Como a comunicação de Passos Coelho passou do 80 para o 8

O Miguel Carvalho publica hoje, na Visão, uma entrevista notável que devia ser lida por todos os jornalistas, políticos, opinion makers e cidadãos interessados deste país. Pela primeira vez um consultor de comunicação – no caso, Fernando Moreira de Sá – fala abertamente sobre a importância dos blogues, redes sociais e fóruns na ascensão ao poder de um político: Pedro Passos Coelho.

E o que diz Fernando Moreira de Sá?

  • Que Passos Coelho tinha um braço armado na blogosfera constituído, entre outros, por jornalistas no activo como Pedro Correia, Luís Naves e Francisco Almeida Leite; os consultores de comunicação Rodrigo Saraiva e João Villalobos; ou o administrador António Nogueira Leite.
  • Que o blogue Albergue Espanhol foi criado propositadamente para influenciar a luta interna no PSD.
  • Que inundavam as redes sociais, blogues e fóruns com opiniões críticas dos adversários de Passos Coelho – que depois eram reproduzidas por opinion makers. 
  • Que as informações sobre o programa de Passos lhes chegavam antecipadamente.
  • Que criaram perfis falsos no Facebook para partilharem informações que queriam que fossem reproduzidas por pessoas reais.
  • Que os elogios a José Sócrates no Fórum da TSF em 2011 foram planeados para descredibilizar a entrevista.
  • Que como os bloggers que levaram Passos Coelho ao poder (Álvaro Santos Pereira, Carlos Sá Carneiro, Pedro Correia, Luís Naves, João Villalibos, Carlos Abreu Amorim, António Figueira, Francisco Almeida Leite, Vasco Campilho, José Aguiar, Pedro Froufe) foram para o governo e suas imediações, o executivo ficou sem quem o defendesse no mundo digital.
  • Que Miguel Relvas foi o cérebro de toda a operação.
  • Que os jornalistas são altamente manipuláveis.

A propósito, a entrevista aparece por causa da tese de mestrado de Fernando Moreira de Sá, nota 20, na Universidade de Vigo, sobre a importância da comunicação política digital na chegada de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD.

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Os leitores em primeiro lugar

Desde que existem jornais e revistas que o contacto de uma publicação com os leitores é fundamental. Primeiro através das cartas. Através delas os jornalistas são alertados para falhas, deficiências e, mais raramente, elogiados. Para além disso, é através dos leitores que inúmeros temas chegam às redacções. Sejam por simples sugestões ou, mais esporadicamente, por denúncias sustentadas.

Numa era em que as redes sociais são cada vez mais preponderantes, esta relação também cresceu brutalmente. Nos Estados Unidos quase todos os órgãos de comunicação social tem um chamado “social media editor”, encarregue de gerir tudo o que é partilhado e o contacto com os leitores nas redes sociais. Há uma regra básica: todos os comentários devem ser respondidos. Não só por uma questão de educação e respeito, mas também para que os leitores sintam que estão envolvidos com a publicação que compram. É também uma forma de fomentar a relação afectiva e de confiança com quem escreve. Afinal, um jornal e uma revista são feitos para os leitores.

Por cá, esta área ainda não está a ser explorada. Mas, hoje, a Visão dá o exemplo do que esse contacto deve ser. A propósito das acusações, por parte do governo, de que tinha publicado documentos manipulados, a revista conta aos seus leitores a história da investigação que levou à demissão de Joaquim Pais Jorge. É um relato detalhado dos contactos, recolha de informação, dúvidas, esclarecimentos e obtenção de provas que contribui para a confiança dos leitores no trabalho da revista e dos seus jornalistas. E deixa ainda claro uma coisa: é indiferente que um documento tenha o organigrama do Citigroup e números de páginas e o outro não. O importante é o conteúdo – que era idêntico. E os jornalistas fizeram o seu trabalho: confirmaram a informação e publicaram-na. O resto, é história: Pais Jorge Mentiu e foi obrigado a demitir-se.

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E então muitos parabéns

A Visão faz 20 anos e hoje tem nas bancas uma edição de aniversário. Duas décadas é uma idade respeitável. Anos em que por aqueles lados foi feito muito e bom jornalismo. É a revista da concorrência. Mas no mundo em que eu gostaria de viver estaríamos todos a vender 500 mil exemplares por semana. Era um duplo sinal: de que o país não estaria a viver esta crise e de que os hábitos de leitura – e logo de educação – dos portugueses em geral estariam ao nível dos de países desenvolvidos. Assim, resta-me dar os parabéns aos amigos e aos camaradas que trabalham na Visão. E desejar que tenham pelo menos mais 20 pela frente.

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