Um herói da luta contra o terrorismo (1994-2016)

Era a segunda vez que Mário Nunes estava na Síria para combater o autoproclamado Estado Islâmico. Tal como tinha feito um ano antes, tinha viajado para o Curdistão sírio para se juntar às Unidades de Protecção Popular (YPG) na luta contra o grupo terrorista. Mas ao contrário do que aconteceu entre Fevereiro e Junho de 2015, não ficou inserido numa unidade normal: entrou para um grupo de elite, uma espécie de forças especiais, composto apenas por voluntários ocidentais conhecido por um nome de código: a 223. Mário tinha uma missão fundamental: era ele o operador da metralhadora pesada. Nunca se saberá exactamente o que aconteceu naquela tarde de 3 de Maio de 2016. Nem os reais motivos. Sabe-se apenas que o acampamento da 223 entrou num alvoroço quando o corpo de Mário Nunes foi encontrado estendido no chão. Na carta que foi enviada à família, algumas semanas depois, os líderes das YPG reconheciam o seu papel: “Mário não era apenas um combatente que dava força adicional à nossa luta. De facto, com a sua experiência e conhecimento ele foi um exemplo para os soldados mais jovens. Enquanto alcançou uma série de objectivos nas nossas linhas da frente, Mário serviu o propósito de ser uma ponte muito importante entre nós, os cudos de Rojava. Ele atravessou continentes pelo destino do nosso povo e humanidade”. Até hoje continua a ser, que se saiba, o português a juntar-se à luta contra o Estado Islâmico na Síria. Um herói, que merece ser recordado.

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Foto @Michael McEvoy

O Estado Islâmico realizou 90 atentados suicidas em Janeiro

A Agência Amaq, o órgão de comunicação oficial do autoproclamado Estado Islâmico, divulgou nos canais encriptados do Telegram uma nova infografia com o resumo dos atentados suicidas realizados no Iraque e na Síria em Janeiro de 2017. Ao todo foram 90 ataques, a maioria através de veículos carregados de explosivos dirigidos em grande parte às forças iraquianas e curdas que tentam reconquistar Mossul.

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Estado Islâmico realizou 107 atentados suicidas em Dezembro

A agência noticiosa do autoproclamado Estado Islâmico divulgou uma infografia com o número de atentados suicidas realizados em Dezembro de 2016, no Iraque e na Síria. De acordo com a Amaq, o principal alvo destes ataques foram as forças iraquianas que tentam reconquistar Mossul.

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A morte em directo

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É sempre difícil escrever a quente. Sobretudo porque é fácil tirar conclusões precipitadas.

O que sabemos até agora: um polícia turco, de 22 anos, assassinou o embaixador russo em Ankara, Andrey Karlov, na inauguração de uma exposição de arte. As imagens  captadas pela televisão turca mostram o homicida a disparar vários tiros e a gritar em turco:

Pouco depois o atirador foi abatido pela polícia turca. A sua morte impedirá o esclarecimento de questões imediatas:

  • Quais as suas reais motivações?
  • Agiu em nome de alguma organização ou a título individual?
  • Teve cúmplices?
  • Houve alguma falha de segurança que lhe permitiu aproximar-se do embaixador russo, aparentemente, tão facilmente?
  • Quais serão as consequências para as relações entre a Turquia e a Rússia?

Para já, a resposta honesta é, ninguém sabe. Tudo o que se possa dizer a partir de certo ponto são apenas especulações.

Sabe-se também algumas outras coisas:

  • Há uma semana houve uma manifestação em frente ao consuldado russo em Istambul, em que foi pedida vingança devido aos bombardeamentos em Allepo.
  • O terrorista referiu-se a Allepo em termos semelhantes aos utilizados pela Jabhat al Nusra (actual Jabhat Fateh al-Sham), a filial da Al Qaeda na Síria.
  • Até agora nenhum grupo terrorista reivindicou o ataque, pelo contrário, apoiantes do auto-proclamado Estado Islâmico no Telegram têm pedido moderação aos seus seguidores.
  • Os presidentes da Turquia e da Rússia já falaram ao telefone.
  • Apoiantes dos grupos jihadistas começaram a espalhar as moradas das embaixadas russas, nas redes sociais, numa tentativa de incitamento de novos ataques.
  • Amanhã  haverá em Moscovo uma cimeira entre Rússia, Turquia e Irão, sobre a situação na Síria. O encontro manteve-se, apesar do incidente.

Nos próximos dias haverá, certamente, novidades.

Uma última curiosidade: antes de o embaixador ser assassinado, Vladimir Putin dirigia-se para uma peça de Alexander Griboedov, o poeta, compositor e embaixador da Rússia, que foi assassinado em 1829 quando estava colocado no Irão.

 

Heróis Contra o Terror: estão convidados para o lançamento

É já na 5ª feira, 17 de Novembro, na livraria Bertrand do Amoreiras Shopping Center, com o Rui Cardoso Martins e o Macer Gifford. Tem tudo para ser um debate interessante. Apareçam, que estão todos convidados.

Se quiserem seguir as novidades do livro, é só clicar na imagem e fazer like na página de Facebook.

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Estado Islâmico com canal no Telegram em espanhol

O autoproclamado Estado Islâmico começou a manter, há algum tempo, um canal no Telegram em castelhano para espalhar propaganda no Ocidente. Estes canais juntam-se a muitos outros em inglês, francês, alemão e russo. Ao longo das últimas semanas, tal como os outros, os canais em espanhol têm sido criados e removidos a pedido das autoridades. No entanto, a organização terrorista tem criado novos veículos de comunicação.

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O Telegram é uma aplicação informática que permite aos utilizadores trocarem mensagens encriptadas e criar canais abertos a um público ilimitado – desde que estes últimos conheçam os seus endereços.

Cartoon da semana: cessar fogo na Síria

Pelo Vasco Gargalo

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O terror no meio de nós VI

Em resumo: há muito que as autoridades alertam para o risco de atentados na Europa; o auto-proclamado Estado Islâmico (EI) tem inserido nas suas mensagens de propaganda sucessivas ameaças aos países europeus; o conflito com este grupo terrorista já dura há 13 anos; a guerra na Síria tornou-se o maior palco de mobilização de combatentes terroristas estrangeiros desde o fim da II Guerra Mundial; e um número inédito de cidadãos nacionais ou luso-descendentes juntaram-se a uma organização jihadista que tem por fim último a destruição da sociedade ocidental. A pergunta seguinte é: há um risco de atentados em Portugal? A resposta genérica é: “há, como em todos os outros países europeus”. Mas se a questão for mais específica, por exemplo, vão acontecer ataques terroristas em Portugal? A resposta honesta será: “talvez sim, talvez não. Ninguém sabe”.

No fundo, é tudo uma questão de probabilidades. Portugal está inserido no espaço europeu, faz parte da NATO, ocupa um território que integrou o longínquo Al Andalus e participa na coligação internacional que combate o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. É por isso natural que o nosso país esteja entre os alvos potenciais do terrorismo jihadista. É também natural que aqui e ali surjam referências a Portugal nos meios de propaganda oficiais do grupo terrorista (sem contar com afirmações esporádicas dos combatentes portugueses). E não é de agora, ao contrário do que tem sido escrito e dito nos últimos dias.

A primeira vez que tal aconteceu terá sido em Outubro do ano passado, no 11º número da revista Dabiq, num artigo de 10 páginas que comparava a luta de Maomé, em Medina, contra uma aliança entre judeus e tribos árabes à actual situação em que o EI enfrenta uma coligação internacional. De acordo com a crença islâmica, nessa batalha de Al-Ahzab os muçulmanos resistiram a um cerco entre Janeiro e Fevereiro do ano 627 e, apesar de estarem em minoria, saíram vitoriosos. O mesmo, escreveram, acontecerá agora. Em seguida, a revista enumerou os países e organizações empenhados na luta contra o EI – lista onde estava Portugal.

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Um mês depois, em Novembro de 2015, houve uma nova referência a Portugal, agora num vídeo de propaganda. Divulgado em contas do grupo terrorista no Twitter e no Telegram, alguns dias após os atentados terroristas de Paris, o vídeo foi produzido pelo Al Hayat Media Center – o departamento de comunicação destinado maioritariamente ao público ocidental – tinha a duração de quatro minutos e o título de “No Respite” (Sem tréguas, numa tradução livre).

Apesar de recorrer apenas a animações gráficas e a fotografias – em vez de imagens reais – o vídeo desafia os membros da coligação internacional a lançarem tudo o que tiverem contra o grupo terrorista. É aí que a bandeira portuguesa surge entre as dos 60 países que formam a coligação internacional que enfrenta o EI.

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A 29 de Janeiro, o EI colocou na internet um novo vídeo em que cinco prisioneiros são acusados no meio de ruínas no norte do Iraque. O único terrorista que fala para a câmara exprime-se em francês e ameaça sobretudo a França – mas também o Al Andalus, Portugal e Espanha. A referência ao nosso país, entre ameaças de novos atentados que farão esquecer o 11 de Setembro e os ataques de Paris e promessas de reconquista da Península Ibérica, é exactamente esta: “tenham paciência por Alá, vocês não são espanhóis nem portugueses, são muçulmanos do Al Andalus”. Apesar de não o confirmarem oficialmente, as autoridades portuguesas acreditam que existe uma forte probabilidade de o homem que surge encapuçado a falar para a câmara é o luso-descendente com passaporte português, Steve Duarte. No entanto, não há certezas. Há probabilidades.

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Na passada terça-feira, dia 29 de Março, o jornal norte-americano The Washington Times publicou uma notícia em que afirma que o Estado Islâmico, através do departamento de média Al Wafa, terá feito uma ameaça directa aos Estados Unidos e também a Portugal e à Hungria. A publicação cita um relatório do Middle East Media Research Institute (MEMRI), que se dedica a monitorar as comunicações jihadistas, que especifica que o comunicado do grupo garante que “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. A notícia do The Washington Times foi depois reproduzida na imprensa portuguesa – e húngara – e levou as autoridades a afirmarem que “tinham conhecimento” do caso e que o “estavam a acompanhar” .

Contudo, depois de aceder ao relatório original do MEMRI, pude confirmar que a ameaça não era tão certa. O instituto cita uma série de artigos, em árabe, colocados no Twitter por vários autores que pertencem à citada Al Wafa, que não é um departamento de média do Estado Islâmico mas sim um grupo de apoiantes da organização terrorista. É por isso que o título do relatório especifica: “Apoiantes do ISIS depois dos ataques de Bruxelas: América é a próxima; Londres vai tornar-se uma província do ISIS; a Europa enfrenta um futuro negro”. Talvez isso explique porque mais nenhum país do mundo – além de Portugal e da Hungria – tenha replicado a história. Ou seja, a ameaça não tinha credibilidade. São “vozes” anónimas na internet.

A conta de Twitter onde os textos foram publicados (@alwafa014794755) já não está activa. A maioria dos artigos ameaçava países como os Estados Unidos e o Reino Unido na sequência dos atentados de Bruxelas. Um deles tinha realmente como título a frase “Hoje foi Bruxelas e o seu aeroporto, amanhã poderá ser Portugal ou a Hungria”. No entanto, o texto assinado por um Al-Qurtubi Al-Qurashi, entre elogios aos jihadistas que atacaram Bruxelas, não faz qualquer referência a Portugal. Para os analistas do MEMRI o significado do título é apenas simbólico – o que não impediu o alarmismo generalizado da semana passada.

Apesar de todas estas referências, como dizia, é tudo uma questão de probabilidades. Se o risco de atentados em Portugal existe – é por isso que a ameaça terrorista é alvo de especial atenção por parte das autoridades, como se pode ler no Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2015 – a probabilidade de tal acontecer é incomparavelmente menor do que em outros países europeus, como a França, a Bélgica, o Reino Unido ou a Alemanha.

Em primeiro lugar por uma questão de mediatismo: um ataque em Portugal teria menos impacto do que um atentado numa grande capital europeia. Em segundo, por uma questão de apoio: eventuais células terroristas terão uma maior base de suporte em países onde existe uma grande comunidade islâmica, radicalizada, do que em Portugal, onde a população muçulmana é relativamente pequena e, sobretudo, moderada. Não é por acaso que todos os portugueses que se deslocaram para a Síria se radicalizaram no estrangeiro. Em terceiro, pelos próprios números de combatentes estrangeiros que cada país tem na Síria: a probabilidade de um atentado é maior em países com centenas ou milhares de voluntários jihadistas do que em Estados onde esse numero não ultrapassa as duas dezenas. Para contrariar esta última fragilidade, o Estado Islâmico estará a preparar unidades capazes de realizar ataques em qualquer Estado da Europa. A lógica é simples: será mais difícil às autoridades, por exemplo, portuguesas, detectarem jihadistas cipriotas do que os próprios cidadãos nacionais que estão perfeitamente identificados. Mas isso não muda a questão essencial: é tudo uma questão de probabilidades. E em Portugal, apesar do natural e saudável mediatismo da questão, ela é, até ver, reduzida – mas não pode ser descartada.

Esse é o grande problema do terrorismo: pode acontecer a qualquer altura, em qualquer lugar. As autoridades têm um papel fundamental na redução dos riscos – das probabilidades – mas esse papel cabe-nos também a nós, cidadãos. Tentar compreender um fenómeno que, aparentemente não é compreensível, é apenas o primeiro passo. Os restantes passam por estarmos conscientes de que esta é uma realidade com a qual teremos de viver, provavelmente, durante muito tempo e por tentarmos reduzir os factores de risco que levam alguém a decidir aderir a uma organização terrorista.

Ao longo dos últimos dois anos, falei com muitas pessoas que conheceram os portugueses que se juntaram ao Estado Islâmico ou a grupos como a Jabhat Al Nusra. A maioria, para não dizer todas, reagiu com surpresa ao saber onde estavam aquelas pessoas com quem tinham privado de perto. “Nunca imaginei” foi talvez a expressão mais usada. “Era um tipo tão porreiro” foi outra. Nós não pensamos neles desta forma mas, geralmente, os terroristas  não são indivíduos estranhos, são pessoas como nós. Podem ser os nossos vizinhos, amigos de infância, companheiros de equipa, colegas de escola e universidade, familiares ou apenas conhecidos de uma noite de copos que, por qualquer razão, enveredaram por aquele caminho. E isso é verdadeiramente assustador.

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ilustração é do Vasco Gargalo

O terror no meio de nós V

Costumamos dizer que há um português em cada canto do planeta. Por isso, quando o fenómeno dos combatentes terroristas estrangeiros deslocados na Síria e no Iraque começou a ganhar proporções nunca antes vistas, a questão não era se haveria entre eles algum português, mas quando eles apareceriam.

A situação nem sequer era inédita. No final da década de 1980, Paulo Almeida Santos tinha deixado a vida em Lisboa para viajar para o Afeganistão onde acabou por conhecer Osama Bin Laden e por se juntar à Al Qaeda. Ao serviço da organização combateu, viajou pelo mundo graças ao passaporte português e tornou-se no autor do primeiro atentado da Al Qaeda fora do Afeganistão: a tentativa de assassinato do antigo rei afegão Zahir Shah, exilado em Itália desde 1973. Disfarçado de jornalista, Paulo Santos conseguiu aproximar-se do monarca, mas uma cigarreira de prata impediu-o de o esfaquear no coração. Foi preso e condenado a 15 anos de prisão.

Mais de 20 anos depois, a primeira indicação pública de que que havia portugueses a seguir-lhe as pisadas foi dada a 28 de Março de 2014, com a divulgação do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo ao ano anterior. Era um pequeno parágrafo que podia passar despercebido entre as 413 páginas do documento. Dizia o seguinte:

“Suscitou idêntica atenção o movimento de cidadãos nacionais para palcos de jihad, em particular com destino a regiões onde a Al-Qaeda (AQ) e a liadas procuraram reforçar a sua posição, com destaque para a Síria, ou em direcção a regiões sob a in uência da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) e de grupos terroristas de carácter regional, como o Mali.”

No entanto, o documento não dizia que este fenómeno já era conhecido pelas autoridades há cerca de ano e meio. Os primeiros indícios de que haveria portugueses em palcos de «guerra santa» começaram a chegar à Polícia Judiciária e ao Serviço de Informações de Segurança através dos mecanismos de cooperação internacional na segunda metade de 2012. Concretamente: do Reino Unido. As autoridades britânicas investigavam o rapto do fotojornalista John Cantlie, na Síria, no Verão desse ano, quando depararam com a presença na zona de conflito de um conjunto de portugueses que há alguns anos viviam em Londres. Havia suspeitas de que alguns deles poderiam estar envolvidos no sequestro. Depois de ser libertado, Cantlie haveria de contar às autoridades que a maioria dos seus raptores eram estrangeiros, falavam inglês com sotaque londrino e vários nem sequer falavam árabe.

Nessa época, um dos portugueses chamou a atenção das autoridades: Nero Patricio Saraiva. Chegado à Síria a 14 de Abril de 2012 pela cidade de Atme, tinha passado pela Tanzânia e pelo Sudão. Apresentou-se como “engenheiro civil/projector de estradas”, revelou ter um nível elevado de conhecimento da lei islâmica, ofereceu-se para combatente e foi colocado em funções administrativas num campo militar sob o nome de Abu Yakoub Al Andalusi. Tinha um bom cartão de visita: fora recomendado por Firas al Absi, um dentista nascido na Arábia Saudita que lutou no Afeganistão, onde conheceu Abu Musab al Zarqawi, o fundador da Al Qaeda no Iraque. Com o início da revolução síria, fundou um grupo chamado Majlis Shura Dawlat al-Islam (Conselho Consultivo do Estado Islâmico). Para além de ter sido o primeiro a usar a designação de “Estado Islâmico” na Síria, o grupo ganhou notoriedade ao participar na conquista de Bab al-Hawa, um posto de fronteira entre a Turquia e a Siria, a 19 de Julho de 2012 – o local onde John Cantlie foi raptado meses depois. Nero Saraiva será o português com uma posição mais importante no actual Estado Islâmico.

Entre os nomes trazidos pelas autoridades britânicas às congéneres portuguesas estavam os dos irmãos Celso e Edgar Rodrigues da Costa. O primeiro ficaria célebre mundialmente   a 4 de Abril de 2014, alguns dias após a divulgação do RASI, ao aparecer num vídeo a apelar à emigração para a Síria, identificado com o nome de Abu Issa Al Andalusi. Foi o primeiro português a aparecer num vídeo daquele que, meses depois, viria a tornar-se no Estado Islâmico. Celso voltaria a surgir num novo filme colocado na internet em Novembro de 2015, na véspera dos atentados de Paris, agora acompanhado pelo irmão, Edgar. Desta lista fazia ainda parte Sadjo Turé, um português de origem guineense, que tinha emigrado para Londres para estudar engenharia no inicio da década de 2000. No início de 2013, Sadjo viria mesmo a ser detido em Gatwick antes de embarcar num voo que teria com destino final Damasco por suspeitas de envolvimento no rapto de John Cantlie. Acabaria libertado uma semana mais tarde por falta de provas e um ano depois juntou-se aos amigos na Síria – onde viria a morrer.

Edgar, Celso e Sadjo tinham em comum o facto de terem frequentado a mesma escola em Massamá e de terem feito parte de uma banda de hip-hop que teve o ponto alto no início da década de 1990, os Greguz du Shabba. Acabaram por se reunir em Londres, anos mais tarde. Ao grupo juntou-se Sandro Monteiro, também ele originário da linha de Sintra e amigo de Sadjo Turé. Sandro terá morrido em Kobane em Outubro de 2014.

Apesar de muitas vezes ser incluido no chamado grupo da linha de Sintra, Nero Saraiva só conheceu os outros portugueses em Londres. Chegado a Portugal, vindo de Angola com a mãe, cresceu na zona de Coimbra e Aveiro e mudou-se para Londres aos 17 anos. Foi aí que se converteu. Na mesma situação estará Fábio Poças. Apesar de ter crescido na zona de Massamá, só se tornou amigo de Celso, Edgar, Sadjo e Sandro depois de se mudar para Londres para estudar no início de 2013. Converteu-se ao Islão para casar com uma rapariga originária do Bangladesh e quando ela o deixou acabou por se aproximar do grupo que tinha conhecido no ginásio de Muay Tai. Em Outubro de 2013 chegou à Síria onde, durante bastante tempo, foi dos portugueses mais activos nas redes sociais com o nome de AbduRahman Al Andalus.

Durante todo o ano de 2013, a PJ e o SIS continuaram a receber informações de outros cidadãos portugueses que se tinham deslocado para a Síria em níveis nunca vistos. O primeiro a chamar a atenção foi Joni Miguel Parente, filho de um casal de emigrantes de Tondela que, no início do Verão de 2013, chegou à Síria e, em Maio do ano seguinte, se tornaria no primeiro bombista suicida nacional com o nome de Abu Usama al‐Firansi. De acordo com o Site Intelligence Group, fez parte de uma série de ataques levada a cabo por bombistas suicidas numa operação intitulada «Invasão por Vingança pelo Povo de al‐Anbar».

Depois foi Joana, a filha de um casal de emigrantes no Luxemburgo, que viajara com o marido, também ele nascido no grão‐ducado embora com ascendência kosovar. O homem tinha o nome de guerra de Abu Huthaifa e a sua morte foi anunciada em Dezembro desse ano pelo grupo Jaish-e-Mohammed (O Exército de Maomé). Já viúva, Joana regressou ao Luxemburgo com a filha, onde estarão integrados e sem contacto com o Estado Islâmico.

No Verão de 2013, foi a vez de Mickaël dos Santos e de Micael Batista viajarem de Paris rumo à Síria. Juntaram‐se primeiro à Jabhat al-Nusra e mais tarde ao Estado Islâmico. Mickäel dos Santos chamou rapidamente a atenção das forças de segurança europeias pelas muitas imagens violentas – algumas com cabeças humanas – colocadas nas redes sociais. Batista acabaria por morrer em Janeiro de 2015, em Kobane.

No início de 2014, foram seguidos por Dylan Omar, filho de Catarina, uma luso‐descendente de 43 anos, nascida em Trappes, nos arredores de Paris. No Verão desse ano, ela viajou até à Síria para o con‐ vencer a regressar a casa. Não conseguiu e ainda hoje permanece entre a Síria e Turquia. Uma outra luso‐descendente, Melanie, voltou também à região do Val‐du‐Marne, nos arredores de Paris depois de um período na Síria.

Em Agosto de 2014, Ângela Barreto, uma filha de um casal de imigrantes na Holanda saiu de casa da mãe, viajou para a Turquia e atravessou a fronteira com a Síria para se casar com Fábio Poças, aliás, AbduRahman Al Andalus. Ela mudou de nome para Umm AbduRahman e já terá tido uma filha do jihadista.

Em Setembro de 2014, foi a vez de Steve Duarte, um rapper filho de emigrantes portugueses no Luxemburgo partir para o Médio Oriente. Ainda na Europa, fazia já propaganda aos grupos jihadistas na Internet e dedicava‐se à produção de vídeos com imagens em 3D. Após a declaração do Califado islâmico, decidiu viajar para a Síria, onde assumiu um lugar no departamento de comunicação do Estado Islâmico com o nome de Abu Muhadjir al Andalous. Filmou, editou e realizou alguns dos vídeos divulgados na Internet e é, para as autoridades portuguesas, um dos mais importantes operacionais nessa área. Há suspeitas de que será ele o jihadista que ameaça Portugal e Espanha num vídeo divulgado recentemente.

Em Outubro do mesmo ano, Luis Carlos Almeida, um português de origens cabo-verdianas emigrado em França partiu para a Siria com toda a família. Assumiu o nome de Abu Naila Al Portugali e terá morrido em Junho de 2015. Antes de ser abatido terá feito parte da política islâmica e foi filmado, de cara tapada, numa decapitação pública.

A todos estes, as autoridades acrescentam as mulheres com quem se casaram e com quem viajaram que adquiriram a nacionalidade portuguesa. Ao todo, serão entre 15 e 20 os cidadãos nacionais num palco de conflito que é considerado uma verdadeira escola de terrorismo internacional. Estão identificados e sobre grande parte já recaem mandados de captura internacionais. No último mês, especulou-se sobre se existiria algum nome desconhecido nos ficheiros do Estado Islâmico que foram divulgados por órgãos de comunicação social alemães e britânicos. No entanto, essa possibilidade não se confirmou. Todos os nomes constantes dos ficheiros já eram conhecidos – o que não significa que não tenham informações relevantes.

Apesar de ter uma dimensão inédita em Portugal, o número de voluntários portugueses ou luso-descendentes que se alistaram nas fileiras do EI é insignificante quando comparadas com outros países Europeus de uma dimensão semelhante. Na Bélgica, por exemplo, serão cerca de 540. O que não significa que a ameaça não exista. Ou que o fenómeno não nos deve preocupar.

(Continua)

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O terror no meio de nós IV

Uma das mais importantes características do conflito na Síria e (por arrasto) no Iraque é a capacidade de atracção de combatentes estrangeiros. Ela é tão grande que o território se tornou no maior palco de mobilização de voluntários internacionais desde a Segunda Guerra Mundial.

O fenómeno não é exactamente novo. Há indivíduos que viajam para outros Estados para lutar há séculos. Seja como mercenários, voluntários ou, como agora, terroristas. A guerra civil espanhola foi um dos mais famosos exemplos durante o século XX. Nas últimas décadas existiram combatentes estrangeiros nos conflitos no Afeganistão, durante a ocupação soviética, na Bósnia, na Chechénia e, mais recentemente, novamente no Afeganistão, Iraque e Síria. Neste último caso, a diferença é que eles não são apenas considerados combatentes estrangeiros. São Combatentes Terroristas Estrangeiros, com direito a classificação numa resolução (2178) adoptada pelo Conselho de Segurança da ONU, em Setembro de 2014:

“[alguém que] viaje ou tente viajar para um Estado que não o seu Estado de residência ou de nacionalidade com o objectivo de perpetrar, planear, preparar ou participar em actos terroristas ou para fornecer ou receber treino terrorista.”

A definição é recente. Quando este movimento começou, em 2011, estes voluntários estrangeiros não foram imediatamente vistos como terroristas. Eram encarados como combatentes pela liberdade que viajaram para Síria para lutar contra o regime de Bashar al Assad. Na época, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido apoiaram a oposição síria com dinheiro e informações e, em Maio de 2013, a União Europeia levantou mesmo o embargo da venda de armas aos rebeldes, como forma de mostrar o seu total apoio à implementação de um regime democrático na Síria. Isso mudou no Verão de 2014, após a auto-proclamação do Califado por parte do Estado Islâmico (EI).

O que é novo é a dimensão do fenómeno. Há uma década existiam alguns milhares de combatentes terroristas oriundos de um pequeno número de países. Mas desde que o conflito na Síria eclodiu, os números cresceram exponencialmente. Em Julho de 2014, um relatório do The Soufan Group estimava que 12 mil combatentes estrangeiros de 81 países tinham viajado para a Síria desde o início do conflito. Cerca de três mil eram ocidentais. Em Dezembro do ano passado, a mesma organização actualizou os números e concluiu que entre 27 mil e 31 mil pessoas tinham viajado para a Síria e para o Iraque para se juntarem ao Estado Islâmico e a outros grupos extremistas. Mais de cinco mil eram originários da União Europeia. Ou seja, os números não pararam de aumentar apesar dos mais de nove mil bombardeamentos realizados pela coligação internacional no último ano e meio.

A maioria destes combatentes são originários de países do Médio Oriente como a Tunísia (7000) , a Arábia Saudita (2500), e a Jordânia (2500). Segue-se depois a Rússia (2400), Turquia (2200), França (1700) e Marrocos (1500). Entre os países europeus mais afectados, em termos de quantidade, estão a Alemanha e o Reino Unido (760). Mas, em termos percentuais, nenhum país da Europa Ocidental tem um problema maior do que a Bélgica: os mais de 500 combatentes estrangeiros belgas na Síria e no Iraque representam cerca de 42 voluntários por cada milhão de habitantes. Na Europa de Leste o Kosovo terá 122 (por milhão de habitantes), a Bósnia, 84 e a Macedónia, 69.

As explicações para estes números são várias. A primeira é geográfica. Se em 1980 era difícil viajar para o Afeganistão, hoje em dia é muito fácil viajar para a Síria. Basta apanhar um avião, um comboio, um barco ou alugar um carro para chegar até à Turquia (onde os europeus não precisam de visto) e depois atravessar a fronteira. A viagem é também barata. Com cerca de 1000/1500 euros é possível comprar um bilhete de avião, ficar uma noite na Turquia e pagar às redes que transportam pessoas clandestinamente pelas antigas rotas de contrabando.

O último factor é a internet. O Estado Islâmico compreendeu o potencial das redes sociais para chegar a uma nova audiência, jovem, que cresceu no meio de uma revolução tecnológica e que está receptiva a ouvir quem fale a sua linguagem. Enquanto as mensagens da Al Qaeda se centravam em grupos de idosos, escondidos em cavernas, que proferiam longos sermões teológicos, as mensagens do Estado Islâmico são o oposto: focam-se em jovens endurecidos em batalha, fortemente armados, que surgem em paradas militares. Mostram força em vez de fraqueza. Os vídeos de propaganda obedecem a uma nova linguagem televisiva e de videojogos. Uma grande parte são propositadamente violentos com dois objectivos: atemorizar os inimigos e atrair novos recrutas – o que está a ter efeito.

Estes combatentes estrangeiros são, obviamente, uma ameaça aos seus países de origem caso eles decidam regressar. Actualmente, as estimativas indicam que cerca de 20% a 30% já voltaram à Europa depois de um período em que terão aprendido a usar uma arma, a fazer uma bomba ou a preparar ataques. A ONU já concluiu que aqueles que viajaram para a Síria e para o Iraque “vivem e trabalham numa verdadeira escola internacional de extremistas”, como foi o caso do Afeganistão na década de 1990 – só que a uma escala maior.

Até agora, as estatísticas indicavam que apenas 15% dos antigos combatentes que regressavam a casa tinham-se envolvido em atentados terroristas (um em nove, de acordo com um em estudo realizado pelo director do Norwegian Defence Research Establishment, Thomas Heggahammer). Esse baixo número devia-se a vários factores: muitos morriam, outros nunca voltavam, uma boa parte desiludia-se com a causa à qual se tinham juntado e, por fim, bastantes eram presos ou viam os planos boicotados pelas autoridades.

Esta é a boa notícia. A partir do momento em que alguém viaja para a Síria, torna-se mais facilmente controlável pelas autoridades. O que já não é o caso daqueles que se radicalizam e nunca chegam a viajar, cujo perigo é menor mas que são mais dificilmente detectados. No entanto, o perigo parece estar a aumentar com a decisão do Estado Islâmico em treinar grupos de comandos para realizar atentados na Europa, como retaliação pelos bombardeamentos da coligação ocidental. Os atentados de Paris, em Novembro do ano passado, e os recentes ataques na Bélgica, são um exemplo desse perigo. A maioria dos executantes nasceu na Europa mas passou algum tempo na Síria. Nisto, os Estados Unidos podem estar mais descansados: tal como é mais fácil aos europeus chegarem à Síria hoje em dia do que ao Afeganistão nos anos 1980, é também mais simples regressarem à Europa sem serem detectados do que atravessarem o Atlântico.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo.

O terror no meio de nós III

O terror no meio de nós II

O terror no meio de nós

O terror no meio de nós III

Mas afinal de onde surgiu este grupo que parece ter uma enorme capacidade de iludir forças de segurança e serviços de informações, recursos infindáveis e uma determinação profunda em destruir todo e qualquer modo de vida que não se enquadre nos seus padrões? É uma história longa, com raízes no colonialismo, na divisão artificial de fronteiras feita pelas potências europeias, no apoio a regimes ditatoriais e bombardeamentos ocasionais que espalharam a semente do ressentimento e do ódio ao Ocidente.

Contudo, numa versão reduzida, podemos recuar apenas a 2003 e à invasão do Iraque por parte dos Estados Unidos. A guerra teve como pretexto oficial a posse de armas de destruição massiva por parte de Saddam Hussein e a ligação do ditador iraquiano à Al Qaeda de Bin Landen. Como pretexto oficioso havia a intenção de democratizar o Médio Oriente. Os dois primeiros vieram a provar-se falsos. O último, um desastre. Começou aí um conflito com uma organização que mudou várias vezes de nome até chegar à actual designação: Estado Islâmico.

O grupo nasceu em 1999, no Afeganistão, por iniciativa do jordano Abu Musab al-Zarqawi. Chamou‐se inicialmente Jund al Shaam (o Exército do Levante). Meses depois, o seu nome mudou para Jama’at al-Tawid wa al-Jihad (Organização para o Monoteísmo e Jihad), ou apenas Tawid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad). O Monoteísmo é a crença fundamental em Alá como o único e verdadeiro Deus. A Jihad, a forma de estabelecer na terra a sua lei: a Sharia. Era então apenas um campo de treino, que teve um financiamento inicial da Al Qaeda. Nesses anos, Osama Bin Laden chamou al-Zarqawi a Kandahar cinco vezes para o convencer a prestar um juramento de fidelidade, um bayat. Em todas elas, o jordano recusou.

Após o 11 de Setembro, quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, al-Zarqawi lutou pela primeira vez ao lado dos Taliban e da Al Qaeda. No final de 2001 fugiu pela fronteira com o Irão juntamente com 300 homens. Acabou por estabelecer uma base no Iraque. Ninguém sabia quem ele era. Nem tinha feito nada que justificasse que o mundo conhecesse o seu nome. Mas, a 5 de Fevereiro de 2003, o então secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, indicou-o como o elo de ligação entre o regime de Saddam Hussein e a Al Qaeda para justificar a necessidade de uma invasão do Iraque.

A base de al-Zarqawi em Suleymaniya tornou-se um alvo dos bombardeamentos norte-americanos. O grupo retaliou com uma série de atentados terroristas indiscriminados. E no final de 2004, por necessidade de apoio, aceitou fazer aquilo que tinha até então recusado: jurar fidelidade a Bin Laden e à Al Qaeda. O grupo passou então a designar-se Al Qaeda do Iraque. Apesar disso, os dois grupos tinham visões divergentes para o mesmo objectivo: a instauração de um Califado Islâmico. Enquanto a Al Qaeda via esse objectivo como sendo de longo prazo, um resultado da iniciativa popular e do cansaço do Ocidente, Zarqawi pretendia alcançá-lo no imediato através de uma política de caos e violência sectária e indiscriminada que iria colocar a população sunita do seu lado. Foi ele que iniciou a onda de decapitações de reféns ocidentais em frente às câmaras.

Em 2006, numa tentativa de coordenar a resistência iraquiana, a Al Qaeda do Iraque fundiu-se com cinco outros grupos. Formaram então o Majlis Shura al Mujahidin (Conselho Shura Mujahideen). Al-Zarqawi morreu seis meses depois. E, em Outubro desse ano, a organização anunciou a criação de um novo grupo: al-Dawla al-Islamiya fi Iraq, o Estado Islâmico do Iraque. Tinha como líder, Abu Omar al‐Baghdadi. Mas por uma questão de comodidade e de percepção do público em geral, os meios de comunicação ocidentais continuaram a referir-se-lhe apenas como Al Qaeda do Iraque. Remonta a esta época a separação entre o Estado Islâmico do Iraque e a Al Qaeda: não se conhece um juramento de fidelidade de al-Baghdadi a Bin Laden.

Em Maio de 2010, Abu Bakr al-Baghdadi assumiu a liderança do então Estado Islâmico do Iraque. A organização estava à beira da derrota. Mas o novo líder iniciou uma campanha de atentados suicidas e ataques a prisões que libertaram milhares dos seus membros e conseguiu recuperar o poder do grupo. A guerra civil na Síria deu-lhe depois a base que necessitava para lançar uma nova ofensiva. Em 2011 enviou um grupo de combatentes para a Síria para criar uma organização subordinada do outro lado da fronteira. Esse grupo viria a ser a Jabhat al Nusra. Dois anos depois, Baghdadi decidiu assumir a liderança de ambas as entidades e anunciou a criação do Estado Islâmico do Iraque e da Síria. Quando o líder da Jabhat al Nutra recusou e anunciou a sua fidelidade à Al Qaeda, iniciou-se um conflito entre os dois grupos que levou mais tarde o sucessor de Bin Laden a declarar que o Estado Islâmico do Iraque e da Síria não estava às suas ordens.

No Verão de 2014, após uma série de vitórias na Síria, os jihadistas de al-Baghdadi avançaram pelo norte do Iraque e conquistaram Mossul. O grupo anunciou então que tinha derrubado as “fronteiras de Sykes-Picot” entre o Iraque e a Síria e que passaria então a ser conhecido apenas como Estado Islâmico. Um Califado. Em poucos anos,  a organização tinha passado de um grupo terrorista, a uma entidade que controlava um enorme território, recursos naturais e financeiros, um exército e que assumia funções de um Estado tradicional, embora não reconhecido por ninguém.

Passaram quase dois anos. No fundo, há 13 anos que os Estados Unidos e o mundo Ocidental estão em guerra com uma única organização que assumiu várias designações antes da actual – e que começou agora a lançar ataques na Europa. Importa recordar: a Primeira Guerra Mundial durou quatro anos e a Segunda Guerra Mundial durou seis.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo.

O terror no meio de nós II

O terror no meio de nós

O terror no meio de nós II

A realização de atentados terroristas na Europa não devia ser surpresa para ninguém. Não só por causa dos alertas das autoridades mas, sobretudo, por causa das ameaças dos próprios terroristas. Isso mesmo. Há muito que os líderes e membros do auto-proclamado Estado Islâmico (EI) exprimem abertamente a sua intenção de realizar atentados terroristas em solo europeu. Um objectivo que se intensificou no último ano e meio, na sequência dos bombardeamentos da coligação internacional na Síria e no Iraque.

Numa primeira fase, logo após a proclamação do Califado, no Verão de 2014, as comunicações mediática dos líderes do grupo terrorista centravam-se em dois grandes temas: a dinâmica de vitória dos seus combatentes, cujo expoente máximo foi a conquista de Mossul, e um apelo constante à migração dos muçulmanos para a terra prometida. No seu discurso já como “Califa Ibrahim”, Abu Bakr al Baghdadi dedicou uma boa parte da sua declaração a este apelo:

“Por isso, apressem-se, ó muçulmanos, para o vosso Estado. Sim, é o vosso Estado. Apressem-se, porque a Síria não é para os sírios e o Iraque não é para os iraquianos. A terra é de Alá. O Estado é um Estado para todos os muçulmanos. A terra é para os muçulmanos, todos os muçulmanos. (…)

Fazemos um apelo especial aos clérigos, fuqaha (peritos em jurisprudência islâmica), especialmente aos juízes, bem como às pessoas com competências militares, administrativas e de serviços, e médicos e engenheiros de todas as diferentes especializações e campos. Apelamos-lhes e lembramos-lhes para temerem Alá, porque a sua emigração é wajib’ayni (uma obrigação individual), para que eles possam responder às necessidades dos muçulmanos. As pessoas são ignorantes sobre a sua religião e estão sedentas daqueles que as podem ensinar e ajudar a compreendê-la Por isso temam Alá, ó escravos de Alá.”

Este apelo foi repetido vezes sem conta por combatentes estrangeiros em vídeos de propaganda colocados online. Alguns foram mesmo filmados a queimar os seus passaportes. Mas aos poucos, esta narrativa foi sendo complementada por outra: aqueles que, por qualquer motivo não fossem capazes de realizar a hijrah, a migração, não tinham desculpa para não levar a jihad onde quer que estivessem. No 11º número da revista Dabiq, publicada em Outubro do ano passado, há uma passagem esclarecedora sobre esta matéria:

“Quanto aos Muçulmanos incapazes de fazer a hijrah das terras infiéis para o Califado, há muitas oportunidades para eles atacarem os inimigos do Estado Islâmico. Há mais de 70 nações cruzadas, regimes ilegítimos, exércitos apóstatas, e facções para ele escolher. Os seus interesses estão espalhados por todo o mundo. Ele não deve hesitar em os atacar onde puder. Além disso, para além de matar cidadãos cruzados em qualquer ponto da terra o que é que, por exemplo, o impede de atacar comunidades em Dearborn (Michigan), Los Angeles e Nova Iorque?”

Há uma particularidade neste excerto. Ele aparecia num artigo de 10 páginas no qual os autores comparavam a luta de Maomé, em Medina, contra uma aliança entre judeus e tribos árabes à actual situação em que o EI enfrenta uma coligação internacional. De acordo com a crença islâmica, nessa batalha de Al-Ahzab os muçulmanos resistiram a um cerco entre Janeiro e Fevereiro do ano 627 e, apesar de estarem em menor número, saíram vitoriosos. O mesmo, escreveram, acontecerá agora. Em seguida, a revista enumerou os países e organizações empenhados na luta contra o EI – lista onde estava Portugal. Terá sido a primeira vez que o nosso país surgiu mencionado numa publicação jihadista.

Os avisos não foram apenas lançados em publicações oficiais. Em Julho de 2014, o luso-descendente (com passaporte português) Mickael dos Santos, começou a receber mais atenção por parte dos serviços secretos franceses e das autoridades portuguesas depois de escrever no Twitter: “Anuncio oficialmente e com toda a franqueza: estão a ser preparados dois atentados em França. Tenham paciência.” Mickael fazia parte de um grupo de combatentes que, após a proclamação do califado, tinha trocado a Jabhat al Nutra pelo Estado Islâmico. Era então conhecido pelas fotografias extremamente violentas que colocava no twitter, algumas delas a segurar ou com o pé sobre cabeças humanas. Como recém-convertido, parecia ser dos mais determinados  – e violentos. E a ameaça foi levada a sério.

Nos últimos seis meses, o nível de ameaça subiu. Incapaz de obter ganhos territoriais na Síria e no Iraque, acossado pelos bombardeamentos da coligação internacional e da aviação russa, estrangulado nas suas fontes de financiamento – que já levaram ao corte de 50% do salário dos combatentes – o EI terá visto na realização de atentados fora da Síria e do Iraque uma forma de desviar as atenções dos fracassos internos e manter a narrativa de vitória mediática que é tão importante para instigar medo nos adversários e recrutar novos voluntários. Não será por acaso que, no comunicado em que reivindica a autoria dos atentados em Bruxelas, o EI tenha frisado que a Bélgica é “um país que participa na coligação internacional contra o Estado Islâmico”.

Se antes as suas forças estavam concentradas na consolidação do poder no interior do território por elas controlado, agora uma parte desse foco ter-se-á movido para o exterior. Começou em Outubro de 2015, com a bomba que derrubou um avião russo na península do Sinai. Continuou depois em Beirute, Paris, Istambul, Jacarta e agora Bruxelas. Uma tendência que não dá sinais de parar.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo

O terror no meio de nós

Ficou surpreendido com o atentado terrorista na Bélgica? Sorte a sua. Significa que tem andado distraído e, mais importante, não teve a necessidade de se preocupar com a maior ameaça à segurança mundial dos tempos modernos. Um monstro que mudou várias vezes de nome na última década até assumir a mais recente versão: Estado Islâmico (EI). A designação não é o mais relevante. O que importa é que, para os mais atentos, o ataque não foi surpresa. É por isso que a pergunta correcta não é “vai haver mais ataques?” mas sim “quando acontecerão novos ataques?” A resposta honesta é: ninguém sabe. Ou melhor, alguém saberá, mas está do outro lado da barricada.

Há também aqueles que procuram saber. E prevenir. Em Janeiro desde ano, a Europol divulgou um relatório que passou mais ou menos despercebido ao cidadão comum. No entanto, o documento alertava para a forte possibilidade de ocorrerem novos atentados na Europa, justamente em França e na Bélgica. Chamava-se “Mudanças no modus operandi dos ataques terroristas do Estado Islâmico“. Não se pode dizer que o título seja o mais claro. Ou interessante. Mas o conteúdo é da máxima importância. Estas são algumas passagens:

“Informações sugerem que o EI desenvolveu um comando de acção externas treinado para operações ao estilo de ‘forças especiais’ destinadas a ataques no estrangeiro, na União Europeia e na França em Particular. Isto pode significar que mais ataques como os que ocorreram em Paris em Novembro estão neste momento a ser planeados e preparados”.

“As células terroristas prontas para realizar um ataque terrorista são na maioria domésticas e/ou baseadas localmente”.

“Não há provas concretas de que os viajantes terroristas usem sistematicamente a onda de refugiados para entrar na Europa sem serem detectados. É possível que elementos da diáspora síria na Europa seja vulnerável à radicalização. Há relatos de que os centros de refugiados estão a ser um alvo de recrutadores do EI.”

“Para além das instalações de treino na Síria, existem campos de treino mais pequenos na União Europeia e nos países de Balcãs.”

Em suma: há muito que se sabe que o Estado Islâmico prepara atentados na Europa; há equipas especiais a serem treinadas para isso; e os terroristas são geralmente europeus. A tarefa de quem trabalha todos os dias para os impedir é hercúlea. Senão mesmo impossível. Alguém que tenha recebido treino num palco de conflito e que tenha também a motivação para o fazer, não terá grandes dificuldades para levar por diante um ataque que tem como único objectivo causar o maior número de vitimas.

Não importa se são militares, políticos, trabalhadores ou estudantes. Aos olhos dos radicais islamitas do EI não existem civis. Há inimigos. Que não merecem piedade e cuja morte não é de lamentar. E é isso que é assustador. Um novo atentado pode acontecer em qualquer lugar: transportes (metro, autocarros, comboios, aeroportos, gares, etc), estádios, centros comerciais, escolas, museus, salas de espectáculos, cafés, restaurantes… Locais de grande concentração de pessoas. É possível controlá-los todos? Não.

A opção que resta é tentar monitorizar os protagonistas. Identificar suspeitos, controlar comunicações, vigiar encontros, impedir acções – sempre dentro do respeito do primado da lei – e partilhar informações entre serviços de informações e forças de segurança. Só assim será possível reduzir as probabilidades de novos atentados. Tal como tem sido conseguido. Porque é disso que se trata: reduzir probabilidades.

Para isso são precisos recursos. Materiais e humanos. Para controlar um suspeito 24 horas por dia, física e electronicamente, são necessárias cerca de 25 pessoas. Isto inclui seguimentos físicos, escutas telefónicas, traduções, etc. Só em França há cerca de 5000 indivíduos referenciados pela Direção Geral de Segurança Interna por ligações a movimentos extremistas. E muitos outros que ainda não caíram no radar das autoridades. Jovens e menos jovens que passam os dias ou as noites ligados ao computador a ver vídeos de propaganda ou em comunicação directa com um jihadista que lhes dá instruções a partir de um cibercafé ou de um apartamento em Raqqa ou Mossul. Uma tarefa aparentemente impossível.

(Continua)

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Ilustração do Vasco Gargalo.

Imagens do fim do mundo

O Uygar Simsek é um fotógrafo turco. Dos bons. Muito bons. É dele a foto de Mário Nunes, o primeiro português a voluntariar-se para combater o grupo terrorista Estado Islâmico ao serviço das milícias YPG, no curdistão sírio que fez capa da Sábado. Ele voltou lá  recentemente. Este é o seu mais recente trabalho. Vejam que vale a pena. Fotojornalismo de excelência.

The town of Nusaybin, in southeastern Turkey, is one of the places the YPS/YPS-J forces have declared autonomy from the…

Publicado por MOKU em Sexta-feira, 18 de Março de 2016

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Os ficheiros secretos do Estado Islâmico

É mais um capítulo da saga dos jihadistas portugueses. Depois de as cadeias de rádio e televisão públicas alemãs NDR, WDR e o jornal Sueddeutsche Zeitung terem revelado, a 7 de Março, a existência de milhares de fichas com dados pessoais de voluntários estrangeiros do Estado Islâmico, em Portugal, todos, polícias, serviços secretos e jornalistas, quiseram saber se haveria portugueses nas listas. Uma parte estava acessível na internet, no site sírio Zaman Al Wasl, que a partir dessa data começou a colocar os documentos online – mas rasurados de informação relevante: nomes, contactos, datas, etc.

O editor do site sírio estava disponível para os partilhar nessas condições. Mas para averiguar da veracidade dos documentos – verificar se os nomes e contactos de familiares, que não estão disponíveis publicamente, estavam correctos – era preciso acedê-los na íntegra. Foi isso que os colegas jornalistas alemães, que viram os ficheiros pela primeira vez em Janeiro e os obtiveram, sem pagar, entre Fevereiro e Março, aceitaram fazer: partilhar comigo quaisquer referências que fossem encontradas a Portugal, num trabalho em parceria.

O resultado está hoje na Sábado. Para já, foram encontrados cinco nomes: Nero, Sadjo, Sandro, Micael e Fábio – este último é mencionado como o recrutador de um combatente marroquino. Outros poderão aparecer, apesar de a convicção das autoridades portuguesas ser a de que não haverá surpresas. Ou seja, todos os jihadistas lusos estão identificados e será pouco provável que apareça um novo nome, ao contrário do que já aconteceu, por exemplo, em França. Mas há milhares de ficheiros para analisar, em árabe, cuja tradução é muitas vezes dificultada pelas diferentes grafias usadas para uma mesma palavra. E que apesar de não serem 22 mil, como chegou a ser notíciado, são alguns milhares. Um trabalho para continuar nos próximos tempos.

Por uma questão ética, optámos por rasurar os nomes e os contactos telefónicos dos familiares mencionados nos ficheiros que publicamos. Ninguém deve ser exposto apenas porque um filho ou um sobrinho decidiu aderir a uma organização terrorista. Pelo contrário.

Mundo

A destruição

Homs, Siria, Janeiro de 2016.

A vida de uma mulher em Raqqa

A bandeira portuguesa em vídeo do Estado Islâmico

Mais dia menos dia tinha que acontecer: pela primeira vez, Portugal foi mencionado num vídeo de propaganda do Estado Islâmico (EI). Divulgado esta terça-feira em contas do EI no Twitter e no Telegram, o vídeo foi produzido pelo Al Hayat Media Center – o departamento de comunicação destinado ao público ocidental – tem a duração de 4 minutos e recebeu o título de “No Respite” (Sem tréguas, numa tradução livre).

Apesar de recorrer apenas a animações gráficas e a fotografias – em vez de imagens reais – o vídeo desafia os membros da coligação internacional a lançarem tudo o que tiverem contra o grupo terrorista. É aí que a bandeira portuguesa surge entre as dos 60 países que formam a coligação internacional que enfrenta o EI.

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A dimensão da guerra contra o Estado Islâmico

A coligação internacional contra o Estado Islâmico já lançou dois ataques aéreos por hora em mais de 450 dias. Parece muito? Vejam a comparação com o que aconteceu na Sérvia, no Iraque e na II Guerra Mundial. Pois

É propaganda? É! É importante? Claro! Deve ser divulgado? Sem dúvida!

Era sexta-feira 13. Preparava-me para sair para um encontro quando um link colocado numa conta do auto-proclamado Estado Islâmico (EI) no Twitter me chamou a atenção. Dava conta da presença, pela primeira vez, de jihadistas suecos num vídeo de propaganda do EI. Mas um dos frames partilhados mostrava dois combatentes negros. As suas feições eram-me familiares. Seria aquele o primeiro vídeo com os dois irmãos de Massamá de cara descoberta?

Passei os 20 minutos seguintes à procura de um link que funcionasse. O vídeo tinha sido colocado online na noite de quinta-feira mas estava a ser sucessivamente removido pelo You Tube e pelos outros sítes de partilhas de vídeo existentes na internet. Quando consegui fazer o download, não tive dúvidas de que tinha nas mãos um documento importante.

Depois de confirmar a identidade de Celso e Edgar, dois dos cerca de 15 portugueses que se juntaram ao EI, foi preciso decidir o que fazer. Publicar? Não publicar? Afinal, trata-se de um vídeo de propaganda do EI, ainda que não mostre qualquer execução ou tortura. É um dos muitos vídeos colocados diariamente online que pretendem mostrar o dia-a-dia na Síria e no Iraque. No caso tratava-se do dia de Eid al-Adha (a festa de sacrifício), que assinala a disponibilidade de Abrão em seguir as ordens de Deus e sacrificar o seu filho Ismael. Depois dos três minutos em que surgem os dois portugueses, seguem-se 14 minutos de sacrificio de cordeiros e da distribuição da sua carne pelos pobres. Ou seja, nada que interessasse os leitores ou as autoridades.

Já no que diz respeito aos minutos iniciais do vídeo, não é assim. Pela primeira vez, os dois irmãos criados em Massamá surgem num vídeo do EI de cara destapada. Ou seja, aquelas imagens são uma prova concreta da sua presença na Síria. Estão armados. Fazem a apologia da jihad. Para as autoridades, que têm a correr um processo por terrorismo no Departamento Central de Investigação e Acção Penal, é o elemento que faltava para provar sem sombra de dúvida a sua presença num palco de conflito. Porque se até agora nada os impedia de regressar à Europa e dizer que tinham estado na Síria mas longe de combate, em acções humanitárias, que caberia às autoridades provar o contrário. A prova está aqui. É por isso que tinha de ser divulgado.

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