante a Comissão Parlamentar relativas ao meu saneamento político. Se dúvidas subsistissem que esse saneamento existiu, elas foram dissipadas com a decisão ilegal e ilegítima do conselho de administração da RTP que teve a cobertura e intervenção do poder político e isso deve merecer uma reflexão profunda a todos nós, jornalistas, e à sociedade portuguesa, em geral.

Ninguém poderá ficar indiferente à forma como se voltam a silenciar vozes defensoras da liberdade de informação, nomeadamente na RTP, desta vez, e como afirmei no Parlamento, e reafirmo aqui “travestidas de decisões de gestão ou de matérias “internas”.

Não há ilusão possível: o direito à liberdade de expressão, tal como a privacidade da correspondência e o direito ao trabalho são valores constitucionais. O conselho de administração da RTP entendeu violá-los de maneira grosseira através da recuperação, desde logo, do inexistente delito de opinião.

Quero terminar dizendo que, muito embora a conclusão do processo disciplinar já esteja feita, como feita estava, a priori, a do pseudo-inquérito que a RTP conduziu ad hominem antes dele, irei até às últimas instâncias, profissionais e deontológicas, na defesa do meu bom nome e da minha honra. Nesse sentido:

Dei instruções aos meus advogados para que utilizem todos os recursos previstos na lei não só para me defender mas também para confrontar o conselho de administração da RTP com a justiça. Este abuso de autoridade é uma ameaça para todos no interior da empresa e precisa ser travado.

Tenho consciência que estou a servir de exemplo, como outros serviram no passado, para que o poder político mostre à classe jornalística como se deve “comportar”.

Mas, por ter essa consciência, também sinto a responsabilidade acrescida de não vacilar. E não vacilarei!

Como disse no meu primeiro comunicado, tempos conturbados aguardam a RTP com a anunciada aquisição de parte do seu capital com o figurino que tem sido divulgado. Cabe aqui uma palavra especial de apoio a todos os trabalhadores da Televisão e da Rádio Públicas nesta hora tão incerta. O clima de medo instalado faz com que muitos estejam em silêncio. Que ninguém se iluda. Depois de mim outros serão atingidos.

É certo que a cortina de fumo que o meu caso acaba por constituir tem indiscutível oportunidade para desviar as atenções da opinião pública, mas sei, também que esta está hoje e mais do que nunca, até pela situação que o país atravessa, atenta e pronta para intervir.”

Entretanto, Miguel Relvas já reagiu e diz que Nuno Santos não foi saneado.

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A demissão

O Conselho de Administração da RTP apresentou a demissão, que foi aceite pelo governo. A notícia está a ser avançada pela Lusa.

Os responsáveis pela estação pública esperaram pelo regresso do ministro Miguel Relvas de Timor para anunciar a decisão. 

O poder

Portugal, 2015. Pedro Passos Coelho e António Costa encabeçam as listas de PSD e PS à Assembleia da República. O vencedor será primeiro-ministro. É uma corrida a dois. Os outros partidos praticamente desapareceram. E vale tudo para chegar em primeiro lugar ao Palácio de São Bento.

Pedro Passos Coelho recandidata-se ao cargo para defender os quatro anos de governação. Portugal cumpriu fora de tempo o plano de ajustamento acordado com o Fundo Monetário Internacional, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu, graças à imposição de sacrifícios que a população aguentou com algumas lamurias mas sem contestação de maior. O desemprego chegou aos 15%. Os salários regressaram ao nível do ano 2000. Os 13º e 14º meses foram abolidos. As associações de solidariedade não têm capacidade de resposta para os pedidos de ajuda das famílias. E a classe média praticamente desapareceu. Ainda assim, aos olhos da troika, Portugal (leia-se, o governo de Passos Coelho) foi um bom aluno: foram feitas reformas nos mercados do trabalho, do arrendamento e na justiça. Os bancos diminuíram os lucros, mas continuam a lucrar. O Estado privatizou a ANA, a TAP, a Caixa Seguros, fechou a RTP, concessionou os estaleiros de Viana de Castelo a uma companhia chinesa e o convento de Mafra foi vendido a angolanos para ser transformado num hotel de sete estrelas para dignitários africanos.

António Costa não tem muito para apresentar. Vai a eleições depois de uma lutra fraticida com António José Seguro pelo controlo do PS. Preso à assinatura do memorando de entendimento, pelas anteriores lideranças, diverge de Passos Coelhos em algumas questões como o fim da RTP e o corte dos subsídios. Se for eleito já prometeu reverter as decisões tomadas pelo governo de coligação PSD/CDS.

Nos bastidores, Pedro Passos Coelho aproximou-se de Francisco Pinto Balsemão. O militante número um do PSD, agradeceu ao actual secretário-geral a salvação financeira da sua empresa. O fim da RTP aumentou as receitas publicitárias da SIC e permitiu-lhe reduzir o endividamento da Impresa. Nestas eleições, Balsemão está de pedra e cal ao lado de Passos Coelho e do projecto social-democrata. Em privado garantiu-lhe mesmo que “todo o poder da Impresa está ao seu serviço”. O tempo de antena dos outros candidatos foi remetido para as 3h da madrugada, na Sic-mulher. Pelo contrário, as proezas, a energia e a aptidão de Passos Coelho na cozinha são relatados diariamente em emissões especiais da SIC e da SIC-Notícias.

Já António Costa voltou-se para a TVI. Em encontros secretos com os responsáveis da Prisa e da Média Capital prometeu-lhes dificultar ao máximo a renovação da licença de emissão da SIC e deu-lhes acesso total à sua agenda – acordo que se manterá caso vença as eleições, com exclusivos das principais medidas do governo. Costa garantiu também à estação de Queluz um manancial de informação sobre a Câmara Municipal de Lisboa. Para além, claro, do acordo secreto de não cumprir a promessa de reabrir a RTP. Em troca, a TVI dá-lhe todo o espaço nos programas matinais, nos telejornais e obriga Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa a elogiarem-no. Caso contrário, são despedidos.

Portugal não está a viver eleição democrática: assiste a uma competição entre os mais poderosos meios de comunicação social no país. Os restantes partidos estão remetidos a emissões online e a divulgação nas páginas do Facebook. Num estudo recente, 75% dos portugueses identificaram Francisco Louçã como o líder do Bloco de Esquerda, apesar de o cargo de coordenador ser ocupado por João Semedo e Catarina Martins há quase três anos. Foram raras as ocasiões em que os deputados bloquistas apareceram na televisão. O mesmo estudo indicava que 45% dos inquiridos achava que Jerónimo de Sousa tinha falecido pois nunca mais tinha sido visto. Já Paulo Portas continuava a manter os mais altos níveis de popularidade apesar de só conseguir aparecer na televisão da assembleia da República. O líder centrista foi ultrapassado na sua própria invenção: utilizar um órgão de comunicação social para ascender a um alto cargo político.

Os pequenos partidos reclamam nas redes sociais que o seu ocaso se deve à extinção da RTP. Sem televisão pública obrigada a garantir um equilíbrio institucional e a pluralidade de opiniões, não houve quem impedisse os grupos económicos de comunicação social de subverter as regras do jogo. Notícias sobre os seus maiores accionistas são remetidas para rodapés ou desaparecem simplesmente. Relatos sobre negócios que se preparam no sector privado ou envolvendo as esferas públicas são omitidos cirurgicamente, excepto, claro, se disser respeito à concorrência. Nos últimos meses a SIC deu grande destaque à suposta homossexualidade de apresentadores famosos da concorrência. Já a TVI denunciou um esquema de corrupção que envolvia o pagamento a deputados por parte de jornalistas da estação de Carnaxide.

Em vez de contra-poder, os órgãos de comunicação social decidiram ser poder. O director do Expresso é apontado em jantares no Solar dos Presuntos como futuro ministro dos Assuntos Parlamentares do PSD. As listas do PS contam com várias antigas pivots de televisão que, se forem eleitas, deverão ascender, no mínimo, a secretárias de Estado. Pela primeira vez, os advogados não deverão ser uma maioria nas listas de deputados à assembleia da república: foram ultrapassados por assistentes, pivots ou apresentadores de televisão.

Os jornalistas e comentadores que, durante anos, zurziram nos jornais e nas redes sociais contra os custos da RTP tiveram dois destinos: ou foram premiados com cargos numa qualquer empresa pública ou privada com negócios com o Estado ou foram ostracisados e arrependeram-se de ter embarcado no coro de críticas sem perceber que a televisão pública tinha um papel fundamental na democracia. “Nós acusávamos a RTP de ser permeável às interferências do governo. Dizíamos que o Sócrates controlava aquilo e que eles não abriam os telejornais com os casos mais importantes. Mas a verdade é que pudemos mandá-lo [ao Sócrates] embora. A estes nós não podemos fazer nada. Só votar no outro para que tudo continue na mesma – e nós fiquemos menos esclarecidos”, diz um antigo defensor do fim da RTP. “Tínhamos medo do poder do Estado. Esquecemos-nos que o poder concentrado nas mãos de grupos privados cujos interesses obscuros não são escrutináveis pode ser muito mais perigoso – e incontrolável”.

Todos a querem privatizar. Como? Ninguém sabe

Há pelo menos 10 anos que se ouve falar na privatização da RTP. No governo de Durão Barroso, no início de 2002, Nuno Morais Sarmento foi o primeiro a levantar essa bandeira – e também a hasteá-la na sequência das fortes críticas que surgiram.

Findo o consulado de José Sócrates, a privatização da RTP voltou à agenda política. O problema não é a discussão em si. É a ideia de que no PSD, por algum motivo, toda a gente quer privatizá-la, mas ninguém sabe como. Pior: parece que andam a testar qual o modelo que será melhor aceite pela opinião pública. É importante recordar o que se passou desde que Passos Coelho foi eleito secretário-geral do PSD.

Em Abril de 2010, o então candidato a primeiro-ministro afirmou numa entrevista à SIC que a RTP devia ser privatizada. Era, dizia Passos Coelho, uma posição de “princípio”. Motivo: “O Estado não tem de ter nem jornais nem televisões”. Presumia-se que todo o grupo RTP devia passar para mãos privadas.

– Após as eleições de 5 de Junho de 2011, o governo de coligação apresentou um programa onde se previa a privatização de um canal da RTP, da Antena 1,2 e 3, e da Lusa. Diz o documento: “O Grupo RTP deverá ser reestruturado de maneira a obter-se a uma forte contenção de custos operacionais já em 2012 criando, assim, condições tanto para a redução significativa do esforço financeiro dos contribuintes quanto para o processo de privatização. Este incluirá a privatização de um dos canais públicos a ser concretizada oportunamente e em modelo a definir face às condições de mercado. O outro canal, assim como o acervo de memória, a RTP Internacional e a RTP África serão essencialmente orientados para assegurar o serviço público.

– Para definir o que seria o futuro serviço público de rádio e televisão, o governo nomeou um grupo de trabalho liderado por João Duque que, em Novembro do ano passado, propôs o fim da RTP Informação e da RTP Memória, a fusão da RTP África com a RTP Internacional e o encerramento da RTP Madeira e RTP Açores. A RTP deixaria ainda de ter publicidade.

 

A 30 de Maio deste ano, Passos Coelho garantia no debate quinzenal, no Parlamento: “O Governo vai alienar um dos canais da RTP dentro dos prazos que estão previstos. É suposto que esse modelo de privatização esteja definido até ao final deste ano. Não sei se a privatização se concretizará ainda até ao final deste ano, mas o modelo da privatização estará definido até ao final deste ano.”

– A 4 de Agosto deste ano, o Expresso noticiou que, afinal, seria a RTP2 o canal a privatizar e que a grelha do próximo ano já estava a ser preparada nesse sentido.

Agora, o Sol noticiou e o consultor do governo para as privatizações, António Borges, confirmou(!!!) que a RTP2 deverá ser encerrada, e todo o restante grupo de televisão e rádio públicas concessionado a privados por 15 a 20 anos.

Alguém quer adivinhar o que vai acontecer a seguir?