O jornalismo bem vivo

Se há dias em que deitamos as mãos à cabeça com algumas coisas que são feitas na comunicação social portuguesa, há outros em que encontramos trabalhos que emocionam. É o caso da grande reportagem Quem é o filho que António deixou na guerrada Catarina Gomes, para o Público e a SIC. Porque não há nada melhor do que uma boa história.

O adeus do Mário Crespo

Gosto do Mário Crespo. Ele não é unânime. Isso é uma qualidade. Tem opiniões e embarca nas causas em que acredita. É polémico e às vezes ultrapassou os limites. Mas, apesar disso, tem credibilidade. É imprevisível e, por isso, surpreendente. Nunca se sabe o que dali pode sair. Tanto pode ser uma manifestação de cultura durante a divulgação do estado do tempo para o dia seguinte como algumas das mais acutilantes perguntas que poderiam ser feitas num estúdio televisivo. Poucos terão levado Valentim Loureiro a perder as estribeiras com o nível com que ele o fez. Ao mesmo tempo, sabe ouvir as respostas e deixar os entrevistados falar – não é por acaso que Lobo Antunes era uma presença regular no seu Jornal das Nove. Por aquele espaço, passaram, nos últimos anos, todos aqueles que têm ou tiveram alguma relevância na vida portuguesa. Ao mesmo tempo, o Mário Crespo tem sentido de humor e não se leva demasiado a sério, apesar do estatuto que lhe advém da idade e experiência. Ontem, ele despediu-se dos telespectadores ao seu estilo, numa mensagem sentida. Parecia não querer abandonar os ecrâs. E eu tenho pena que ele se vá embora. A televisão – e o jornalismo – vão ficar mais pobres.

Em defesa da Joana Latino (não é que ela precise, mas pronto)

Nos últimos dois dias o mundo jornalístico indígena tem estado entretido em duas discussões: o “estilo” de José Rodrigues dos Santos (JRS) frente a José Sócrates e a reportagem da Joana Latino, sobre a vinda a Portugal de David Hasselhoff, o actor norte-americano que se celebrizou em O Justiceiro e depois em Marés Vivas.

Sobre JRS já aqui escrevi bastante. Mas confesso que hesitei em fazê-lo sobre a Joana Latino. Conheci-a há 12 anos quando cheguei como estagiário à redacção da SIC-Notícias. Ela era uma das principais jornalistas da Edição da Noite e uma das pessoas com quem passei a conviver durante longas horas – que se prolongavam bem para além do final da emissão. Ela provavelmente não se lembra, mas foi uma das que teve paciência para me ensinar a mexer pela primeira vez num programa de edição de imagem – sim, foi na SIC-N que os jornalistas começaram a editar as próprias peças – e das que mais me ajudou a entrar no ritmo infernal da televisão 24h por dia. Nessa altura, a Joana fazia tudo: despachava promos, destaques e seleccionava vivos à velocidade da luz, saia para fazer os directos que fossem precisos – fosse num tiroteio, num incêndio, numa urgência hospitalar ou na sede de um partido político. Quando regressava, ainda deixava uma peça pronta para entrar durante a madrugada e a manhã. Basicamente, era (e é) uma máquina. Uma das mais versáteis repórteres da SIC e que, por isso, teve por várias vezes o reconhecimento do Mário Crespo – em directo.

Já nessa altura, a Joana tinha uma grande qualidade: tentava pensar fora da caixa. Fazia coisas diferentes. Às vezes tão diferentes que não se sabia qual ia ser a reacção. E se há qualidade que ela manteve ao longo destes anos foi essa: tentar surpreender os telespectadores. Todos os dias. Umas vezes corre bem. Outras, nem por isso. Mas o trabalho da Joana tem esse grande mérito: não deixa ninguém indiferente. Que o diga o secretário de Estado da Cultura, Barreto Xavier, que, a propósito da polémica da colecção Miró, foi bombardeado pela Joana em directo com as perguntas mais certeiras que lhe podiam ter sido feitas – e com um grupo de jornalistas impávido a assistir.

Na última semana a Joana foi entrevistar o David Hasselhoff, que veio a Portugal promover o espectáculo que vai ter em Portimão. Quem conhecer minimamente o historial do actor, percebe que ele é, digamos, um cromo. E que a Joana não ia simplesmente fazer uma peça que poderia ter começado assim: “Nos anos 1980 foi a estrela de O Justiceiro. Nos 1990 de Marés Vivas. Agora está em Portugal para promover um espectáculo em que todos poderão reviver essas séries de sucesso”. Não isso seria demasiado fácil – e, lá está, pouco surpreendente.

Ela optou por uma solução arriscada. Que a expõe às críticas mais corrosivas. Mas que deve ter arrancado tantos sorrisos lá em casa, quantas as gargalhadas que devem ter sido dadas enquanto filmavam e editavam aquela peça. Sim, é uma peça divertida, sobre um tema divertido. Mas nem todo o jornalismo tem de ser sério – no sentido de chato. Tem de ser factual – e a peça é. Tem de ser verdadeiro – e a peça também o é. Não deve violar normas e regras deontológicas – e a peça não viola. Tem de ser interessante – e a discussão à volta do tema prova que o é. E também não deve enganar o telespectador – e a peça não engana. Mais: a Joana avisa logo ao que vem no início quando diz.

“Qual a relevância deste momento jornalístico? Nenhuma. A não ser que a peça seja sobre David Hasselhoff.”

E tem toda a razão. No fundo, toda a polémica resume-se a uma questão de gosto. Uns acham que é divertido. Outros acham que é de mau gosto e um péssimo serviço ao jornalismo. Eu confesso que comecei por pensar (desculpa, Joana) “olha, passou-se”. Mas depois de rever a peça, de passar os olhos pelo que é feito na comunicação social, de ler o que foi escrito e de pensar um bocado no assunto, já não tenho tantas certezas. E essa é a beleza do jornalismo. Não há uma verdade absoluta para todas as questões (nem para a do JRS). E quem se acha o dono da razão e tem dificuldade em aceitar outros pontos de vista tem um bom remédio: mudar de profissão. Força, Joana.

Já agora, esta é a peça da polémica.

O Benfica e o Capitão que não devia estar fora de jogo

Olá Capitão,

Vi a reportagem que a SIC emitiu sobre ti na semana passada com um aperto no coração. Chamaram-lhe Fora de Jogo. É um bom título. Mas demorei quase uma semana a digeri-la. Não só por ti e pelo dramatismo a situação em que te encontras. Mas também pela forma como o meu clube tem tratado os poucos símbolos que lhe restam.

Vi-te com uma profunda tristeza. Recordo-me bem de ti. Da forma como honravas aquela camisola. Do teu ar altivo e imponente. E como te tornaste o “eterno” dono do número 2 ao longo de 15 anos. De certeza que não eras dos mais bem pagos do plantel. Mas não passavas necessidades. Pelo contrário. O dinheiro que ganhaste nesses anos dava para teres uma vida perfeitamente desafogada. Infelizmente acreditaste em pessoas que se diziam tuas amigas. Diziam. Não eram. A prova está à vista.

Tiveste ainda um azar supremo: foste uma vítima de um ser chamado Artur Jorge que afastou todos aqueles que podiam ter algum peso no clube. Naquela época chamavam-lhe mística. Hoje poucos sabem o que isso é. Ainda regressaste ao clube com o teu amigo Toni. Mas claro que não durou. Nem chegou.

Ao contrário do que acontece, por exemplo, naquela organização de malfeitores do norte do país, o Benfica nunca se celebrizou por tratar bem as velhas glórias. Os seus símbolos. Até o King enfrentou um período difícil. Lá no norte, alguns antigos jogadores, alguns, aqueles com história, acabam por ser integrados na estrutura do clube. Seja nas camadas jovens ou na equipa principal. Para além dos ensinamentos práticos, transmitem um modo de estar no futebol – no caso deles, o pior de todos, claro. Mas isso não importa.

Tu foste um dos últimos jogadores do Benfica que podia ostentar o título de símbolo. E deixaste de jogar há quase 20 anos. Depois de ti só três outros futebolistas poderiam chegar ao teu estatuto: João Vieira Pinto, Rui Costa e Nuno Gomes. O primeiro foi durante muito tempo o nosso “menino de ouro”. Mas foi expulso do clube por um malfeitor que conseguiu chegar à presidência e cujo nome não deve ser pronunciado. O segundo é o último verdadeiro produto da formação. Na verdade passou poucos anos de sénior no clube. Mas nunca escondeu o benfiquismo, acabou cá a carreira e, apesar de ter sido diversas vezes usado pela actual direcção como escudo protector, mantém um lugar na SAD. O último teve um azar semelhante ao teu: foi maltratado por um treinador que tem um qualquer problema com os jogadores portugueses e acabou por sair por uma porta que não era aquela que ele merecia.

Numa época em que a falta de referências para os jovens jogadores é tão grande, a presença de símbolos como tu é fundamental para aquilo que parece estar na moda: o desejo de ascensão de jogadores portugueses. Porque símbolos como tu sabem o que é preciso fazer para lá chegar. E podem transmitir aos mais novos o orgulho que é vestir aquela camisola vermelha.

Se eu fosse presidente do Benfica, em vez de dizer que tu não pediste ajuda, no dia seguinte à emissão da reportagem estava tocar à campaínha da tua casa (ou a telefonar-te, pronto) para te perguntar o que querias fazer. Porque não é por teres ido umas vezes ao estádio ali do lado ver os jogos do teu filho, que acabou por te abandonar, que o teu passado pode ser apagado. Para citar um benfiquista respeitável, tu foste daqueles poucos jogadores que honraram a camisola do Benfica tanto quanto ela te honrou a ti. Erros todos cometemos. E quem pode censurar-te por apoiares o rapaz, teu filho, que foi desdenhado pelo nosso clube? Eu não. Para mim nunca serás apenas o António Veloso. Serás sempre “O Capitão”. O último da tua espécie. E o teu lugar é no Estádio da Luz. Dentro do jogo. 

A narrativa de Eduardo dos Santos e as muitas questões que ficaram por fazer

Ponto prévio: conseguir uma entrevista a José Eduardo dos Santos (JES) é uma grande “cacha” da SIC. Há 22 anos que o presidente angolano não falava a um órgão de comunicação social. Por isso, ter a oportunidade de o confrontar com as perguntas que nunca lhe foram feitas em mais de duas décadas é um exclusivo digno desse nome. Parabéns.
Por outro lado, um jornalista que tenha a oportunidade de entrevistar um homem como JES tem uma responsabilidade especial. Para com os telespectadores mas, sobretudo, para com os angolanos que esperaram longos anos para ouvir explicações do seu presidente sobre inúmeros assuntos. Desde logo perceber porque passou tanto tempo até haver eleições em Angola. JES tomou posse como presidente a 21 de Setembro de 1979. As eleições presidenciais seguintes realizaram-se em 1992 mas o processo não chegou ao fim devido ao reinício da guerra civil. Os angolanos tiveram então que esperar mais 20 anos para eleger um presidente. Não numa eleição directa, mas num escrutínio geral. A alteração da constituição em 2010 impôs que o número um da lista do partido mais votado se tornasse automaticamente presidente da República. Aconteceu o ano passado. E essa foi uma pergunta que não ouvi Henrique Cymerman fazer. Porque é que só ao fim de 10 anos de paz é que JES foi a votos?
No fundo, foi uma entrevista fácil para JES. Inicialmente o presidente angolano parecia pouco à-vontade. Tive até a impressão de que ele estava a ler as respostas a perguntas abertas como “que balanço faz da década de paz em Angola?” ou “de que feitos está mais orgulhoso?” A certa altura parecia que estava a assistir a uma conversa surreal. Ou melhor, à construção de uma narrativa surreal. JES falava da consolidação da democracia em Angola e dava como exemplo a construção de um grande parlamento – esquecendo que estar no poder há 33 anos é tudo menos próprio de uma democracia. Disse que é preciso colocar os interesses da nação acima de qualquer interesse particular – mas não foi confrontado com o enriquecimento da elite angolana que o rodeia e muito menos com o património que acumulou para si e para a sua família. Garantiu que o seu governo tem como prioridade combater a pobreza e a desigualdade social – mas ignorou os milhões de angolanos que vivem em barracas, muitos à volta da sua residência oficial murada, ajardinada, com várias piscinas e um heliporto.
Elogiou a relação com Israel, com o Brasil e com a China. Saudou os investimentos chineses e deu como exemplo a construção em três anos de uma cidade com 20 mil apartamentos para 200 mil habitantes a sul de Luanda – mas não foi confrontado com o facto de essa cidade estar deserta porque os angolanos não têm dinheiro para comprar uma das casas. Sobre Portugal disse que os portugueses são bem-vindos mas que há “reminiscências do passado, problemas localizados em círculos da vida portuguesa que talvez por algum saudosismo pretendem voltar ao passado” – mas não foi confrontado com os sucessivos insultos feitos a Portugal no Jornal de Angola, o órgão oficial do regime. Pelo contrário, desvalorizou os investimentos angolanos em Portugal ao dizer que a Sonangol tem dado os primeiros passos nesse investimento e que “uns correram bem, outros mal”. Mais uma vez não foi confrontado com os negócios de Isabel dos Santos e de muitos dos generais que o rodeiam, nem com as investigações judiciais que correm no Ministério Público Português contra os mais altos responsáveis do seu regime.
Sei que é impossível fazer todas as perguntas que deviam ter sido feitas ao longo de 22 anos. Mas também sei que a função de um jornalista é tentar fazê-las, mesmo as mais incómodas. E que é sua função conduzir a entrevista em benefício do telespectador e não do entrevistado. É por isso que é também importante esclarecer algumas questões: porque é que a entrevista foi conduzida pelo correspondente da SIC em Israel e não por um dos principais jornalistas da estação? Quais foram as condições impostas? A SIC vai passar a ter algum tipo de limitação em relação aos assuntos angolanos (como já foi sugerido aqui)? As questões foram combinadas previamente? A entrevista só foi emitida depois de previamente visionada pela presidência angolana? As respostas a estas perguntas são importantes não só para os angolanos mas, sobretudo, para os portugueses que têm na SIC um dos seus canais informativos de referência.
Por último, houve uma frase da entrevista que fixei. Questionado sobre o que o governo angolano faz para ultrapassar o problema da corrupção, JES respondeu: “não sei se algum dia o vamos ultrapassar”. Pois.

SIC negoceia entrevista a José Eduardo dos Santos

De acordo com o site Clube K, a SIC está em negociações com a presidência angolana para conseguir a primeira entrevista de um canal privado a José Eduardo dos Santos. A realizar-se, a entrevista será conduzida por Henrique Cymerman, que estará em Luanda há mais de uma semana. A fuga de informação terá originado várias manobras para manter as negociações em segredo. Até aqui, tudo bem. O preocupante é o que vem a seguir:

“Porém, ao mesmo tempo em que se esmerava no fingimento de que não havia nenhum compromisso com a estação televisiva lusa, a Presidência angolana negociava com Pinto Balsemão, o patrão da SIC, novas condições para a entrevista. Uma delas era que, se concedida, a entrevista só seria emitida depois de previamente visionada pelo entrevistado e seus assessores.
Outra condição é que doravante desafectos do regime angolano só poderão ser entrevistados pela estação televisiva lusa mediante prévia autorização de Luanda. O próprio Pinto Balsemão comprometeu-se a garantir a estrita observância do acordo.” 

Espero que estes dois parágrafos não correspondam à verdade. Nem é preciso explicar porquê.

jes sic

A Fraude: soube a pouco, muito pouco

Após a emissão da primeira parte da Grande Reportagem da SIC, A Fraude, escrevi aqui um post sobre esse episódio. Em resumo, dizia que me tinha sabido a pouco, mas que esperava que os capítulos seguintes dessem um novo impulso àquele que foi um dos trabalhos jornalísticos de televisão mais promovidos dos últimos tempos. Infelizmente, não deram.

Após a transmissão do segundo capítulo – A Anatomia de um Golpe – dei por mim com a mesma sensação de que a reportagem tinha continuado a tratar o assunto pela rama. Ficou-me na retina uma explicação dada por Honório Novo, deputado do PCP e um dos mais destacados membros da Comissão Parlamentar de Inquérito ao BPN, que, com um papel e uma caneta, esquematizou em traços gerais como funcionava o banco de Oliveira e Costa. E pouco mais. Na altura, não voltei ao assunto. Disse para mim próprio: “amanhã é que é”. Mais uma vez, não foi.

O título do 3º capítulo até prometia: No rasto do dinheiro. Esperava que a reportagem do Pedro Coelho nos levasse mais além do que aquilo que já sabíamos. Que apontasse beneficiários. Contas. Empresas. Qualquer coisa de concreto. Mas não. A SIC foi até à Holanda falar com um “farejador de dinheiro”, que nada tem a ver com o caso BPN e que apenas apontava um suposto caminho alternativo a seguir pelas autoridades.

Nesta altura, já não esperava grande coisa de A Caixa Negra, a última parte da reportagem. Vi-a quase que por obrigação – e para ter a garantia de que não tinha ficado com a ideia errada. Não fiquei. A Fraude revelou-se um bom trabalho jornalístico, muito bem editado, que traça a evolução temporal do banco liderado por Oliveira Costa. Mas pouco mais.

Sei que o assunto é muito complexo e que traduzi-lo numa linguagem perceptível em televisão não será fácil. No entanto, fiquei com a impressão de foi tratado pela rama, muito aquém da capacidade do Pedro Coelho. Sofre de um mal de base: de todas as pessoas contactadas, apenas cinco tiveram alguma ligação ao caso BPN. Neste ponto é preciso ser justo: conseguir que alguém fale em “on”, para uma televisão, num caso destes, não é tarefa fácil. Melhor: é quase impossível.

Para além disso, A Fraude toca ao de leve no caso do Presidente da República – que lucrou milhares de euros com um acordo de recompra de acções da SLN e que ao contrário de todos os outros não teve direito a um carimbo de “recusado” – e nem menciona a polémica da Casa da Coelha. Por outro lado não refere a investigação do Ministério Público (como é possível fazer um trabalho destes sem consultar o processo?) nem o que se passou no julgamento de Oliveira e Costa até agora. Passa ao lado da responsabilidade do Banco de Portugal e não deixa claro qual o circuito do dinheiro nem em que negócios ruinosos foi investido. O melhor: as explicações de Honório Novo e de João Semedo, que dominam o dossier como ninguém. No fim, soube a pouco. Muito pouco.

A Fraude: por enquanto, ficou abaixo das expectativas

Talvez as expectativas estivessem muito altas. Tão altas que depois de ver ontem a primeira parte da Grande Reportagem da SIC, A Fraude, perguntei: “Já acabou? Foi só isto?”. Hoje revi-a. E fiquei com a mesma sensação. O capítulo “A linha do tempo” era suposto mostrar como, durante dez anos de gestão, Oliveira Costa conseguiu “esconder prejuízos e apresentar lucros crescentes”. E lançar-nos para os restantes episódios. À primeira vista, não conseguiu. Para além da óptima edição de imagem e de enumerar os lucros anuais do BPN, não explicou como o banco foi criado, quais os seus fundadores, como os prejuízos foram escondidos e revelou várias fragilidades. A maior: contactadas 51 pessoas, só 13 aceitaram falar sem restrições e apenas cinco tiveram alguma ligação ao BPN. Ficaram-me na memória outros detalhes, como o uso de várias imagens de Oliveira e Costa na Comissão Parlamentar de Inquérito ao BPN sempre a mastigar uma sandes. O segundo capítulo é hoje. Espero que a ideia seja ver os quatro episódios em conjunto. E que o de logo à noite recupere o fôlego. Mesmo.

“A fraude” vai hoje para o ar

Não me lembro de ver um canal de televisão investir tanto na promoção de uma grande reportagem. Por isso, mas sobretudo por o autor de “A fraude” ser o Pedro Coelho, um dos melhores jornalistas televisivos portugueses, estou muito curioso para ver a série de trabalhos que a SIC começa hoje a emitir. Ou muito me engano ou está aqui um dos grandes candidatos ao Prémio Gazeta de 2013. É descrito assim:

“A investigação será emitida em quatro capítulos, nos jornais de terça, quarta, quinta e sexta-feira.

A Fraude mergulha no BPN e desvenda os pormenores que estiveram por detrás do mais gigantesco e complexo buraco aberto por gestão ruinosa em Portugal.

No primeiro capítulo, “A linha do tempo”, fazemos um sobrevoo aos dez anos de gestão de Oliveira Costa e mostramos como foi possível esconder prejuízos e apresentar lucros crescentes; em “Anatomia de um golpe”, o segundo capítulo, descemos aos meandros da fraude e explicamo-la; o terceiro capítulo abre a porta a uma possibilidade nunca antes explorada: seguimos o rasto do dinheiro perdido e desviado do banco através de uma complexa rede de offshores; no quarto capítulo analisamos à lupa a gestão nacionalizada entregue à Caixa Geral de Depósitos. Afinal o buraco deixado pela gestão de Oliveira Costa quase duplicou durante os quatro anos de gestão pública.

A Fraude é uma grande reportagem de investigação de Pedro Coelho, com imagem de Luís Pinto e edição de imagem de Ricardo Tenreiro. Estreia amanhã, no Jornal da Noite.”

A história do Padre João Felgueiras – pelo Carlos Narciso

Quando entrei na SIC, há mais de 10 anos, trabalhavam lá uma série de jornalistas que me tinha habituado a ver na televisão e que tinha como alguns dos muitos bons profissionais da estação. Para além dos óbvios e dos que ainda lá trabalham, há outros que já deixaram o canal. Um deles é o João Carlos Barradas. Outro o Carlos Narciso. Com o João falei bastante e mantivemos algum contacto. Com o Carlos Narciso não. Que me lembre, nunca trocámos uma palavra. Pelas notícias, soube que ele passou pela TSF e depois por uma revista de má memória da Impala. Ontem, uma mão amiga fez-me chegar um vídeo do youtube e descobri que o Carlos Narciso está a dar formação na Rádio-Televisão de Timor-Leste (RTTL). Os timorenses não podiam estar em melhores mãos.

Descobri também que no início de 2013, deverá ir para o ar a primeira produção em português na RTTL, produzida e realizada pelo veterano jornalista português no âmbito do Projecto de Apoio à Comunicação Social do Camões – Instituto para a Cooperação e a Língua. O projecto chama-se “Um dia Com…” e este episódio centra-se num dos heróis da história timorense: o padre jesuíta João Felgueiras. A ver.

Quem semeia vento

Na semana passada fora entregues os prémios Gazeta 2011. Depois de recordar a reportagem “O Volfrâmio Nazi”, fica aqui a outra vencedora da categoria de Televisão. Em “Quem Semeia Vento”, a Miriam Alves mostra claramente como os 500 mil hectares de terrenos agrícolas desactivados nos últimos 10 anos deixaram Portugal cada vez mais dependente da importação de alimentos. Só em 2010 foram sete mil milhões em produtos alimentares.

1ª parte

2a parte

http://m.youtube.com/#/watch?client=mv-google&feature=relmfu&v=yqCDI4KJud0&gl=PT&rdm=mdt4cb53

3ª parte

Jornalista: Miriam Alves

Imagem: Rodrigo Lobo

Edição de Imagem: Andrés Gutierrez

Grafismo: Eduardo Militão

Produção: Isabel Mendonça

Coordenação: Cândida Pinto

Direcção: Alcides Vieira

O volfrâmio nazi

O presidente da República entregou esta semana os prémios Gazeta 2011. Vale a pena recordar a reportagem da Amélia Moura Ramos, transmitida no Perdidos e Achados, que foi uma das vencedoras na categoria de Televisão. “O Volfrâmio Nazi” conta a história de António Pinho Freitas, comandante da Guarda Nacional Republicana de Aveiro que, em 1942, gravou um vídeo de 14 minutos com milhares de portugueses a trabalhar nas minas de Rio de Frades, na extracção de volfrâmio destinado à Alemanha nazi.

O volfrâmio nazi from Franklin Ferreira on Vimeo.

Jornalista: Amélia Moura Ramos 

Imagem: Rafael Homem

Edição: João Nunes 

Produção: Madalena Durão; Diana Matias

Coordenação: Sofia Pinto Coelho 

Direcção: Alcides Vieira

Os Momentos de Mudança

Há algum tempo que andava para escrever algo sobre a série documental da SIC, Momentos de Mudança, que aborda as maiores transformações ocorridas no país entre 1992 e 2012. Lançado no dia de aniversário da estação de Carnaxide, o primeiro episódio centrou-se num tema óbvio para a data: o nascimento. No caso, de Duarte, filho de um casal de 30 anos a viver na zona de Lisboa. A segunda emissão da série coordenada pela Cândida Pinto, contou a história do encerramento da fábrica de Vitor Rito. Mas foi o último episódio que me compeliu a escrever este post. A história de Alexandra, a rapariga de 19 anos que contraiu o vírus do HIV ao ser amamentada pela mãe é de uma força incrível. Tal como as outras, está bem contada (o narrador é o próprio protagonista), prende a atenção, oscila momentos de drama com humor, os planos são excelentes, a edição é cuidada. Em resumo: é do melhor que me lembro de ver na televisão portuguesa. É a prova de que mesmo em tempo de crise o bom jornalismo é possível. E deixa marcas.

Podem acompanhar os episódios aqui.