O “construtor de nações” morreu há 10 anos

A 19 de Agosto de 2003, um atentado suicida em Bagdade, tirou a vida ao então chefe de missão da ONU, Sérgio Vieira de Mello. Foi o fim da linha para um homem que podia ter sido tudo na organização. Tudo. No ano seguinte publiquei um texto sobre ele em O Independente. Agora que se assinala uma década sobre esta morte trágica, fica aqui o registo.

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“SÉRGIO VIEIRA DE MELLO, O CONSTRUTOR DE NAÇÕES

 

Bagdade, 19 de Agosto de 2003. Terça-feira. Um condutor desconhecido estaciona um camião junto ao Hotel Canal, edifício sede da ONU em Bagdade. O veículo está parado por debaixo da janela do gabinete do representante especial do secretário-geral da ONU para o Iraque. Faltam poucos minutos para as 16h30. Sérgio Vieira de Mello trabalha no seu gabinete. Tal como nos últimos três meses.

Noutra zona do complexo, uma equipa de televisão japonesa transmite, em directo, a conferência de imprensa de um porta-voz da ONU. De súbito a imagem fica a negro. Quando a transmissão é retomada as primeiras imagens são de terror: jornalistas e funcionários das Nações Unidas estão cobertos de pó. Alguns sangram. Todos procuram uma saída através da escuridão. O Hotel Canal acabava de ser alvo de um atentado terrorista.

A explosão foi sentida em toda a capital iraquiana. O camião estacionado junto à sede da ONU foi pelos ares. E com ele grande parte do edifício onde se encontrava Sérgio Vieira de Mello.

Momentos depois o conselheiro político do representante de Kofi Annan, Ghassan Salamé subia ao segundo andar do complexo. “Vi-o em baixo [no rés-do-chão], imobilizado. Gritei ‘Sérgio, Sérgio’ e ele respondeu ‘Ghassan”‘. Vieira de Mello encontrava-se soterrada nos escombros, com as pernas esmagadas por uma viga de betão. Durante cerca de três horas, o chefe das Nações Unidas no Iraque comunicou com o exterior através do telemóvel. Sem sucesso. Quando as equipas de salvamento lá chegaram era tarde de mais. A morte fora ao encontro de Sérgio Vieira de Mello. Tinha 55 anos, era casado e pai de dois filhos.

O homem certo. Após a notícia do atentado, sucederam-se as manifestações de pesar. De George W. Bush a Xanana Gusmão, de Tony Blair a Lula da Silva, os líderes mundiais expressaram a sua consternação. O governo brasileiro decretou três dias de luto nacional.

Na sede da ONU, em Nova Iorque, as bandeiras dos 191 países-membros da organização foram colocadas a meia haste. E o secretário-geral das Nações Unidas era dos mais abatidos: “foi um duro golpe para a ONU e para mim pessoalmente”, desabafou Kofi Annan, de quem Vieira de Mello era apontado como provável sucessor. “Os que o mataram cometeram um crime não só contra a ONU, mas contra o Iraque”.

Sérgio, como era conhecido entre o pessoal da organização, era o homem mais bem preparado para a tarefa proposta por Annan de acordo com a resolução 1483 do Conselho de Segurança da ONU: ajudar à formação de uma administração interina iraquiana. Nas suas palavras as Nações Unidas teriam duas funções a desempenhar no Iraque. A primeira seria a de”ajudar [os iraquianos] a transmitir uma mensagem clara à coligação, a sua aspiração de que o conselho assuma fortes prerrogativas executivas; em segundo, que a ONU desempenhem um papel central na transição política e constitucional”.

As suas qualificações para o cargo eram inegáveis. Funcionário das Nações Unidas há mais de 3 5 anos, Vieira de Mello teve intervenções fundamentais em várias situações de conflito.

Entrou para a organização em 1969, como editor de publicações do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR). Mais tarde exerceu cargo no Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Peru. O primeiro papel de destaque surgiu no início da década de 80. Entre 1981 e 1983 foi o principal assessor das Nações Unidas no Líbano, aquando da invasão israelita. Em seguida mudou-se para a Ásia, primeiro como conselheiro no Vietname e depois como director de repatriamento no Cambodja. No início dos anos 90 regressa à Europa para liderar a Força de Protecção de Civis da ONU na antiga Jugoslávia.

Em 1999 chega a representante especial de Kofi Annan e dirige a administração da ONU no Kosovo. Aí esteve menos de um mês. Foi chamado para desempenhar funções semelhantes em Timor-Leste onde a extensão dos seus poderes não tinham qualquer precedente na organização. Sérgio era o governador de facto do território. Estava encarregue da força de manutenção de paz, liderada pela Austrália, e pelos aspectos da governação civil. O perigo já fazia parte da sua vida. Em Março de 2000, numa entrevista ao Independente confessava: “Eu já durmo mal em circunstâncias normais. Aqui ainda mais, ainda pior. Claro que eu tenho medo”. Determinado, criou um governo interino, organizou eleições para uma assembleia constituinte e por fim supervisionou as primeiras eleições presidenciais livres e imparciais de Timor-Leste. O mesmo que planeava fazer no Iraque. Com a convicção, expressa na mesma entrevista, de que “destruir é fácil, construir é demorado, se a construção for sustentada”.

Bagdade. Concluída com sucesso a missão em Timor-Leste, Vieira de Mello regressou a Genebra. Meses depois substitui a ex-primeira-ministra irlandesa Mary Robinson no cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Empenhou-se a fundo na tarefa. Mas mais uma vez, foi chamado por Annan. O secretário-geral escolheu-o como seu representante no Iraque para ajudar a reconstruir o país após uma guerra de que discordara. Contrariado, aceitou. “Apenas por quatro meses”. Como sempre, entrega-se às novas funções e deseja “ajudar o povo iraquiano a sair de um período terrível na sua longa e nobre história”.

Chega a Bagdade em Maio e logo declara que “a liberdade, dignidade e segurança têm, a partir de agora, de ser tidas como certas por todos os iraquianos”. Pouco tempo depois garante que “o actual estado de coisas vai chegar ao fim em breve. Eles [os iraquianos] precisam de saber que a estabilidade vai regressar e que a ocupação terminará”.

Passou quase três meses na capital iraquiana. Para se distanciar das forças de ocupação, a ONU optara pelos serviços mínimos de segurança. Terá sido relativamente fácil ao condutor desconhecido estacionar o camião junto ao gabinete de Sérgio Vieira de Mello. Dentro da betoneira, calcula-se que estivessem 211 quilogramas do explosivo plástico “C4″. A explosão provoca a morte de 24 pessoas e ferimentos em mais de 100. Foi o pior ataque da história da organização. Desaparecia um dos maiores activistas dos direitos humanos. Fez ontem um ano.”

A nova guerra timorense

Timor é um dos estados mais pobres do mundo. Ao mesmo tempo, tem reservas gigantescas de petróleo e gás natural explorado pelas grandes companhias mundiais. Agora, os timorenses exigem que estas empresas paguem o que julgam ser justo pelos seus recursos naturais. Uma batalha explicada no documentário da ABC Austrália, Taxing Times in Timor.