O vídeo do “regresso a casa”

O meu regresso à SIC Notícias, como contei aqui, agora em vídeo.

Foi bom voltar a casa

Entrei pela primeira vez na SIC no Verão de 2002. Foi lá que dei uma parte dos meus primeiros passos no jornalismo. Durante cerca de um ano fui muito feliz. Aprendi. Fiz amigos. Ganhei memórias. Recordo-me como se fosse ontem. Entrei e disseram-me para ir ter com o Daniel Cruzeiro. Ele acabava de chegar de licença de paternidade e nem sequer queria ouvir falar num estagiário novo (detalhe: tínhamos jogado basket juntos e nenhum de nós se lembrava do outro). Tomou então uma das melhores decisões da vida dele. Pediu ao grande João Carlos Barradas para “tomar conta do puto”.

Para mim, que fazia internacional em O Independente, não podia ser melhor. Durante vários dias tive o privilégio de observar o génio do Barradas em acção. Por isso, quando ele olhou para uma das primeiras peças que fiz e disse “bom, isto não está nada mau, não te posso ajudar muito mais, o melhor é ires trabalhar a sério” foi como se tivesse ganho o Púlitzer – embora ele talvez estivesse apenas a livrar-se de mim. “Entregaram-me” então ao Pedro Sousa Pereira. Verdadeiro repórter de guerra, o “PSP” parecia-me um tipo louco que por ali andava. Quando cheguei ao pé dele para me apresentar disse-me uma das frases mais marcantes que ouvi em 10 meses de SIC Notícias: “pikachu, vou fazer de ti um homem, carago”. Não me levou às meninas, mas levou-me para todo o lado onde ia. Mostrou-me como se editava uma peça, deu-me conselhos sobre a relação com os repórteres de imagem (“os verdadeiros heróis da TV”), dicas de reportagem, e um conselho essencial sobre a sonorização de peças: “lê essa merda com colhões, carago”. Sim, o PSP diz muitas vezes carago. E ainda bem.

Já com alguma autonomia, passei vários meses a aprender na Edição da Noite. Ouvi os conselhos da dupla inigualável Ana Lourenço e João Adelino Faria (que até tinham paciência para ouvir as opiniões do puto); vi a Joana Latino a fazer cada uma das peças, offs, promos e destaques como se fosse a coisa mais importante e divertida do mundo; ouvi o Luís Gouveia Monteiro revoltar-se com todas as injustiças sociais que nos apareciam; vi a Joana Garcia, a Susana Bastos e a Graça Costa Pereira trabalharem como se os horários não importassem, tanto que parecia que nunca saíam do lugar delas; ouvi o Joaquim Franco e o António Esteves dizerem-me vezes sem conta “corta porque menos é mais”; aproveitei todos os minutos com a Isabel Lacerda, a Madalena Augusto, a Manuela Vicêncio, a Susana André e a Joana Gomes Cardoso, que achava piada ao miúdo que gostava de Internacional.

Os anos passaram. Alguns provavelmente nunca mais se lembraram de mim. É a realidade das redacções: os estagiarios passam à velocidade da luz. Mas ficaram alguns amigos. No passado sábado regressei pela primeira vez à SIC Notícias em muitos anos. Fui fazer a revista de imprensa e mostrar o meu novo livro Os combatentes portugueses do Estado Islâmico. Agora com um novo amigo, que não estava lá há 13 anos, o Ricardo Borges Carvalho. As circunstâncias são diferentes. Mas soube bem regressar a uma casa que me tratou tão bem e onde fui feliz – com tantos e tão bons jornalistas e amigos.

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Um canal longe da glória

“Bom dia. São 7h da manhã. Está no ar a SIC-Notícias, 24 horas por dia, em directo e em Português.”

Foi assim que, há exactamente 12 anos (e algumas horas), Pedro Mourinho inaugurava a emissão do primeiro canal noticioso de Portugal. Tinham passado 21 anos desde que a criação da CNN. Era uma nova aventura – e todo um novo tempo para o jornalismo e para aqueles que vivem para o que aparece, ou não, nos jornais e televisões.

A SIC-Notícias multiplicou a velocidade do ciclo noticioso por 24. Com ela, passou a ser possível lançar uma “caixa” a qualquer hora do dia. Na época, a Internet, os blogues e as redes sociais não tinham a disseminação de hoje. E muitas classes profissionais, sobretudo a política, tiveram que se adaptar e rapidamente, ao novo meio. A pressão de uma mesma notícia ser repetida hora a hora foi insustentável para alguns. A rádio já o fazia, mas a imagem tinha um peso completamente diferente. A simples transmissão de uma conferência de imprensa em directo obrigou a mudanças. A necessidade de uma reacção imediata obrigou os protagonistas a estarem preparados e disponíveis a qualquer altura.

Nos primeiros anos o canal foi entusiasmante. As sucessivas edições tinham ritmo, trabalho, protagonistas, conteúdo e, claro, notícias. O canal tornou-se um local de elite onde todos queriam ir – e também trabalhar. Foi o meu caso.

Ao longo da última década, a SIC-Notícias também mudou. Não só obrigada pelo nascimento da RTP-Informação e da TVI24 mas, sobretudo, devido a mudanças internas. A saída de muitos profissionais qualificados, a redução de meios e uma aposta clara em horas infindáveis de debates e “análises”, quase sempre com os mesmos protagonistas, retiraram muita da “magia” do canal, que hoje raramente surpreende.

Tal como na concorrência, o directo tornou-se praticamente um género jornalístico. São ocupadas horas de antena com a transmissão de comissões parlamentares com importância relativa. São preenchidas tardes com antevisões de jogos de futebol que depois são complementadas com mais análises às mesmas partidas. Tornaram-se também mais habituais os erros informativos – que acontecem em todos os órgãos de comunicação social – e visíveis as fragilidades da edição.

Ainda assim, a SIC-Notícias continua a ser um espaço de referência no panorama informativo português. Já não bate aos pontos a concorrência. Pelo contrário. O canal não está na fase mais pujante da sua existência. Mas no dia em que se assinala o seu 12º aniversário, o meu desejo é que o melhor ainda esteja para vir.