O regresso à normalidade

Caro Rui,

Escrevo-te esta carta apesar de saber que não és adepto de grandes protagonismos. Para ti, a equipa está sempre à frente de quem quer que seja. Se havia dúvidas em relação a isso, elas ontem ficaram desfeitas. No final, depois de todas as polémicas e críticas, quanto te perguntaram pelo jogo, respondeste simplesmente que o mérito é da qualidade da equipa e dos jogadores. É isso mesmo. Um bom treinador não é aquele que chama para si a responsabilidade das vitórias e atira para os outros a culpa das derrotas. É ao contrário. É aquele que assume as culpas das más decisões quando um jogo corre mal e deixa para os verdadeiros ídolos os louros das vitórias. Sim, as estrelas do futebol são os jogadores. Basta olhares para as bancadas para o perceberes. Por mais polémicas em que se envolva, está para chegar o dia em que os adeptos benfiquistas vão entrar no Estádio da Luz com o nome de um treinador nas camisolas.

Ontem gostei de muitas coisas. Gostei de ver a equipa calma, sem entrar no desespero do balão para a área à espera de um ressalto que decidisse o jogo, gostei da paciência com que enfrentaram a pressão de uma equipa que não foi à Luz estacionar o autocarro e, quase sem me aperceber, gostei de uma coisa que há muito não via: já perto do final, a estatística dizia que o Benfica tinha feito cinco faltas contra 15 do adversário. Cinco faltas em 90 minutos – e uma delas que deu direito a cartão amarelo nem sequer existiu. Poderão dizer que somos uma equipa menos agressiva. Eu prefiro pensar que deixámos de ser um grupo de caceteiros e passámos a ser inteligentes na procura da bola. Talvez por isso tenhamos chegado ao fim do jogo e continuássemos a correr como se estivéssemos no início.

Gostei de ver o Lisandro López, que há vários anos era classificado de jogador sem nível para o Benfica, assumir-se como patrão da defesa ao lado do Luisão. Gostei da classe do Júlio César. Gostei (gosto sempre) do talento do Gaitán. Gostei do golo do Mitroglou (que deixou de parecer apenas um personagem do filme 300 para se tornar um ponta-de-lança a sério). Gostei da aposta no Nelson Semedo e claro, do golo do miúdo. Mas sabes do que eu gostei mesmo? Gostei de ver a forma como o Victor Andrade celebrou o terceiro golo da equipa. Vai lá ver as imagens. Elas dizem tudo. Está o Jonas a celebrar do outro lado do campo e vê-se o miúdo, sozinho, de punhos cerrados, cabeça erguida, a desferir um grito que parece um misto de revolta, alegria e concretização de um sonho. Ele tinha acabado de fazer um centro perfeito, de primeira, após um passe do Nélson Semedo (que celebrava da mesma maneira), que foi teleguiado para a cabeça do Jonas. Tal como o do Gaitan tinha ido para a cabeça do Mitroglou. Não foi por acaso que em vez de ir festejar com o Jonas, o argentino tenha sido o primeiro a ir felicitar o “menino”. Mais: ele voltou a repetir o festejo minutos depois, quando o amigo Nelson fez o 4 a 0 na jogada que ele começou. Como se ele próprio tivesse marcado.

Sim, é verdade. Os jovens jogadores do Benfica não precisam de nascer 10 vezes para ganharem um lugar na equipa. Precisam de quem lhes “faça o parto” e os faça crescer, devagarinho, passo a passo, etapa a etapa. Porque eles não são piores do que os carregamentos de estrangeiros que têm chegado ao clube ao longo dos anos. Apenas dão menos dinheiro a intermediários, empresários e agentes que fazem fortuna à conta do futebol. Mas têm uma coisa fundamental que os outros não têm: o amor ao clube que os educou como homens e jogadores e que se torna uma parte do seu próprio ADN. Isso é algo que não tem preço. É algo pelo qual vão ser sempre acarinhados e aplaudidos pelos sócios. Porque eles não são apenas mais um jogador que chega a caminho de um qualquer lugar. Eles são como filhos. Os filhos que todos nós temos ou gostávamos de ter e que após anos de viagens até ao centro de estágio concretizam o sonho de vestir a camisola da equipa principal.

Isso leva-me à última coisa de que gostei: as tuas palavras acertadas no final. Não vamos pensar que o “Nelsinho” e o Victor já são estrelas. Não são. Como bem disseste, ainda são “protótipos” de jogadores. Projectos que precisam de crescer e aprender para se afirmarem. É que, sabes, nós já estamos fartos de estrelas instantâneas que não vão a lado nenhum. Assim de repente vieram-me à memória o Pepe, o Hugo Leal, o Bruno Caires, o Edgar, o Akwa, o Mawete e até o Nélson Oliveira. Elevados a estrelas imediatas, acabaram por nunca ter direito a um lugar na história do Benfica. Talvez o último ainda tenha uma hipótese. Cabe-te a ti dá-la – e a ele, aproveitá-la. Agora, #rumoao35

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Jorge Jesus e o Benfica

Caro Jorge,

(Ia chamar-te Jesus mas agora que pareces estar prestes a trocar as forças do bem pelas do mal estás a perder a tua divindade)

Entraste como um furacão. Na tua primeira conferência de imprensa com o símbolo sagrado ao peito prometeste que, contigo, o Benfica ia jogar “pelo menos o dobro”. Tinhas razão. Contigo, o Benfica não jogou apenas o dobro. Jogou o triplo, quem sabe o quádruplo. Naquela época de 2009/2010 a onda vermelha varreu os campos do país como um rolo compressor. O Cardozo parecia um velocista. O Di Maria finalmente explodiu. O Aimar, bom, era o Aimar. O Saviola voltou à vida. Havia ainda o Ramirez, o Luisão, o Maxi, o David Luiz, o Nuno Gomes e outros. Talvez um dos melhores planteis dos últimos anos. Mas não importa. Tu eras o capitão aos comandos do navio. Melhor: o comandante aos gritos no navio. Confesso que sempre me fez impressão a forma como falavas – ou melhor insultavas – com jogadores da craveira de Aimar e Saviola. Mas não importava. A equipa ganhava. Ganhou.

O teu segundo ano já foi diferente. Ainda antes de o campeonato começar, já mostravas o que podia acontecer: com uma proposta daquele clube cujo nome não deve ser mencionado, obrigaste o presidente do Benfica a aumentar-te o salário para os famosos quatro milhões. Nos bastidores futebolísticos consta mesmo que falaste com Pinto da Costa, com o telefone em voz alta, à frente de Luís Filipe Vieira. O presidente do Benfica, com medo de repetir o erro de Manuel Vilarinho  com Mourinho, cedeu. Tornou-te o treinador mais bem pago da história do futebol  português. Mas tu não eras o mesmo. Primeiro perdeste a equipa. Começaste a fazê-lo quando trataste de forma inacreditável o guarda-redes titular da equipa. Chama-se Quim, lembras-te? Dispensaste-o para contratar um que “desse pontos”. Chamava-se Roberto, lembras-te? Ora o Quim era um elemento querido no plantel. Respeitado. Alguém que nunca abriu a boca em protesto apesar de todos os insultos que foste fazendo ao seu profissionalismo. Fizeste também umas maldades ao Nuno Gomes, outro de quem nunca ouviste uma crítica. Os jogadores percebem essas coisas. Tu gritavas, mas eles já não te ouviam. Nem respeitavam. Todos sabemos o que aconteceu nesse ano. Incluindo a eliminação humilhante da Taça de Portugal, em casa, que meteu uma festa do adversário às escuras.

No teu terceiro ano voltaste a falhar. Mas no quarto reinventaste-te. Prometeste uma época de sonho. Campeonato, Taça, Taça da Liga e Liga Europa – sim, porque a Liga dos Campeões nunca foi contigo. A equipa, renovada, jogava que se fartava outra vez. Prometeste ganhar o campeonato – e ajoelhaste-te no Dragão. Prometeste a Liga Europa – e falhaste outra vez. Prometeste a Taça de Portugal – e foste empurrado pelo Cardozo. Nessa altura tiveste um grande mérito: resististe aos insultos, aos palavrões, aos empurrões para sair. Ficaste. Renovaste o contrato. Resististe. E mostraste a todos que és um belo treinador. No ano seguinte voltaste a todas as finais em que tinhas estado e só perdeste a Liga Europa – outra vez. Calaste tudo e todos. Com a mesma equipa.

Este ano temia-se o pior. Saíram muitos jogadores bons, entraram outros de qualidade duvidosa. Mas tu definiste um objectivo – a conquista do bicampeonato – e conseguiste-o. Tudo o resto ficou para segundo plano. Com uma competência interna que nunca tinhas mostrado. Pela primeira vez em seis anos, não perdeste um jogo com os principais rivais. Um mérito que ninguém te tira. Tal como os 10 títulos em seis anos.

Foram anos bons. Contigo aos gritos no comando, o Benfica voltou ao lugar que é seu por direito. Esse mérito ninguém te tira. Independentemente de, nestes seis anos, o Benfica ter tido os melhores jogadores das últimas duas décadas. Independentemente dos autocarros de atletas que chegaram da América do Sul e que tão depressa apareciam como desapareciam. Independentemente de nunca teres apostado num único jogador da casa. E não, o André Gomes não é exemplo porque, contigo, raramente jogava. Independentemente dos gestos deselegantes que foste tendo e que não dignificam o clube: recordas-te dos cinco dedos apontados ao Manuel Machado? Recordas-te da cena insólita em Guimarães? Recordas-te dos três dedos ao treinador do Tottenham? Recordas-te de tentares aprender inglês porque querias ir para uma grande equipa europeia?

Todos os anos, no Verão, era a mesma coisa: sucediam-se as notícias de que ias para o Chelsea, Real Madrid ou Manchester City. Afinal, vais ali para o outro lado da Segunda Circular. Talvez vás ganhar mais dinheiro, talvez vás para o teu clube do coração. Mas o que te quero dizer é apenas isto. Afinal, vais para pior.

Saíste como entraste. Como um furacão. Agora, os sportinguistas que te insultavam vão idolatrar-te. Os benfiquistas que te idolatravam vão insultar-te. Os que gozavam com a tua forma pouco ortodoxa de lidar com o português vão defender-te. Os que te defendiam, vão gozar-te. Aqueles que toleravam a tua presença porque tinhas uma aura vitoriosa vão lavar a roupa suja em público. Os que diziam mal de ti sem tu saberes vão dar-te palmadinhas nas costas. É pouco racional, mas é a natureza humana quando aplicada ao futebol.

No fim da linha és só um treinador. Mais um dos muitos que passaram pelo clube. Sim, os últimos seis anos foram mais bons do que maus. Pelos vistos, acabaram. Mas só para ti. Perguntas-me se estou triste com a tua partida? Nem por isso. Sabes, é que o Benfica é maior do que qualquer treinador. Tu terás o teu lugar na história, no museu do clube. Mas nunca terás uma estátua à porta do estádio. #rumoao35

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